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As atividades programadas foram desenvolvidas em espaços físicos indicados pela escola (sala de aula, biblioteca, sala dos professores) em mesas com um grupo de cadeiras, no horário das aulas. Tivemos a ajuda de duas bolsistas de pesquisa da Iniciação Científica46, fato que facilitou o trabalho com as crianças.

O trabalho desenvolvido foi realizado de forma que a criança, identificada por nós anteriormente, ficou conosco e os demais escolhidos na turma ficaram com as monitoras. As atividades foram desenvolvidas com o mesmo material do sujeito eleito para a pesquisa, bem como de forma simultânea.

As entrevistas foram gravadas em cassete, por nós, como condição para apreender todas as nuanças das falas dos sujeitos, bem como registrar o maior número possível de informações. Nenhum sujeito se mostrou resistente ou inibido durante as gravações, pois

eram consultados antes do início de cada encontro. Para retirar qualquer possibilidade de inibição por parte deste, o gravador estava sempre à sua vista.

Iniciávamos o trabalho, geralmente, com conversas informais, sem gravação, para propiciar um clima que possibilitasse maior relação de confiança e espontaneidade entre nós e a criança. Falamos à criança que éramos da Universidade, e que estávamos fazendo uma pesquisa com algumas crianças nas escolas e que gostaríamos que ela participasse de algumas atividades como entrevistas, desenho, histórias, etc, para que pudesse falar sobre questões de sua vida, seus sentimentos, do que gosta de fazer, do que não gosta, como ela se percebe, o que pode fazer em sua casa, o que não pode, quais seus sonhos dentre outras. Nenhuma criança se mostrou resistente para participar da pesquisa e das atividades por nós propostas.

4.6. Procedimentos

Primeiramente, antes de estruturarmos as atividades, foi preciso recorrer à literatura para verificar como estava sendo investigada a auto-estima do sujeito. Deparamo-nos com críticas (Azevedo, 2002, Moysés, 2001), principalmente no que diz respeito à forma como se avalia a auto-estima, mais especificamente aos instrumentos utilizados para avaliá-la.

Mruk (1998, citado por Goboitta & Guzzo, 2002) agrupou estas dificuldades em dois tipos: o primeiro diz respeito à singularidade da auto-estima como fenômeno (problema da definição, relação auto-estima e outros aspectos relacionados ao eu e certas características intrínsecas da auto-estima). O outro tipo de dificuldades diz respeito à

grande diversidade de métodos de investigação usados para o estudo do fenômeno e às dificuldades em relação à validade dos instrumentos.

Existem vários instrumentos para avaliar a auto-estima, a maioria deles, norte- americanos. No Brasil, há poucos adaptados para a nossa realidade. Martins (s/d) constatou que existem alguns instrumentos de origem norte-americana traduzidos e adaptados para a realidade brasileira: How I see my self, de Ira Gordon (adaptada por Popovic, Esposito & Cruz, 1973) e Escala de Auto-Estima de Janis e Field.

Porém, acreditamos que a auto-estima tem particularidades tão subjetivas que torna difícil avaliá-la em relação a um ponto ou nível médio de referência (inventário da auto- estima, Escala de Rosenberg, dentre outros), já que, por exemplo, duas pessoas podem ter pontuações idênticas e não ter o mesmo nível de satisfação consigo mesmas (Miceli, 2003).

Pensamos que as atividades propostas aos sujeitos deveriam envolvê-los de forma que eles pudessem, por meio dos discursos, fazer emergir o tema da violência intrafamiliar e os componentes da auto-estima, considerados os objetivos deste trabalho.

Assim, estruturamos várias atividades que incluíam alguns aspectos relevantes relacionados aos temas, capazes de deixar transparecer situações particulares da vida do sujeito.

Diante deste tema, foram definidas as atividades de cada entrevista, embora na prática certas atividades programadas para uma data tivessem que ser adiadas em respeito ao processo de resolução destas pelo sujeito.

4.7. As atividades

Na primeira entrevista, fizemos uma caracterização geral47 das crianças (1). Em seguida, incluímos uma atividade chamada por nós de sentimentos humanos (2); logo depois, introduzíamos uma atividade que incluía expressões faciais (3); na seqüência, apresentamos uma atividade oral chamada de bate-bola (4); trabalhamos com a história do Pinóquio (5); o desenho de uma família (6); e, por último, o desenho da família do sujeito (7).

Esclarecemos que planejamos um total de três entrevistas para cada criança com as respectivas atividades, porém, algumas vezes, as entrevistas tiveram que ser prorrogadas por mais uma, para respeitarmos o desenvolvimento e o ritmo das atividades executadas pela criança. A seguir delinearemos cada atividade, bem como seus objetivos.

Achamos pertinente iniciar o primeiro contato com a criança com uma caracterização geral desta, contendo seus dados gerais de identificação e de seu cotidiano, pois os demais instrumentos nos possibilitariam um maior aprofundamento sobre a vida e algumas particularidades dos sujeitos.

