6 Diskusjon
6.6 Risikovurdering for glyfosat
O protocolo desta pesquisa foi aprovado pela CAPPesq, Comissão de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Anexo A), e pela Comissão Científica do Instituto Médico Legal de São
Paulo.
Todos os dados obtidos para a pesquisa são confidenciais e as identidades das vítimas estudadas foram preservadas. A presente pesquisa contou com apoio financeiro, por meio de bolsa de estudos, fornecida pelo CNPq - Conselho Nacional Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
5. RESULTADOS
Foram estudadas 2042 vítimas de homicídio submetidas ao exame de alcoolemia entre janeiro e dezembro de 2005. A maior parte das vítimas de homicídio analisadas foi submetida à necropsia na sede Central (46,7%) do IML do município de São Paulo (Figura 5). Os demais casos foram provenientes dos postos médico-legais das regiões Leste (27,6%), Sul (24,3%) e Oeste (1,4%).
Figura 5. Distribuição da procedência das vítimas de homicídio necropsiadas no município de São Paulo no ano de 2005 segundo o local de realização da necropsia (postos médico-legais).
A Tabela 4 descreve a amostra em relação às variáveis demográficas, resultados de dosagem alcoólica e meio de perpetração da morte. Na amostra estudada, 43% (876) das vítimas apresentaram alcoolemia positiva.
Tabela 4. Descrição das vítimas de homicídio conforme variáveis demográficas, resultados de dosagem alcoólica e meio de perpetração da morte. Município de São Paulo, 2005.
Variáveis Geral Positivos Negativos
n (%) n (%) n (%) Sexo Homens 1899 (93,0) 838 (44,1)* 1061 (55,9) Mulheres 143 (7,0) 38 (26,6)* 105 (73,4) Total 2042 876 1166 Idade <15 17 (0,8) 3 (17,7) 14 (82,4) 15-24 704 (34,9) 229 (32,5) 475 (67,5) 25-34 672 (33,3) 325 (48,4) 347 (51,6) 35-44 389 (19,3) 211 (54,2) 178 (45,8) 45-54 154 (7,6) 78 (50,7) 76 (49,4) 55-64 47 (2,3) 13 (27,7) 34 (72,3) >64 33 (1,6) 4 (12,1) 29 (87,9) Total 2016 863 1153 Grupo étnico Brancos 1053 (51,6) 439 (41,7) 614 (58,3) Pardos 743 (36,4) 336 (45,2) 407 (54,8) Negros 212 (10,4) 92 (43,4) 120 (56,6) Asiáticos 18 (0,9) 1 (5,6) 17 (94,4) Não declaradosa 16 (0,8) 8 (50,0) 8 (50,0) Total 2042 876 1166
Meio de perpetração da morte
Arma de fogo 1605 (78,6) 644 (40,1)* 961 (59,9) Arma branca 193 (9,5) 117 (60,6)* 76 (39,4)
Outrosb 244 (11,9) 115 (47,1)* 129 (52,9)
Total 2042 876 1166
a Vítimas cuja identificação da cor da pele não foi declarada no laudo
necroscópico.
b Outros meios utilizados na perpetração das mortes, tais como enforcamento,
afogamento, espancamento, entre outros.
As vítimas de homicídio eram predominantemente masculinas (93%; 1899 casos). A média de idade das vítimas foi de 30,4 ± 11,5 anos e as mulheres apresentaram uma média ligeiramente maior (32,2 ± 13,5 anos) do que os homens (30,3 ± 11,3 anos) (t=1,89; p=0,03).
Os resultados de dosagem alcoólica variaram de 0,3 g/L até 6,3 g/L, com uma média de concentração de álcool no sangue de 1,55 ± 0,86 g/L. A média observada para o sexo masculino (1,56 ± 0,86 g/L) foi maior do que no feminino (1,21 ± 0,65 g/L), apresentando uma diferença estatisticamente significante (t=2,48; p<0,01). A prevalência de alcoolemia positiva entre os homens (44,1%) também foi maior do que entre as mulheres (26,6%),
2=16,73; p<0,01.
A maioria das vítimas alcoolizadas possuía entre 25 e 34 anos de idade, representando 37,6% (325) das vítimas com resultado positivo para alcoolemia. Entretanto, a proporção de indivíduos com resultado positivo foi maior entre vítimas de 35 a 44 anos, com 54,2% (211) de positividade. Digno de nota é que na amostra estudada, 16,9% (23 de 136) das vítimas menores de 18 anos de idade apresentaram alcoolemia positiva.
