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Rios e ribeirões aparecem nas narrativas de moradores da Vila São Jorge como referências não apenas de lugares geográficos, mas como referências importantes do processo de ocupação: “Ele fez questão pelo Rio Preto”, rememora Seu Waldomiro, a façanha da sua família na ocupação da região, ao construir imagens do Rio Preto, num misto de admiração e reconhecimento da importância desse rio para o lugar.

Albuquerque (1998) ressalta a importância das águas na ocupação dessa região, que são partes do vale do São Bartolomeu. Segundo ele, esse vale tem uma importância crucial na história da região, pois foi nele que se formaram os primeiros arraiais e fazendas.

(...) é um corredor natural da biodiversidade entre os ecossistemas quentes do vale amazônico do Paranã e os ecossistemas temperados da chapada. Essas características transformaram o vale em caminho natural para a estrada que liga os povoamentos do Vão aos da Chapada. O ambiente úmido e abrigado do vale, a abundância de cursos de água e sua microbacia e, sobretudo, os solos férteis de seus platôs compunham o cenário ideal para a instalação de fazendas policulturais. Duas fazendas, cujas origens remontam ao período colonial, são referências históricas na sua ocupação: Bonsucesso e Moinho. (...) A aglomeração humana constituinte dos Veadeiros reuniu-se em torno de uma fazenda estabelecida em 1752, às cabeceiras do vale do São Bartolomeu (...) (op.cit., p.234).

Córregos, ribeirões e cachoeiras, que compõem a bacia do Bartolomeu na Chapada dos Veadeiros, são trazidos à memória por moradores, como referências dos lugares de nascimento, como relata Edson; ou por desempenharem funções cotidianas importantes para os afazeres domésticos: lavar roupa, tomar banho, cozinhar, como narram Dona Chiquinha e Dona Maria Chefe. Ou ainda, são representados como espaços de lazer daquele grupo social, como relembra Téia. Essas funções, definem formas cotidianas de ocupar o lugar.

As comunidades tradicionais da Chapada dos Veadeiros deram nomes aos rios, cachoeiras, morros, serras, vãos, cidades, povoados e corrutelas. Dar nomes aos lugares geográficos também é uma prática cultural. As toponímias foram sendo atribuídas pela comunidade tradicional ao longo da ocupação da região. São designações de lugares e espaços, cujas marcas são representações daqueles grupos, fundamentadas em suas experiências.

Entre as comunidades tradicionais, é comum associar características naturais ou econômicas de cada atributo físico para nomeá-los. Tanto é assim que o Rio dos Couros, outro importante rio da região, ficou conhecido com esse nome por causa da atividade que se desenvolvia em suas águas, o enfardamento do couro de veado. Práticas de um período, séculos XVIII e XIX, em que os fardos de couro de veado valiam mais do que o feijão, e eram vendidos no porto de Belém, descendo as serras por trilhas até o rio Tocantins, ou eram comprados por fabricantes de botas de Minas Gerais, através de Formosa (IBAMA, 1998).

Esse rio é o único da Chapada dos Veadeiros, cujo nome é indicativo de atividade humana; os outros receberam nomes santos: córrego São Joaquim, São Pedro, ribeirão São Miguel, cachoeiras São Bento, São Domingos, entre outros; ou fazem referência às suas características físicas: Rio Preto, Água Quente, Água Fria, Rio Pretinho, Brumado, Montes Claros, Buriti-mirim, são algumas referências.

Naquele vasto cerrado da Chapada dos Veadeiros, são praticamente inexistentes nomes da tradição macro-jê para designar lugares. O grupo macro-jê, com suas nações, dominava toda a região dos cerrados até a ocupação bandeirante no século XVIII. Registros arqueológicos existentes na Chapada dos Veadeiros, como por exemplo a Pedra Escrita (localizado próximo a Vila São Jorge), são vestígios da ocupação indígena na região. Segundo Bernardo Élis (apud BERTRAN, 2000, p.22), foram raríssimos os nomes macro-jês sobreviventes à conquista dos mestiços paulistas bilíngües. Suas referências foram sendo substituídas, a ponto de algumas desaparecerem completamente.

