Alguns dos pais também entendiam que a educação para a sexualidade era a orientação, dada à criança, de acordo com a faixa etária. Uma das mães entrevistadas considerou que “qualquer tipo de informação deve ser dado e levado em consideração o
respeito à faixa etária da criança”. Para ela, o esclarecimento era importante “porque vai
fazer com que a criança tenha consciência de suas atitudes”. A importância que a educação para a sexualidade tinha, no contexto geral da educação de sua filha, era o esclarecimento, para que a criança pudesse atingir “atitudes mais pensadas” ou que tivesse “consciência de
suas atitudes”, levando-se em consideração a questão da faixa etária.
Em sua fala, evidenciaram-se normas e objetivos a serem atingidos com o esclarecimento e a observação de um saber seguido da vigilância. A responsável ainda determinou que o “esclarecimento geral” era responsável pela leveza e clareza em cada mudança ocorrida nas etapas do ciclo de vida da filha: “que ela esteja esclarecida para
passar por essas fases com mais leveza e clareza, e, também compreenda as coisas que estão acontecendo consigo e com seus colegas. Então, é importante que se tenha o esclarecimento geral".
Por um lado, seu discurso alinhou-se ao projeto proposto pela UNESCO (2009; 2010), com relação ao fato de que as informações fossem fornecidas de acordo com a faixa etária. Por outro, evidenciou o saber dotado de normas de “vigilância do comportamento”
(FOUCAULT, 2012c), que, segundo a participante, conduzirão aos resultados de “leveza” e “clareza” no esclarecimento da educação para a sexualidade.
Outro pai acreditava que a educação para a sexualidade fizesse “parte de um processo
de saúde”, uma vez que o seu significado esteve ligado aos saberes sobre a saúde do corpo. Então, falar de “sexualidade é falar de saúde, ou seja, de saúde do corpo”. Para o participante, o corpo está em “interação íntima e afetiva” com alguém e, por isso, é necessário tratá-lo “saudavelmente, por meio da compreensão do mundo afetivo corpóreo do tesão, da
paixão e da dinâmica emocional que isso envolve, para respeitar a si e ao outro. Isso faz parte de um processo de saúde”.
Ele situou a importância da educação para a sexualidade como sendo o cuidado com o corpo e o desenvolvimento da intimidade com o outro: “então, é por isso que eu estou aqui.
Para afirmar que essa educação é fundamental: cuidar do corpo e da intimidade com o outro”.
A análise do discurso desse pai se subdividiu em três partes: em primeiro lugar, o discurso acima revelou a problematização da sexualidade ligada às questões voltadas aos interesses da promoção da saúde, tais quais os antigos discursos encontrados em algumas publicações (BRASIL, 1997; CAVALCANTI; CAVALCANTI, 1992; CHERMAN, 1993; KAPLAN, 1983; KOLODNY; MASTERS; JOHNSON, 1982; MASTERS; JOHNSON, 1976, 1979, 1988; MELO; FREITAS, 2010; NAUD, 1993; PASSOS, 1991; RIBEIRO, 1992; SUPLICY, 1983). Em segundo lugar, desde a época clássica houve a descoberta do corpo como objeto alvo de poder, pois, “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações” (FOUCAULT, 2012c, p. 132). Por último, a fala do participante também apontou para a vontade de saber sobre a sexualidade e o cuidado de si, evidenciando a emergência de se levar em consideração as questões da subjetividade (REIS, 2000), ainda que fosse para respeitar a si e ao outro ou cuidar da intimidade com o outro.
Na pesquisa, evidenciou-se que alguns responsáveis não possuíam a noção do significado de educação para a sexualidade. Por exemplo, a mãe de uma aluna do segundo ano proferiu uma narrativa que expôs as suas dúvidas com relação à questão sexual, sensual e relação de gênero:
Eu penso que isso ainda é um tema muito complexo. Até mesmo, porque a gente não tem a noção do que significa sexualidade, né? Muitas vezes, a gente parte para a questão sexual, sensual e decisão ou postura sexual de ser homossexual, heterossexual ou bissexual. Então, tudo isso ainda é muito confuso para mim.
