3. THEORETICAL BACKGROUND
3.2 P ROCUREMENT
O primeiro momento de execução do desenho metodológico se deu com a observação participante, quando chegamos à escola, assumindo o papel de observador (pesquisador) para vivenciar todas as experiências, ações do PME, observando as falas e as ações dos estudantes, da gestão na escola, da coordenação do PME na escola, da coordenação pedagógica, do professor da sala de aula regular, dos monitores, dos alunos, além de interagir aos pais dos alunos envolvidos no PME.
A observação participante se apresenta a nós como um momento único, pois é impossível ficar indiferente a toda a dinâmica do processo. Ele ocorre realmente como afirma Schwartz: passamos a fazer parte do contexto e, ao mesmo tempo em que modificamos o meio, em que estamos envolvidos, somos também modificados.
Observação participante, que pode ser definida como processo pelo qual se mantém a presença do observador numa situação social com a finalidade de realizar uma investigação científica. […] assim o observador é parte do contexto sob observação, ao mesmo tempo, modificando e sendo modificado por este contexto. (SCHWARTZ; SCHWARTZ apud CICOUREL, 1990, p. 89).
Ainda assim, a observação participativa não é uma prática simples, mas repleta de dilemas teóricos e práticos que cabe ao pesquisador gerenciá-los ao desenvolver essa técnica. Ela requer algumas medidas como garantia de sobrevivência da e na pesquisa, Whyte (2005) descreve como os dez mandamentos da observação participativa.
A observação participante implica, necessariamente, um processo longo. Muitas vezes, o pesquisador passa inúmeros meses para “negociar” sua entrada na área. Uma fase exploratória é, assim, essencial para desenrolá-lo ulterior da pesquisa. O tempo é também um pré-requisito para os estudos que envolvem o comportamento e a ação de grupos: para se compreender a evolução do comportamento de pessoas e de grupos é necessário observá-los por um longo período, e não num único momento (WHYTE, 2005).
O pesquisador não sabe de antemão onde está “aterrissando”, caindo geralmente de “pára-quedas” no território a ser pesquisado. Não é esperado pelo grupo, desconhecendo muitas vezes as teias de relações que marcam a hierarquia de poder e a estrutura social local. Equivoca-se ao pressupor que dispõe do controle da situação.
A observação participante supõe a interação pesquisador/pesquisado. As informações que obtém, as respostas que são dadas às suas indagações, dependerão, ao final das contas, do seu comportamento e das relações que desenvolve com o grupo estudado. Uma autoanálise faz-se, portanto, necessária e convém ser inserida na própria história da pesquisa. A presença do pesquisador tem que ser justificada (WHYTE, 2005) e sua transformação em “nativo” não se verificará, ou seja, por mais que se pense inserido, sobre ele paira sempre a “curiosidade” quando não a desconfiança.
Por isso mesmo o pesquisador deve mostrar-se diferente do grupo pesquisado. Seu papel de pessoa de fora terá que ser afirmado e reafirmado. Não deve enganar os outros, nem a si próprio. “Aprendi que as pessoas não esperavam que eu fosse igual a elas. Na realidade estavam interessadas em mim e satisfeitas comigo porque viam que eu era diferente. Abandonei, portanto, meus esforços de imersão total.” (WHYTE, 2005, p. 304).
Uma observação participante não se faz sem um informante, intermediário que “abre as portas” e dissipa as dúvidas junto às pessoas da localidade. Com o tempo, de informante-chave passa a colaborador da pesquisa: é com ele que o pesquisador esclarece algumas das incertezas que permanecerão ao longo da investigação. Pode mesmo chegar a influir nas interpretações do pesquisador, desempenhando, além de mediador, a função de “assistente informal”.
O pesquisador quase sempre desconhece sua própria imagem junto ao grupo pesquisado. Seus passos durante o trabalho de campo são conhecidos e, muitas vezes, controlados por membros da população local. O pesquisador é um observador que está sendo observado todo o tempo.
A observação participante implica saber ouvir, escutar, ver, fazer uso de todos os sentidos. É preciso aprender quando perguntar e quando não perguntar, assim como a fazer perguntas na hora certa (WHYTE, 2005). As entrevistas formais são muitas vezes desnecessárias (WHYTE, 2005), devendo a coleta de informações não se restringir a elas. Com o tempo, os dados podem vir ao pesquisador sem que ele faça qualquer esforço para obtê-los.
Desenvolver uma rotina de trabalho é fundamental. O pesquisador não deve recuar em face de um cotidiano que muitas vezes se mostra repetitivo e de dedicação intensa. Mediante notas e manutenção do diário de campo (field notes), o pesquisador se autodisciplina a observar e anotar sistematicamente. Sua presença constante contribui, por sua vez, para gerar confiança na população estudada.
O pesquisador aprende com os erros que comete durante o trabalho de campo e deve tirar proveito deles, na medida em que os passos em falso fazem parte do aprendizado da pesquisa. Deve, assim, refletir sobre o porquê de uma recusa, o porquê de um desacerto, o porquê de um silêncio.
O pesquisador é, em geral, “cobrado”, sendo esperada uma “devolução” dos resultados do seu trabalho. “Para que serve esta pesquisa?” “Que benefícios ela trará para o grupo ou para mim?” Mas só uns poucos consultam e se servem do resultado final da observação. O que fica são as relações de amizade pessoal desenvolvida ao longo do trabalho de campo.
Outro aspecto interessante que nos leva a fazer uma reflexão como pesquisador na observação participante, como em toda a pesquisa, é o distanciamento que devemos ter, pelo fato de ser também um dos atores do processo que está imbricado no contexto sob o perigo de não conseguir enxergar ao que está ao nosso redor. Limoeiro explica este fato com muita clareza.
O excesso de clareza e de certeza do conhecimento aceito “ofusca” no sentido de que não permite que se enxergue bem à sua volta, dificultando que ele mesmo seja visto tal como é. (…) é preciso um distanciamento, que a intensidade da sua participação no quotidiano impede. (LIMOEIRO, 1978, p. 33).
Na observação participante, tive a oportunidade de acompanhar toda a rotina da escola e o funcionamento do PME com as atividades realizadas pelos alunos e monitores, tais como: a conversa informal na chegada à escola; a participação nas atividades da horta, desde a explicação do monitor com o cuidado com a terra até a colheita das ervas medicinais e a explicação sobre a finalidade de cada uma; momento do ensaio da banda de fanfarra; ensaios do teatro; o momento com a rádio escolar; observação nas salas de aulas do letramento e da matemática; e o momento de conversas entre os professores com a coordenadora do PME, com as coordenadoras pedagógicas, com o pessoal de apoio da escola e conversas informais com alguns pais que visitavam a escola.
Em outro momento da observação participante, com o objetivo de compreender como a escola é percebida pela comunidade ao entorno da escola, onde visitei o posto de saúde do bairro, a Associação Comunitária dos Moradores da Lagoa Redonda e conheci o Projeto Raízes da Cidadania e pude conhecer antigos moradores da comunidade da vizinhança da escola.