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2.1-uma narrativa de gémeos

Já antes se mostrou que os heróis dos livros de cavalarias são apresentados logo na folha de rosto de muitas das edições antigas das obras. Interessa agora aqui ver como esses heróis e outras personagens são modelados na narrativa, que funções assumem ou escondem, e como se relacionam entre si.

Como também já acima se referiu, em Palmeirim de Inglaterra o próprio texto assume que a história é «de Palmeirim de Inglaterra e do Cavaleiro do Salvaje seu irmão1». Efectivamente ao longo dos primeiros capítulos da obra conhece-se a história de ambos que, sendo infantes, são logo de início raptados por um selvagem que os cria até à idade de dez anos, em conjunto com o seu filho Selvião, altura em que se separam, chegando Floriano do Deserto a Inglaterra onde, sem o saber, acaba por continuar a sua educação sob a protecção de seus pais, Duardos e Flérida2, e chegando Palmeirim a Constantinopla, continuando a sua educação sob a protecção do imperador Palmeirim de Oliva, seu avô, ignorando também os laços que os unem3. Ambos são armados cavaleiros pelos avós: Palmeirim de Inglaterra pelo materno Palmeirim de Oliva4, e Floriano do Deserto pelo paterno Fadrique de Inglaterra5. Concluem portanto a sua formação separados e assim entram na idade adulta: aquela em que se tornam cavaleiros andantes6.

1 A expressão inicia o capítulo CXXXVII (fl. 206a). 2 Capítulo VII.

3 Capítulo VIII.

4 «e vindo o dia o Emperador, Emperatriz e Gridonia ouviram missa com grande solenidade e

acabada fez cavaleiro por sua mão Palmeirim de Inglaterra primeiro que a n hum», Capítulo XI, fl. 14b.

5.«com tençam de ir ver a el rei Fadrique seu senhor», Capítulo XXVII, fl. 31c e nas palavras de

Rosiram para o rei Fadrique: «Senhor (...). Estas sam as armas do vosso Deserto Cavaleiro do Salvaje», Capítulo XL, fl. 47b.

6 A questão das idades dos cavaleiros já foi tratada em outra parte: Margarida Alpalhão, «Gnose e

Livros de Cavalarias: o Palmeirim de Inglaterra de Moraes», in Gnose e Criação Literária, FCSH/CEIL (a publicar).

Mas estes gémeos régios terão que perfazer o seu percurso de personagem a partir daquela condição: a de selvagem, vivendo numa «cova»1, vestindo-se de peles de animais, alimentando-se do que caçam visto que «seu exercicio era caçar»2. Neste percurso entre a cova e a corte, são resgatados por cavaleiros, o que lhes permitirá não apenas aceder ao mundo cortesão, mas à sua própria identidade. Semelhante percurso fazem outras personagens, também de outras obras, de entre as quais se salienta Enkidou, o primeiro rival e depois amigo de Gilgamesh, que na infância vive na companhia dos animais selvagens3. A situação em que se encontram estes dois gémeos, no início da sua história, é de tal forma desajustada daquilo que convém a infantes que o próprio texto refere, pelas palavras do sábio Daliarte:

«E a Fortuna que no seu primeiro nacimento os pos em tam baixo estado, que o seu alto sangue esteve pera ser sacrificado a dous bravos liões per mão do salvaje que vo-los roubou, essa os tornou a pôr em tamanha alteza de fama nas armas, que nam tam somente passarom os de seu tempo, mas no outro passado nam houve quem tam excelente gloria deixasse como a sua sera nem no porvir per largos anos eu nam alcanço quem com muita parte os iguale.» (Capítulo XLVII, fl. 61b).

E se Floriano do Deserto sai daquele espaço de selvagem porque numa das suas caçadas segue um veado que o leva a perder-se e a ir ter à Fonte do Deserto, onde acaba por encontrar um cavaleiro que o leva para a corte de Inglaterra4, Palmeirim, deambulando pela praia com Selvião na esperança de iludir a saudade de seu irmão, ali é recolhido por uma galé, cujo capitão o conduz à corte de Constantinopla5. O tópico literário do animal (maravilhoso) que conduz a

personagem para um outro espaço (o outro mundo), encontra-se em muitos textos, nomeadamente medievais, e até nesta mesma obra, pois é a caça de um porco, que não era «natural mas fantastico»6, que guia Dom Duardos, no primeiro capítulo, à fortaleza da sábia Eutropa, no Vale da Perdição, onde ficará prisioneiro durante toda a primeira parte da obra, até ser libertado por Palmeirim. Quanto à saída de

1 O texto denomina-os inclusive como «infantes da cova», Capítulo VII. 2 Capítulo VII, fl.7d

3L’épopée de Gilgamesh, p. 16. Enkidou é resgatado por uma mulher que o conduz não apenas à

humanização e socialização (idem, pp. 31-32), mas o inicia também no amor (idem, p. 29).