A participante também afirmou não saber a maneira pela qual a educação para a sexualidade era tratada na escola. De acordo com sua opinião, não existia a educação para a sexualidade na escola: “educação sexual não tem. Eu acho que, nesse aspecto, está falho”. Para ela, o que existe é a “apropriação inadequada da informação”. Além disso, acreditava que “falta alguma coisa” no caminho dos discursos e práticas dos professores. Comparou a informação recebida, pelo aluno, com uma receita de bolo:
vamos supor, eu aprendo a fazer uma receita de bolo. Eu começo a fazer a receita e, de repente, no meio do caminho, eu vejo que não tenho um ingrediente ou outro. Então, aí, já fica furado. Ou, então, eu não tenho idade para acender um forno. Mas, mesmo assim, como eu aprendi na escola, eu vou lá e tento fazer. Então, eu acho que é esse elo. Alguma coisa que falta, nesse caminho que é dito, que é passado.
Para outra participante, o significado da educação para a sexualidade girou em torno das temáticas “relação sexual” e “ato sexual”. Por exemplo, o namoro possuía a analogia com “ter relação sexual”. Ela proferiu um discurso, que resultou na transcrição de três laudas, sobre os comportamentos tidos como “sexuais”, do filho. Abaixo destaca-se, resumidamente, um dos trechos de sua fala:
Um belo dia, eu estava com uma blusa, assim, meio que caidinha. E ele ficava o tempo todo levantado a blusa, até que eu perguntei: “Filho, o que tem na minha blusa?”. Aí, ele falou: “Ah, mãe parece coisa de sexo”. Aí, coincidiu de eles estarem vendo, em língua portuguesa, sexo masculino e feminino, né? Então, eu falei assim: “Ah, masculino e feminino?”. Ele respondeu: “Não, né mãe? Claro que não! Ah, mãe, são essas coisas de homem e mulher pelados”.
Outro exemplo dado foi que tanto o “banho de mangueira quanto ver a menina de
maiô na escola” tinham o sentido da vontade de “fazer sexo”:
“Sabe mãe, eu não vejo a hora do dia do banho de mangueira, porque eu quero ver a menina de maiô”. Aí, eu já fiquei gelada, né? Perguntei: “Como assim, filho?”. Ele respondeu: “Ah, mãe, eu não vou te falar. Se eu falar, você não vai gostar”. E eu falei: “Fala filho, o que vai acontecer, não tem problema”. Aí, depois de muita insistência, ele falou: “É que quando eu crescer eu quero fazer sexo com ela”.
A pesquisadora perguntou à participante o que o filho entendia por “fazer sexo”. Ela respondeu:
Aí, ele falou assim: “Você sabia que as pessoas fazem sexo? Duas pessoas, homem e mulher, se abraçam pelados e sai um líquido branco das partes íntimas. As pessoas transam duas vezes e depois é que o filho... A sementinha do filho fica lá, na barriga da mulher. E, aí, com os meses, essa sementinha cresce e vem a criança.”. Aí eu falei: “Nossa, como você está bem informado. Onde foi que você aprendeu tudo isso?”. Ele respondeu: “Ah, foi uma menina da minha sala que falou isso para a gente”.
Não houve o esclarecimento ao filho quanto à crendice de que “as pessoas necessitam
transar duas vezes para engravidar” e, talvez, isso pudesse evidenciar duas situações: a crença da própria mãe quanto aos conceitos ligados à concepção ou constrangimento da mãe,
ao abordar o tema com o filho frente ao não discurso – que oferecia as mesmas condições genealógicas – da sexualidade no sistema familiar.
A participante ainda envolveu o pai da criança e a coordenação da escola para tentar entender as “coisas” que estavam acontecendo e descobriu que: “essa coleguinha tem um
irmão no quinto ano. Ela falou com a mãe: - você mentiu para mim porque me explicou de forma diferente do que eu aprendi na escola, hoje”. Segundo a entrevistada, a mãe do “coleguinha” de seu filho chegou à conclusão que “estava na hora de desmentir tudo o que
ela havia falado. Enquanto ela conversava com o filho, a pequena escutava atrás da porta. E, aí, quando a mãe percebeu, já não tinha mais jeito”. Apesar disso, a mãe conversou com a filha “para que ela não tocasse no assunto com os colegas da escola”.