O grupo étnico de maior representatividade foi o de pessoas da cor branca (51,6%), seguido pelos pardos (36,4%) e negros (10,4%). A análise dos dados não mostrou diferença estatística ( 2=2,22; p=0,33) do consumo de álcool entre brancos, pardos e negros (o grupo de asiáticos e não declarados foram excluídos da análise por apresentarem um número muito reduzido de vítimas, respectivamente, 18 e 16).
Do total de vítimas de homicídio, analisando-se o meio de perpetração, temos que 78,6% (1605 vítimas) foram mortas por meio de ferimento por arma de fogo, 9,5% (193) devido a ferimento por arma branca e 11,9% (244) por outros meios.
O consumo de álcool entre as vítimas também mostrou diferenças segundo o meio utilizado para a perpetração dos homicídios. Entre aqueles cometidos por arma de fogo, 40,1% (644) das vítimas tinham feito uso de álcool, enquanto para os outros meios, esse percentual foi maior, 47,1% (115). Os homicídios cujo meio utilizado foi a arma branca, o percentual encontrado foi maior ainda, chegando a 60,6% (117). Essas diferenças se mostraram estatisticamente significantes ( 2 = 31,57; p<0,01).
A Tabela 5 mostra as diferenças entre os sexos de acordo com os resultados de alcoolemia. Mais da metade das vítimas estudadas eram adolescentes e adultos jovens do sexo masculino, visto que os homens na faixa de 15 a 34 anos concentraram 63,7% (1285) do total de homicídios para quais foi possível obter a idade das vítimas. Embora com números de vítimas bem menores que os homens (para todos os grupos de idade), a mulher que morre vítima de homicídio também é, na maioria dos casos, jovem.
Para todas as vítimas do estudo, não foi observada diferenças entre os sexos a respeito do consumo de álcool entre os grupos étnicos.
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Homens Mulheres
Geral Positivos Negativos Geral Positivos Negativos
n (%) n (%) n (%) n (%) n (%) n (%) Idade <15 12 (0,6) 2 (16,7) 10 (83,3) 5 (3,5) 1 (20,0) 4 (80,0) 15-24 665 (35,5) 218 (32,8) 447 (67,2) 39 (27,5) 11 (28,2) 28 (71,8) 25-34 620 (33,1) 313 (50,5) 307 (49,5) 52 (36,6) 12 (23,1) 40 (76,9) 35-44 365 (19,5) 201 (55,1) 164 (44,9) 24 (16,9) 10 (41,7) 14 (58,3) 45-54 140 (7,5) 74 (52,9) 66 (47,1) 14 (9,9) 4 (28,6) 10 (71,4) 55-64 43 (2,3) 13 (30,2) 30 (69,8) 4 (2,8) 0 4 (100) >64 29 (1,5) 4 (13,8) 25 (86,2) 4 (2,8) 0 4 (100) Total 1874 825 1049 142 38 104 Grupo étnico Brancos 985 (51,9) 424 (43,0) 561 (57,0) 68 (47,6) 15 (22,1) 53 (77,9) Pardos 690 (36,3) 319 (46,2) 371 (53,8) 53 (37,1) 17 (32,1) 36 (67,9) Negros 196 (10,3) 87 (44,4) 109 (55,6) 16 (11,2) 5 (31,3) 11 (68,8) Asiáticos 14 (0,7) 1 (7,1) 13 (92,9) 4 (2,8) 0 4 (100) Não declaradosa 14 (0,7) 7 (50,0) 7 (50,0) 2 (1,4) 1 (50,0) 1 (50,0) Total 1899 838 1061 143 38 105
Meio de perpetração da morte
Arma de fogo 1529 (80,5)* 622 (40,7) 907 (59,3) 76 (53,1)* 22 (28,9) 54 (71,1)
Arma branca 166 (8,7)* 107 (64,5) 59 (35,5) 27 (18,9)* 10 (37,0) 17 (63,0)
Outrosb 204 (10,7)* 109 (53,4) 95 (46,6) 40 (28,0)* 6 (15,0) 34 (85,0)
Total 1899 838 1061 143 38 105
a Vítimas cuja identificação da cor da pele não foi declarada no laudo necroscópico.
b Outros meios utilizados na perpetração das mortes, tais como enforcamento, afogamento, espancamento, entre outros.
