4. Prøvemetoder
4.2. Støping
4.3.6. Rissutvikling v/last + bruddlast
As negociações que viabilizaram o projeto de participação da FEB na Segunda Guerra Mundial e as relações que se desenvolveram no decorrer das décadas de 1930/40 entre o Brasil e outros países – com destaque para Alemanha e os EUA – são, sem dúvida, singulares para a compreensão dos tortuosos caminhos que nos levaram, alguns anos depois, à democracia. O estudo destas alianças permite avaliar, não apenas os efeitos da tentativa de projeção do Brasil na esfera internacional, mas, particularmente, investigar as próprias relações que se estabeleceram entre sua política externa e interna.
No campo político externo, podemos dizer que se os países latino-americanos eram, por um lado, amplamente influenciados pelo pensamento militar germânico e pela admiração que nutriam por seu poderio bélico. De outro lado, desde a crise econômica de 1929, o governo norte-americano via na América Latina uma valiosa fonte de matérias-primas e, ao mesmo tempo, a possibilidade de ampliar o mercado consumidor para suas manufaturas. Porém, com o início dos conflitos na Europa, os EUA percebem que, para manter sua posição hegemônica no continente, não bastava exercer controle apenas sobre o campo econômico,
era fundamental também combater a influencia das ideias nazifascistas do outro lado do Atlântico. Em nome dessa preocupação foi implantado no Brasil, assim como em outros países da América Latina, o Birô Interamericano. Criado por iniciativa do governo norte- americano, o órgão era responsável pela exaltação do pan-americanismo, através do incentivo à criação de projetos de solidariedade hemisférica e da difusão do american way of life.
Já no plano interno, a política econômica adotada pelo governo Vargas defendia, em especial a partir de 1937, um projeto de desenvolvimento industrial centrado no capital nacional, sem, no entanto, excluir os possíveis investimentos do capital internacional. A concretização desse projeto, encontrava diversos entraves, particularmente, no que dizia respeito à captação de recursos. Aprofundar o processo de industrialização no Brasil se configurava, em fase de crise do comércio externo e baixa disponibilidade de capital internacional, numa tarefa bastante complexa já que, para isso, era fundamental assegurar a entrada de crescente de equipamentos e máquinas importadas. Outro obstáculo considerável era a oposição das classes dominantes, que não viam com bons olhos a interferência direta do Estado no setor econômico e, menos ainda, a reforma tributária que possibilitaria arrecadar mais recursos para o projeto varguista. Buscando uma solução para o problema, Vargas procura se aproximar da Alemanha através do comércio de compensação, trocando matérias- primas por bens de capital e armamentos. Entretanto, isso implicaria no alinhamento definitivo à política germânica, o que, naquele momento, não era consenso – nem entre as Forças Armadas nem entre as classes dominantes –, por representar uma ameaça às bases de sustentação do Estado Novo e deixar o Brasil vulnerável a possíveis represálias norte- americanas. Além disso, era provável que a Alemanha, que se preparava para a guerra, não tivesse condições de financiar esses investimentos no Brasil. O projeto de industrialização do governo se encontrava, então, estagnado (CORSI, 2008).
Diante de tantas incertezas, Vargas evitou, durante os períodos dos Governos Provisório (1930-1934) e Constitucional (1934-1937), definir alinhamentos políticos externos, negociando com as potências interessadas em transformar o Brasil em “área de influência”. No entanto, com a proximidade da Segunda Grande Guerra (1939-1945) e o acirramento das disputas no plano internacional, tornou-se cada vez mais difícil a manutenção dessa política de equilíbrio equidistante.28 É nesse contexto, já às vésperas do conflito, que os EUA, visando 28 Em Sucessos e ilusões, Gérson Moura (1991) utiliza esse conceito para definir a peculiar relação do Brasil com
os EUA e a Alemanha na década de 30: o governo Vargas explorava as possibilidades oferecidas pelos acordos estabelecidos com esses países, mas sem definir claramente uma aliança com um deles.
manter sua supremacia na América Latina, acenam com a possibilidade de contribuir com o projeto de desenvolvimento industrial de Vargas – o que indica uma nova postura do governo Roosevelt nas relações econômicas com o Brasil, até então limitadas a questões referentes à dívida externa e às transações comerciais. Além disso, o governo norte-americano estava ciente da posição geográfica estratégica do Brasil diante de uma eventual ofensiva ao território norte-americano, bem como da inclinação de Vargas e, principalmente, de seu Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, ao fascismo. Imbuídos do espírito da Política da Boa Vizinhança e na tentativa de fortalecer sua posição de liderança no continente, os EUA vinham, desde de 1936, realizando foros multilaterais em diversos países latino-americanos para discutir a criação de mecanismos de segurança coletiva, a posição de neutralidade diante do conflito, iniciado em 1939, e a consolidação da noção de solidariedade continental face à possibilidade de uma agressão externa. No entanto, a partir de dezembro de 1941, com o ataque japonês a Pearl Harbor, o discurso da neutralidade difundido pelo governo norte- americano é definitivamente banido e, em 1942, os EUA declaram guerra ao Eixo. Esses episódios colocaram em cheque a posição de neutralidade assumida pelo próprio governo brasileiro diante do conflito que, a partir de então, se anuncia cada vez mais alinhado com os EUA.
