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Section 1: Theoretical approach

1.2 Literature review

1.2.3 Risk Acceptance Criteria

O processo de múltiplas etapas da carcinogênese envolve a aquisição gradual de mutações e alterações epigenéticas na expressão de vários genes que têm funções diferentes e vitais para o bom funcionamento do ciclo celular, sendo assim o conhecimento em relação ao mesmo é fundamental para entender o processo da tumorigênese (ANGADI; KRISHNAPILLAI, 2007; LAZZARO et al., 2009).

O ciclo celular é definido como mecanismo pelo qual as células se multiplicam. Este processo consitui uma sequência ordenada de eventos que duplicam os componentes de uma célula e as dividem em duas. O ciclo celular eucariótico é tradicionalmente dividido em: interfase, que compreende as fases de síntese protéica (G1), replicação do DNA (S) e duplicação dos centríolos (G2); e M (Mitose). Vale ressaltar, que algumas células podem retardar o avanço da fase G1, entrando em uma fase de parada (G0), onde permanecem até encontrarem condições ideais para prosseguir o ciclo celular. As células eucarióticas apresentam um grupo complexo de proteínas regulatórias que formam o sistema de controle do ciclo celular, o qual desempenha um papel central na regulação do número de células nos tecidos do corpo. Quando este exibe alterações ou problemas em seu funcionamento, as divisões celulares excessivas podem resultar em um processo neoplásico (ALBERTS et al., 2009).

Neste contexto, Lazzaro et al. (2009) mencionaram que a manutenção da estabilidade gênomica é de fundamental importância para as células que se encontram ou não em divisão. Qualquer alteração na estrutura genômica pode acarretar a perda do controle da proliferação e/ou morte celular.

Para tentar evitar a progressão e/ou produção de células alteradas, existem dois principais pontos de checagem no ciclo celular (checkpoints). Um na transição G1/S e outro em G2/M. A fase S é o ponto limite no ciclo celular e antes de uma proliferação celular, o ponto de verificação em G1/S avalia a presença de lesão de DNA. Nestes checkpoints, o ciclo

pode ser interrompido através de mecanismos de freagem, permitindo assim que a célula tenha tempo para reparar o defeito e dar continuidade ao ciclo (ALBERTS et al., 2009). Martin et al. (2010) relataram que o sistema MMR (mismatch repair) é requerido para a ativação inicial eficiente do checkpoint em G2, em resposta à radiação ionizante.

A progressão ordenada das células através das diversas fases do ciclo celular é orquestrada pelas ciclinas e pelas quinases dependentes de ciclina (CDKs) e seus inibidores (ANGADI; KRISHNAPILLAI, 2007). As ciclinas D, E, A e B são sintetizadas durante fases específicas do ciclo celular e sua função é ativar as CDKs, através da fosforilação. González- Ramírez et al. (2011) e Souza et al. (2011b) afirmaram que a desregulação dos sistemas de controle do ciclo celular atua como um fator fundamental na carcinogênese oral.

Diante disso, a célula busca de alguma forma reparar possíveis danos no DNA durante o ciclo celular, mas especificamente durante os checkpoints. Mesmo com dois pontos de parada durante o ciclo celular, algumas falhas ainda podem ocorrer durante a fase de replicação do DNA. É nesse contexto que o MMR é ativado, possuindo um importante papel na redução de mutações e manutenção da estabilidade genômica (CZERNINSKI et al., 2009). Acredita-se que uma maior expressão dos genes MMR seja necessária para ativação do checkpoint e parada do ciclo celular nos casos de danos ao DNA durante o crescimento celular (SEIFERT; REICHRATH, 2006).

O processo através do qual as células normais adquirem fenótipo maligno é denominado carcinogênese. Este requer aquisição sequencial de mutações, as quais surgem como uma consequência de danos ao genoma. Tais danos podem resultar de processos endógenos, como erros na replicação do DNA, instabilidades químicas intrínsecas de certas bases de DNA ou a partir do ataque de radicais livres, geralmente durante o metabolismo da célula. Esses danos também podem resultar da ação de agentes exógenos, como a radiação ionizante, a radiação UV, sendo esta última bem reconhecida na carcinogênese de lábio inferior. As células envolvidas no dano exibem capacidade de reparar esses erros, mas por diversas razões esses danos podem continuar a ocorrer e as mudanças permanecerem no genoma, gerando mutações (BERTRAM, 2001).

A carcinogênese oral é considerada um processo complexo, a qual se inicia a partir de estímulos denominados carcinógenos. São descritos que os três maiores estímulos carcinogênicos orais são: os agentes químicos, representados pelo fumo e álcool; os físicos como a radiação UV e os infecciosos relacionados com vírus oncogênicos como o human pappilomavirus (HPV). Estes são os principais responsáveis por alterar a estrutura dos genes

por diversas maneiras, promovendo, por conseguinte, múltiplas alterações no genoma (NAGPAL; DAS, 2003; CHOI; MYERS, 2008).

