A produção científica dedicada aos descendentes de imigrantes é intensa e diversificada, demonstrada, por exemplo, na quantidade de números temáticos que lhe são dedicados, publicados nas principais revistas científicas internacionais, no domínio das migrações e educação: entre 1994 e 2010, eles foram 14. É no contexto norte-americano que encontramos a contribuição mais forte das ciências sociais neste âmbito.
O debate acontece sobretudo entre o paradigma da assimilação segmentada e outras teorias da assimilação, onde as posições assumem um caráter mais culturalista – a importância dos processos de adaptação cultural e linguística; ou mais estruturalista – o lugar que os descendentes ocupam na hierarquia social. A literatura balança entre um tom pessimista, focado na desvantagem e no risco de mobilidade descendente; e um tom optimista, focado nos progressos relativamente às gerações precedentes.
As suas bases fundadoras remetem para a primeira metade do século passado, e para os modelos de assimilação linear (straight-line) desenvolvidos por Warner e Srole (1945), Park (1928) e Wirth (1980). A definição clássica de Park e Burguess descreve a assimilação como "um processo de interpenetração e fusão no qual as pessoas e grupos adquirem memórias, sentimentos, e atitudes de outras pessoas e grupos e, ao partilharem a sua experiência e história, são incorporadas numa vida cultural comum" (1969: 735). Existem referências aos descendentes nos trabalhos destes autores, considerando-se lato sensu que os mesmos irão adquirir gradualmente a cultura da sociedade de acolhimento e manifestar mobilidade social ascendente por relação com a geração anterior, até à integração plena na sociedade dominante. A assimilação era perspetivada como unidimensional, provável e desejável; e assimilação, aculturação e mobilidade ascendente eram virtualmente consideradas o mesmo (Kasinitz e outros, 2008). Estas propostas não tinham, porém, em conta, a diversidade inerente ao contexto nacional, ou a sua realização em domínios diferenciados e a ritmos descoincidentes.
A partir dos anos 50, assiste-se a uma rutura com esta visão e à inscrição dos grupos étnicos na organização social, como constitutivos da própria sociedade americana, abrindo-se a
possibilidade de descoincidência entre assimilação cultural e estrutural. Dá-se assim uma problematização e complexificação do conceito (Gordon, 1964). Gordon vai conferir-lhe multidimensionalidade, distinguindo "aculturação" – a adoção de padrões culturais –, de outras dimensões como a estrutural, a conjugal, a identitária, o preconceito, a discriminação e a dimensão cívica, delineando assim um índice de assimilação que permite a leitura dos posicionamentos e processos de distintos grupos. Mas deixa de fora as relações e as fronteiras entre os grupos étnicos, e as direções causais no processo (Alba e Nee, 1997). Os críticos apontam à assimilação linear limitações como a excessiva atenção dada aos indivíduos, mais do que aos grupos e à sua diversidade e dinâmica de inter-relacionamento (Vermeulen, 2001), o ignorar da persistência das diferenças étnicas ao longo das gerações ou do leque alargado dos modos de adaptação (Zhou, 1997); ou ainda o não prever a hipótese de declínio.
Em 1992, Gans lança a hipótese de um "declínio de segunda geração", referindo-se à possibilidade dos descendentes diferenciados racialmente e mais destituídos de recursos virem a incorporar as camadas mais pobres da população, por falta de oportunidades, meios e competências para uma mobilidade social ascendente, num contexto de transformação económica e bifurcação do mercado de trabalho.34 Segundo esta perspectiva os vários cenários de futuro possível para os descendentes pós-1965 são de ascensão social (mobilidade ascendente via educação, sucessão ou melhoramento dos nichos económicos), mas também de declínio (insucesso escolar, estagnação da sucessão e diminuição dos nichos económicos). Defende que a retenção da ligação à comunidade de origem pode proteger e garantir oportunidades que o mainstream não oferece, levando a uma aculturação sem assimilação estrutural. Este artigo teve dois desenvolvimentos posteriores, menos influentes: o reforço da tese de que assimilação (cultural e estrutural) e mobilidade são processos independentes, por vezes coexistentes ou mesmo concorrentes, e que a primeira, relativa à adaptação a condições em mudança, transcende o domínio da etnicidade (Gans, 2007); e a tentativa de inscrição da mobilidade descendente num campo marcado pelo estudo da tendência inversa, desadequado face ao contexto económico americano pós-2008 (Gans, 2009).
34 A hipótese de uma assimilação não sequencial já tinha de resto sido assinalada por Marcus Hansen (1938) quando refere a existência de um revivalismo étnico na terceira geração. O cenário de assimilação completa coloca-se, na perspectiva de Gans (1979), eventualmente, a partir da sétima geração.