A participante informou que foi utilizado o recurso da caixa de dúvidas, em sala de aula, a fim de problematizar a questão da educação para a sexualidade. Ela finalizou o longo discurso sobre o significado da educação para a sexualidade se referindo à própria educação recebida pelos pais, que são nordestinos e “super preconceituosos”. Sobre isso, ela afirmou que “é um machismo, assim, fora do comum. Eu nunca... Minha mãe nunca chegou para mim
e falou. Nunca! Eu soube por que eu comecei a estudar na oitava série. No ensino médio é que a gente foi ter aula disso. E eu sempre fui muito envergonhada”.
Quando questionada sobre a importância da educação para a sexualidade no contexto geral da educação do seu filho, respondeu que considera ser de “fundamental importância”, uma vez que, na atualidade, “a gente vê que o sexo é uma coisa muito banalizada”. E, completou: “você vê crianças com doze ou treze anos que já começam uma vida sexual ativa
e, daqui a pouco, vem uma gravidez indesejada”. Ainda disse que “esse filho vai nascer em
uma situação adversa”, ou seja, uma “situação que, provavelmente, a mãe não tenha
maturidade”.
Nota-se que, além do fato de a mãe entrevistada ter comparecido com a questão do controle sobre a educação para a sexualidade, ela também trouxe, em seu discurso, elementos que conduzem à reflexão sobre a “política das coerções” de Foucault. A política das coerções é definida como “um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos” (FOUCAULT, 2012c, p. 133). E foi isto que tanto os discursos quanto as práticas da participante sugeriram a todo o tempo.
As discussões sobre o corpo e o natural, com a equipe técnica e os professores, também estiveram presentes nos discursos dos pais. O significado de educação para a sexualidade, para uma entrevistada, era o “respeito ao corpo, principalmente, o respeito à outra pessoa e à visão natural das coisas”. Com relação à importância da educação para a
sexualidade no contexto geral da educação do filho, considerou “essencial”. A mãe justificou o termo “essencial”, proferindo um longo discurso que se reportava à própria infância.
Outra responsável, mãe de um aluno do quarto ano, de maneira semelhante, entendia que a educação para a sexualidade fosse “respeitar o corpo” ligado ao saber sobre como se comportar frente ao tema: “eu acho que é importante ensinar a criança a respeitar o corpo,
né? A como se portar... Qual é maneira...”.Além disso, ela se preocupava com a Internet e o tema da pedofilia:
... vamos dizer, assim, separar o que é um carinho do que é um abuso. Porque, hoje em dia, a gente tem muito essa questão de pedofilia. É muito bombardeada com a Internet. Eu tento me precaver nessa questão, de limitar os acessos à Internet, porque a gente não sabe quais são as pessoas de fora... E saber, também, dar essa consciência corporal para a criança saber o que é correto e o que não é correto, em termos de cuidado consigo mesmo, ou seja, com o amor próprio.
No discurso acima, a importância atribuída ao contexto geral da educação do filho se ligou, fundamentalmente, ao cuidado de si que, conforme Foucault (1985) é o desenvolvimento atento da ocupação consigo mesmo. A participante relacionou o cuidado de si com o saber e estabeleceu uma relação de controle e disciplinamento em torno do correto. Com isso, o cuidado de si, antes do desenvolvimento atento consigo mesmo, teve a função da profilaxia e discriminação das práticas do carinho e dos limites que demarcam o abuso sexual. Assim, o saber passou pelo crivo das informações básicas que, de maneira didática, auxiliam na formação do aluno, sem privilegiar, contudo, os modos de subjetivação ou a ética dos sujeitos envolvidos na educação para a sexualidade.
Ainda no quarto ano, outra responsável não respondeu sobre o significado da educação para a sexualidade. Seu enunciado, porém, permeou a importância atribuída à educação para a sexualidade no contexto geral da educação do filho com o foco no dispositivo do saber, ressaltando, sobretudo, a compreensão e o conhecimento.
Eu acho que mais no sentido de compreensão, mesmo. De conhecimento. Porque as experiências, ou o que a gente vai adquirir de experiências na vida sexual, vão partir, realmente, do que a gente vai vivenciar, do que a gente vai experimentar. Mas, algumas informações, aquelas básicas, de quando a gente ainda é criança, que vem de uma forma mais, ainda, meio didática, eu acho que ajuda nessa formação, meio que nesse entendimento.