4 Fonte junto à qual havia nascido, na Floresta do Deserto, e que já motivara o seu nome de

nascença. Capítulos VII, fl. 8b e III, fl 4c, respectivamente.

5 Capítulo VIII, fls. 9d-10a. 6 Capítulo II, fl. 2b.

Palmeirim daquele espaço, esta implica desde logo uma viagem por mar. E estas viagens estão, na literatura, associadas também a viagens ao outro mundo1 e, em alguns casos, à libertação. É por mar que chega Beowulf que liberta a Dinamarca da «maléfica e infeliz criatura»2 que é Grendel, como aqui chega Polendos, rei da Tessália, para libertar Palmeirim daquela vida selvagem. E Palmeirim é encontrado na praia, como o Donzel do Mar no espaço que lhe dá nome3.

Esta separação dos gémeos enceta um percurso divergente em que ambos chegarão a desejar-se mutuamente a morte pelo desconhecimento dos laços que os unem, e em que, depois de cada um conquistar fama nas armas como Cavaleiro do Salvaje (Floriano) e Cavaleiro da Fortuna (Palmeirim), quase chegam a esse ponto, «como se entr’ambos houvera alg a rezam pera o fazerem»4, numa batalha

batalha que ocorre em Londres5. Estes dois irmãos assumem-se, deste ponto de vista, como eco textual dos irmãos bíblicos Abel e Caim6, cuja história tem um desfecho diferente. Aqui, Floriano e Palmeirim são salvos por intervenção da mãe, que o faz «sem saber que nam era aquela a primeira vez que de sua mão receberom a vida»7, numa clara assunção do (re)nascimento das personagens que,

inicialmente pela memória de Palmeirim8, acabarão por se (re)conhecer entre si,

após a batalha de libertação de D. Duardos.

Estes gémeos que ali se digladiam quase até à morte vão, no entanto, segundo as palavras várias vezes repetidas no texto, na «demanda de Dom Duardos» procurar libertar tanto o pai, que desconhecem como tal, como todos os outros cavaleiros que, também em sua demanda, foram aprisionados por Eutropa na torre do gigante Dramusiando. E esta libertação não acontece sem que outros ecos bíblicos irrompam na prosa de Moraes, pois para acederem ao Vale da Perdição, onde se encontra a torre de Dramusiando, ou a fortaleza de Eutropa, e

1 Como acontece com a Navegação de São Brandão (Nascimento ed., 1998: 80-115), por exemplo. 2 Beowulf, p. 35.

3 Nome por que é conhecido Amadis desde que é recolhido por Gandales e sua mulher, no

primeiro capítulo (Montalvo: 247), até ser (re)encontrado e reconhecido pelos pais, Perión e Helisena, no capítulo X (Montalvo: 328). Todas as citações são feitas pela edição de Juan Manuel Cacho Blecua, mencionada na bibliografia.

4 Capítulo XXXVI, fl. 43d.

5 Capítulo XXXVI. A esta batalha assiste não só povo, mas a família real, pois «era dos dous mais

notaveis e melhores [cavaleiros] que no mundo entam havia» (idem, fl.43c).

6 Génesis 4, 1-8. As referências são feitas pela Bíblia de Jerusalém na edição referida na

bibliografia.