Utilizamos, para este fim, uma entrevista semi-estruturada, que nos permitiu partir de algumas questões básicas relacionadas à vida do sujeitos, bem como a possibilidade de ampliação dessas, já que novas questões surgem a partir das respostas que são obtidas na entrevista. Essa técnica nos permite também incluir e valorizar o entrevistado na pesquisa, oferecendo-lhe também maior espontaneidade e liberdade necessárias à investigação (Trivinos, 1987). Para caracterização dos sujeitos desta

47 Para contextualizar o leitor, preferimos colocar os dados gerais de todos os sujeitos acima da descrição das entrevistas/, embora esses se encontrem como primeira atividade.

investigação, estudamos variáveis como idade, onde e com quem moram, o que fazem quando não estão na escola, de que brincam, se têm amigos. O roteiro da entrevista incluía, também, questões relativas ao trabalho; quem trabalhava na família e os tipos de atividades desenvolvidas.

Sentimentos humanos - esta atividade foi extraída do livro Quando alguém

especial morre, de Heegaard, M. (1998), publicado pela Editora Artes Médicas. Foi uma atividade pensada por nós para mobilizar a criança e propiciar a discussão sobre os sentimentos humanos e acerca dos sentimentos da criança. Mostrávamos a criança a atividade e explicávamos sobre a existência de alguns sentimentos humanos como raiva, medo, alegria, tristeza, dentre outros.

Expressões faciais – tal como a atividade imediatamente acima retiramos o

instrumento utilizado do livro de A arte de fazer fantoches (Oliveira, 1998), que continha expressões faciais humanas em que poderiam ser identificadas algumas delas decorrentes de sentimentos. O objetivo nosso era, mais uma vez, proporcionar condições que fizessem emergir aspectos da subjetividade do sujeito que pudéssemos relacionar com a temática estudada. Apresentávamos a atividade para a criança dizendo que as carinhas ( expressões faciais) mostravam para nós alguns dos sentimentos que falamos anteriormente. Solicitávamos à criança que nos apontasse nas carinhas aquela que tivesse a ver com os sentimentos das pessoas de medo, alegria; tristeza, etc. Logo em seguida perguntávamos a criança em que situações apareciam tais sentimentos.

História do Pinóquio – utilizamos essa estratégia para mobilizar a criança a entrar

em seu ‘mundo’ por meio de uma personagem infantil, abordando temas tais como: ser criança, família e dinâmica familiar, papéis sociais no interior das famílias e processos de

socialização presentes. Comunicávamos a criança que iríamos conversar um pouco sobre a História do Pinóquio se ela a conhecia; se a resposta fosse afirmativa solicitávamos para que ela nos contasse. Se a criança desconhecesse, contaríamos a história de forma à criança pode completar e imaginar como ele seria, o que faria, se tinha família, com quem morava, etc.

O desenho de uma família qualquer – nessa atividade, nossa intenção não era

interpretar o desenho em si, mas recorrer ao desenho como atividade desencadeadora do discurso da criança 48. Questionávamos se a criança gostava de desenhar e a partir da resposta (somente uma criança disse que não gostava de desenhar, e por sinal desenhar muito bem, mas não se incomodou de desenhar para nós) sugeríamos que ela desenhasse uma família qualquer, qualquer família que viesse a sua cabeça. Algumas nos perguntaram se poderia desenhar a família do Pinóquio, outras já afirmavam que iram desenhar sal própria família.

O desenho da família do sujeito - Depois da criança desenhar uma família qualq uer,

solicitávamos a criança para que ela desenhasse sua família. Empregamos esta estratégia não com a intenção de interpretar o desenho, mas para perceber, de alguma forma, elementos da dinâmica familiar.

Bate-bola. Esta estratégia é composta por pequenas 14 frases, para serem

completadas pela criança de forma rápida, sobre sentimentos, aspirações, preferências pessoais. Algumas frases foram retiradas do livro de Branden (2000) O poder da auto-

48 O desenho tem sido muito utilizado como procedimento em pesquisas com crianças. Para maior aprofundamento remetemos o leitor para as contribuições de Ferreira, (1998) e Grubits, S; Harris, (2001).

estima; outras, adaptadas e elaboradas por nós. A seguir, apresentamos as frases que compõem o instrumento:

1-Eu fico alegre quando... 2-Eu fico triste quando...

3-Eu me sinto culpado quando...

4-Quando alguém faz algo de que eu não gosto, eu... 5-Eu fico irritado quando...

6-Eu tenho medo quando...

7-Quando eu me olho no espelho, eu... 8-Eu gosto de mim quando...

9-Eu gosto menos de mim quando...

10-A parte do meu corpo que mais gosto é... 11-A parte do meu corpo que eu menos gosto é...

12-Se eu pudesse mudar alguma coisa em mim, eu mudaria... 13-Meu maior sonho é...

14-Minha vida é...

Na seqüência, temos os aspectos abordados nas entrevistas com os profissionais da escola (direção, coordenação, supervisão).

1- Há quanto tempo a escola funciona?

2-Quanto tempo trabalha na escola (profissional)?

3-De que é composta é a estrutura física da escola? (possui biblioteca, vídeo, quadra esportiva, etc).

4-Como é o funcionamento da escola (turnos, horário de funcionamento, séries, número de alunos etc).

5-Quais as maiores dificuldades encontradas na escola? 6-Como é a participação da família na escola?

Na entrevistas com as crianças, abordamos os seguintes dados: 1- Nome

2-Idade

3-Com quem moram 4-Local onde moram 5- Número de irmãos 6-Idade dos irmãos 7-Quem trabalha em casa

8-Sobre os amigos: se têm amigos, de onde são os amigos (escola, rua) 9-O que pensam da escola que freqüentam

10-Quando não estão na escola, o que fazem 11-Quais as brincadeiras preferidas.