Os vários momentos da ocupação na Chapada dos Veadeiros, vivenciados por aqueles grupos em seus momentos históricos, foram decisivos para a formação de uma vasta extensão de caminhos e trilhas, que interligavam comunidades e funcionavam como um meio de socialização entre os grupos. Durante muito tempo, foi a única forma de comunicação entre aqueles homens e mulheres da Chapada. Era por esses caminhos que se chegava às cidades, povoados e fazendas para visitar parentes, amigos, comadres e compadres, ou para

comprar, vender, ou simplesmente trocar produtos.

Esses caminhos e trilhas tinham uma função social: eventos como festas, batizados e casamentos serviam de motivos para sua travessia. Eram caminhos normalmente realizados a pé, ou a cavalo (travessia cavaleira), em meio ao cerrado, rios, riachos e serras que formam a região. Nas lembranças de Dona Chiquinha, esses caminhos surgem nos percursos que fazia entre o Vale da Lua e a Vila São Jorge para vender suas “coisinhas”, ou quando se deslocavam para as festas no Raizama, ou ainda para ir às cachoeiras da região:

Esses lugares aí, eu ia para passear... é muito bonito... agora... nem... para nada mais [faz silêncio, suspira e fala em tom baixo]. Mas meus filhos vão em tudo assim. Eles vão para essas cachoeiras. Eu até não, mas meu marido conhece lá, ficava lá debaixo e água caindo... eu tenho muito medo d’água. Eu ia era lá no Vale da Lua e aqui na Raizama; agora para cá é muito longe. A Raizama eu fui foi muitas vezes, a pé, tinha festa lá, a gente ia, tinha aniversário... festa de aniversário, de São João, fogueira, essas coisas. Morava muita gente lá naquela região, depois foi morrendo tudo, acabou. (Dona Chiquinha)

Roças e trilhas são reminiscências desse período: marcas da tradição. As trilhas tinham um papel fundamental na experiência daquelas comunidades: serviam para interligar fazendas, cidades, povoados e os vãos da região. Muitas também foram abertas para a prática do garimpo do cristal, formação das roças ou para a criação do gado. Ou ainda para a coleta de flores, catar lenha ou caçar animais.

Os inúmeros garimpos abertos, na maioria das vezes percorridos à pé, dão uma idéia da intensidade de relações e práticas que existiam na região: Garimpão, Canela-de-Ema, Cerradão, Chiqueirinho, Brumado, Vaca Preta, Fiandeiras, entre tantos outros garimpos são exemplos da presença dessa atividade naquela área.

Junto com os garimpos, a ocupação também se dava por meio da criação de roças e outras práticas como o plantio de árvores ou construção de moradias que, para muitos, tinham caráter provisório mas, para outros, significavam a única moradia possível. Assim, as marcas do garimpo não são somente as da exploração do cristal, mas representam marcas de pessoas que não tinham onde morar e encontram, naquela vastidão do cerrado, oportunidades de se fixar e tecer relações com o lugar e pessoas.

As trilhas e caminhos abertos, além de fazerem a ligação entre povoados, cidades, fazendas e vãos, também era a forma de acesso a lugares fora da Chapada dos Veadeiros como Formosa, Barreiras, Catalão, e outros lugares.