Foi encontrada uma maior proporção de homicídios por arma de fogo tanto entre os homens (80,5%) como entre as mulheres (53,1%). Já o percentual de homicídios praticados por arma branca e outros meios foi maior entre as mulheres (18,9 e 28%, respectivamente), enquanto nos homens a proporção encontrada foi de 8,7% para aqueles cometidos por arma branca e 10,7% para outros meios ( 2 = 60,18; p<0,01).
Observou-se que a faixa de alcoolemia positiva predominante foi a de 0,6-1,5 g/L em homens e mulheres (Figura 6), sem diferenças estatisticamente significantes da distribuição dos níveis de álcool entre os sexos ( 2=7,06; p=0,07). Quase metade das vítimas com alcoolemia positiva (46,4%) situou-se nessa faixa de alcoolemia, seguida da faixa compreendida entre 1,6 e 2,5 g/L, representando 31,5% das vítimas alcoolizadas.
Figura 6. Distribuição das faixas de concentração de álcool no sangue entre homens (N=838) e mulheres (N=38) que apresentaram resultado positivo para a presença de álcool no sangue. Município de São Paulo, 2005.
A Tabela 6 mostra a distribuição das concentrações de álcool no sangue por faixas etárias entre homens e mulheres. A distribuição dos níveis de alcoolemia positiva se mostrou diferente em homens de diferentes faixas etárias ( 2=39,30; p<0,01), com predominância dos níveis maiores que 0,5 g/L nos homens com idade entre 25 e 54 anos. Entretanto, essa diferença não foi observada entre as mulheres ( 2=13,80; p=0,31).
A maioria dos homicídios ocorreu no período da noite (67,2%), entre 18:00 e 06:00 horas. Quarenta e dois porcento dos homicídios (667 vítimas) ocorreram nos finais de semana (Sábado e Domingo), principalmente durante a noite e madrugada. O dia da semana com o maior número de homicídios (134) foi o Domingo, entre 00:00 e 06:00 horas.
Verificou-se uma maior proporção de vítimas com alcoolemia positiva também nos finais de semana durante a noite (Figura 7). Cinqüenta e seis porcento das vítimas de homicídio que foram mortas durante os finais de semana apresentaram resultado positivo para a presença de álcool no sangue, contrastando com 38,5% nos restantes dos dias da semana. Essa diferença também se mostrou estatisticamente significante ( 2 = 49,41; p<0,01).
Os distritos da cidade de São Paulo com maiores taxas de homicídio foram coincidentes com os distritos que apresentaram maiores médias de concentração de álcool no sangue das vítimas de homicídio, como pode ser visto na análise geoespacial apresentada na Figura 8.
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vítimas de homicídio. Município de São Paulo, 2005.
Homens* Mulheres Faixas de alcoolemia (g/L) Negativos 0 - 0,2 0,3 - 0,5 0,6 - 1,5 1,6 - 2,5 >2,5 Negativos 0 - 0,2 0,3 - 0,5 0,6 - 1,5 1,6 - 2,5 >2,5 n % % % % % n % % % % % Idade <15 12 83,3 0 16,7 0 0 5 80,0 20,0 0 0 0 15-24 665 67,2 3,9 18,3 8,3 2,3 39 71,8 2,6 23,1 2,6 0 25-34 620 49,5 4,0 23,4 16,9 6,1 52 76,9 1,9 13,5 7,7 0 35-44 365 44,9 2,7 22,2 19,5 10,7 24 58,3 8,3 20,8 8,3 4,2 45-54 140 47,1 6,4 19,3 17,9 9,3 14 71,4 7,1 7,1 14,3 0 55-64 43 69,8 2,3 7,0 16,3 4,7 4 100 0 0 0 0 >64 29 86,2 0 6,9 3,4 3,4 4 100 0 0 0 0 Total 1874 56,0 3,8 20,4 14,1 5,8 142 73,2 4,2 15,5 6,3 0,7
Figura 7. Proporção de vítimas de homicídio com resultado positivo para alcoolemia de acordo com o dia da semana em que o homicídio ocorreu no município de São Paulo em 2005 (n=1583). *Houve diferença estatisticamente significante com relação à presença de álcool no sangue entre as vítimas mortas nos finais de semana (Sábado e Domingo) em comparação com aquelas mortas nos restantes dos dias da semana ( 2 = 49,41; p<0,01).
