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RiskSpectrum Fault Tree Analysis

3. MATERIALS AND METHODS

3.6 RiskSpectrum Fault Tree Analysis

Nós somos criaturas individuais e sociais. Nós precisamos de outras pessoas para sobreviver, mas nós queremos sobreviver como indivíduos (TANNEN, 1986, p. 31).

Inicio este tópico com uma citação sobre a dualidade humana por causa da forte relação desse pensamento com as constituições identitárias de MGSP. Tannen (1986) evidencia que somos seres individuais e sociais, uma vez que precisamos das outras pessoas para sobreviver, mas sem abrir mão de sobrevivermos como seres individuais que somos. Essa percepção alinha-se com a forma como as identidades são constituídas: individual e socialmente. Em outras palavras, as identidades não são espelho apenas do que construímos, como seres individuais, a nosso respeito, são, também, o que o “outro” constrói sobre nós e como esse “outro” nos representa. Nesse sentido, Halliday (1994) também afirma que as escolhas lexicais utilizadas por um usuário da língua, em um texto, carregam traços de sua identidade, que podem estar perceptíveis ou não na superfície textual, dada a sua necessidade de representar a si próprio ou ao “outro”.

A propósito, por que precisamos representar nossas identidades? Rajagopalan (2003) discute sobre o que chama de tese do representacionalismo, a qual faz parte dos pressupostos sobre a linguagem. Para esse autor:

a tese do representacionalismo se alicerça naquilo que Jacques Derrida chama de ‘a metafísica da presença’. O que se lamenta é, no fundo, a impossibilidade que a linguagem nos impõe de que os significados se apresentem sem qualquer intermediação. Dessa forma, a tese do representacionalismo na verdade esconde o sonho de apresentação, de uma espécie de ‘epifania’, do significado – o sonho, o desejo de, enfim, desvencilhar-se da própria linguagem humana. Pois, o ideal mesmo seria que o mundo pudesse mostrar (apresentar) sua face sem a intermediação da linguagem e que as mentes humanas pudessem comunicar-se entre si sem ter que recorrer ao uso de língua – uma ferramenta, afinal, tão imperfeita! Por mais paradoxal que pareçam, as nossas teorias da linguagem, erguidas em sua grande maioria, sobre a tese do representacionalismo, são, no fundo, desejos inconfessos de superar ou transcender a própria linguagem, como, por exemplo, por meio da telepatia (RAJAGOPALAN, 2003, p. 31).

A referida “impossibilidade” imposta pela linguagem reforça que as representações são imprescindíveis à constituição cultural das identidades. Quanto ao

que Rajagopalan (2003) trata como ideal, penso que as implicações de nos comunicarmos sem o uso da linguagem, por exemplo, por meio de outras formas de acesso às mentes uns dos outros, como a telepatia, também seriam imperfeitas.

Já em um sentido diferente sobre as razões pelas quais precisamos das representações, Jovchelovitch (1995, p. 78) defende que “é através da atividade do sujeito e de sua relação com outros que as representações têm origem, permitindo uma mediação entre o sujeito e o mundo que ele ao mesmo tempo descobre e constrói”. Nesse sentido, também, Moscovici (1984, p. 20) afirma que “o propósito de todas as representações é o de transformar algo não familiar, ou a própria não familiaridade, em familiar.” A esse respeito, Fairclough (2001) amplia os potenciais da teoria sobre Representações Sociais para pesquisas em ADC, ao definir discursos como

representações diversas da vida social que são inerentemente posicionadas – posicionados de modo diferente, os atores sociais ‘veem’ e representam a vida social de modos distintos, com diferentes discursos. Por exemplo, as vidas das pessoas pobres e em desvantagem são representadas por meio de diferentes discursos nas práticas sociais do governo, da política, da medicina, e da ciência social, e por meio de diferentes discursos dentro de cada uma dessas práticas, correspondendo a posições diferentes dos atores sociais (FAIRCLOUGH, 2001, p. 2).

Além disso, Fairclough (2001) entende os discursos como um dos elementos de abordagem das significações nos textos a partir dos significados acional, representacional e identificacional. Em outras palavras, o discurso é um modo de representação, mas também um modo de ação, em que as pessoas podem agir sobre o mundo e sobre outras pessoas.

Assim é que, com a finalidade de compreender aspectos da relação entre a ADC e a perspectiva das representações de atores sociais, realizo uma breve incursão pela Teoria das Representações Sociais (TRS). A TRS possui tradição de estudos em áreas como Antropologia, Sociologia e Psicologia Social. Entretanto, só mais recentemente, essa teoria, por sua natureza transdisciplinar e por suas possibilidades de questionar as relações entre indivíduo e sociedade, passou a ser objeto, também, de estudos linguísticos. É possível enfatizar, nessa explicação, que as bases da TRS alinham-se às da ADC.

Assim, o conceito de representações tem como representante mais significativo o psicólogo social Serge Moscovici (2003), o qual, partindo de Durkheim (1912, 1995), define representações sociais (RS) como:

um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar- se em seu mundo material e social e controlá-lo; e, em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambiguidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual e social. (MOSCOVICI, 2003, p. 21)

Desse modo, é possível perceber que as RS referem-se especialmente aos saberes que emergem do cotidiano e que pertencem à realidade social. Em outras palavras, são social e culturalmente constituídas. E uma das maneiras de se estudar as representações é por meio do discurso como um recorte das práticas sociais.