Um ano depois, Portes e Zhou (1993) publicavam o artigo fundador da teoria da assimilação segmentada, talvez a mais influente neste domínio.35 Esta teoria estabelece a existência de diversos modos de assimilação, um puzzle variável de adaptação dos descendentes no contexto americano – marcado pela diferença racial e pelas alterações na estrutura de oportunidades, com contornos diferentes daqueles que se verificavam até 1965.A teoria parte dos "modos de incorporação" da primeira geração, ou seja, do complexo formado pelas políticas de acolhimento, valores e preconceitos na sociedade recetora e caraterísticas da comunidade coétnica. Estes contribuem para o entendimento das gerações subsequentes, já que as dotam de diferentes graus de capital social e cultural na forma de emprego, de redes, e de valores étnicos, e as expõem a diferentes contextos de recepção e oportunidades (Portes, 1999; Portes e Zhou, 1993).36 A assimilação segmentada define-se de forma abrangente como o conjunto de resultados estratégicos dos jovens de segunda geração, nomeadamente ao nível educativo, laboral e linguístico (Portes e Rumbaut, 2001; Rumbaut e Portes, 2001; Portes e Rumbaut, 2005; Portes, Fernández-Kelly e Haller, 2005).
O modelo identifica os principais factores facilitadores e constrangedores das trajetórias dos descendentes, não apenas aditivamente, mas, também, interativamente (Portes, Haller e Fernandez-Kelly, 2008; Portes e Rumbaut, 2001; Zhou, 1997). Nos primeiros encontram-se o capital humano (principais recursos das famílias), a composição familiar e o contexto social no qual são recebidos. Nos segundos, a discriminação racial (que bloqueia quer as aspirações quer as oportunidades), a segmentação do mercado de trabalho (em ampulheta, que exige um nível de qualificação escolar muito mais elevado aos descendentes contemporâneos que aos seus predecessores), e as "contraculturas" associadas à pobreza existente nas inner cities. As caraterísticas internas, como a estrutura e coesão da família, vão interagir em modos complexos, mas padronizados, com os contextos de recepção externos (Portes, 1996; Portes e Rumbaut, 2001; Rumbaut e Portes, 2001).
35 Não deixa de ser interessante que, no contexto português, surjam também nos mesmos anos as primeiras reflexões sobre os filhos de imigrantes, nomeadamente de Machado (1994), Paes (1993) e Simões e outros (1992).
36 Por exemplo, as diferenças no capital humano e nos modos de incorporação das primeiras gerações de imigrantes tendem, a partir dos anos 90, a sobrepor-se a disparidades por origem geográfica: a recepção mais positiva aos imigrantes asiáticos, menos positiva dos trabalhadores manuais oriundos da América Latina e Caraíbas, alto capital humano oriundo da China, Coreia do Sul e Índia. Considera-se que estes coletivos são muito mais diferenciados e bifurcados que as anteriores gerações migratórias (Haller, Portes e Lynch, 2011a).
Em 1996 foram publicados os primeiros resultados do CILS, que permitiram refinar a proposta teórica e integrar conceitos como capital social e redes sociais (Portes, 1996).37 Mais tarde, o conceito incluiu outros factores, como a história da primeira geração ou o ritmo de aculturação entre pais e filhos. As trajetórias de assimilação serão analisadas na prolífica produção literária decorrente, através de um complexo de dimensões chave, como: 1) a história da primeira geração migrante, o capital humano trazido e o contexto de recepção encontrado; 2) os diferentes ritmos de aculturação entre pais e filhos, incluindo o desenvolvimento da língua, a relação normativa e o grau de coesão familiar; 3) as barreiras económicas e sociais enfrentadas pelos jovens descendentes nas suas trajetórias de adaptação; 4) os recursos familiares, étnicos e comunitários para fazer face a essas barreiras. Em conjunto, elas dão origem a uma tipologia de mobilidade que inclui: a assimilação ascendente (de incorporação nas classes médias, em que se verifica assimilação cultural e estrutural); a assimilação descendente (incorporação nas subclasses de pobreza persistente, em que se verifica assimilação cultural mas não assimilação estrutural), e assimilação ascendente combinada com biculturalismo (desenvolvimento económico associado à preservação das redes e valores comunitários de tipo étnico, em que acontece uma assimilação estrutural mas não cultural).
