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2. PRIVATE EQUITY I NORGE

2.1 P RIVATE EQUITY I N ORGE VS . N ORDEN

Segundo Goergen (2005), a aventura pelo campo da ética e da moral torna-se, atualmente, cada vez mais urgente e necessária, pois, para o autor, a preocupação ética tornou-se universal e apresenta-se em todos os âmbitos da vida humana. Tal fato deve-se ao próprio desenvolvimento e universalização da racionalidade moderna, a qual, com o avanço da técnica intervencionista, estabelece uma relação intrínseca entre as dimensões teóricas (científicas) e práticas (éticas), tornando-as sempre presentes na raiz de qualquer conhecimento. Essas dimensões, por situarem-se filosoficamente na matriz de toda forma de conhecimento, devem ser refletidas e pensadas conjuntamente, e não dicotomizadas, como reconhecidamente temos observado no processo histórico.

Primeiramente distinguimos a ética da moral, as quais, de acordo com Sánchez Vásquez (2010), embora estejam estritamente relacionadas, não se pode confundi-las. A ética

é a “teoria ou a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade” (SÁNCHEZ

é um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal (SÁNCHEZ VÁSQUEZ, 2010, p.84).

Em meio a essa reflexão encontram-se os valores, os quais, assim como a moral, possuem o caráter histórico-social. Estes são construídos durante toda a vida (PUIG, 1998a) e estão presentes nas manifestações mais diversas da vida diária (FRONDIZI, 1977). Neste sentido, trazemos a afirmação de Saviani (1989), de que valorizar é não ser indiferente, e que o homem, precisando se relacionar com tudo e com todos que estão a sua volta, exerce a atitude axiológica perante tudo o que o cerca quase que intuitivamente. Assim destacamos a necessidade de estudo da problemática dos valores, vendo que a importância de compreendê- los reside no mesmo nível de importância da compreensão e melhoria das relações humanas. Mas, afinal, poder-se-á haver uma definição de valores que compreenda toda a complexidade, e ao mesmo tempo especificidade das relações humanas?

Primeiramente atentamo-nos ao fato de que as concepções e definições acerca deste termo variaram tanto historicamente quanto filosoficamente. Procuramos trazer aqui algumas destas concepções, para então apresentar uma definição a nosso ver mais apropriada sobre os valores neste estudo.

Segundo Goergen (2005), na antiguidade o termo valor era utilizado para designar utilidade, preço aos bens materiais ou mérito às pessoas, sem ter, portanto, um valor filosófico. Höffe (2004, p.469) concorda com esta afirmação e indica que “a ética filosófica clássica ou a filosofia moral não conhecem tal expressão; ali se fala de bem (agathon), de virtude (arete, virtus) ou de dever (kathêkon, officium)”. Assim, para Höffe (2004), ao analisar historicamente estes termos, a expressão virtude (ou virtude moral) representa o ideal da educação para uma excelente personalidade; a expressão dever moral qualifica as indicações feitas à luz de uma lei moral necessária, e a expressão valor deriva da teoria econômica. Porém, quando assumida pela via da ética, a expressão valor “passa a significar o modelo de orientação ou aquelas representações orientadoras de nossas ações: no caso da ética descritiva de fato e no caso da ética normativa com fundamento” (HÖFFE, 2004, p.469).

Assim, o uso do termo valor, neste sentido filosófico, inicia-se quando se generaliza o seu significado para qualquer objeto de preferência ou escolha. Isso se deu com os estóicos,

(GOERGEN, 2005, p.986). Passando-se nossa análise para o mundo moderno, as concepções filosóficas acerca do termo se ampliam, tornando-se mais complexas.

Georgen (2005) realiza um histórico delas, mostrando as principais posições filosóficas que se apresentaram. O autor inicia citando a concepção de valor de Thomas Hobbes (1588-1679): “é aquilo que é estimado como tal através de um juízo” (p.987). Já para Kant (1724-1804) o valor é um dever ser, uma norma: “os valores não têm realidade ou ser,

mas são o dever ser” (p.987). Essas concepções são opostas à de Max Scheler (1874-1928),

adentrando-se na contraposição entre a natureza objetiva ou subjetiva dos valores, pois, segundo Goergen (2005, p.987), para Scheler: “os valores são objetos completamente inacessíveis ao intelecto, que é cego como o ouvido para as cores”.

A noção subjetiva dos valores se aprofunda com Christian Ehrenfels (1859-1932, p.988), que define valor “como a simples desejabilidade”, no entendimento que os valores têm relação com a história. Exemplificado nas concepções de Wilhelm Dilthey (1833-1911):

“é a própria história que institui e determina os valores, os ideais, a finalidade conforme se

estabelecem os significados dos homens e dos acontecimentos. Os valores e as normas, portanto, nascem e morrem na história” (GEORGEN, 2005, p.989).

