A possibilidade de combinar o momento em que todo o pensamento europeu ajusta-se a uma única ideia de modernidade torna-se raro. A arguição talvez verse que esta unicidade de pensamento seria difícil devido à "tomada de consciência” da população sobre o momento que atravessava. Por outro lado, este tema, por vezes complexo, foi apropriado para alguns campos de estudos como a história das ideias, dos intelectuais e do pensamento moderno esquadrinhando uma análise mais aprofundada.
Para que se pondere sobre o projeto, em construção, da Modernidade, ressalva-se a necessidade do ser humano em acumular um conjunto de experiências completamente diferentes daquilo que ele já havia presenciado. Dentre os aspectos mais relevantes, apresenta- se a questão da velocidade e os conceitos de tempo e espaço, fundamentos proeminentes da era moderna que, reconstruídos pelo homem, distinguiam-se de períodos anteriores. São alicerces de uma nova percepção de mundo que serviram para romper fronteiras que impedia o ser humano de viver em ambientes controversos, e que a partir daquele momento impulsioná-lo-ia em diferentes eventos e novos antagonismos.
Com vistas ao que se propõe estudar aqui, cabe a escolha da modernidade após a Revolução Industrial que conglomera uma série de elementos pertinentes para análise dos acordes do homem moderno em sua crença um telos7 específico: o progresso. Trata-se de pensar o momento histórico em que o homem, além de “aparelhagem mental”, para citar uma expressão de Fernand Braudel, possui as ferramentas técnicas para sustentar definitivamente suas possibilidades de construção do devir histórico.
Evidentemente que isto pode ser uma soma de alguns acontecimentos que figuraram através do evento das Grandes Navegações, sobrevindo das Reformas Religiosas e do Renascimento que culminariam nas mudanças políticas do século XVIII, em especial a convulsão social francesa dos anos de 1780. Embora o processo revolucionário francês se dê em um breve tempo, ele não foi específico ao seu território mas, muito menos, implantando
7“Telos” é uma palavra grega que corresponde a “fim”. “Teleológico” – algo que aponta para um fim a ser
atingido. No modelo histórico do mundo judaico-cristão onde o tempo é linear e os acontecimentos pré- definidos. O acontecimento só se torna único quando é relacionado ao future escatológico. Adaptado a outras ideologias, no caso Iluminista, o fim acaba sendo o progresso, independente do desempenho dos seres humanos.
em toda a Europa, devendo-se considerar que o conjunto de transformações sociais ocorreria nos séculos seguintes.
As reflexões filosóficas anteriores a esses acontecimentos que se constituíram como fator de mudança discursavam sobre a natureza do homem, a vida em sociedade, a história, o pensamento religioso. Parte dessas reflexões permaneceu junto à constituição do pensamento do homem moderno, ou seja, comportava a tradição em sua forma de ver o mundo, mantendo oscilações que perpassaram a esteira da Revolução Francesa até o século XIX, denominado de
“era do progresso”.
Com o surgimento e desenvolvimento da noção de progresso (BARROS, 2013, pg. 67), a maior parte das visões de mundo no Ocidente foi sendo construída provendo um traço acentuado na elaboração das identidades e na autodefinição das sociedades, grupos sociais e indivíduos. Esses movimentos nem sempre poderiam ser desocupados de conflitos sociais já que mesclavam objetivos diferentes, embora o pensamento universalista tivesse uma explicação maior que dava conta de tais abismos sociais.
Foi no século XVIII, que o destacado pensador iluminista, Immanuel Kant, propunha um novo discurso sobre a sociedade. Dentre distintos pensadores modernos Inicialmente, o projeto Iluminista via na história a possibilidade do indivíduo caminhar em direção à liberdade, encadeando-se à produção das visões de mundo sustentadas pela noção de progresso. Entretanto, esta marcha também acabou por produzir a exclusão e a violência junto ao espaço urbano contaminando-se pela fragmentação e desunião modernas. Este “motor da
história” conduziria os homens a um pródigo futuro que mais tarde agregou aos interesses do
Estado-Nação amenizando o discurso libertador para um tom mais conservador. Dentre um dos formuladores de uma perspectiva nova sobre o projeto iluminista, Hegel manteve suas características teleológicas, racionais, otimistas e idealistas quanto ao devir.