À relação estabelecida entre os jovens, os seus progenitores e as comunidades de origem, são associados três processos padrão: a aculturação consonante, dissonante e selectiva. A primeira acontece quando os jovens e os seus pais gradualmente abandonam a língua e cultura de origem. A segunda surge quando os descendentes aprendem a nova língua e aceitam a cultura de acolhimento mais rapidamente que os seus progenitores, o que pode resultar em perda de poder parental e assimilação descendente. A última dá-se quando pais e filhos aprendem a língua e a cultura na mesma medida, preservando autoridade parental, sem conflito intergeracional e com fluente biculturismo, levando à mobilidade ascendente. Os percursos podem assim ser diferentes, incluindo "ascender até às fileiras de uma próspera classe média ou integrar em largos números as fileiras de uma população racializada e permanentemente
37 O CILS - "Children of Immigrants Longitudinal Study" é um painel de investigação coordenado por Alejandro Portes e desenvolvido ao longo de 10 anos, que seguiu um número significativo de filhos de imigrantes residentes na Califórnia (EUA), com origem mexicana, filipina, cubana, nicaraguana, vietnamita, haitiana e jamaicana. A primeira aplicação, realizada em 1992, abrangeu 5262 inquiridos com a idade média de 14 anos. A segunda, em 1995, abrangeu 81% da amostra original, e um conjunto de 2442 entrevistas a progenitores. A terceira aconteceu em 2001-2003, contemplando 68,9% da amostra original, agora com a idade média de 24 anos, bem como um conjunto de entrevistas em profundidade a uma subamostra dos mesmos (Portes e Rumbaut, 2005).
empobrecida no fundo da sociedade" (Portes, Fernández-Kelly e Haller 2005: 1004). Quando a comunidade não fornece oportunidades ou não protege da influência do meio, os jovens desenvolvem uma "cultura adversarial". Nestas circunstâncias, a integração faz-se "não na cultura mainstream mas nos valores e normas da inner city", levando os jovens à integração numa rainbow underclass (Portes e Zhou, 1993: 81).
Fica clara nesta perspectiva a importância do papel protetor da cultura de origem e da capacidade de mobilização étnica, o que a diferencia da restante literatura.38 A experiência de adaptação de cada grupo depende, no entanto, não de alguma caraterística cultural específica, mas sim do tipo de recepção encontrada, dos recursos disponíveis, da diferenciação em termos de classe, da sua concentração espacial e do tempo de permanência nos EUA (Fernández-Kelly e Schauffler, 1996). Os estudos salientam ainda a importância da discriminação como um forte obstáculo à adaptação originando, em consequência, uma progressiva etnicização das auto- identidades ao longo da adolescência (Rumbaut e Portes, 2001).
Os autores sinalizam a existência de um caráter cumulativo no processo de adaptação, que se faz de bifurcação em bifurcação numa trajetória em forma de "funil", de estreitamento progressivo do leque de oportunidades disponíveis (Rumbaut e Portes, 2001: 313). As conclusões assumem por vezes um tom bastante pessimista e quase conservador, onde se destacam os indícios inquietantes relativamente ao futuro da segunda geração, aos quais se considera que a aculturação selectiva pode dar resposta. O caminho ascendente dos jovens estará "numa noção clara das suas raízes, do valor da fluência numa segunda língua, e da autoestima fundada em fortes laços familiares e comunitários" (idem: 316). Mas Pérez, por exemplo, demonstrou que os jovens de origem cubana, cuja excecionalidade foi inspiradora da formulação da hipótese da aculturação selectiva, apresentam na realidade níveis de sucesso escolar relativamente baixos, levando o autor a reconhecer a necessidade de um "reexame das assunções sobre o processo de ajustamento dos filhos de imigrantes" e a acompanhar o papel de resposta que o enclave étnico pode assumir no âmbito deste modelo (2001: 122).
Na análise da última aplicação do CILS, Portes e Rumbaut reafirmam que:
38 Já em 1990, Rumbaut associava o sucesso escolar de alguns grupos minoritários nascidos nos EUA à afirmação resiliente da sua identidade étnica. E anteriormente, Margaret Gibson (1988, 1995) colocava a hipótese de uma "acomodação sem assimilação", designando o encorajamento realizado pelos pais de algumas origens imigrantes (nomeadamente indianas) para a manutenção dos traços da cultura de origem, numa estratégia aditiva e não subtrativa de adaptação, favorecendo a ação dos recursos coétnicos para evitar os gaps geracionais e culturais, o insucesso escolar e a assimilação descendente.
"existem grupos contemporâneos na segunda geração que parecem previstos para uma transição suave no mainstream de classe média branca, e para quem a etnicidade será em breve uma questão de escolha pessoal (…). Existem outros para quem a etnicidade continua a ser uma fonte de força e que poderão eventualmente erguer o seu caminho, social e económico, com base nas redes e recursos das suas comunidades solidárias. Mas ainda existem outros para quem a etnicidade não parece ser uma questão de escolha nem uma fonte de progresso, mas uma marca de permanente subordinação" (2005: 986).