De acordo com Xavier et al. (2009), a carcinogênese de lábio inferior constitui um modelo de fotocarcinogênese, referindo que esta neoplasia parece surgir mais comumente a partir de uma QA, a qual constitui um lesão potencialmente maligna (FREITAS et al., 2008), pode ser explicado pela variabilidade evidenciada em seus aspectos morfológicos, pois o dano provocado pela radiação solar pode acarretar desde uma hiperceratose com ou sem displasia até um CE.

A maioria dos estudos referem-se ao modelo de fotocarcinogênese em pele, o qual se acredita ser o mais semelhante ao que ocorre em lábio No que se refere ao papel da radiação solar na carcinogênese de lábio pode-se afirmar que o componente UV é o principal fator responsável pelo dano ao genoma. Os raios UV são divididos em UVA (320-400nm), UVB (280-320nm) e UVC (200-280nm), os quais possuem propriedades mutagênicas distintas. O tipo UVA está mais relacionado a efeitos deletérios indiretos ao DNA, o UVB é capaz de atuar diretamente no DNA e o tipo UVC é absorvido pela camada de ozônio, sendo irrelevante para a fotocarcinogênese. O tipo UVB tem sido considerado pela literatura o principal responsável pelo CE de lábio inferior. (PFEIFER; YOU; BESARATINIA, 2005; DE GRUIJL; VOSKAMP, 2009; RODUST et al., 2009; IKEHATA; ONO, 2011; SOUZA et al. 2011a).

O raio UVA também tem sua importância e contibui na carcinogênese induzida pela radiação solar, embora em menor intensidade. Os principais danos causados pelo tipo UVA às células humanas estão relacionados a geração de espécies reativas de oxigênio (ROS), promovendo a formação de bases de DNA oxidativas. A especificidade de mutação da onda longa UVA é diferente, quando comparada às ondas de menor comprimento, sendo caracterizada principalmente pelas trocas de bases de G para T durante a replicação do DNA, presumivelmente resultantes de mecanismos que envolvem bases de DNA oxidadas (PFEIFER; YOU; BESARATINIA, 2005; RÜNGER; KAPPES, 2008).

A principal característica da mutagênese via UVB é a alta freqüência de mutações de transição em seqüências dipirimidinas contendo citosina. A radiação UVB é capaz de induzir a formação de lesões no DNA, formando dímeros de pirimidina-ciclobutanos (CPDs) e fotoprodutos 6-4 pirimidina-pirimidona (64PP), sendo que as CPDs são formadas de 20 a 40 vezes mais em células estimuladas pela radiação solar, que outros fotoprodutos do DNA. Essas lesões são formadas exclusivamente em resíduos de pirimidina, que constituem regiões altamente susceptíveis para mutações e lesões no DNA e podem dar lugar a mutações

específicas que compreendem a transição C→T (esta considerada assinatura de lesões induzidas pela radiação UV) e CC→TT nas sequências dipirimidínicas (PyPy), isso se não forem reparadas. Em cânceres da pele, cerca de 35% de todas as mutações no gene p53 são transições em dipirimidinas dentro da seqüência 5´-TCG e 5´-CCG. Os CPDs são responsáveis por uma fração considerável (aproximadamente 80%) das mutações induzidas pela luz solar em células de mamíferos (PFEIFER; YOU; BESARATINIA, 2005; DE GRUIJL; VOSKAMP, 2009; RODUST et al., 2009; IKEHATA; ONO, 2011). É nesse sentido que o MMR torna-se fundamental para o reparo do DNA, já que o sistema MMR (mismatch repair) é a principal via de reparo dessas lesões (JASCUR; BOLAND, 2006; SEIFERT; REICHRATH, 2006).

Têm sido propostos modelos para explicar como a radiação causa danos a célula. Esse processo de danos às bases de DNA tem sido definido como “translesion DNA synthesis“ (TLS). Existem basicamente 2 modelos: 1. “error free” bypass onde ocorre a desaminação (remoção do grupo amina) da citosina na presença de CPDs através da DNA polimerase ᶯ; 2. Two step model onde observam-se erros induzidos pelos CDPs e outros fotoprodutos em cooperação com 2 ou mais DNA polimerases (Figura 1) (IKEHATA; ONO, 2011).

Figura 1 Esquema do mecanismo da mutagênese induzida pela radiação UV. FONTE: Adaptado de Ikehata;

Ono (2011).

O acúmulo dessas alterações genéticas, incluindo ativação ou supressão de oncogenes e genes supressores tumorais, conduzem ao desequilíbrio no ciclo celular, gerando danos ao DNA e perda do controle do ciclo celular, favorecendo uma instabilidade nos genes (CHOI; MYERS, 2008). Nos genes supressores tumorais, ambos os alelos são inativados, gerando perda de função. Esse grupo de genes atua durante o ciclo celular evitando que células com

mutações prossigam no ciclo e transmitam tal mutação para suas decendentes (BERTRAM, 2001).