Uma mãe entrevistada, com filhos no quarto e sexto anos, entendia a educação para a sexualidade como um aspecto que “deva ser conversado sobre a opção”, ou seja, sobre a preferência sexual. Para a responsável, “existe a sexualidade, que é diferente do gênero
masculino e feminino, a opção sexual”. Reafirmou que o gênero “é masculino e feminino” e que a sexualidade “pode ser tanto bissexual, homossexual ou heterossexual”. Então, a “opção
sexual que a pessoa faz” é diferente do gênero, apesar de as pessoas possuírem a tendência de “colocar no mesmo pacote”.
Além das preferências sexuais, a mãe também entendia que um saber sobre os métodos contraceptivos fizesse parte da educação para a sexualidade: “educação para
sexualidade é a gente conversar sobre as preferências, os métodos de preservação de gravidez e métodos contraceptivos, com mais clareza. Até porque os filhos já tem entendimento sobre isso”.
A participante acreditava que a educação para a sexualidade era importante no contexto geral da educação dos filhos, desde que fosse “respeitada a faixa etária”. Contudo, assuntos como os “órgãos sexuais, feminino e masculino” e a “transformação do corpo
vivenciada na adolescência”, tal qual a “formação dos pelos”, a “mudança na voz” e o
“sentimento pelo outro”, também deveriam ser abordados na escola. Porém, o trabalho com o tema da relação sexual, propriamente dito, seria muito precoce para o contexto de sala de aula, segundo a opinião da participante. Por fim, revelou que tudo isto deve ser trabalhado se respeitando a faixa etária em um processo de construção gradual.
Uma mãe, com filho no quinto ano, entendia por educação para a sexualidade a “busca
da autoestima da criança”. Ela acreditava que “não adianta tratar a sexualidade sem ter a
autoestima ou sem a criança conseguir se perceber”. Isto porque se “a criança não tem uma
autoestima boa, ela não conseguirá se enxergar” e, consequentemente, “não conseguirá
enxergar o outro”.
A participante respondeu que a importância da educação para a sexualidade no contexto geral da educação do filho estava baseada no contexto da felicidade. Ela via que a educação para a sexualidade não poderia acontecer de forma “formatada”, principalmente, quando se levava em consideração a idade do filho que, hoje, está com 10 anos. Acreditava que tudo estivesse “baseado na felicidade” da criança, pois “quanto mais a pessoa consegue
ser feliz, mais consegue se satisfazer. E, aí, uma coisa começa com a outra. Ela vai se descobrir. Ela vai se perceber. Então, eu acho que ela tem que está feliz e sem ‘trave’” com ela mesma. “E, a partir daí, as coisas fluem com mais naturalidade”.
O discurso da responsável nos levou a pensar nos modos de subjetivação. Porém, houve a conveniência de se procurar o entendimento sobre a prática dos poderes e a conduta moral (FISCHER, 2001), uma vez que diversas “subjetividades” pudessem ser constituídas a partir dos discursos. Assim, “felicidade” e “autoestima” fizeram parte de um campo enunciativo que marcaram presença nos discursos e práticas da mãe entrevistada.
Para participante que tinha um filho no sexto ano, a educação para a sexualidade “é um
termo novo” e “deve ser uma coisa positiva a ser mostrada aos adolescentes”, uma vez que estão “se iniciando, se descobrindo, se conhecendo”. Revelou que quando ela era adolescente, vivia “cheinha de culpa” porque “brincava” com ela mesma. Ao mesmo tempo em que considerava que “tudo tem que ser tratado de forma bem natural”, admitia que, em sala de aula, pudessem acontecer “piadinhas”. Ela justificou: “mas é porque todos estão
desconcertados, com o assunto. Mas, todos estão curiosos, né? Eu acredito nisso”.
A continuidade do seu discurso revelou os contrastes entre o “natural” e o constrangimento por meio do questionamento daquilo que deveria ser ensinado, em sala de aula, sobre os temas ligados à sexualidade humana.
