5. Analyse
5.4. Robusthet hvor gode er data egentlig?
A noção de “experiência” tem uma posição fulcral na fenomenologia. A disciplina da fenomenologia é geralmente definida como a investigação das estruturas da experiência, o estudo consciente da experiência vivida a partir do ponto de vista da primeira pessoa. Existe, em especial nas ciências naturais uma suspeita em relação a qualquer abordagem introspetiva da realidade (apontada a falta de objetividade), no entanto, a consciência individual não tem que ser igualada com a relatividade e idiossincrasia37. A partir de uma perspetiva
fenomenológica não se pode separar a matéria dos objetos com a dos sujeitos, pois estes mantêm uma relação inseparável. O ser dos outros seres é revelado nos seus encontros com os outros, não devendo ser igualado com o relativismo ou imanentismo38.39 Twardowski afirma
que pode distinguir-se entre o conteúdo e o objeto no ato consciente, o primeiro dos quais é imanente ao ato, o último não. Considerando o papel fundamental da consciência, a fenomenologia concebe a análise da existência humana (“The human way of being”) como a principal tarefa da filosofia40. Martin Heidegger enfatiza que só podemos compreender a
36 MERLEAU-PONTY, Maurice (1962) - Phenomenology of Perception. London : Routledge (página 3),
<https://wiki.brown.edu/confluence/download/attachments/73535007/Phenomenology+of+Perception. pdf>. Acesso em Abril de 2013.
37
Idiossincrasia (do grego ἰδιοσυγκρασία (idiosynkrasía), “temperamento peculiar”, composto de ἴδιος (idios)“peculiar” e σύγκρασις (synkrasis) “mistura”) é uma característica comportamental ou estrutural peculiar a um indivíduo ou grupo,<http://pt.wikipedia.org/wiki/Idiossincrasia>. Acesso em Março de 2013.
38 A imanência é um conceito religioso e metafísico que defende a existência de um ser supremo e divino
(ou força) dentro do mundo físico. Este conceito geralmente contrasta ou coexiste com a ideia de transcendência.,< http://pt.wikipedia.org/wiki/Iman%C3%AAncia >. Acesso em Março de 2013.
39 MERLEAU-PONTY, Maurice (1962) - Phenomenology of Perception. London : Routledge (página 576),
<https://wiki.brown.edu/confluence/download/attachments/73535007/Phenomenology+of+Perception. pdf>. Acesso em Abril de 2013.
40 TWARDOWSKI, kasimir (1866-1938). On the contente and object of presentations: a psychological
investigation. Translated and with na introd. By R. Grossmann. (capítulo 6, página 157), <http://ontology.buffalo.edu/smith/book/austrian_philosophy/CH6.pdf>. Acesso em Março de 2013.
14
estrutura da realidade por compreensão de nós mesmo, “Ontologias que têm os seres ao
contrário de “Dasein” como tema são, portanto, fundamentadas e motivadas na estrutura ôntica do próprio “Dasein”. Esta estrutura inclui em si a determinação de uma compreensão pré-ontológica do ser. Assim, a ontologia fundamental, a partir da qual todas as outras ontologias sozinhas podem-se originar, deve ser procurada na análise existencial do “Dasein”41. O papel da fenomenologia não é complementar a investigação de fenómenos “externos” com a investigação da experiência “interior”, mas sim questionar a dicotomia sujeito-objeto em geral. Como observa Fasching, "A teoria fenomenológica da consciência não
é sobre uma especial região dentro do mundo objetivamente dado, mas sobre o dado próprio mundo. Portanto, o seu tema não é o subjetivo, em oposição ao objetivo, mas a objetividade como tal. Isto é o que faz uma teoria à fenomenologia transcendental de consciência"42.