Nesse sentido, van Leeuwen (1997, 1998, 2008) sugere a teoria da Representação de Atores Sociais como proposta teórico-metodológica, o que dialoga muito bem com a ADC, por possibilitar investigações dos modos pelos quais atores sociais podem ser representados discursivamente. Para van Leeuwen (1997), investigar o discurso corresponde a analisar como os atores sociais agem no mundo e como constroem a si mesmos e a sua realidade social. Sendo assim, o propósito das análises linguísticas é desvelar e compreender os significados que estão presentes nos textos. Para isso, van Leeuwen (1997, 2008) investiga as representações de atores sociais no discurso. Isso porque as formas de representação podem estar fortemente relacionadas às escolhas linguísticas feitas pelos indivíduos para externar suas experiências de / no mundo.

Nas interações entre atores e sociedade, as escolhas linguísticas podem contribuir para constituir representações sociais a respeito de atores e eventos sociais. Para tanto, na perspectiva teórico-metodológica da representação de atores e eventos sociais, há a possibilidade de investigar as escolhas léxico-gramaticais realizadas, os contextos institucionais e sociais em que se concretizam e, também, a finalidade pela qual essas representações são realizadas, depreendendo quais as relevâncias implícitas a elas e quais desígnios são alcançados. Em outras palavras, as representações inserem-se

em contextos sociais e culturais pré-definidos e variam em função da intenção do indivíduo.

A esse respeito, van Leeuwen (1998) entende que “as representações incluem ou excluem atores sociais para servir os seus interesses e propósitos em relação aos leitores a quem se dirigem” (VAN LEEUWEN, 1998, p. 180). Este entendimento se alinha aos pressupostos de Hall (2000, 2006), de Woodward e de Silva (2000) acerca da díade identidade e diferença, pois estas também incluem ou excluem indivíduos e grupos, dependendo da prática social e de quem representa e, ainda, de quem é representado. Desse modo, assim como as representações, as identidades diferenciam o indivíduo, contribuindo para que ele seja mais ou menos aceito socialmente. Nesse sentido, as formas de representação podem estar relacionadas às escolhas linguísticas que os atores sociais fazem para representar suas experiências no mundo.

Quanto à interpretação e ao uso do conceito representação nas pesquisas em ADC, Fairclough (2001) defende que os discursos constroem identidades e relações sociais. Assim, o autor entende que as representações têm suas possibilidades de transmissão de ideias ampliadas por se realizarem por intermédio da linguagem para comunicar determinado discurso. Para Fairclough (2001), é no discurso que o sujeito escolhe como representar de uma forma ou de outra. Assim é que as representações vão muito além da fala ou da escrita, elas estão relacionadas a outros elementos de caráter discursivo, como as circunstâncias em que o discurso é produzido e mesmo como o modo são expostos os fatos.

Assim, discursos não podem ser analisados apenas sob os limites formais da linguística sem uma relação com o contexto cultural e sociológico “em contextos institucionais específicos que têm relações específicas com as práticas sociais e das quais produzem representações” (VAN LEEUWEN, 1997, p. 172). Em vez de analisar as representações exclusivamente em termos de usos linguísticos, as análises podem ser feitas considerando que os atores sociais podem ser representados por um inventário sócio-semântico crítico (a respeito do qual discuto na seção 1.3.3, deste Capítulo).

Assim é que, na perspectiva da ADC, para compreender as representações, importa quem representa, como, quando e por que representa. Desse modo, as

representações são constituídas discursivamente, em articulação com as práticas sociais e com os diferentes significados construídos tanto pelo “eu” quanto pelo “outro” para o discurso. Segundo Fairclough (2003, p. 136), os eventos sociais em termos gerais incluem formas de ação; pessoas (com crenças, desejos e valores); relações sociais, formas institucionais; objetos; meios (tecnologias); tempos e espaços; linguagem (e outros tipos de semioses).

De acordo com Fairclough (2003), ao representar um evento social, este é incorporado ao contexto de outro evento social. Isso é a recontextualização, um tipo de evento social específico que é representado em diferentes campos de conhecimentos, nas redes de práticas sociais e nos gêneros textuais. Assim, a escolha do indivíduo por alguns elementos do evento social fornece pistas de como o evento será representado, após passar por uma espécie de “filtragem” em que alguns elementos são “excluídos, alguns incluídos e mais ou menos destacados.” (FAIRCLOUGH, 2003, p. 139). Isso é a recontextualização, ou seja, um tipo de evento social específico que é representado em diferentes campos de conhecimentos, nas redes de práticas sociais e nos gêneros textuais, de acordo com as escolhas que atendam a intenção do falante. Essas escolhas também afetam a forma concreta ou abstrata como eventos sociais são representados. Em síntese, escolhas por elementos como “presença”, ou seja, a presença de aspectos, ou a presença de eventos em uma cadeia de eventos, se os eventos estão presentes / ausentes, se estão em destaque ou em segundo plano; “abstração” relativa ao grau de abstração; “generalização” relativo à existência ou não de generalizações a partir eventos concretos; “ordenamento” relativo a como os eventos são ordenados; “acréscimo” se refere ao que é adicionado na representação de eventos, como explicações ou legitimações (razões, causas, propósitos) e como avaliações. Assim, as escolhas por usar ou não usar esses elementos (FAIRCLOUGH, 2003, p. 139) “explicitam, avaliam, legitimam como os eventos são representados.” (FAIRCLOUGH, 2003, p. 139). Nesse sentido, passo à discussão da ADC como uma possível abordagem para pesquisas sociais envolvendo representações.