Quando perguntados se consideravam ser possível ensinar a capoeira na EFE, os participantes responderam positivamente, porém com algumas ressalvas.
O participante 3, sendo acompanhado pelo participante 1, revela que para desenvolvê-la precisa ter um material referente à capoeira e exercícios, conforme as falas, abaixo:
Eu acho que se eu chegar ao nível de ter o material, algum exercício, alguma atividade em relação à capoeira ai eu poderia arriscar (Participante 3).
Eu também! (Participante 1).
As participantes 9 e 7 revelam que é possível ensinar a capoeira na EFE pois não é preciso ser uma mestra, ou ter tido uma experiência prática de 8 ou 20 anos nesta atividade para ser capaz de desenvolvê-la.
Eu não preciso ter que passar vinte anos na capoeira pra ter que dar uma aula de capoeira seja onde for, (...) se eu tiver um pouquinho de
bagagem passar os movimentos, os fundamentos, se eu souber tocar passar a instrumentalização, assim mais na prática, mas mesmo que você não tenha essa experiência não impede de você trabalhar todos esses aspectos que são muitos que a capoeira proporciona (Participante 9).
(..) não é preciso eu ser uma mestra em capoeira para poder dar uma aula de capoeira, não precisa ter muita experiência, ter muito tempo de capoeira 8 ou 9 anos (Participante 7).
Essas afirmações corroboram com as realizadas por Souza e Oliveira (2001) quando afirmam que para desenvolver a capoeira na escola não é necessário ser mestre desta prática corporal, pois esta possibilidade se fundamentará a partir das observações e estudos realizados pelos professores, sobre o quê e como ensiná-la. Os participantes de número 5 e 8 apontam que é possível desenvolver a capoeira na escola, pois eles mesmos a aplicam para todas as turmas onde trabalham ou trabalharam, conforme suas falas:
(..)Sempre tiro um semestre, todas as turmas para capoeira, normalmente são 8 aulas (Participante 5).
(...) entrei como professor de educação física de uma escola e eu dava capoeira. (...) desenvolvi isso com crianças desde o primeiro ano até o oitavo ano na escola (Participante 8).
A partir destas falas compreende-se que os participantes, em sua maioria, acham que é possível tornar a capoeira conteúdo de suas aulas, possibilitando afirmar que mesmo os professores que não a conhecem profundamente podem desenvolvê-la e se aproveitarem de seu potencial e seus valores educativos, esportivos e culturais, conforme aponta Campos (2001).
O autor afirma, ainda, que a capoeira vem adentrando os espaços escolares devido a sua aproximação com a Educação Física, ou seja,
A capoeira como educação física faz parte da nossa história; contribui na formação de valores das crianças, jovens e adultos; favorece o espírito crítico reflexivo da nossa realidade. (...) a capoeira tem uma história importantíssima que deve ser transmitida aos alunos através dos movimentos, musicalidade e em diálogos democráticos (CAMPOS, 2001, p. 77).
Outros autores também apontam para a possibilidade da capoeira ser um dos conteúdos desta disciplina. Para Soares et al. (1992) a Educação Física brasileira precisa resgatar a capoeira como manisfestação cultural por meio de sua história, abordando-a em conjunto ao movimento cultural e político que a gerou, para que ao ser desenvolvida na escola não receba um tratamento exclusivamente técnico.
Para Melo (2011) a capoeira, ao longo dos últimos anos, se tornou reconhecida como tema para a educação escolar brasileira e mais especificamente na Educação Física, por estar fortemente atrelada à história de luta dos negros no Brasil.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998) sugerem como um dos objetivos da Educação Física conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, como meio para que o aluno possa construir a noção de identidade nacional, destacando para este fim, a capoeira como um de seus temas, além do jogo, da ginástica, do esporte, das lutas, da dança e outras temáticas (BRASIL, 1998).
Atualmente a capoeira vem sendo recomendada como conteúdo das aulas de Educação Física por diferentes propostas curriculares de Estados brasileiros, como: Acre, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e Sergipe. Este fato pressupõe que a capoeira seja desenvolvida por professores da área, uma vez serem estes os documentos que preconizam as ações que serão realizadas pelos profissionais da educação, evidenciando a possibilidade da capoeira ser ensinada na EFE.
Entende-se ainda como um dos motivos que reconhecem a capoeira como conteúdo para a educação formal, no país, a Lei 11.645/2008 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino fundamental e médio, públicos e privados a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” (BRASIL, 2008).
Sobre este fato o participante 4 expressa-se a favor da obrigatoriedade por entender que a capoeira está atrelada à cultura afro-brasileira, fazendo parte da citada lei:
(...) Assim, no caso de tentar tornar a capoeira no âmbito bem maior, até no âmbito da obrigatoriedade, a partir do momento que a gente ta aqui dizendo: é obrigatório! [está falando da Lei 11.645/08] Você trabalhar a questão da cultura afro, existe uma maneira específica pra isso. (...) No caso assim, a gente vai ter que trabalhar isso, e um dos tópicos que a gente pode tornar bem interessante é trabalhar a capoeira, ta entendendo? (Participante 4).
Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira (BRASIL, 2004), esta inclusão se deve aos diferentes grupos étnico-raciais existentes no Brasil e que convivem de forma tensa, pois ainda persiste no país um imaginário que privilegia os brancos e valoriza as raízes culturais europeias em detrimento aos negros, africanos, índios, dentre outros.
Entende-se, neste sentido, que a escola tem como desafio se propor a minimizar e superar esta discriminação e preconceito uma vez ser o Brasil um país multicultural, se fazendo necessário que as culturas que o representam sejam respeitadas, reconhecidas e valorizadas, e para, além disso, que sejam vivenciadas por todos (BENTO et al., 2011).
É importante destacar que, segundo Gonçalves e Silva (1998) o multiculturalismo é um processo, iniciado em países que contém esta diversidade cultural, e que se apresenta como: a) uma ideologia que se opõe a toda forma de centrismos culturais; b) uma estratégia política de integração social; c) corpo teórico que orienta a produção do conhecimento.
Os autores advertem que, assim entendido, o multiculturalismo constitui-se em “um princípio ético que tem orientado a ação de grupos culturalmente dominados” (GONÇALVES; SILVA, 1998, p. 20), que reivindicam serem reconhecidos como sujeitos de direito, numa sociedade que não os enxerga como parte dela. Desta forma, articular multiculturalismo e educação, é buscar equidade em meio a desigualdades.
Concorda-se com Rangel et al. (2008) quando apontam que nas aulas de Educação Física o universo do multiculturalismo fica ainda mais à mostra, pois os corpos dos alunos se encontram em exposição, nos espaços abertos da quadra, do
gramado, da terra batida, quando as mensagens culturais aparecem, refletindo suas culturas.
Os autores afirmam ainda que o professor de Educação Física deve propor e fomentar situações em que estas diferenças se mostrem ainda mais, como no caso das manifestações da cultura brasileira. Desta forma seria possibilitado aos alunos conhecerem a riqueza e a diversidade de expressões existentes nestas manifestações, sugerindo a capoeira como um dos temas a serem abordados.
Sendo a capoeira de origem afro-brasileira, entende-se ser um dos ícones que representa esta diversidade cultural existente no país, o que torna significativa a sua presença nas instituições de ensino, e mais particularmente, na Educação Física, acreditando-se que, por meio dela, pode-se auxiliar a escola nesta tarefa de superação de desigualdades.
Assim, pode-se também afirmar que é possível que a capoeira faça parte dos conteúdos da EFE, baseando-se nos autores descritos e na opinião dos participantes.