7 Capítulo XXXVI, fl. 44d. 8 Capítulo XL, fl. 51a-b.

tentarem a batalha de libertação dos cavaleiros aí presos1, Floriano do Deserto só

o consegue «aos sete dias de suas jornadas»2 e Palmeirim de Inglaterra apenas após deambular «por espaço de mais de quarenta dias»3. Considera-se que os sete dias, remetendo para os sete dias bíblicos da criação, representam aqui o tempo da confirmação da construção do seu próprio estatuto de «melhor cavaleiro do mundo»4. Só que Floriano, ao não vencer a batalha de libertação de Dom Duardos Duardos e dos outros cavaleiros, assume uma morte (simbólica), a morte do cavaleiro que obtivera tal estatuto e permite, por essa via, a vitória de seu irmão, abrindo caminho a que este incarne o modelo heróico da narrativa, o qual fora já anunciado como tal, de outro modo, pelo texto5. Já os quarenta dias de travessia do reino lembram os da permanência de Cristo no Deserto6. E não poderá considerar-se irónico o facto de Floriano do Deserto ser o nome do irmão?7 Mas talvez o nome pretenda apenas fazer jus ao que poderia ser a vida da personagem, após aquela morte simbólica, não fora a personagem de seu irmão, sua personagem especular. É que antes da batalha de Londres, a relação entre os irmãos é pautada pelo confronto não sacrificial, mesmo quando, há muito separados como se disse, entram em batalha porque não se (re)conhecem, e depois daquela quando, após a batalha no Vale da Perdição ao longo da segunda parte da obra, a atitude demonstrada por ambos diverge significativamente no que à relação amorosa diz respeito. Mas se há confronto, na segunda parte da obra pode considerar-se que a relação entre ambos é pautada pela fraternidade (linhagística é

1 Esta batalha é fulcral no texto tanto ao nível formal como ao nível da narrativa: por um lado, esta

determina a separação das duas partes do texto; por outro, a primeira parte da obra desenvolve-se na demanda de Duardos (pai dos irmãos Palmeirim e Floriano), ali preso juntamente com muitos outros cavaleiros. Por fim, a batalha, tentada por Floriano, mas ganha por Palmeirim, permite não só a libertação de Duardos e dos outros, mas também o encontro e reconhecimento dos irmãos e a recuperação da sua identidade. Esta estrutura parece querer conduzir as conclusões de análise à importância das origens, nomeadamente devido ao facto de não havendo ascendentes, não haver identidade própria.

2 Capítulo XXXIX, fl. 48d. 3 Capítulo XLI, fl. 52b. 4 Capítulo XXXIX, fl. 50b.

5 Por um lado, através da profecia da dona do Lago das Três Fadas, que envia uma mensagem a

Palmeirim de Oliva no dia em que seu neto Palmeirim de Inglaterra chega à corte de Constantinopla. Por outro lado, Palmeirim de Inglaterra é filho do príncipe inglês Duardos e neto do rei de Inglaterra, Fadrique, razão pela qual o próprio nome denota alguma prioridade face a seu irmão, tanto mais que é o primogénito (ou por isso mesmo). Cf. Capítulo I, fl. 4c. Sobre a herança, em termos históricos, as Ordenações Manuelinas estabeleciam regras para a divisão de bens no «Titulo .lvij. de como se ham de fazer as partições anter os jrmaãos», Livro Primeiro, fl. cxvij.

6 Mateus 4, 2.

7 Mesmo que o texto explique que Deserto era o nome da floresta em que nascera, explicação que

certo, mas não só). Na verdade, o texto de Moraes coloca a tónica na construção e assunção de identidades individuais, mas de indivíduos herdeiros e transmissores de uma linhagem, sem prejuízo portanto dos laços de sangue. Esta função especular dos irmãos torna os dois indispensáveis na trama narrativa, compreendendo-se assim porque é a história de ambos. E se Floriano simula (pretender) assumir o estatuto de melhor cavaleiro do mundo é para que seu irmão assuma esse estatuto, o que só é permitido a um cavaleiro que também seja amante incondicional (estatuto este afirmado e confirmado pela aventura da copa), o qual precisa, no entanto, do(s) outro(s) para se poder assumir efectivamente como modelo. Semelhante a esta situação é a «revanche de la fraternité» (Dumézil 1994: 158) apontada a propósito de dois irmãos das gestas iranianas, Guštāsp e Zarīr, cuja fraternidade leva o primeiro, que quer ser rei, a sê-lo apenas enquanto o seu irmão está vivo, abdicando do trono depois de Zarīr ser morto em batalha, «comme s’il n’avait plus de raison ou de moyen d’être du moment où Zarīr n’est plus» (Dumézil 1994: 162).

Esta fraternidade, assumida por estes dois heróis iranianos e pelos gémeos da obra que se analisa, é mediada nos dois casos pela rivalidade, uma mediação interna1, como se verá.