Com muita frequência, os resultados dos estudos desenvolvidos neste paradigma indicam êxito escolar e profissional na maioria dos descendentes observados. Igual peso é conferido, no entanto, na argumentação, à minoria em condição de pobreza, concentrada nos descendentes diferenciados racialmente com baixa escolaridade, inseridos em famílias instáveis e vulneráveis economicamente. O relativo poder dos determinantes da adaptação e os processos por meio dos quais eles impactam não são, no entanto, questões fechadas, e os autores ainda não estabeleceram claramente se "etnia" se sobrepõe a "classe" nesse processo, ou até que ponto as caraterísticas familiares persistem no tempo como determinantes da vida adulta.
O modelo da assimilação segmentada tem sido amplamente debatido e criticado nos últimos 20 anos. A crítica mais controversa que lhe é dirigida é a associação realizada entre aculturação na sociedade americana e assimilação descendente. Os efeitos negativos dos pares e da "cultura" americana são considerados uma forma de determinismo, nomeadamente cultural. Kasinitz e outros (2008) defendem que a associação aos pares autóctones pode, pelo contrário, impulsionar mobilidades ascendentes. Como afirmam Stepick e Stepick,
"o padrão predominante para a maioria dos filhos de imigrantes que residem em áreas de baixos rendimentos, entre minorias nativas, e que frequentam escolas pobres não é, no entanto, a assimilação descendente. Em vez disso, o resultado socioeconómico mais provável é mobilidade social horizontal ou estagnada, isto é, a segunda geração reproduz o estatuto de classe popular dos seus pais imigrantes" (2010: 1159).
Muitos estudos são relutantes em admitir a existência de declínio ou mobilidade descendente. Waters e outros (2010) concluem, a partir de um estudo realizado em Nova Iorque, que a aculturação dissonante é a excepção, e não a regra, entre os percursos observados. Mas, mais importante, salientam que o tipo de aculturação não revela impacto em termos dos resultados socioeconómicos dos jovens, questionando o tipo de aculturação como mecanismo explicativo chave. A maioria dos jovens inquiridos no estudo de Waters e outros não estão em abandono escolar, nem em universidades de elite, encontram-se em qualificações médias e profissões médias que os aproximam mais dos seus pares nova-iorquinos do que dos seus progenitores. Um factor de impacto positivo será, ao invés, a manutenção de laços com grupos de classe média e dotados de capital social.
Outras críticas relembram que a possibilidade de mobilidade descendente também se colocava relativamente às gerações europeias anteriores a 1965 (Alba e Nee, 2003; Perlmann e Waldinger, 1997; Kasinitz e outros, 2008; Waldinger e Perlmann, 1998). Ou questionam se a aculturação selectiva terá continuidade para além da primeira geração de imigrantes, ou se é possível descartar a ideia de integração no mainstream americano como pré-condição para a mobilidade ascendente (Alba e Nee, 2003). Apontam-se problemas de descrição, interpretação e projecção – o facto de assimilação descendente e risco de assimilação descendente serem tratadas como sinónimos (Vermeulen, 2010); ou a confusão entre a descrição da diversidade (de origens, de resultados, entre outros) e a explicação da mesma (Stepick e Stepick, 2010). Por fim, aponta-se o facto de a matriz subjacente continuar a ser de raiz assimilacionista, baseada numa concepção de comunidade étnica homogénea, em que cultura, identidade e comunidade coincidem (Wimmer, 2009); e apresentar uma visão dicotómica da diferença étnica: nos cenários de sucesso a diferença é usada como recurso, nos cenários de insucesso a diferença é instrumentalizada, reforçando a exclusão (Colombo, Leonini e Rebughini, 2009).
Alguns dos críticos mais fortes situam-se na chamada nova teoria da assimilação, preconizando que a ideia de assimilação continua a ser pertinente. Alba e Nee definem assimilação como "o declínio da distinção étnica e das suas consequentes diferenças culturais e sociais" (2003: 11), e defendem tratar-se de um processo social que ocorre espontaneamente, e por vezes involuntariamente, no decorrer da interação entre maiorias e minorias, cuja importância se mantém para a compreensão do que aconteceu, no passado, às segundas gerações de imigrantes europeus tal como para as actuais segundas gerações de imigrantes (Alba e Nee, 1997, 2003).39 Declínio significa que a distinção étnica atenua a sua saliência, e que as ocorrências em que é relevante diminuem em número e em domínios da vida social. Mas este declínio depende da natureza das fronteiras: se forem claras (bright), não existe ambiguidade, e a assimilação leva ao seu atravessamento; se forem turvas (blurred), ambíguas ou indeterminadas (por exemplo, o indivíduo é percecionado como pertencente aos dois lados da fronteira, em simultâneo ou alternadamente), não é necessária uma rutura nem uma escolha entre a participação nas instituições do mainstream e as práticas culturais e identidades de origem, envolvendo uma assimilação de tipo intermédio ou hifenizado (Alba, 2005).
