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O edifício da FAU está implantado ao longo do eixo da Av. Professor Luciano Gualberto, na zona central do campus da USP. No sentido sul, após cruzar a Rua do Lago, temos próxima uma grande mancha verde. O entorno do edifício e adjacências encontram-se em área de arborização expressiva. O edifício está situado em cota elevada, com relação à Av. Professor Luciano Gualberto, separado desta por um jardim gramado.

A edificação é composta por um único bloco de fachadas permeáveis. O volume construído tem dimensões de 110m, no sentido longitudinal, por 66m no sentido transversal. Os ambientes internos se distribuem em torno de um amplo pátio central, o Salão Caramelo, que se mantém como referência para orientação dos fluxos circundantes (ver fig.48-53).

Podemos observar um sistema de espaços de transição, configurando um gradiente espacial, composto pelos planos externos de acesso ao edifício, o peristilo que contorna as quatro fachadas do volume, o próprio Salão Caramelo que interliga todo o sistema, em conjunto com as rampas de circulação, até os ambientes mais internos. Não há portas interferindo na continuidade dos espaços. Os pisos se distribuem em sete níveis, que se desenvolvem no sentido longitudinal da edificação. No sentido transversal se dá a comunicação por escadas e rampas cujos lances conduzem aos patamares intermediários adjacentes, de forma clara e concisa, tornando fluida a comunicação entre níveis.

Na fachada frontal, o acesso se dá a partir de um patamar destacado, elevado em relação ao terreno. Este plano aponta diretamente para as rampas que ascendem e descendem no interior do volume, articulando a comunicação entre ambientes. Deste ponto, na área coberta, temos uma comunicação lateral com o Salão Caramelo. Aqui, uma simples circulação, limitada pelo vazio que revela o piso do subsolo integrado ao ambiente geral. Apenas bancos longitudinais protegem o vazio de uma aproximação. Ainda há um acesso secundário na frente do edifício que leva diretamente ao Salão Caramelo.

Numa aproximação pelo peristilo lateral, nos deparamos com a transparência dos planos de fachada. Observa-se bem o refeitório, no piso superior, e também as oficinas, abaixo. O trecho do peristilo localizado no eixo do edifício, junto às rampas, é utilizado como bicicletário e estacionamento coberto. Ocorre uma distensão do espaço de circulação externo, expondo o conjunto das rampas e provendo um rasgo de iluminação lateral.

No entorno da FAU, os equipamentos se comunicam pelos jardins e passeios paralelos às vias de circulação do campus. Os edifícios próximos são baixos, de perfil horizontal: como o próprio anexo da FAU (localizado lateralmente, onde temos configurado um anfiteatro de linhas elementares); o edifício da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas; e o edifício do IME-USP (Instituto de Matemática e Estatística).

Figura 48 – Planta baixa pavimento de acesso –

térreo. Continuidade

espacial entre exterior e

interior. Fonte das

Figura 49 – Planta baixa

subsolo. Fonte das

Figura 50 – Planta baixa 1o

pavimento. Fonte das

Figura 51 – Planta baixa 2o

pavimento. Fonte das

 

Figura 53 – Fachadas frontal e posterior. Na fachada frontal, observamos a condição de abertura do volume, com livre

3.6 | A transição entre escalas

Na moderna luta entre tempo e espaço, o espaço era o lado sólido e impassível, pesado e inerte, capaz apenas de uma guerra defensiva, de trincheiras – um obstáculo aos avanços do tempo. O tempo era o lado dinâmico e ativo na batalha, o lado sempre na ofensiva: a força invasora, conquistadora e colonizadora. A velocidade do movimento e o acesso a meios mais rápidos de mobilidade chegaram nos tempos modernos à posição de principal ferramenta do poder e da dominação. (BAUMAN, 2001, p.16)

Entre os aspectos mais destacados da Modernidade líquida, de Z. Bauman (2001), está o da supremacia do tempo sobre o espaço. O tempo acelerado liquefaz os sólidos; a fluidez define o ritmo de apropriação do espaço, regula a mudança do locus. Uma nova ordem de preponderância da economia, desembaraçada de condicionantes éticas, políticas ou culturais, que ainda buscam se fixar ao espaço. “No estágio fluido da modernidade, a maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial” (Ibid, p.20). Tudo é arrastado pela torrente. O sujeito é deslocado de sua identidade fixa, de tradição sedentária, para assumir outro sentido de identidade: aquele associado ao hábito nômade.

