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Para Foucault, o saber (entendido como prática, materialidade, acontecimento) funciona como peça de um dispositivo político, o que o torna imanente e indissociável da ação de mecanismos de poder. Todos os domínios de saber, assim, têm sua gênese em mecanismos de poder (Gadelha, 2009, p. 140).

O poder não é o tema central na obra de Michel Foucault, mas tornou-se uma marca temática de seus estudos, desde suas pesquisas na década de 1970, quando analisa as prisões e se envolve ativamente com o Grupo de Informações sobre as Prisões (GIP). O que levou Foucault a deslocar a sua atenção do problema do saber para o problema do poder, acoplando-o à sua arqueologia, a partir de determinado momento de seu percurso como intelectual e pesquisador, foi a percepção de que há uma articulação entre a produção do saber, o exercício do poder e a constituição da subjetividade do indivíduo.

A forma como se dá a produção da subjetividade dos indivíduos é o que levou Foucault a analisar o poder e suas relações com o saber, bem como a forjar ferramentas teóricas e metodológicas, a fim de realizar essa análise. Como ele mesmo assume, em entrevista concedida em 1977, “é o que somos – os conflitos, as tensões, as angústias que nos atravessam – que, finalmente é o solo, não ouso dizer sólido, pois por definição ele é minado, perigoso, o solo sobre o qual eu me desloco” (FOUCAULT, 2012f, p.225).

Essa preocupação com a constituição da subjetividade do indivíduo pode ser observada, até mesmo antes de 1977, em uma entrevista concedida no ano de 1973, por exemplo, quando Foucault é inquirido sobre a reforma do sistema penitenciário francês, daquela época. A esse respeito, Foucault comenta que o que ele percebe não é apenas a necessidade de uma reforma do sistema penal ou do sistema penitenciário, pois esses dois fazem parte de um sistema muito mais amplo e abrangente correspondente a um “[...] sistema de poder que penetra profundamente na vida dos indivíduos [...]” (FOUCAULT, 2012a, p. 64). Um sistema de poder que também perpassa outras instituições como as relacionadas ao ensino, à saúde, ao trabalho, à assistência social etc.

Nessa mesma entrevista, Foucault também menciona que, na sociedade contemporânea, as pessoas não são mais enquadradas pela miséria, como eram no século XIX, mas são, de outra forma, moduladas pelo consumo; são capturadas por um sistema de poder não mais focado na produção, mas no quanto e no que se consome. É sempre um tipo de sistema de poder que conduz as pessoas a serem o que são e a fazerem o que fazem. Ou seja, é a constituição do sujeito que direcionou o olhar do filósofo.

Já em outra entrevista, também concedida no ano de 1973, Foucault comenta a relação entre o saber e o poder, declarando que o “Ocidente sempre procurou mascarar seu apetite gigantesco de poder através do saber” (FOUCAULT, 2012b, p. 56) desde Platão, mas que, na verdade, o saber e o poder estão profundamente ligados. Isso significa que ele estava atento para os efeitos de poder que a elaboração dos saberes provocam e vice-versa, mas que para evidenciar essa relação seria preciso desmascará-la.

Para tanto, Foucault precisou, aos poucos, elaborar ferramentas teórico- metodológicas pelas quais pudesse analisar esses efeitos e evidenciar o nexo entre o saber e o poder e a articulação desse nexo na subjetivação do indivíduo. O próprio Foucault, em 1977, deixa claro isso ao se declarar, em entrevista já citada, um “empirista cego” ao desvendar os efeitos de verdade e os efeitos de poder reciprocamente produzidos:

Há efeitos de verdade que numa sociedade como a sociedade ocidental, e hoje se pode dizer a sociedade mundial, produz a cada instante. Produz-se verdade. Essas produções de verdades não podem ser dissociadas do poder e dos mecanismos de poder, ao mesmo tempo porque esses mecanismos de poder tornam possíveis, induzem essas produções de verdade, e porque essas produções de verdade têm, elas próprias, efeitos de poder que nos unem, nos atam. São essas relações verdade/poder, saber/poder que me preocupam. Então, essa camada de objetos, ou melhor, essa camada de relação é difícil de apreender; e, como não há teorias gerais para apreendê-las, eu sou, se quiserem, um empirista cego, quer dizer, estou na pior das situações. Não tenho teoria geral e tampouco um instrumento certo. Eu tateio, fabrico, como posso, instrumentos que são destinados a fazer aparecer objetos. Os objetos são um pouquinho determinados pelos instrumentos, bons ou maus, fabricados por mim (Foucault, 2012f, p. 224).

