• No results found

C RITICAL APPROACHES

Se através do turismo são estabelecidas interacções diárias entre turistas e residentes, então o turismo pode ajudar a construir pontes de compreensão entre as duas realidades, reduzindo conflitos e gerando convergências de vantagens mútuas que contribuem para o desenvolvimento local. Considerado como contributo para a paz, o turismo vive o primado da experiência turística, oferecendo vivências únicas, despoletando sensações através do imaginário que antecipa, da autenticidade que atesta o presente e da nostalgia que nos remete para a vontade de repetir a experiência.

Os processos de integração despoletados, também pela comunidade local, são fundamentais para intensificar a experiência turística. Mas não será a própria relação entre residente e visitante uma potencial fonte de conflito?

Como vimos, o turismo cultural participativo proporciona uma convergência de interesses entre as comunidades autóctones e os turistas e/ou visitantes. O turismo pedagógico, assumido como um espaço de educação não formal/informal, encarado como ferramenta de emancipação colectiva, deve ser integrado numa perspectiva de sustentabilidade, através da qual cada experiência pode tornar-se uma oportunidade de envolvimento comunitário, proporcionando ciclos viciosos de apropriação, partilha de conhecimento e resultados. Mais do que a pura obtenção de prazer físico e emocional, encaramos a experiência turística procurando o seu sentido holístico, sendo que a base impulsionadora de tal desiderato será a autenticidade local na construção de experiências enriquecedoras para todos os actores, envolvendo residentes e visitantes. Também por estes factores, para ser praticado um turismo sustentável, é necessário conhecer a região, diagnosticando a sua matriz identitária, tendo em vista o desenvolvimento diferenciado do produto que nesta linha de pensamento incorpora a própria comunidade. Estas questões extrapolam o conceito de turismo cultural, acrescentando ao património e à história que está por detrás desse património, a importância de sentir as pessoas numa comunidade própria de partilha de valores e de processos. Porque, afinal, e de acordo com a teoria gestáltica, o valor do todo é maior do que a soma das partes.

No estudo de caso aplicado, verificou-se a importância do grupo, quer no divertimento em si, quer como elemento protector do indivíduo perante agressões externas. Neste sentido, a festa, encarada de forma abrangente, permite comportamentos distintos do habitual e aumenta a tolerância, quer da comunidade, quer dos visitantes, perante excessos e potenciais conflitos. Estes excessos e esta libertação do Eu verificam-se nos comportamentos praticados durante a presença do visitante na comunidade visitada.

Contudo, no ambiente de festa, como se consegue distinguir quem é o anfitrião e quem é o convidado? O envolvimento do residente na festa proporciona-lhe uma transfiguração, levando-o a adoptar comportamentos típicos de visitante, o que reforça o ambiente de comunidade turística e experiência partilhada.

Outros resultados permitem afirmar que, se associada ao comércio, a festa é considerada como factor principal de desenvolvimento local. E, se associada ao mundo equestre, torna-se a razão de ser da comunidade, indissociável da localidade em si.

Serão, afinal, os visitantes considerados invasores da comunidade? A percepção dos residentes perante a transformação da sua comunidade torna-se difusa e, por vezes, contraditória, enquanto encarados como defensores das tradições e/ou do divertimento que são ambos parte intrínseca do fenómeno turístico.

A experiência turística muda as pessoas e essa mudança é tanto maior quanto mais intensamente for vivida a referida experiência. Contudo, a experiência não proporciona apenas uma transformação do sujeito; sendo que, o espaço também sofre alterações imprevistas. A própria (trans)formação pessoal aumenta com a imprevisibilidade da experiência turística. É, de facto, uma transformação completa da localidade, tanto a nível físico, como a nível do ambiente: as infra-estruturas de apoio, os visitantes, as viaturas e o aumento de “residentes” e animais no mesmo espaço, são geradores de conflitos e de excesso de resíduos. E esta dualidade também está presente na dispersão de opiniões, ora manifestando o desagrado em alguns aspectos (verificado principalmente durante a noite), ora não considerando nenhum aspecto negativo no aumento do número de visitantes (aspecto mencionado principalmente durante o dia).

A maioria dos inquiridos nesta investigação seleccionou a palavra “cavalo” para descrever a vila da Golegã. Este é, de facto, o ex-libris da localidade, em época de feira ou fora dela. A própria Administração Pública fomenta essa imagem. Personificada na pessoa de Veiga Maltez, ele próprio criador de cavalos e amante das tradições, a Autarquia é muitas vezes associada pela comunidade à pessoa do Presidente e ao seu comportamento, defensor da tradição e do desenvolvimento da Golegã, associada ao mundo equestre.

Estamos perante uma localidade que se baseia nas suas tradições e consegue estabelecer a sua imagem como destino através da autenticidade local e que é divulgada por todo o mundo com a Feira Nacional do Cavalo. A própria imagem da Golegã confunde-se com a imagem do cavalo, que consegue transformar a vila numa experiência global autêntica e memorável.

Dando este estudo por terminado, fica-se com a sensação de que muito mais poderia ter sido feito. Afinal, é o próprio conhecimento científico que nos impele a ir sempre um pouco mais longe: “Ir mais longe significa igualmente navegar em mares mais seguros ou por rotas bem identificadas e que outros podem igualmente seguir.” (Vala, 1996, 126) Neste sentido, são aqui apresentadas as limitações do presente estudo e pistas possíveis para investigações futuras.

LIMITAÇÕES DO PRESENTE ESTUDO

• A realização de entrevistas em profundidade é um campo frutífero.

No entanto, as limitações do investigador não proporcionaram mais hipóteses de deslocação à Golegã em virtude da necessidade de ter em atenção a disponibilidade dos potenciais entrevistados. As várias Quintas localizadas em redor da vila são uma potencial fonte de informação.

• Elaborar a análise de conteúdo através de programas específicos para essa metodologia de tratamento de dados, nomeadamente MDSCAL.

• Alargar o período de preenchimento do questionário para uma possível comparação com as expectativas anteriores à Feira Nacional do Cavalo e as percepções posteriores.

POSSÍVEIS PISTAS DE INVESTIGAÇÃO

• Entender os nexos de causalidade que se geram entre a hospitalidade sistémica e o incremento da capacidade de retenção do destino. Importa, assim, investigar mecanismos locais que intensificam o envolvimento da comunidade em torno de uma experiência global, materializada através das tradições e práticas culturais.

• Relacionar os conceitos experiência, autenticidade e evento numa perspectiva de desenvolvimento sustentável do destino turístico.

• A construção do Centro de Alto Rendimento equestre como rampa de lançamento da Golegã no desporto equestre a nível mundial.

If you see the future as an obstacle, you are walking in the wrong direction