Este processo de “se tornar”, em uma expressão un voie de se faire, tinha maneiras diversas de expressão. Com isso, creditava-se ao movimento contínuo e iluminista um tipo de produção material que, sendo bem direcionada, resultaria no futuro próximo o mundo do progresso. Com a inovação das técnicas, com o desenvolvimento industrial, com as mudanças de mentalidades, com o aumento da produção das massas populacionais surge um propício debate acerca das inúmeras possibilidades, da visão de mundo que contemplava o devir histórico.
A possibilidade do devir histórico se constituiu em parte quando a mentalidade da população se distanciou do telos cristão que durante muito tempo fora uma ferramenta poderosa de opressão. Concomitantemente, a longa duração das estruturas políticas e
institucionais estava em seus derradeiros momentos, sobretudo ao se incrementarem novas relações sociais, antes defendidas pelo Iluminismo (CHARTIER, 2009, pg.247). Na medida em que a razão passou a ser exercida pelos homens na compreensão da realidade e na composição de outro futuro, a opinião pública se mobilizou a uma nova realidade social. Por um lado os antigos regimes europeus e suas economias passaram por remodelações que se ofereciam na mesma medida em que ocorria a desintegração dos laços sociais tradicionais (HOBSBAWN, 2010, pg.59). Dessa forma, era impossível de serem mantidos os “grilhões do poder produtivo das sociedades humanas”, segundo Hobsbawn, o que acabou eclodindo na Revolução Industrial e a afirmação de seus efeitos no século XIX.
As possibilidades ocasionadas pelo consequente debate intelectual no século XIX sobre a Modernidade circunscrevem inúmeras áreas culturais, tais como as artes, a literatura, a política, a sociedade. O ideal proposto era a importância na racionalização da vida em esferas econômicas, políticas e sociais, associadas à mudança da forma de pensar do indivíduo que iniciara um processo dinâmico de transformação de si e do que estava ao seu redor. Isso era claro quando se objetivava usar o conhecimento acumulado para a emancipação humana e o enriquecimento da vida diária, em que poderiam ser reveladas as qualidades universais, eternas e imutáveis de toda a humanidade. A tentativa era de tornar o século XIX o período do Devir, quando os aficionados do poder criativos e possuíam em comum um prognóstico otimista.
É imaginável que tal variante tenha unificado positivistas, hegelianos, filósofos radicais e socialistas utópicos, sobretudo em relação ao um futuro imaginativo. Porém, se “a Humanidade superou as velhas instituições e as velhas doutrinas”, segundo Stuart Mill(1995, p.201), ela ainda não havia adquirido novas formas. Também era possível de afirmar que determinadas regras do pensamento moderno não eram consensuais nem válidas para todas as nações ou classes sociais. Havia um conjunto de visões de mundo que acentuava seus contrastes naquele período devido às transformações sociais e permaneciam sob o véu “crítico e revolucionário” tanto quanto o período que o sucedera.
Dentre as diversas formar de pensamento, pode-se destacar o cientificismo que se deparou com o movimento romântico, os neoidealistas e espiritualistas; a teologia, mesmo com suas modernizações, que diminuiu seu poder; a filosofia que disputava espaço com as novas ciências; a psicologia que se tornava autônoma; e a história que se concentrava no indivíduo, em seu particular e menos nas leis gerais. Essa crescente fragmentação do conhecimento representava que a modernidade que começava a procurar leis invariáveis estava cavando sua própria sepultura (BAUMER, 2000, p. 15).
Essa era a essência do espírito moderno, um turbilhão em um perpétuo estado de vir-a- ser e, tanto no tratamento das vertentes de pensamento quanto na prática do homem moderno, a solidez e a estabilidade deixaram de ser perseguidos como objetivos, tornaram-se sinônimos da tradição. Porém, a aceleração do ritmo cotidiano, característica relevante do mundo moderno, produzia uma incômoda sensação sobre o indivíduo que interpretava tais fenômenos em divergentes feições de pensamento.
A partir do século XIX, constituiu-se uma nova relação do homem com o tempo e espaço, através da diária confrontação dos avanços tecnológicos e da composição de novas formas de pensamento. Se antes o tema relativo ao futuro tinha pouca repercussão, de um modo geral devido à teleologia cristã, a partir dali novas relações sociais foram estabelecidas e suscitadas pelo cientificismo e pela industrialização. Nesse aspecto, esse movimento intelectual foi um ensaio das relações homem-tempo que viriam a se tornar mais agudas no século XX, quando a máxima se tornaria “tempo é dinheiro”, configurando as edificações e motivando novas noções de arquitetura, tais como os enclaves sociais8.
