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A nova orientação oficial da política colonial britânica, no sentido de conceder a autonomia às suas possessões coloniais em África, viria a exigir uma «nova Antropologia». Em boa verdade, ela já vinha sendo praticada desde meados da década de 30. A análise teórica da aculturação desde há muito que

tinha dado lugar à análise de problemas concretos (fome, urbanização, industrialização, etc.). O saber fragmentou-se e as investigações deixaram de se basear unicamente em considerações epistemológicas, para se basearem em necessidades práticas.

Para corresponder às novas solicitações foram criados departamentos de investigação junto dos governos coloniais. O Rhodes-Livingstone Institute, fundado em 1937 na Rodésia do Norte (Zâmbia), foi o mais frutuoso desses organismos de investigação, patrocinando um sem número de estudos práticos do género de Land, Labour and Diet in Northern Rhodesia de Audrey Richards180,

baseado em trabalho de campo entre os Lemba, ou o estudo de Godfrey Wilson181, Essay on the Economics of Destribalisation in Northern Rhodesia,

entendido como «um estudo pioneiro sobre o processo de urbanização da África

colonial»182.

O que mudou no discurso da Antropologia, para além desse reducionismo epistemológico? Na realidade, muito pouco. O colonialismo, até então entendido como um caso particular resultante de um contacto cultural e, portanto, propiciador de mudança cultural, passou a ser entendido como apenas um dos aspectos da mudança social e tecnológica, inevitável a todas as sociedades subdesenvolvidas. Enquanto que até aí se insistia nos desajustamentos, nas tensões, nos conflitos que se originavam pelo contacto cultural resultante da situação colonial, passou a encarar-se a mudança social como universal e normal. Em síntese, as mudanças não resultariam especificamente da colonização. Já que todas as sociedades, estando sujeitas à

180 Audrey RICHARDS (1939), Land, labour and diet in Northern Rhodesia. An economic study of the

Bemba tribe, Oxford University Press, Oxford.

181 Godfrey WILSON (1941), Essay on the Economics of Destribalisation in Northern Rhodesia,

Rhodes-Livingstone Papers n.º 5, Manchester University Press, Manchester,

182 Richard BROWN (1975). «Anthropology and Colonial Rule: Godfrey Wilson and the Rhodes-

Livingstone Institute», in Talal ASAD [ed.], Anthropology and the Colonial Encounter, Ithaca Press, London, p. 194.

passagem do tempo histórico, conhecem evidentemente a mudança, esta origina provavelmente crises e conflitos e, portanto, tais conflitos e rupturas não resultariam especificamente da situação colonial. Esta tautologia assegurava que o essencial da situação colonial não fosse discutido. Assim, quer os «pragmáticos» do Rhodes-Livingstone Institute, quer os «teóricos», como Evans-Pritchard ou Raymond Firth, da Antropologia Social britânica – já então dificilmente classificável de funcionalista (pelo menos no sentido malinowskiano) –, continuavam estreitamente limitados nos seus objectivos. Analisava-se o sentido da mudança sem estudar o sistema da mudança, isto é, a situação colonial não era estudada em si, por si, nem os métodos para o fazer tinham sido desenvolvidos. O fenómeno colonial era encarado como um caso particular, mas não privilegiado, de mudança social, em que a um processo de desintegração se seguiu a consequente integração, o desenvolvimento económico e social, a ocidentalização:

«Foi acordado que, cientificamente, os temas coloniais apenas podem ter um interesse limitado para os antropólogos. A maioria de nós está interessada em compreender o processo social, e não em dirigi-lo. Mas enquanto no domínio da pesquisa etnográfica comum os dados se inscreverem nas fronteiras coloniais, o sistema colonial tem significado porque confronta o cientista social com um tipo especial de ordem social, no qual a dominância da política e a segmentação étnica são características predominantes. Mas as sociedades coloniais estão em rápida mudança. (...) As mudanças sociais decorrentes dos processos

gerais de ocidentalização são matéria legítima para a investigação antropológica. Como os economistas demonstraram, o facto de os governos se interessarem por um determinado campo de pesquisa não prejudica a sua relevância para o estudo científico. Os padrões de mudança na sociedade

colonial contemporânea constituem um desafio e um estímulo para a teoria antropológica, a qual pode beneficiar com o seu estudo, independentemente das informações que os governos possam aproveitar dessa pesquisa»183.

