72
Concorrência Pública é uma modalidade de licitação para contratos de grande repercussão, assegurando a participação de quaisquer interessados que preencham os pré-requisito postos no edital de convocação. Em São Carlos o edital de Concorrência Pública para continuação das obras de construção do novo edifício da escola normal, foi publicado no dia 26 de junho de 1914.
73
Luiz Germano Fehr, suíço radicado em São Carlos, empreiteiro-construtor, coordenou a construção do colégio São Carlos. Teve suas filhas matriculadas na Escola normal Secundária nos anos de 1917 (Elza Fehr) e 1922 (Olga Fehr).
74
Atualmente a visibilidade da Escola normal Secundária de São Carlos é prejudicada em decorrência do desenvolvimento urbano, mas mesmo assim sua localização continua sendo o ponto alto da cidade.
Segundo a tradição, por volta de 1850, Carlos José de Arruda Botelho, o futuro conde do Pinhal, decidiu construir uma capela para seu santo protetor e de ver também, em suas terras, o desenvolvimento de uma cidade. Pretendia que esta igreja se localizasse em suas terras, para que em torno dela se desenvolvesse uma vila. Os representantes da Igreja Católica deveriam aprovar o terreno sugerido pelo proprietário para a construção da capela, e só assim o patrimônio poderia ser delimitado. (LIMA, 2008).
Segundo Neves (2007) inicialmente, o local escolhido para a igreja teria sido o ponto mais elevado da cidade, entretanto, essas terras pertenciam à sesmaria de Monjolinho: “opôs-se á escolha o proprietário desta, João Alves de Oliveira, sob o pretexto de que ficando demasiado próximo a sua fazenda, a povoação seria motivo para distrair e perverter seus escravos” (NEVES, 2007 p.10). Sugeriu-se então, que a capela fosse construída em terras da Vila Isabel, parte sul cidade. Tal sugestão não agradou aos idealizadores, justificando que o local escolhido não tinha água; por isso decidiram construir a capela nas terras sesmaria do Pinhal, no ponto que mais se aproximava do local inicialmente escolhido.
Segundo Lima, “era comum que essa doação trouxesse prestígio aos doadores, além de vantagens materiais, pois, nos arredores da capela, passavam a se instalar residências e estabelecimentos comerciais que aumentavam o movimento do local” (LIMA, 2008, p.42).
A capela se localizaria, então, na linha divisória entre as duas sesmarias -Pinhal e Monjolinho, e determinou o eixo em torno do qual se desenvolve a vila de São Carlos do Pinhal. A construção deveria ser aprovada pelas instâncias superiores da Igreja Católica. Entretanto, a igreja de São Carlos, teve sua construção iniciada antes mesmo de ser concedida a autorização.
A Rua São Carlos (atual Avenida São Carlos) foi concebida em 1856 (ano de construção da capela) no sentido norte-sul, e traçada sobre uma grande colina contígua ao enquadramento do pátio da capela. As demais ruas foram abertas em função deste eixo, paralelas e perpendiculares, nos sentidos norte-sul e leste-oeste (LIMA, 2008):
Figura 1: Planta do núcleo urbano de São Carlos 1857 a 1888 (Fonte: Amador, 1985,SP, apud, Lima, 2008, p.60)
No centro da vila, em torno da capela e da rua São Carlos, localizavam-se as terras de Antônio Carlos Arruda Botelho. Já a expansão urbana da região norte dependeu de doações do proprietário da Sesmaria do Monjolinho, João Alves de Oliveira. Após mais de uma década, em 1868, João Alves de Oliveira realizou a doação e a vila expandiu-se do alto da colina em direção norte.
Com a doação, em 1868, o terreno onde se pretendia construir a capela passou para o controle do município e os membros da Câmara de Vereadores decidiram fazer ali uma praça, que foi denominada Praça Rio Branco. Neste terreno, foi edificado o novo prédio da escola normal, no ponto mais alto e central da cidade, na Avenida São Carlos, próxima à igreja. O prédio, inaugurado em 18 de novembro de 1916.
Figura 2: Mapa da área urbana da cidade de São Carlos, formada entre 1857 e 1929, com os principais eixos de expansão do período. (Fonte: Lima, 2008, p. 64, adaptado)
Se a capela corresponde ao ponto divisório entre as duas sesmarias, no mapa, podemos observar que a nova localização da escola está situada exatamente no ponto divisório entre as sesmaria do Pinhal e do Monjolinho, e que, portanto a área disputada já estava delimitada entre João
Alves de Oliveira e a família dos Botelhos. A eliminação do obstáculo representado pela sesmaria do Monjolinho, deu a família Botelho o domínio da região central da vila.