A expressão maior desta realidade líquida é a própria metrópole contemporânea, necessariamente fluida, transitável em toda a sua extensão, em transformação contínua. A aceleração do tempo sobre o espaço leva também à ampliação da escala: territórios a serem conquistados, colonizados, anexados; dissipação de fronteiras. Quanto maior a escala, maior a força da torrente líquida.

A terceira margem do rio | Um espaço de transição radical – Rosa (2001)114 mostra o homem na condição de um trânsito permanente, ao sabor da corrente do rio. Ao aludir a uma terceira margem, reporta esta condição a um lugar... aparentemente inacessível. Uma visão arquetípica – a barca de Caronte (ver fig.54). Uma alegoria do homem brasileiro – “homem cumpridor, ordeiro, positivo [segundo a opinião de] sensatas pessoas” (ROSA, 2001, p.79) –, que passa a viver predominantemente na metrópole, em constante deslocamento, flutuando entre os espaços de produção e os espaços de convivência familiar. Registra o estranhamento cultural e revela que o filho está destinado a substituir o pai neste mesmo espaço.

A obra trata de uma questão de sujeição a novas condições, com base em um entendimento de contexto, a partir de um arbítrio (não necessariamente livre). O sujeito toma uma canoa – um móbil, um veículo –, e se lança nos espaços de um rio que é vasto. O sujeito se

      

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Originalmente editado em 1962.

Figura 54 - El paso de la laguna Estigia, de Joachim Patinir, 1520-1524. Museo Nacional del Prado. A barca de Caronte, eternamente entre margens, fazendo a travessia das almas. Na imagem, a margem rochosa, escarpada, mostra o caminho ao paraíso. No lado oposto, uma margem arborizada, suave, revela o caminho que leva ao inferno. A este último se dirige, resoluta, a alma conduzida. Fonte da imagem: <https://www.museodelprado.es/coleccion/galeria-on-line/galeria-on-line/obra/el-paso- de-la-laguna-estigia/?no_cache=1> Acessado em: 12-04-14.

desterritorializa, não exatamente como um exilado, mas com “outra sina de existir, perto e longe de sua família” (Ibid, p.80). O que ocorre é uma perda de contato com o lugar existencial, relacionado à intimidade familiar, às origens e tradições. Os vínculos de identidade tornam-se tênues: “o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira” (Ibid, p.80).

Se este sujeito em trânsito não puder encontrar esta terceira margem, ele não terá alternativas para seu transitar, que permanecerá incessante. Nas metrópoles brasileiras de hoje, é realidade para muitos o excesso de horas diárias em trânsito, no deslocamento entre casa e trabalho. Fica evidente uma demanda a ser atendida, em que o projeto deve prever a condição necessária de intervalo, como alternativa a uma condição unívoca de deslocamento: “Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente” (Ibid, p.80) Em nossa interpretação, este rio se configura como trama viária, como síntese de uma necessária condição de trânsito – “na vagação, no rio no ermo” (Ibid, p.84) –, tomando para si a própria síntese do tempo urbano: “por todas as semanas, e meses, e os anos – sem fazer conta do se-ir do viver.” (Ibid, p.82)

Nesta improvável dinâmica espaço-temporal, Rosa demonstra um sentido de ruptura com o stabilitas loci115, fator fundamental para a identificação do lugar: “nunca se surgia a tomar