A partir de uma perspetiva fenomenológica, existe um preconceito peculiar em que o exterior e interior da esfera são domínios independentes, se este último nos remeter à consciência. Tendo origem na nossa convicção de que existe uma realidade exterior objetiva, podendo ser explorada pela ciência, e nos nossos sentimentos, onde a nossa consciência que nos leva claramente a experimentar, surge o fenómeno interior. Fenómeno este, que é apenas acessível ao sujeito individual. Contudo, a consciência não é um fenómeno interior mas sim a fundação do existir (”Being-there”43) de fenómenos, sendo eles internos e externos. A
fenomenologia não tenta eliminar a exploração científica, mas sim provar que o objetivo não é um fundamento epistemológico, apontando ao papel fundamental da consciência humana e da experiência vivida, pois “Erlebnis” (experiência vivida), refere-se a uma experiência individual, isolada44. Gadamer afirma que esta palavra sugere ao “imediatismo com que algo real é compreendido, ao contrário de algo que se presume saber, mas que é atestado pela sua própria existência”45. A estrutura etimológica de “Erlebnis” sugere um “um significado ontológico básico. Em geral o prefixo “er” parte de algo de acordo com a sua própria medida, “lebnis”, o processo do resultado vivo. Lendo desta forma, Er-lebnis significa mais literalmente o que se desenrola e dura na vida em virtude da própria vida”46, como observou
Burch. No entanto, há uma certa ambiguidade no conceito de experiência vivida, uma vez que
41
HEIDEGGER, Martin (1977), Basic Writings, edited by David Farrell Krell. Harper e Row, New York (capitulo 1, página 56).
42 FASCHING, W. (2005). “Phenomenology as a Transcendental Theory of Consciousness”. The Husserl
Seminar proceedings, Department of Philosophy New School for Social Research, New York.
43 ”Being-there” ("ser-aí" ou "ser-aqui"), a tradução da palavra alemã “Dasein”.
<https://en.wikipedia.org/wiki/Heideggerian_terminology>. Acesso em Março de 2013.
44 MERLEAU-PONTY, Maurice (1962) - Phenomenology of Perception. London : Routledge (página 93),
<https://wiki.brown.edu/confluence/download/attachments/73535007/Phenomenology+of+Perception. pdf>. Acesso em Abril de 2013.
45 GADAMER, H.G. (2004) [1960]. Truth and Method. London and New York: Continuum (página 53). 46 BURCH, R. (1990). “Phenomenology, Lived Experience: Taking a Measure of the Topic”,
Phenomenology + Pedagogy (volume 8, página 132),
<http://ejournals.library.ualberta.ca/index.php/pandp/article/view/15137/11958>. Acesso em Março de 2013.
15
este está associado a um imediatismo que precede toda a retrospeção explícita, mas ao mesmo tempo, viveu uma experiência não redutível de impressões fugazes, que têm uma unidade de significado. Alguns fenomenologistas têm tentado conciliar essa aparente tenção entre imediatismo e reflecção explicita, mas o fato é que o significado não esta na experiência, tal como defende Schütz, mas sim constitui-se, essas experiências são significativas e são apreendidas reflexivamente47. Gadamer nesta linha de pensamento argumenta que, o que pode ser chamado de experiência vivida, constitui-se na memória, tendo um significado duradouro para a pessoa que a tem48.
A arquitetura, como todas as artes, está intrinsecamente envolvida com questões de existência humana no espaço e no tempo uma vez que ela expressa e relaciona a condição humana no mundo49. No seu modo de representar e estruturar a ação e o poder, a ordem
cultural e social, a interação e a separação, a identidade e a memória, a arquitetura envolve- se com questões existenciais fundamentais. Qualquer experiência implica atos de recordação, memória e comparação. Uma memória incorporada tem um papel fundamental como base da lembrança de um espaço ou um lugar. Em experiências memoráveis de arquitetura, o espaço, a matéria e o tempo fundem-se em uma dimensão única, na substancia básica da vida, que penetra nas nossas consciências. Identificamo-nos com esse espaço, esse lugar, esse momento, e essas dimensões tornam-se ingredientes de nossa própria existência50. A
experiência vivida é a categoria base da epistemologia, a essencial fonte do conhecimento humano onde, todo o conhecimento começa com a experiência de fenómenos o que, não é um obstáculo mas sim, a condição mais fundamental para o entendimento. Em relação a “Erlebnis”, a noção “Erfahrung51” tem conotações diferentes, é usado para indicar a experiência como permanente e cumulativa. Pode ser traduzido como “experiência de vida” ou “experiência de interação social”, tendo uma dimensão histórico e social que conota a experiência de uma comunidade. Em “Erfahrung”, o conteúdo é transcendido e a
47 “É, portanto, incorreto dizer que minhas vivências são significativas meramente em virtude de serem
experimentadas ou vividas. Tal conceção eliminaria a tensão entre a vivência na corrente da duração e a reflexão sobre a duração assim vivida, em outras palavras, a tensão entre a vida e o pensamento”.