Observou-se também que os homicídios estão mais concentrados nas regiões centrais e periféricas do município de São Paulo (Norte, Sul e Leste), distribuição esta que é coincidente com as regiões que apresentaram maiores valores médios de alcoolemia para as vítimas.
Contudo, o coeficiente de correlação de Spearman entre as taxas de homicídio e a média de concentração de álcool no sangue para os 96
distritos da cidade de São Paulo não foi significativo (rs=0,13; p=0,19). Mas foi encontrada uma forte correlação positiva entre essas duas variáveis para os oito distritos que compõem a área Central (rs=0,90; p<0,01), apesar dessa correlação não ter sido significativa paras as demais áreas da cidade.
Figura 8. Mapas da cidade de São Paulo dividida por distritos. A) Taxa de homicídio por 100.000 habitantes*, calculada através da divisão do número de vítimas submetidas ao exame de alcoolemia pela população estimada de cada distrito em 2005 (N=1583). B) Média da concentração de álcool no sangue (gramas de álcool/litro de sangue) das vítimas de homicídio por distrito (n=1583). *Fonte: População estimada para os distritos do município de São Paulo (população total do município: 10.895.521 habitantes) de acordo com IBGE/SEMPLA, 2005.
6. DISCUSSÃO
Os resultados obtidos indicam que o consumo de álcool teve uma alta freqüência em vítimas de homicídio, revelando a magnitude da influência do álcool como fator de contribuição para a vitimização por homicídio na maior cidade do país. Ainda, o estudo foi capaz de fornecer informações importantes sobre variáveis que podem influenciar situações de violência em combinação com a variável desfecho, o uso de álcool.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública, foram registradas 2684 vítimas de homicídio doloso no município de São Paulo durante o ano de 2005.62 Destas, 2042 vítimas (76%) foram analisadas em nosso estudo.
Essa estimativa da porcentagem do número de vítimas de homicídio submetidas à dosagem alcoólica do total de homicídios ocorridos na capital paulistana em 2005 pode ser considerada alta, demonstrando que o viés metodológico presente em nosso trabalho é mitigado, pelo menos em parte, pela atual abrangência e qualidade dos serviços de investigação e registro de óbitos do município de São Paulo.
A diferença observada na distribuição da procedência das vítimas de homicídio segundo o local de realização da necropsia não corresponde à prevalência de casos nas respectivas regiões do município (Central, Leste, Sul e Oeste), já que a divisão das necropsias pelos postos médico-legais da capital não acompanha esse critério (por exemplo, o posto médico legal da região Oeste concentra os casos de vítimas em estado de decomposição,
em sua maioria).
Apesar de não termos a pretensão de considerar as vítimas utilizadas no presente estudo como representativas das vítimas de homicídio do município de São Paulo, não há razão para suspeitar que elas apresentem diferenças quanto à presença de álcool. Ainda, não há nenhuma indicação de que os exames de dosagem alcoólica foram realizados porque havia indícios da influência do uso de álcool e/ou outras drogas pelas vítimas.
Além disso, como a duração entre o tempo da ocorrência da injúria (ou do consumo de álcool) e a morte não foi utilizada como critério de exclusão das vítimas, os resultados encontrados provavelmente subestimam a proporção de casos em que o álcool estava presente no sangue das vítimas no momento do homicídio.
O uso de álcool e a ocorrência de homicídios, portanto, parecem estar relacionados, pois 43% das vítimas apresentaram alcoolemia positiva e a média observada nestes casos foi de 1,55 ± 0,86 g/L.
Pessoas com esse valor de alcoolemia podem apresentar instabilidade emocional, decréscimo da inibição, prejuízo visual, perda do julgamento crítico, enfraquecimento da compreensão, debilidade no equilíbrio e incoordenação muscular14, o que corrobora a hipótese dos efeitos psicofarmacológicos do álcool induzirem comportamentos violentos (como o aumento da agressividade) e o descuido com relação às situações de potencial risco de vida, acabando por predispor o indivíduo alcoolizado a se tornar vítima de delitos, tais como, o homicídio.