O artigo de Evans-Pritchard e Raymond Firth – «Anthropology and Colonial Affairs» (1949) – que acabámos de citar pretendia fazer o ponto da situação das relações entre a Antropologia e administração colonial. Porque o novo contexto sócio-político o impunha, retoma a defesa da necessidade de distinção entre «antropólogos de governo» e antropólogos trabalhando em colaboração, mas não ao serviço da administração, naquilo que pode ser considerado como um esforço de desobrigação da Antropologia Social britânica. Ressalva, todavia, o interesse teórico no estudo dos fenómenos coloniais como fenómenos de mudança social, no sentido geral de um processo de ocidentalização capaz de conduzir as sociedades colonizadas ao bem-estar e à democracia: os agentes da mudança são evocados, mas não questionados.

Tratava-se, pois, de encarar o fenómeno colonial como um processo natural, ou até mesmo correctivo, no sentido de que fez reconciliar essas sociedades com o sentido da História. Esta nova forma de entender a colonização justifica, por si, o criticismo crescente que, mesmo no seio da Antropologia Social britânica, se vinha desenvolvendo contra o modelo da

«indirect rule». Tão bruscamente como a ela tinham aderido, os antropólogos britânicos «descobrem» que a «indirect rule» servia propósitos retrógrados, ou seja, era conservadora na acepção de que ao preservar artificialmente as sociedades dominadas em «estado natural» as impedia de reagir e corresponder à normalidade da mudança social. Assim, pôr em causa a «indirect rule» não era ainda uma posição anti-colonialista e nem o poderia ser. O funcionalismo da

183 Edward E. EVANS-PRITCHARD & Raymond FIRTH (1949), «Anthopology and Colonial

Affairs», in Man, vol. XLIX (art. 177-189), The Royal Anthropologial Institute, London, p. 138.

Antropologia Social britânica das décadas de 20 a 40 do século passado pertence ao mesmo sistema ideológico que estabeleceu essa política como possível e necessária: uma espécie de colonialismo liberal e esclarecido.

Na reconstrução histórica dessa fecunda etapa do pensamento antropológico, alguns autores contemporâneos querem fazer crer que o corpo principal da escola de Antropologia Social britânica da altura estaria isento de qualquer forma de colaboração com o colonialismo britânico. Adam Kuper, o «historiador oficial» da Antropologia Social britânica, afirmou mesmo que «a

inelutável conclusão é a de que nunca chegou a existir um pedido de antropologia aplicada por parte de Whitehall ou dos governos coloniais»184. Kuper questionou até a

extensão objectiva da própria «indirect rule» como um modelo da política colonial britânica, uma vez que esta se limitou a uma aplicação muito localizada (Norte da Nigéria) durante um curto espaço de tempo. Daí poder inferir que a

«a política de Indirect Rule não pode ser isolada como a progenitora da antropologia, funcionalista ou outra»185. Parece não ter percebido que o propósito daqueles que, no seio da Antropologia, apontam a convergência de interesses entre as necessidades práticas da administração colonial e o desenvolvimento da Antropologia Social britânica o fizeram não para julgar o colonialismo ou a Antropologia funcionalista mas para procurar compreender e explicar o sentido da evolução de uma das etapas mais profícuas do desenvolvimento do conhecimento antropológico.

Poder-nos-íamos inquirir, finalmente, sobre os efeitos produzidos no desenvolvimento do conhecimento antropológico em resultado dessa convergência de interesses ou ainda, mais legitimamente, indagar sobre as

184 Adam KUPER (1973), Anthropology and Anthropologists. The British School, 1922-1972, Allen

Lane, London, p. 116.

consequências da «indirect rule» nas populações submetidas ao seu exercício186.