A contraposição entre a natureza dos valores, sendo eles objetivos ou subjetivos, absolutos ou relativos, esteve presente no início da idade moderna, ainda permanece nos debates atuais acerca do tema e dificilmente serão superados, segundo Goergen (2005).

Quanto a essa discussão recorremos às asserções de Frondizi (1977), que define um valor como tendo dupla característica: éobjetivo na medida de sua existência independer do sujeito ou de uma consciência valorativa, e subjetivo na medida em que sua existência, sentido e validez dependem do sujeito que valora. O autor considera que as duas dimensões são igualmente importantes e apresenta argumentos relevantes para que ambas sejam consideradas:

¿Tendra que ser el valor necesariamente objetivo o subjetivo? ¿No estamos ofuscados por afán de reducir el todo a uno de sus elementos constitutivos? Es posible, por ejemplo, que los estados psicológicos de grado, deseo o interés sean una condición necesaria pero no suficiente, y que tales estados no excluyan elementos objetivos, sino que los supongan. Esto es, que el valor sea el resultado de una tensión entre el sujeto y el objeto, y ofrezca, por tal razón, una cara subjetiva y otra objetiva, engañando a quienes prestan atención a una sola faz (FRONDIZI, 1977, p.34-35, grifos meus).

Dando um caráter relacional ao valor, de tensão entre sujeito e objeto, o autor apresenta uma conciliação possível entre as duas posições – subjetiva e objetiva, o que é

reforçado nas asserções de Payá Sánchez (2008), que resume o pensamento de Frondizi na

figura de um triângulo relacional “sujeito-objeto-processo de valoração” (PAYÁ SÁNCHEZ,

2008, p.17). Segundo a autora, não se pode analisar nenhum valor sem a relação com objeto que o valora, por isso sujeito e objeto estão sempre em interação. Além disso, na concepção da autora, sujeito e objeto são mutantes e heterogêneos, sendo, portanto, dinâmicos. Desse modo, as relações entre sujeito e objeto acompanham a historicidade e o contexto social e cultural (PAYÁ SÁNCHEZ, 2008).

Com isso, de acordo com os autores acima, os valores podem ser definidos como uma

qualidade estrutural da relação sujeito-objeto, considerando aqui que a estrutura é mais que

uma simples soma das partes. O valor, portanto, está no conjunto de todas as relações, e cabe aqui considerar que estas relações não se dão em um vazio, mas sim em um contexto. A importância do contexto para o desenvolvimento dos valores é destacada por Frondizi, denominando-o de ecologia do valor, caracterizada por diferentes circunstâncias de determinados contextos ou situações, sendo elas: o ambiente físico, ambiente cultural, meio social, conjunto de necessidades, aspirações e anseios e o fator espaço-temporal (PAYÁ SÁNCHEZ, 2008). Neste sentido, a autora ressalta ainda que os valores nunca se produzem isoladamente, mas sempre estão em relação com outros valores, assim: “a liberdade não se separa da responsabilidade; a justiça, da solidariedade; a paz, a justiça e o respeito também

estão associados e estão em relação” (PAYÁ SÁNCHEZ, 2008, p.20, tradução livre). Payá

Sánchez afirma, por fim, que Frondizi proporcionou um marco no estudo da temática da educação em valores, ampliando sua perspectiva e delineando uma ação educativa que une pensamento e ação, razão e emoção, juízo moral e compreensão crítica entre o singular e o geral.

As reflexões que até aqui trouxemos nos colocam os valores em uma esfera de não indiferença para com o outro, em uma relação que envolve o sujeito ao objeto de forma única, portanto, tal fato nos indica “que os valores existem na ordem da afetividade, ou seja, não

ficamos indiferentes diante de alguma coisa ou pessoa” (ARANHA e MARTINS, 1994,

p.106). A via afetiva ou emocional é também destacada por Payá Sánchez (2008), na captação dos valores, afirmando que não é somente a via intelectual que está presente neste processo.

Assim, trazemos a contribuição de Araújo (2003) em sua compreensão sobre os valores e o modo como são construídos. Partindo da perspectiva de Piaget (1896-1980), construtivista e interacionista, aquele autor afirma que os valores fazem parte da dimensão afetiva do ser humano:

Os valores são construídos pela projeção de sentimentos positivos que o sujeito faz sobre os objetos, e/ou pessoas, e/ou relações, e/ou sobre si mesmo. (...) valor é aquilo que gostamos, que valorizamos, daí ser resultante de projeções afetivas positivas, e por isso pertence à dimensão afetiva (ARAÚJO, 2003, p.158).