Esse resultado é próximo ao encontrado em pesquisa realizada com vítimas não fatais de agressões atendidas no Pronto-Socorro Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, entre agosto de 1998 a agosto de 1999, onde o percentual de alcoolemia positiva encontrado foi de 46,2%,63 bem como os achados do estudo realizado no Instituto Médico Legal de Osasco no Estado de São Paulo durante o período de janeiro a junho de 1997, que constatou positividade para álcool etílico em 38,9% de 396 casos de homicídios por armas de fogo.51
Chervyakov e cols.64 examinaram os processos de homicídios na República de Udmurt, Rússia, durante a década de 90 e concluíram que 40% de todas as vítimas estavam intoxicadas no momento da ocorrência, resultados esses que diferem dos encontrados em Medelin, Colômbia, entre 1990 e 2002, onde 25% das vítimas de homicídio apresentaram alcoolemia positiva.49
A análise desses resultados em conjunto revela que ocorrem variações no consumo de álcool entre vítimas de homicídio de acordo com a população e região geográfica pesquisada, devido, provavelmente, aos diferentes padrões de consumo de bebidas alcoólicas e às diferenças sócio- culturais entre os grupos analisados. Esses fatores devem ser considerados na implementação de medidas preventivas que buscam reduzir o uso de álcool e o número de mortes violentas dele decorrente, dando à abordagem descritiva significados especiais que transcendem a sua simples capacidade de descrever o fenômeno de abuso do álcool.
O sexo masculino apresentou predominância acentuada na amostra estudada. O número de vítimas do sexo masculino é aproximadamente 13 vezes maior que as do sexo feminino, sendo o número de homens com alcoolemia positiva aproximadamente 22 vezes maior que o número de mulheres com alcoolemia positiva. Do mesmo modo, as faixas etárias predominantes chamam a atenção. As vítimas entre 15 e 44 anos (importante fase produtiva da vida) totalizaram 87,5% dos homicídios analisados.
A diferença gritante na proporção de homens e mulheres vítimas de homicídio já foi relatada em diferentes populações43-44;49 e em outras causas de morte violenta.5-7 Uma das explicações para este fato seria o aspecto comportamental diferenciado das mulheres, as quais são menos afeitas a conflitos e brigas de rua, ficando menos expostas às agressões físicas. Por esse motivo, são relativamente poucos os óbitos de mulheres nos registros de homicídios e violência no geral.65
As vítimas do sexo feminino analisadas apresentaram prevalência de casos positivos para etanol e valor médio de alcoolemia inferiores ao dos homens, sugerindo que a menor propensão da mulher ao uso de álcool21 também pode contribuir para que o número de vítimas de homicídios do sexo feminino seja reduzido em comparação aos homens.
Em relação à mortalidade por causas externas é comum apontar que as faixas mais jovens são preferencialmente atingidas.24 Embora generalizada, a violência tem elegido os jovens das regiões metropolitanas como alvo e instrumento preferencial, atingindo as pessoas no início da vida
produtiva.26 Segundo pesquisa realizada por Carlini e cols.66 em 107 cidades do Brasil com mais de 200 mil habitantes, em 2001, o uso de álcool também é maior entre a população jovem, principalmente os jovens do sexo masculino entre 25 e 34 anos, dos quais 85,6% admitem o uso na vida de álcool.
Em nosso estudo, as vítimas de 25 a 34 anos apresentaram o maior número de resultados positivos para o álcool, tanto para homens quanto para mulheres, o que comparado aos dados atuais sobre o consumo de bebidas alcoólicas no país por essa faixa etária,66 corrobora ainda mais a presença de uma associação entre o uso de álcool e a vitimização por homicídio.
Também é digno de nota a magnitude do consumo de álcool revelado pela análise dos níveis de alcoolemia mais freqüentemente observados em homens de 25 a 54 anos, os quais apresentaram a maior prevalência de níveis de álcool superiores a 0,5 g/L.
Nordrum e cols.52 realizaram um estudo na Noruega com base nos resultados da concentração de álcool sanguínea de 1113 vítimas de mortes violentas no período de 1973-1992 e encontraram um nível de alcoolemia predominante semelhante ao presente estudo, variando de 1,0 a 2,9 g/L. Os autores ainda sugerem que o nível de alcoolemia superior a 0,5 g/L em amostras post-mortem deveria ser considerado como uma possível causa de contribuição em todas as mortes violentas.