Minha filha chega contando as coisas. Tem até o livrinho da vacinação, que o governo deu, do HPV, que eles fizeram. Nele, tem as pernas abertas de uma mulher... As do homem. Tudo mostrando. Por quê? Porque tem que ser falado. Tem que ser mostrado, né? E eu vi que minha filha olhava, ria... Por que ela ria? Porque era uma forma de ela achar engraçado. Mas, tem que ser falado. Eu sou sempre, sempre, sempre a favor de se falar a verdade. De se falar como são os fatos.
O falar a verdade teve certa importância no discurso da mãe. Na teoria de Foucault, a verdade ocupa posição de destaque, uma vez que se estabelece uma rede de análise entre o poder e o saber. Além disso, há a vontade de verdade, compreendida como a busca da dominação (VEIGA-NETO, 2003). Então, no discurso da mãe entrevistada existia o confronto da vontade de verdade com o questionamento daquilo que deveria/poderia ser falado, articulando forças entre os dispositivos do saber, poder e sexualidade.
Outra mãe, com filha no sétimo ano, demonstrou grande impacto ao responder o que entendia por educação para a sexualidade. Ela demonstrou comportamento de surpresa e, em seguida, falou: “pergunta de novo”. A pesquisadora reformulou a pergunta e a participante disse: “nossa começou difícil, viu?”; “eu estou aqui pensando...”; “nossa, aí, me esbarra,
assim... Eu estou na dúvida em responder o que você quer. Não o que você quer ouvir...”. A pesquisadora continuava em silêncio ao mesmo tempo em que procurava captar, atentamente, a compreensão do discurso em todas aquelas respostas, tentando afastar, o tanto quanto possível, a possibilidade de uma análise clínica psicológica, que insistia em comparecer em seus pensamentos.
A participante continuou: “porque... assim... quando você falou em educação para a
sexualidade, você pensa... Aí, você pensa... Eu não sei se, aí, já entra... Mas eu vou te falar o que vem na minha cabeça, tá?”. A pesquisadora consentiu com a cabeça, afirmativamente. A responsável indagou: “educar como hetero? Como homo? Como isso? Como o que tem?
sequência, completou: “então, na verdade, eu estou meio sem saber como te responder isso
daí. Como assim... Como é que é mesmo?”.
Mais uma vez, a pergunta sobre o que você entende por educação para a sexualidade foi formulada à participante da pesquisa, que respondeu: “eu acho que é... Dentro da minha
concepção, é o que mais ou menos é passado hoje, né? Aparelho reprodutor, aquela coisa toda. E eu acho que eles dão uma base de sexo para a vida, né? Eu acho que é mais ou menos isso. Não sei se eu te respondi, mas...”.
Ao observar a dificuldade nas respostas fornecidas pela participante, a pesquisadora esclareceu a ela que:
qualquer resposta sua será uma resposta válida, porque o importante não são as minhas concepções. Não é o que eu quero ouvir. É o que você pensa sobre essa questão. Porque você pode achar que é um assunto importante, mas você também pode achar que não é importante. Então, fique à vontade para expor suas concepções. A segunda pergunta é: como você situa a importância da educação para a sexualidade no contexto geral da educação da sua filha?
A responsável também apresentou dificuldade ao responder esta pergunta: “como eu
situo? A importância? Ai, meu Deus! Nunca parei para pensar nisso”. Na sequência, foram proferidas as seguintes afirmações: “não, nunca parei para pensar nesse aspecto. Eu acho
que como ela é colocada hoje... Na verdade, bem ao certo, eu não sei como é. Se você for analisar... Eu vejo que elas estudam...”.
Sem que houvesse a complementação do pensamento nas duas últimas frases, quando questionada sobre a existência da educação para a sexualidade nas escolas, ela afirmou:
Pois é... Falando agora, conversando com você, indo mais a fundo, que já não é o que eu imaginava, eu vejo que não é o que eu estava pensando, né? Mas eu acho que não existe. Eu acho que não existe diante do que a gente vê, do que eu estudei e diante do que as meninas me passam, hoje. Não existe muito, não.
É importante observar que todas as respostas fornecidas foram consideradas válidas e que a pesquisadora também apresentou dificuldade de discutir os discursos sob a luz da teoria de Foucault, apesar de haver a percepção dos dispositivos de repressão, ou seja, da dança existente entre os dispositivos do saber, poder e sexualidade. É importante revelar que,