O nexo entre o poder e o saber, então, é rastreado pelo filósofo francês, desde sua experiência com o GIP, pois desde essa época já se mostrava

preocupado em analisar o poder e sua permanente relação com a elaboração de saberes, observando as potencialidades, que os efeitos desses poderes-saberes têm na produção de subjetividades (delinquentes, por exemplo) e também de coletividades (GADELHA, 2009).

É também desde a época do GIP que Foucault se preocupa em fazer emergir saberes que não só denunciavam as estruturas de poder, mas resistiam a elas. Um exemplo disso são os questionários clandestinos que o GIP fez circular entre os prisioneiros e seus familiares, com a intenção de fazer surgir um saber nunca pronunciado como tal, isto é, o saber dos delinquentes. Como ele mesmo afirma em outra entrevista, concedida em 1971:

Essa inquirição nós a fizemos de um modo bastante particular: em vez de nos dirigirmos à administração penitenciária, para saber como as coisas se passavam do ponto de vista dessa administração, nós nos dirigimos diretamente aos antigos detentos, àqueles que saíam da prisão, e, entretanto nós mesmos na ilegalidade, nos dirigimos clandestinamente aos detentos, e obtivemos, clandestinamente, suas respostas. Soubemos de modo exato o que era a vida na prisão (FOUCAULT, 2012c, p.32).

Foi em termos do poder que Foucault se propôs a analisar a formação de saberes em torno das disciplinas, do sexo, do racismo de Estado, da seguridade, do cuidado de si e dos outros. Enfim, o poder na obra foucaultiana não é apenas um objeto de análise, mas um instrumental constituído de várias ferramentas teóricas elaboradas pelo pesquisador a fim de dar visibilidade à questão: quem somos nós que pertencemos a esse mundo; ou o que nos constitui enquanto pessoas que vivem como vivem, trabalham como trabalham, amam como amam...? O que nos tem governado afinal? O poder nunca é pensado por Foucault como um elemento unitário, mas sempre vem articulado com os efeitos que os saberes produzidos provocam nas relações de poder e na constituição dos sujeitos. Assim, o filósofo francês articula o poder à constituição dos saberes e à constituição das individualidades e das coletividades.

Para compreender o poder nesses termos, Foucault elaborou e utilizou um instrumental teórico-metodológico forjado a partir das suas pesquisas genealógicas, cuja abordagem de investigação é a histórico-filosófica. Foucault entende a abordagem histórico-filosófica como uma prática, que possui como primeira característica o

dessubjetivar a questão filosófica pelo recurso ao conteúdo histórico, libertar os conteúdos históricos pela interrogação sobre os efeitos de poder, onde esta verdade – na qual eles estão censurados de aparecer – os afeta (FOUCAULT, 2000c, p. 180 e 181).

É essa característica da prática histórico-filosófica que coloca a questão sobre a governamentalidade, sendo necessário tomar o conhecimento não como fonte de verdade, mas como o resultado do nexo entre os mecanismos coercitivos e o conhecimento produzido, ou seja, tomar os saberes como um teste de acontecimentalização. Para Foucault (2000c), portanto, a investigação científica teria o caráter de esclarecer o que confere os efeitos de legitimidade aos saberes e aos poderes. Por isso, o saber e o poder são os que induzem os comportamentos e os discursos; as práticas não discursivas e discursivas.

Por meio da prática histórico-filosófica, amalgamada nos pressupostos acima, Foucault analisou, então, o poder a partir de uma perspectiva que o levou a forjar instrumentos teóricos que lhes foram necessários para que pudesse entender a lógica do poder e suas implicações na constituição não apenas dos saberes, mas também das individualidades e das coletividades.