Primaleão e Polendos, os irmãos apontados no segundo livro palmeiriniano indicado no primeiro capítulo, são meios irmãos. Polendos, filho da rainha de Tarsis e de Palmeirim de Oliva2, apresenta um percurso diverso do de seu irmão e ambos uma relação diferente da dos gémeos de Palmeirim de Inglaterra, sem apresentarem, entre si, rivalidades. Polendos começa as suas façanhas por libertar vários cavaleiros da prisão de um gigante e combater-se com um porco também ali encantado, mas verdadeiro3. A rivalidade existirá entre D. Duardos e Primaleão, em dado momento, mas também estes depois passarão a uma convivência de amizade fraterna.

1 Termo usado por René Girard (1961: 24).

2 Primaléon, capítulo vij, p. 16. Todas as citações da obra são feitas pela edição de María Carmen

Marín Pina inclusa na bibliografia.

2.2- o cavaleiro, a donzela e o mediador

Falou-se em mediação. Refira-se portanto o que deve entender-se aqui por mediação, termo que se toma a partir da teoria apresentada por René Girard (1961). Exemplificando com o texto cervantino, este autor refere que entre D. Quixote e o seu desejo de ser cavaleiro andante existe um mediador, Amadis de Gaula, tal como entre Sancho Pança e o desejo da ilha de que será governador o mediador é D. Quixote. A esta teoria chama o autor “desejo triangular” (Girard 1961: 15). Quando o herói assume o seu modelo, como no caso de D. Quixote, a mediação é externa (Girard 1961: 23), quando ao invés o herói repudia o mediador, a mediação é interna (Girard 1961: 24), situação em que o mediador pode não ser mais que «la jalousie et l’envie, comme la haine» (Girard 1961: 26).

Floriano do Deserto, ou Cavaleiro do Salvaje, antes como depois de recuperar a sua identidade, precisou de um mediador para assumir o seu estatuto. Esse mediador é o seu irmão Palmeirim que, desde cedo, «começou de servir Polinarda filha de Primaliam e Gridonia, com tam aceso desejo, qu’este o pos depois em muitas afrontas de que se nam esperava salvar»1, perfazendo um percurso iniciático completo: tanto nas armas quanto no amor. Esta mediação não se reveste, no entanto, de repúdio por parte do sujeito, radicando antes na amizade fraterna, tanto mais que estes dois cavaleiros avançam cada um no seu percurso, encontrando-se poucas vezes, como no entanto acontece com a libertação de Palmeirim, quando preso por Arnalta, princesa de Navarra, altura em que já conhecedores dos laços que os unem:

«Floriano e Pompides que sentiam nele aquele descontentamento sem saber donde lhe nacia, tambem nam podiam caminhar mui alegres, qu’isto tem a amizade grande antre os amigos, assi em as mostras como nas obras a vontade ser conforme.»2

1 Capítulo VIII, fl. 10a.

Floriano fará essa iniciação amorosa, não a partir da segunda infância como Palmeirim, mas já adulto, principalmente como Cavaleiro das Donzelas. Assim, depois de um primeiro encontro com as filhas do marquês Beltamor, que defende do gigante Calfurnio e cujos interesses defende junto do rei Fadrique, porque elas o tratam das feridas da batalha, Floriano, «que nestes tempos sabia mal temperar sua colera»1, parte em busca de aventuras em direcção ao castelo de Almourol, num claro percurso para a mulher. Nesse local batalha com Dramusiando que guarda o castelo, apaixonado por Miraguarda, mas perante as palavras de prece à donzela2 em que o gigante se demorava, «Floriano a quem tantos amores e tamanha tardança enfadava»3 revela a sua condição de homem desapaixonado. O que ali motiva Floriano não é a paixão por Miraguarda, na qual todos os cavaleiros pensam, em maior ou menor grau, quando vêem o escudo da afamada donzela, mas a «enveja de tamanhas vitorias»4 representadas no elevado número de escudos pendurados numa árvore. Floriano continua a desejar ser o melhor cavaleiro do mundo, encontrando ali em Dramusiando um mediador do seu desejo. Mas é também na sequência daquele momento que vai efectivamente iniciar o seu percurso iniciático de cavaleiro amador, ao deixar o local acompanhado de Pompides, seu meio irmão, que falava em Miraguarda «por milagre, louvando-a em estremo como quem a vira mui bem, nam podendo negar ou dessimular a paixam que levava de ser vencido ant’ela»5. Com efeito neste

momento, perante a reacção a que assistiu, «Floriano zombava e ria, contentando- se de a nam ter vista por nam cair naquele perigo e achar-se livre do que ninguem nam era»6. A narrativa assume claramente o repúdio da personagem face ao amor