Essa constatação representa um alarde ao consumo de álcool em nossa sociedade, pois o álcool é uma droga psicoativa lícita e vendida
livremente para indivíduos maiores de idade. Além disso, em nosso trabalho foi observada uma proporção de 16,9% de vítimas menores de dezoito anos alcoolizadas, fato esse preocupante, visto que a venda de bebidas alcoólicas para crianças e adolescentes menores de 18 anos é proibida em nosso país.67
A análise estatística dos dados não revelou nenhuma diferença significante nas proporções de vítimas alcoolizadas de acordo com o grupo étnico. Entretanto, essa relação já foi relatada pela literatura, como por exemplo, o estudo de Goodman e cols.44 baseado nos arquivos policiais de 4950 vítimas de homicídio, entre 1970 e 1979, em Los Angeles, o qual revelou que a presença de álcool era mais comum entre vítimas de origem latina do que entre negros, brancos e outros.
A distribuição étnica das vítimas estudadas mostrou ser congruente com a distribuição estimada para a Região Metropolitana de São Paulo no ano de 2007,68 onde a maioria da população possuía entre 15 e 49 anos (56,2%) e o grupo étnico com a maior representação era formado por indivíduos brancos (60,3%), seguidos dos pardos (30,3%) e negros (7,2%), demonstrando que a seleção da amostra para este estudo não foi afetada por vieses.
As armas de fogo foram os instrumentos mais utilizados na perpetração dos homicídios, ocorrendo uma maior proporção de homicídios por arma de fogo entre os homens do que entre as mulheres. Atualmente, os homicídios se mantêm como uma importante causa de morte da população brasileira, situando-se em primeiro lugar entre as mortes por causas externas, sendo
as armas de fogo o principal instrumento utilizado pela população total e nos dois grupos de sexo.69
Nas capitais, a situação mostra-se ainda mais grave. No ano 2000, a proporção de homicídios com armas de fogo superou 80% em seis capitais, chegando a 92% do total de homicídios ocorridos em Recife. Todas as capitais, com exceção de Salvador, apresentaram coeficientes de mortalidade por homicídios por arma de fogo maiores que a taxa média brasileira.69
Nas vítimas femininas, a proporção de homicídios cometidos com arma branca e outros meios superaram a encontrada na amostra masculina, o que aponta para diferenças na dinâmica social relacionadas a esse tipo de morte quando considerados os dois grupos de sexo. É amplamente discutido na literatura o fato de que, entre as mulheres, a violência é perpetrada, majoritariamente, por familiares e parceiros, e, portanto resultante de conflitos de ordem “privada”. Entre a população masculina predominam os casos de agressões por estranhos, ocorridos no espaço público e relacionados, em grande parte, com a criminalidade urbana.70
Os resultados encontrados na presente pesquisa, apesar de indicarem uma diferença significante para o percentual de homicídios praticados por arma branca e outros meios entre homens e mulheres, apontam para uma situação preocupante, uma vez que mesmo entre as mulheres predominam os homicídios cometidos com armas de fogo.
É controversa a relação entre a disponibilidade de armas de fogo e o crescimento da violência. Entretanto, estudo formulado por Reiss71 mostra
que áreas com maior número de armas apresentam maiores taxas de homicídio em geral e homicídios por armas de fogo. A influência das armas de fogo nas taxas de violência varia, ainda segundo Reiss, entre diferentes países e relaciona-se a uma série de características como legislação, organização e efetividade dos sistemas judiciário e policial, além de fatores culturais e sociais. Costa72 aponta que, embora em Israel e na Suíça a população tenha acesso a essas armas, as taxas de homicídio não são altas. Não se trata, portanto, de atribuir somente à presença de armas de fogo a causa dos elevados índices de homicídio no Brasil.
A presença de álcool foi mais comum nas vítimas mortas através de ferimentos por arma branca (60,6%), mas também foi detectada em 47,1% das vítimas de homicídio por outros meios e 40,1% daquelas cujo homicídio foi praticado por arma de fogo. Esses resultados são comparáveis aos obtidos por Wolfgang43 na Filadélfia entre 1948 e 1952, onde 72% dos homicídios resultantes de “facadas” estavam associados com históricos do uso de álcool por parte das vítimas e/ou agressores, enquanto 55% dos homicídios por arma de fogo possuíam histórico associado ao uso de álcool.
Sabe-se que, ao lado das armas de fogo, as bebidas alcoólicas são um dos mais importantes fatores criminógenos, na presença dos quais, em um contexto prévio de conflito, a violência é potencializada.53;55;73 Porém, as armas de fogo são somente um meio para a perpetração do crime, pois