Assim, o significado completo de uma experiência não é simplesmente dado no imediatismo do momento vivido, mas sim no emergir da retrospeção, onde o significado é recuperado e recriado, como na narração da lembrança ou sistematicamente através da interpretação fenomenológica. Em SCHUTZ, Alfred. (1932 [1967]), The phenomenology of the social world . Eavanston, Northwestern University Press (página 70), <http://www.scribd.com/doc/86374438/Schutz-Alfred-the-Phenomenology-of-the- Social-World>. Acesso em Março de 2013.
48 GADAMER, H.G. (2004) [1960]. Truth and Method. London and New York: Continuum (página 58). 49 PALLASMAA, J. (1996), “The Eyes Of The Skin, Architecture and the Senses”, London, Academy
Editions, (página 17), <http://www.scribd.com/doc/43177083/The-eyes-of-the-skin>. Acesso em Abril de 2013.
50 Idem, (página 72).
51 O conceito “Erfahrung” está intimamente ligado com o conceito “sensus communis” e retóricas. Ver o
ponto 2.2.1, “Ontologia: mundo da vida, o horizonte em comum”, relação entre o conceito de mundo da vida e as expressões intercambiáveis que Husserl utiliza para designar o mundo pessoal, comunicativo de significados humanos – noção de “Erfahrungswelt” (mundo da experiência). STEINBOCK, A. J. (1995). “Home and Beyond, Generative Phenomenology After Husserl”. Northwestern University Studies in Phenomenology and Existential Philosophy (página 87).
16
3Questões existenciais fundamentais na arquitetura.
Este diagrama simplifica o pensamento descrito por Juhani Pallasmaa na página 72 do seu livro “The Eyes Of The Skin, Architecture and the Senses”, London, Academy Editions.
Diagrama de apoio ao texto, de Paula Amorim
4
A arquitetura e o seu envolvimento profundo com questões metafísicas.
Este diagrama simplifica o pensamento descrito por Juhani Pallasmaa nas páginas 17 e 18 do seu livro “The Eyes Of The Skin, Architecture and the Senses”, London, Academy Editions
17
consciência individual participa em um “evento de significado”, envolvendo o seu próprio horizonte e através do qual este horizonte se amplia. “Erfahrung” assim, pode ter um efeito transformador no nosso ser52. Gadamer em “Verdade e Método” (1960), relaciona “Erfahrung”
à verdade que ocorre a experiência da arte, a base para a compreensão hermenêutica53. Ao
mesmo tempo, a noção “Erlebnis”, é usada com um tom crítico, particularmente criticando a estética como base nele. A qualidade de ligação da experiência (“Erfahrung”) não se deve desintegrar pela consciência uma vez que essa introspeção negativa, positivamente expressa, é que é a arte do conhecimento e experimentação de uma arte que significa a partilha desse conhecimento54. Em muitos casos da arquitetura escrita, a experiência começa a personificar
uma exagerada situação. A ênfase colocada na experiência obscurece igualmente as preocupações importantes: intersubjetividade, historicidade e linguagem, no entanto, se nos concentrarmos na experiência (“Erlebnisse”) dos usuários55, situando-a no seu contexto
cultural, a crítica de Gadamar não pode ser aplicada a nada mais. Um arquiteto na perspetiva de um usuário, transcende a sua própria experiência, o horizonte amplia-se participando assim em um “evento de significado”. No caso da arquitetura, será mais benéfico combinar os dois modos de experiência, a experiência e a experiência vivida (“Erfahrung” e “Erlebnis”) em apenas uma visão, refletindo uma progressão da experiência individual para o mundo comum das significações humanas que neste contexto aparece como a noção de mundo da vida56.