Embora o pensamento arquitetônico também tivesse o objetivo de resolver os problemas sociais de forma libertadora, possuía limitações na medida em que suas ações devessem coincidir com o exercício da liberdade. Na síntese do pensamento de Michel Foucault, sobre o papel da arquitetura, elucidasse que tratava-se de uma área que procurava, no século XVIII, se articular com os problemas da população, da saúde, do urbanismo no mesmo tempo em que era utilizada como uma forma de arte para responder, sobretudo, à necessidade de manifestar o poder, a divindade, a força. Se antes da era capitalista, a arquitetura ainda era mais ligada à sua capacidade funcionalista, deixando apenas as grandes construções como expressão sensível do poder, após o capitalismo, tal poder se infiltrava nas cidades, nos bairros, nas casas. A reflexão sobre o campo arquitetônico era enfatizada como um instrumento de poder, uma técnica governamental para um tipo de intervenção, embora fosse bastante claro para Foucault (1994, p. 139), que uma edificação não poderia obrigar os homens a praticar quaisquer tipos de atos.
Não compete realizar um aprofundamento da concepção filosófica foucaultiana sobre arquitetura, mas avaliar a nova engenharia do espaço do século XIX, de modelo controlador e de vigilância, personificado no projeto panóptico de Benjamin Bentham, à luz da hipermodernidade do século XX, quando ocorreu intensamente a constituição do espaço
8 A noção de enclaves sociais está relacionada aos espaços fortificados, espaços privados, fechados e
monitorados para residência, consumo, lazer ou trabalho no final do século XX que, sobretudo em função do medo da violência, vêm atraindo as classes média e alta, enquanto a esfera pública das ruas se destinaria aos pobres.
arquitetônico de acordo com novos períodos econômicos. No momento em que os administradores urbanos tomam consciência da incapacidade de efetuar um controle sobre as cidades ou seu crescimento, a máxima do panóptico foi reformulada de diversas maneiras, como, por exemplo, nos enclaves sociais. Sua lógica inverte-se: devido à falência do modelo controlador de Bentham, dos projetos urbanos e arquitetônicos modernos, aquele que vigia está dentro das “celas”, cerrado em sua rede de fios, cercas, câmeras, muros e, agora, não apenas atenta para punir, mas, em uma versão hipermoderna, mas também vigia para manter o ser humano excluído da arquitetura dos favorecidos. Ilustrando essa realidade, em uma de suas narrativas, o autor português José Saramago (2000, p.92) evidencia tal momento da arquitetura em uma cena na qual um personagem chamado Cipriano Algor, morador da periferia, ao ir à cidade vender seus produtos manufaturados, nota no caminho a emblemática frase “VIVA EM SEGURANÇA, VIVA NO CENTRO”, como se a cidade-shopping, o centro econômico, funcionasse como instância decisória da vida, tal como uma “mão da
Providência”.
Neste ponto de vista, o escritor português, através de seus personagens, retrata a sociedade do supérfluo e destrutivo, que fomenta as mais variadas necessidades de consumo reificado e fetichizado, impossibilitando que os verdadeiros criadores da riqueza usufruam, em qualquer medida, do universo restrito e manipulado das compras. É como se estivessem coisificados nos espaços do consumo; e a arquitetura e a rede que a abraça transforma-se em uma unidade simbólica que do final reproduz a ideologia dominante.
Dessa maneira, servindo como fonte de análise, o pensamento e sua materialidade na urbe do século XIX por vezes se complementava, outrora se contrapunha; sem falar diretamente em uma unidade, um aspecto semelhante entre o pensamento desses grupos era o senso de liberdade e a procura por novas descobertas que empurravam o indivíduo para além das normas tradicionais, isto é o Devir.
Diante das transformações cultuais e tecnológicas que dominava o cotidiano das populações, foi possível notar o clima de efusão em relação ao futuro quanto ao seu caráter constitutivo, pois ainda se encontrava em solo fértil. Esse tema se firmava gradualmente na primeira metade do século XIX, haja vista que antes o “ser” era a única certeza e o presente, a
“forma absoluta” condizente às expectativas do indivíduo. Assim, com o advento da
Industrialização, do cientificismo e das mudanças culturais das grandes massas populacionais, o progresso tornava-se o Telos do homem Moderno.