De fato, a aproximação com a política de Washington já havia começado a se delinear mais claramente ainda em fevereiro de 1939, quando o Ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha – notadamente um ferrenho defensor da aliança Brasil-EUA – chefiou uma missão aos EUA com a intenção de discutir possíveis acordos econômicos e comerciais. A
Missão Aranha foi o marco inicial no alinhamento político ideológico entre o governo
brasileiro e o norte-americano que culminaria, anos mais tarde, com a participação efetiva do Brasil no cenário de guerra europeu. Apesar disso, durante esse período, levando em conta que o resultado da guerra era ainda uma incógnita, Vargas não fechou as portas para as negociações com a Alemanha e, simultaneamente, condicionou o apoio aos EUA ao investimento de capitais e fornecimento de armamentos. Para o governo brasileiro as condições de seu alinhamento estavam atreladas à concretização do projeto nacional desenvolvimentista de Vargas que enxergava na industrialização a saída para a definitiva ascensão econômica do país e a legitimação da ditadura estado-novista. Em meio a esse projeto, a criação da Usina Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, assumia grande centralidade e Vargas tinha consciência de que, para isso, o financiamento
internacional era essencial. Desta forma, como assinala Moura (1991), a barganha estava posta na ordem do dia.
A III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas
Americanas, realizada entre 15 e 28 de janeiro de 1942, no Palácio Tiradentes, no Rio de
Janeiro, estreitou ainda mais os laços de cooperação entre os governos brasileiro e norte- americano e promoveu a articulação dos países latino-americanos em torno dos objetivos estratégicos dos EUA. Dentre algumas de suas principais resoluções destacam-se o comprometimento dos países latino-americanos em fornecer matérias-primas estratégicas para a indústria bélica norte-americana e a criação de condições que assegurassem o trânsito livre de capitais e a manutenção da ordem interna a fim de evitar a modificação das negociações estabelecidas com os EUA. Apesar de não ter estabelecido nenhum acordo na área militar, o governo norte-americano “recomendou” o rompimento das relações diplomáticas dos países latino-americanos com o Eixo. Posição que, em 28 de janeiro de 1942, ao término da Reunião dos Chanceleres no Rio de Janeiro, foi enfim adotada pelo governo brasileiro, após ter firmado com Roosevelt o compromisso de reequipar nossas Forças Armadas.
Assim, embora o governo brasileiro tenha procurado, enquanto pode, manter uma posição equidistante em relação aos EUA e a Alemanha, suas decisões apontavam na direção de um crescente e inevitável alinhamento aos interesses de Washington. A essa altura, a aliança Brasil-EUA estava longe do ideal de solidariedade hemisférica de outrora. Tratava-se, de fato, do resultado de um árduo processo de negociações, que Moura (1991) chamou de
adesão negociadae definiu bem mais do que os rumos de nossa política externa. Apesar de se encontrar em condições desiguais na política internacional, o Brasil era, sem dúvida, uma área estratégica para os EUA, tanto em termos geográficos como no que diz respeito ao fornecimento de matérias-primas. Vargas soube tirar vantagens deste trunfo, criando espaços para fazer suas barganhas. É nesse contexto que surgem as reivindicações brasileiras para o financiamento da construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda e o reequipamento das Forças Armadas, em troca da exigência norte-americana de instalação de bases militares no Nordeste, que permitiriam o acesso mais fácil ao norte da África.
A partir daí confirma-se, definitivamente, a supremacia militar norte-americana no continente e a ideia do alinhamento com a política de Washington, que ganha força com os episódios dos ataques de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros. Até julho de 1942, treze embarcações brasileiras já haviam sido abatidas. Os ataques mais devastadores
ocorreram na costa do nordeste brasileiro, entre o litoral da Bahia e Sergipe, nos dias 15 e 17 de agosto daquele mesmo ano, quando o submarino alemão U-507 torpedeou cinco navios,29
causando a morte de mais de 600 pessoas, inclusive mulheres e crianças. A indignação tomou conta da população e diversas entidades, dentre elas a União Nacional dos Estudantes (UNE), se mobilizaram para promover comícios e passeatas que exigiam a entrada do Brasil na guerra. Aos poucos, a comoção popular foi dando espaço a uma série de manifestações violentas contra imigrantes e descendentes de alemães, italianos e japoneses. As represálias, que compreendiam, entre outras ações, hostilidades verbais, perseguições políticas e, até mesmo, a depredação de estabelecimentos comerciais que pertenciam a esses imigrantes tenderam a se ampliar com a participação do Brasil na guerra (SANDER, 2007). A imprensa também se mobiliza na cobertura do evento fazendo coro com estudantes e políticos liberais na cobrança de uma postura mais enérgica do governo. Afinal, o Brasil havia sofrido um ataque estrangeiro em seu próprio território, o que feria os brios da nação, que precisava reagir à altura. Muitas empresas, bancos, associações comerciais se unem à população, e incentivavam a participação direta do Brasil no conflito, com o envio de tropas ao cenário de guerra. Em resposta à agressão nazista, o governo brasileiro pressionado tanto no plano interno – pela sociedade – quanto no externo – pelas negociações com Washington –, decretou em nota oficial, no dia 22 de agosto de 1942, estado de beligerância e, posteriormente, em 31 de agosto do mesmo ano, declarou guerra à Alemanha e Itália. O episódio consagrou, enfim, o alinhamento do Brasil à política norte-americana, reafirmando uma aproximação que na verdade já vinha se realizando lenta e gradualmente, em especial, desde 1941, com o ataque a Pearl Harbor.