      

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terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente” (Ibid, p.81). Um retrato do sujeito brasileiro moderno, que se desvincula de suas raízes rurais para se expor à solidão dos macro-fluxos urbanos, sem necessariamente encontrar um lugar de fixação, um espaço em que seus valores sejam compartilhados e preservados de modo coerente com as tradições da cultura: “e nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós também, não falávamos mais nele. Só se pensava” (Ibid, p.82). A percepção do que seja a identidade varia com o sujeito; temos a afirmação e a negação deste caráter. Esta questão, em que o conceito de identidade não é linear, vem sendo discutida no campo da teoria social, conforme comenta Hall (2011):

“Em essência, o argumento é o seguinte: as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada ‘crise de identidade’ é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.” (2011, p.7).

FAU-USP [entre escalas] |

This dystopia became reality in various ways (...) Le Corbusier's intended destruction of vibrant street life was realized in suburban growth for the middles classes, with the replacement of high streets by mono-function shopping malls, by gated communities, by schools and hospitals built in isolated campuses (SENNETT, 2006)116

O campus da cidade universitária117 pode ser visto como um reflexo do pensamento moderno que isola as funções da cidade. A implantação do conjunto de escolas foi estabelecido no sítio da antiga fazenda Butantã, numa zona situada à margem da cidade consolidada. O recinto do campus, desta forma, assume um caráter particular, isolado: extensa área reservada às funções do ensino universitário, configurada como parque urbano de ocupação esparsada. As conexões com a cidade dependem do transporte motorizado, e se dão por apenas três acessos principais. Podemos identificar na figura do campus – como recinto118 isolado e monofuncional, segregado da multiplicidade da metrópole – um dos

      

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Tradução livre: "Esta distopia tornou-se realidade de diversas formas (...) a destruição planejada por Le Corbusier da vida vibrante nas ruas foi realizado em crescimento suburbano para as classes médias, com a substituição de grandes avenidas por shoppings mono-funcionais, por condomínios fechados, por escolas e hospitais construídos em campus isolados." Nota: R. Sennett se refere ao Plano Voisin, concebido por Le Corbusier, para a Paris da década de 1920.

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Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira. Sede da USP (campus da capital). Zona Oeste de São Paulo, Butantã.

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A ideia de recinto remonta ao surgimento das cidades. O reducionismo do planejamento urbano moderno, ao propor uma setorização estrita, vinculada a um isolamento das funções urbanas, de certa forma, incita a reprodução de tradições espaciais remotas. Nas antigas cidadelas, a espacialidade era gerada a partir da relação entre diversos recintos que compunham os ambientes de

aspectos associados ao conceito de brittle city, proposto por R. Sennett (2006), em que a estrutura urbana se caracteriza por rigidez estática, suscetível a fraturas e fissuras no tecido da cidade. A cidade da imaginação e da surpresa, dos encontros e da criatividade, gerada pela multipicidade urbana – esta é a cidade que se perdeu por conta do distanciamento, da separação imposta pela visão estritamente funcional: "what,s missing in modern urbanism is a sense of time (...) the city understood as process, its imagery changing through use, an urban imagination image formed by anticipation, friendly to surprise" (SENNETT, 2006)119.

A situação da FAU (ver fig.55), neste contexto, é a de um edifício relativamente isolado no terreno. Um volume ortogonal, de dimensões monumentais e horizontalidade marcante. O edifício é autorreferente e sua relação com o campus pode ser compreendida a partir de um sistema de espaços abertos e relacionados entre si. No centro, temos o espaço livre do Salão Caramelo, ambiente de atração, que concentra força gravitacional; em relação direta com este espaço principal, temos os diversos espaços periféricos internos; na sequência, observamos o perímetro circundante do edifício, composto pelas galerias cobertas, permeáveis ao meio externo; e, em extensão, temos o espaço ambiente dos jardins, em conexão aberta com o campus e a paisagem.