39 Alba e Nee defendem que parte substancial da assimilação decorre das decisões quotidianas individuais e familiares. A assimilação será, na expressão dos autores, parafraseando uma famosa citação de John Lennon, algo que acontece enquanto os indivíduos estão ocupados a fazer outros
Estes autores criticam a assimilação segmentada, por considerarem que esta exagera os bloqueios e apela a um certo revivalismo da etnicidade. Esta nova teoria – que se pretende não normativa e não prescritiva – tenta especificar os mecanismos de assimilação: as causas próximas, que operam ao nível individual e da rede social primária e comunitária, delineadas de acordo com as formas de capital de que os indivíduos e grupos dispõem; e as causas distais, embebidas nas grandes estruturas, tais como os arranjos institucionais ou o mercado de trabalho. As trajetórias de incorporação desenvolvem-se na conjugação entre a ação intencional dos imigrantes (a teoria destaca a sua capacidade de agência e dos seus descendentes), e os contextos (moldados pelas estruturas institucionais, crenças culturais e redes sociais), não existindo um mecanismo único singular, mas sim uma variedade de mecanismos a agir em diferentes níveis (Alba e Nee, 1997, 2003). Revisitando as teorias clássicas da assimilação linear, propõem a existência de trajetórias de assimilação múltiplas, interactivas, e não lineares, procurando superar o etnocentrismo implícito nas formulações anteriores. Os autores sugerem, pelo contrário, que a assimilação é "um resultado contingente decorrente do efeito cumulativo das escolhas individuais e da ação coletiva em grupos coesos, que ocorre a diferentes níveis dentro e através dos grupos étnicos" (Alba e Nee, 2003: 65-66). Sustentam, com optimismo cauteloso, que parte significativa das actuais segundas gerações irá fazer percursos de crescente integração social e mobilidade ascendente. Mostram ainda que as mudanças institucionais (como os direitos civis alcançados) em articulação com a motivação e incentivo subjectivo transformaram os contextos de recepção dos imigrantes. Colocam em causa a ideia de mainstream americano, que definem como uma cultura composta, híbrida, que integra "um conjunto central de estruturas e organizações institucionais inter-relacionadas, reguladas por regras e práticas que enfraquecem, ou até mesmo debilitam, a influência das origens étnicas" (Alba e Nee, 2003: 12). Assim, as trajetórias de mobilidade da população diferenciada etnicamente não são diferentes das trajetórias da população americana em geral. Contestam ainda a irrealista "expetativa de mobilidade ascendente universal" (idem: 163), ou seja, confirmam a possibilidade de ocorrência de trajetórias divergentes, não só entre as populações migrantes como no grupo dominante, recusando qualquer cenário de assimilação uniforme.40
40 Portes e outros criticam esta perspectiva, argumentando que "ao associar tantas qualificações aos seus conceitos favoritos, e ao estendê-los de forma tão abrangente, Alba e Nee tornam, em última análise, 'assimilação' num truísmo aplicável a todas as situações e, por isso, não falsificável" (Portes, Fernández-Kelly e Haller, 2005: 1003).
Na mesma linha de argumentação de Alba e Nee, Perlmann e Waldinger (1997; Waldinger e Perlmann, 1998) constroem um conjunto de argumentos que demonstra um paralelismo entre as condições dos "novos" e "velhos" (aqueles que integraram o mainstream) descendentes, ou seja, relativizando grande parte das desvantagens consideradas específicas das "novas" gerações de descendentes. E salientam algumas vantagens adicionais: ao contrário das populações migratórias anteriores, as novas migrações caraterizam-se pela diversidade socioeconómica (uma significativa proporção tem licenciatura e integra a hierarquia social em melhor posição); uma composição de classe mais próxima das classes médias; ou a existência de maior recetividade por parte da sociedade americana à incorporação de migrantes, resultado dos movimentos sociais de emancipação. E aconselham cautela nas projecções, alertando para o risco de se sobrevalorizar as dificuldades presentes de jovens que poderão ter trajetórias de