1 Capítulo XXXIIII, fl. 40a.

2 A expressão visa identificar e definir os momentos em que os cavaleiros, antes de iniciar um

combate ou uma batalha, ou ainda quando acometem um perigo, pedem à sua donzela que os ajude, que lhes dê forças e valentia para a tarefa em vista, muitas vezes lembrando-lhe que a glória é dela porque o fazem em seu nome. Não raro, nestas preces os cavaleiros emitem a sua opinião sobre a donzela e a sua conduta para consigo. No caso: «Senhora, bem sei que todos meus serviços se ham de pagar com nam vos lembrardes deles, nem de quem os faz, e que por fim de meus trabalhos tirarei por galardam descontentamentos tristes, que esta é a paga que sempre destes a quem outra vos merece, porem co’isso me contento, co’esta condiçam vos sirvo, que bem sinto que pera vos servir e nam pera vos merecer sam eu. Contudo porque esta vontade se possa mostrar muitas vezes em cousas de vosso gosto, olhai com quem faço esta batalha e seus golpes vos diram quanta necessidade tenho de vossa ajuda e favor. Favorecei-me como vosso pois sabeis que o sam, e nam queiraes que quem me vencer diga que o fez pelejando eu em vosso nome.» (Capítulo LXV, fl. 84a).

3 Capítulo LXV, fl. 84a. 4 Capítulo LXV, fl.83c. 5 Capítulo LXVI, fl.84d. 6 Idem.

desejado e antes não assumido. O repúdio revela-se aqui pelo riso. Mas o sentimento amoroso não tem ainda um objecto concreto, facto que lhe permitirá assumir uma passagem pela mediação da tentação1, que acabará por abandonar como se verá. Esta parte do percurso, delimitada no tempo e na narrativa, talvez não seja mais que a busca de uma individualidade num conjunto de possíveis, situação que irá acontecer, séculos depois, com o D. João de Natália Correia2. Entretanto, Floriano vai realizando o seu percurso de iniciação amorosa textualmente iniciado com Arnalta:

«Floriano a quem a senhora nam parecia mal, a tornou a amansar com palavras e afagos, que forom de tanto merecimento ant’ela, que mandou fazer um leito pera Pompides e Palmeirim e outro pera ele soo, onde o veo vesitar quando as horas derom lugar a isso, e por lhe mais satisfazer a vontade estiverom ali todos tres oito dias, no fim dos quaes despedindo-se Floriano d’Arnalta, ele enfadado e ela saudosa, se apartarom um do outro, e eles se forom a via de Costantinopla, prometendo-lhe ele primeiro de a tornar a ver o mais cedo que podesse, assi começarom caminhar todos tres contentes de seu acontecimento e ela de seus enganos, Floriano esquecido de tornar, Arnalta chea d’esperança disso, ela alegre de seus amores, ele desviado deste pensamento caminhou com seus irmãos» (Capítulo LXVI, fl. 65c-d).

Logo em seguida numa justa com os cavaleiros de Florenda, princesa de França, os irmãos Pompides e Palmeirim deixam-lhe o feito «por ser cousas de molheres a

1 Usa-se aqui a expressão «mediação da tentação» como equivalente ao termo erotismo, segundo

as palavras da personagem («sam obras da humanidade a que se nam pode fugir», Capítulo CVI, fl. 143a, ou logo de seguida «tentações humanas» idem, fl. 143b, (trechos que o censor eliminou em 1592), aproximando a atitude desta personagem da atitude de D. João, personagem fundadora do mito, e da função que a personagem revela na literatura, mas com consciência de que esta é posterior, uma vez que Gabriel Téllez, conhecido para a história literária como Tirso de Molina (1579-1648), é tido como o autor de El burlador de Sevilla, texto anterior a 1625 (Labertit 1994: 3853). De resto Moraes poderia ter sido fonte do seu autor, na medida em que o Palmeirim de

Inglaterra era muito conhecido em Castela, através da tradução impressa em Toledo. Importa,

neste contexto, a mediação e a atitude assumida pela personagem de Floriano que parece compreender-se melhor aqui através da personagem de Molina. Justina Ruiz Conde além de o aproximar de D. João, aproxima ainda Floriano de Galaoor, irmão de Amadis de Gaula por este ser

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