Quanto aos efeitos no conhecimento antropológico, eles foram sendo assinalados nestas últimas páginas, mas é justo salientar e acrescentar que a permanência da Antropologia no contexto colonial lhe permitiu o acesso, em condições vantajosas, a toda uma vasta quantidade de «matéria-prima» social capaz de fomentar o desenvolvimento da reflexão teórica e que teve expressão, por exemplo, na necessidade de segmentação da própria Antropologia em áreas especializadas como a Antropologia Económica, Política e do Parentesco. Quando o sentido da questão é invertido, isto é, quando se procura saber em que medida as apreciações teóricas e as indicações práticas dos antropólogos poderão ter influenciado a evolução da política colonial britânica, aí estamos prontos a aceitar a opinião de Adam Kuper187 de que as autoridades coloniais

raramente estavam dispostas a seguir as indicações dos antropólogos. Até

186 A título meramente indicativo mencionaremos os estudos de Obaro IKIME [(1982), «The

establishment of indirect rule in Northern Nigeria», in Indirect Rule in British Africa, Tarikh, vol. 3, n.º 3, Historical Society of Nigeria, Longman, London, (1.ª edição, 1970)] e A. J. ATANDA [(1982), «Indirect Rule in Yorubaland», in Indirect Rule in British Africa, Tarikh, vol. 3, n.º 3, Historical Society of Nigeria, Longman, London, (1.ª edição, 1970)], a propósito das consequências do exercício da «indirect rule» no seu meio natural, a Nigéria, ou, ainda, o estudo de O. ADEWOYE [(1982), «Native administration in a mandated territory: the tanganyikan example, 1919-1945», in Indirect Rule in British Africa, Tarikh, vol. 3, n.º 3, Historical Society of Nigeria, Longman, London, (1.ª edição, 1970)], onde se enumeram os fracassos e os inconvenientes, mas também as vantagens e os benefícios, da prática da

«indirect rule» no Tanganhica e que poderá ser confrontado com o ensaio de A. C. UNOMAH [(1982), «Indirect Rule and the Nyamwezi system in the Tabora province of Tanganyika», in

Indirect Rule in British Africa, Tarikh, vol. 3, n.º 3, Historical Society of Nigeria, Longman, London, (1.ª edição, 1970)], também a propósito daquele território da África Oriental. Por mera curiosidade, assinalaremos ainda os artigos de Kola FOLAYAN [(1981), «Italian Colonial Rule in Lybia», in European Conquest and African Resistance II, Tarikh, vol. 4, n.º 4, Historical Society of Nigeria, Longman, London, e (1981), «The Resistance Movement in Lybia», in European Conquest and African Resistance I, Tarikh, vol. 4, n.º 3, Historical Society of Nigeria, Longman, London], que dão conta da adopção de um modelo de administração indirecta por parte do colonialismo italiano na Líbia, entre os anos de 1911-1922, até à tomada do poder pelos fascistas. O interesse destes artigos é duplo: por um lado, toma-se conhecimento das principais características relativas a uma política colonial muito pouco conhecida no seu desenvolvimento histórico, a italiana; por outro lado, esclarecem-se as condições de funcionamento e aplicabilidade da «indirect rule» fora do seu enquadramento político e administrativo natural, a política colonial britânica. Se o exercício da «indirect rule» no norte da Nigéria parece ter resultado de uma necessidade prática sentida pela administração colonial britânica, no caso líbio – como se pode depreender da leitura de Edward E. EVANS-PRITCHARD (1949), The Sanusi of Cyrenaica, Claredon Press, Oxford, pp. 134-156 – resultou de uma imposição das próprias populações «submetidas» ao poder colonial italiano.

porque, como constataremos mais adiante no âmago desta nossa dissertação, em outros contextos coloniais as recomendações e indicações da Antropologia raramente foram levadas em consideração.

5. O ultra-relativismo do culturalismo americano e o anti-