O ponto mais elevado da cidade já fora, no passado objeto de disputa política. Construída a capela que fora concebida por Arruda Botelho, a família João Alves de Oliveira possivelmente não via mais motivo para a manutenção de um terreno em região tão estratégica para o crescimento da vila, e realizou a doação como forma de partilhar do reconhecimento pelo crescimento da vila que logo receberia o estatuto de município.
A construção da escola normal renovou a intenção da família Botelho de colocar um edifício majestoso no ponto mais elevado da cidade, que marcasse para sempre seu papel na construção da cidade. Além do já majestoso prédio da igreja matriz, a escola foi concebida como um palácio com escadas que se derramam do cume onde o prédio se localiza, e se espraiam na principal avenida da cidade. Impossível não vê-la e não admirá-la.
Se as escolas da época, concebidas sob um rigor positivista, eram templos de saber, majestosos, mas, austeros, marcando a impessoalidade da ciência e a responsabilidade cívica do trabalho ali executado, o prédio da escola normal de São Carlos é radiante como um palácio com um grande pátio cercado por arcadas aos moldes mas maiores do que aqueles da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O prédio foi concebido como um complexo, que abrigava biblioteca, laboratórios para diferentes disciplinas, salas de estudo e uma casa para residência do diretor.
[...]Tratando-se de um edifício tão majestoso achamos que seria de máxima conveniência a construção de uma casa anexo, destinada a residência do Diretor, assim a fiscalização seria mais imediata e constante.Nas edificações escolares para o ensino primário, o governo exige que elas se prestem para a residência do respectivo professor [...] ( CORREIO DE SÃO CARLOS, 19/05,1912)
Logo, a grandiosa construção passou a dominar a paisagem urbana, quer por sua arquitetura quer pelo efeito que docentes gabaritados traziam à cidade, ou pelas (os) normalistas que desciam a longa escadaria em seus trajes azul e branco. A escola tornou-se, de fato, o centro de uma cidade, cujas lideranças políticas viam a si mesmas como uma aristocracia rural, uma elite de fazendeiros nobres para quem a escola aparecia como o testemunho de sua glória local.
Assim, a escola normal de São Carlos possui uma história única, dentre as escolas normais. Não se tratava de um templo de saber, trava-se de um símbolo do poder de uma elite tradicional.
As escolas faziam parte de um imaginário civilizador de educar e instruir os indivíduos e, nesse sentido, constituíram-se como condições necessárias para o processo de urbanização, mas em cada localidade assumiram uma feição própria em decorrência da concepção, organização e estrutura
física. No caso de são Carlos, a escola constituía um importante elemento na elaboração de um estilo de vida próprio socialmente valorizado e reconhecido como superior em relação aos demais habitantes da cidade.
O novo edifício da escola normal Secundária de São Carlos, ocupando uma quadra de extensão, foi construído no estilo art nouveau.
Figura 3: Planta do antigo e novo prédio da escola normal de São Carlos. (Fonte: Arquivo da normal Estadual Eugênio Franco e Dr. Álvaro)
Como ressaltou Carvalho (1989), o sistema público de ensino paulista se organizou sob o primado da visibilidade. As escolas, símbolo do progresso, deveriam se fazer ver pela suntuosidade dos prédios que revelavam a altura em que a República colocava o problema da instrução pública apesar de a expansão primária do ensino não ter atingido as demandas educacionais.
As escolas, sobretudo as escolas normais e grupos escolares, tendiam a seguir o mesmo padrão arquitetônico, típico do pensamento positivista e republicano da época de ordem e progresso, cuja localização geográfica traduz esse pensamento.
Elas não foram construídas aleatoriamente no espaço urbano. Suas localizações geográficas foram estrategicamente organizadas de modo a ocupar a centralidade na trama do desenvolvimento urbano, porque afinal delas também se emanariam relações de poder que interfeririam diretamente na dinâmica de funcionamento interno da cidade.
No caso de São Carlos, desde sua localização no ponto mais elevado da cidade, como estilo arquitetônico mais apropriado a um palácio, denota um controle do espaço e da circulação física, de ideias ou de poder, símbolo da primazia da elite local sobre todo o espaço político local.
A instituição da escola desde seus primórdios constitui, ela própria, um discurso simbólico repleto de alegorias de poder, desde sua criação na escolha do local de sua localização, na arquitetura que, mais do que rigor e imponência científica republicana, lembrava o esplendor dos palácios do século XIX. A escola constituía o reconhecimento simbólico de um poder “materializado na crença entre os que exerciam o poder e aqueles que estavam sujeitos a ele” (BOURDIEU, 2000,p.135)