Para populações tradicionais os lugares, locus de sua experiência cotidiana, são pontos de referência no espaço e de domínio sobre o ambiente, ao realizar trilhas e caminhos. A experiência de vida em um lugar se traduz em sentimento e identidade, que Halbwachs

(2004) chama de “adesão afetiva”. Essa “adesão afetiva” está presente nos relatos dos moradores de São Jorge. Dona Maria Chefe revela o sentimento e identidade com o lugar: “(...) tem hora que eu tenho saudade de andar por esses garimpos onde a gente conhece tudo”. A descrição que Seu Waldomiro faz da Serra da Baleia é um exemplo e revela o sentimento que ele tem pelo lugar:

Até é muito importante essa história da minha vinda para cá. Nós, morando após São Jorge, na fazenda Chapadinha, meu pai e minha mãe, vindo fazer uma visita a mãe dela... eu estava com 6 anos de idade, quando nós viemos, eu ainda montado na garupa do cavalo do meu pai, quando eu vi a Serra da Baleia pela primeira vez... quando eu enxerguei aquela pedra da baleia, que era conhecida como Ferro de Engomar, que é o nome geográfico, aí eu disse: Pai, de quem é essa Serra? Aí ele disse: “é da sua avó, a mãe da sua mãe”. Eu fiquei olhando, olhando, olhando... até não tive mais condições de olhar. Foi rompendo... Então, eu disse para ele: Pai, eu vou crescer, vou trabalhar e vou comprar. (Seu Waldomiro)

Para Meneses (2002), toda paisagem é uma paisagem cultural. Nela estão representadas experiências, historicidades, que se revelam nos significados que são atribuídos à paisagem, nas toponímias, nas narrativas cotidianas que os grupos sociais constroem sobre ela. As toponímias são formas de deixar marcas, registros, cujos conteúdos simbólicos são representações construídas por cada grupo a partir da relação que estabelece com o lugar. No relato de Seu Waldomiro, está presente esse conteúdo simbólico com paisagens que fazem parte de sua experiência, como a Serra da Baleia, que em outros tempos era a Serra Ferro de Engomar; toponímias que registram mudanças e a incorporação nos novos valores culturais ao lugar.

Garimpeiros também deixaram marcas e registros nos lugares que ocuparam. Seu Otávio relata como os nomes dos garimpos faziam associações com particularidades relacionadas à natureza do cerrado, revelando olhares e interações daqueles grupos com o lugar: “Tinha um garimpo aqui na frente que chamava Garimpão do Cerrado, que era um cerrado mais grosso, fechado. Tinha o Canela-de-Ema, porque lá só tinha canela-de-ema no lugar”. Outros lugares recebiam nomes relacionados às práticas que se desenvolviam nele: assim, a cachoeira, hoje conhecida como Salto II, chamava-se cachoeira do Garimpão, pois ficava próximo a uma área de garimpo conhecida por Garimpão.

As “toponímias garimpeiras” também estavam presentes nos nomes de corrutelas que surgiram ao longo da ocupação com o garimpo de cristal; entre elas, a Vila São Jorge é a única remanescente. Outros exemplos são trazidos pelos moradores, como a “Rodoviarinha”, que associa o nome do local à função que tinha: ponto de transporte do cristal, e ao córrego que abastecia a pequena corrutela.

Experiências daqueles homens e mulheres, na relação com os lugares da Chapada dos Veadeiros, revelam que a ocupação além de econômica, também foi cultural. Certeau (1994) define o espaço como um lugar praticado. Para ele, o espaço é um cruzamento de móveis, e o lugar uma configuração (instantânea) de posições. Espaço e lugar, embora conceitualmente distintos, têm vinculações: são as práticas nos lugares que dão vida e sentido ao espaço. Desse modo, os lugares deixam de ser apenas lugares físicos: eles contemplam experiências que registram saberes e fazeres; marcas das representações que grupos sociais atribuem ao mundo em que vivem.

Na Chapada dos Veadeiros, rios, vales, vãos, cidades, corrutelas, morros, serras e garimpos são lugares repletos de significados atribuídos por aqueles homens e mulheres que ocuparam a região, movidos por desejos e interesses diversos. Os lugares registram as experiências e histórias de vida do grupo: são lugares de memória. Muitos desapareceram, outros permaneceram e foram se adaptando ao contexto das novas práticas culturais, hoje associadas ao turismo ecológico na região.

3.4. POPULAÇÕES TRADICIONAIS: GARIMPEIROS, LAVRADORES E