Araújo (2003), esclarecendo sobre as projeções afetivas, afirma que há uma valência dos sentimentos, pois podemos projetar tanto sentimentos positivos quanto negativos sobre objetos, pessoas, relações e sobre nós mesmos, e, neste caso, define que as projeções de sentimentos negativos que o sujeito faz sobre um objeto são chamadas de contra valor, as quais possuem também uma forte carga afetiva e valorativa. Apoiado em diversos autores, Araújo assume que “os valores e contra valores construídos vão se organizando em um sistema de valores e se incorporando à identidade das pessoas, às representações que elas

fazem de si” (ARAÚJO, 2007a, p.23).

Araújo (2007a) também esclarece que os valores não são necessariamente de natureza moral:o que faz com que um valor seja considerado moral é seu vínculo com conteúdos de natureza moral. Tal conteúdo é inspirado nas diferentes sociedades ao longo da história, de onde então se constitui a moral (ARAÚJO, 2007b). Assim, verificamos que os valores vinculados à relação entre homem e natureza, não necessariamente se enquadrariam entre aqueles chamados morais, pois não regem uma ação moral propriamente dita, por não se tratar de uma relação entre humanos. Como exemplo, citamos os valores estéticos da natureza, os quais não poderiam ser caracterizados como morais, pois não vinculam-se a uma ação moral. Porém, também constatamos que à medida que os valores vinculam-se a um caráter de reger as ações éticas entre seres humanos perante a natureza, estes então poderiam ser chamados de morais.

No sistema de valores que cada sujeito possui, “alguns deles se ‘posicionam’ de forma

mais central em nossa identidade e outros, de forma mais periférica” (ARAÚJO, 2007a, p.24),

sendo que a determinação deste posicionamento dos valores é a intensidade de carga afetiva que se vincula a determinado valor. O autor ressalta que esta imagem, embora seja didática, é apenas uma referência, sendo a realidade da organização dos valores muito mais complexa,

pois “os valores jamais se projetam de modo isolado na relação” (ARAÚJO, 2007a, p.25).

Sobre estas reflexões o autor conclui:

a construção do nosso sistema de valores e da nossa identidade está calcada em princípios de incerteza e de indeterminação que fazem com que o posicionamento mais central ou periférico dos valores dependa dos vínculos destes com os conteúdos específicos (ARAÚJO, 2007a, p.27).

Ainda sobre o sistema de valores, Payá Sánchez (2008) afirma que os valores estão ordenados hierarquicamente e que é possível especificar uma escala de valores para uma pessoa, grupo de pessoas, sociedades e etapas históricas, sempre de maneira aproximada e

não absoluta. A autora salienta ainda que, por esta hierarquia de valores não ser absoluta, está

sujeita a mudanças e variações, tanto em nível pessoal quanto coletivo. Segundo Payá Sánchez (2008), o sistema de valores está presente em um nível reflexivo e volitivo, sendo o componente afetivo a sua base. Assim, em uma situação de conflito de valores uma pessoa elege o valor superior em sua hierarquia para a situação determinada.

Concordamos com a autora no sentido de apontarmos para a resolução de conflitos de forma a eleger um valor mais apropriado e necessário à situação, e, na perspectiva da construção de valores, destacamos sua afirmação: “La resolución empática, dialógica y pacífica de los conflictos entre valores o entre jerarquías de valores sería el procedimiento a emplear siempre” (PAYÁ SÁNCHEZ, 2008, p.5).

As ideias de construção, troca e interação com o mundo, trazidas por Araújo (2007b), compreendem um sujeito ativo nesta construção, a qual não é uma simples internalização passiva, que tornaria os sujeitos moldados pela sociedade, pela cultura ou pelo meio em que vivem. Ao contrário, a construção de valores é uma construção que visa o desenvolvimento da autonomia, levando a construção de um pensamento crítico em cidadãos ativos e conscientes, capazes de fazer escolhas baseadas em diferentes pontos de vista. Georgen (2005) afirma que

“uma das características desta compreensão moral é a concepção de valor como processo”, pois o valor “não é algo estático que possa ser conhecido e depois conservado. Ele depende

das experiências e do processo de amadurecimento dos sujeitos” (GEORGEN, 2005, p.1005). Consideramos, assim, que a construção de valores e a formação da personalidade moral (PUIG, 1998a) ocorrem desde o nascimento e ao longo de toda a vida dos sujeitos, em cada relação que estabelecem, em cada âmbito e diferente ambiente que ocupam, seja a família, a escola, trabalho ou os amigos. Assim posto, atentamo-nos especial atenção neste trabalho ao ambiente escolar, local privilegiado à socialização e construção dos sujeitos, tanto intelectualmente quanto em termos valorativos.

Determinada esta posição, destacamos a educação em valores como possibilidade de formação da personalidade moral, e para isto iremos aprofundá-la em estratégias e experiências de ensino, não esquecendo que esta faz parte de um processo muito mais amplo, o qual é sempre mais importante do que resultados imediatos e observados em comportamentos adquiridos.