A presente tese é fruto de uma longa pesquisa que transcende as particularidades e experiências pessoais deste autor, que pela paixão por
desenhos e pelas artes humanas, construídas e habitadas, vislumbraram-se as afinidades com o curso de cinco anos em arquitetura e urbanismo e, posteriormente, com a realização de mestrado em geografia, por pouco mais de um ano e meio. Se numa primeira etapa da formação acadêmica o Trabalho Final de Graduação teve como proposição uma “Cidade das Artes”6 para Uberlândia – MG, a segunda propõe uma intervenção urbana utópica como tema de dissertação, denominada de “Parque Linear da Prainha: Uma ruptura de paradigmas na intervenção urbana”7 em Cuiabá-MT. Contudo, ambos os trabalhos possuem um forte apelo urbano. O primeiro, mais arquitetônico que urbano, o segundo, mais urbano que arquitetônico. Assim, partindo-se do “deconstrutivismo arquitetônico-urbanístico-cultural” de 2003, e da “utopia de intervenção urbana” de 2007, chegou-se nas “Cidades Sustentáveis” de 2011, numa trajetória em busca da coerência e continuidade de um processo de amadurecimento intelectual e compreensão mais aclarada sobre a cidade. Posta esta breve introdução, prossegue-se à descrição do processo metodológico adotado nesta tese de doutoramento em arquitetura e urbanismo...
6 Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo defendido em fevereiro de
2003, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Uberlândia, em Uberlândia-MG.
7 Dissertação de Mestrado em Geografia defendida em novembro de 2007, no
Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá-MT.
a. A pesquisa
A pesquisa se inicia em 2007, ainda na elaboração do projeto de tese como pré-requisito de ingresso no PPG-FAU-UnB, contudo, no decorrer das disciplinas entre a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e o Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), ambos da UnB, entre os anos de 2008 e 2009. A partir de então se muda o foco de análise da tese, que a condiciona para uma abordagem mais ampla (sistêmica) e complexa, num primeiro momento, a partir dos conceitos estudados em Urbanismo Sustentável, disciplina ministrada pela Profª. Drª. Marta Romero (no segundo semestre de 2009). Assim sendo, o trabalho de pesquisa passou a se debruçar de início sobre o estudo de teorias urbanas contemporâneas, inseridas no campo da sustentabilidade aplicada à arquitetura e ao urbanismo, para então posteriormente se definir uma abordagem regional de análise urbana e de aplicação conceitual no estudo urbano (estudo de caso), que se apontou para a cidade de Cuiabá - MT.
Desta forma, inicialmente o trabalho transcorreu por meio de uma vasta revisão bibliográfica na qual mais de duas centenas de obras publicadas foram pesquisadas de forma direta e outras centenas de forma indireta, resultando em análises parciais destas pesquisas, algumas publicadas em periódicos e apresentadas em eventos nacionais e internacionais. As vivências urbanísticas durante esse período foram muitas, Cuiabá, Brasília, Sinop, Lucas do Rio Verde, São Paulo, Recife, Curitiba, Goiânia, Campo Grande, Maringá, Uberlândia, Londrina, Lisboa, Faro, Madri, Toledo, Valência, Bilbao, Plentzia, Porto Galeto, Barcelona, dentre outras diversas cidades visitadas e revisitadas,
instigando-se o olhar, observando-se as particularidades e reformatando as opiniões. Assim como os livros, as vivências de lugares e culturas distintas interagem na formação do conhecimento e, de uma forma mais ou menos direta, definem os rumos de uma pesquisa acadêmica.
Posteriormente, após a fundamentação teórica e redefinição das diretrizes gerais da pesquisa, voltou-se para o entendimento das diferenças e proximidades do urbanismo no Brasil e no mundo, resultando num rebuscado estudo da dispersão urbana, as relações entre a cidade compacta e dispersa, e suas reproduções e consequências nas cidades brasileiras.
A seleção da aplicação das teorias e métodos teve como lócus a cidade de Cuiabá, em virtude de uma série de justificativas referentes à sua localização geográfica, suas condicionantes climáticas extremas, aspectos históricos e de patrimônio cultural, bem como referente aos seus processos de metropolização e urbanização, determinando desigualdades socioespaciais e graves impactos ambientais. As análises das áreas decorreram por meio de avaliação de dados estatísticos (IBGE, IPDU, IPEA, CNM, DETRAN, etc.) de órgãos oficiais e, posteriormente, da análise de imagens aerofotogramétricas (1998) e de satélite (2000, 2002 e 2010). A partir dessas avaliações se realizou o mapeamento da dispersão urbana na escala da cidade de Cuiabá, em Auto Cad (AUTODESK, 2010), recortando as fases entre 2000 a 2010 em decorrência da qualidade das informações coletadas, bem como da compatibilidade e nível de definição das imagens adquiridas. Na escala dos bairros, foram realizados os mapeamentos entre 2002 e 2010 por meio de imagens de satélite em 12
bairros selecionados por amostragem8, correspondente às parcelas urbanas de 25 ha nas quais foram quantificadas a arborização, a superfície de água, a pavimentação, a área construída e os vazios urbanos.
b. O método
A adoção do método científico determina os rumos de uma pesquisa, sua aplicabilidade, avaliação e reprodução. O método aplicado à pesquisa científica orienta, na maioria dos casos, a qualidade do trabalho e compreende, em geral, quatro momentos essenciais:
1. Observação e descrição do fenômeno; 2. Formulação de uma hipótese para explicá-lo;
3. Utilização da hipótese para prever outros fenômenos similares ou consequentes;
4. Realização de ensaios ou observações para verificar se a hipótese está correta.
(SERRA, 2006: 63) A presente pesquisa intitulada “Cidades Sustentáveis: Uma nova condição urbana. Estudo de Caso: Cuiabá-MT” perfaz esse trajeto metodológico por
8 A seleção das 12 áreas urbanas em bairros distintos adotou um critério inicial de
localização conforme as porções urbanas definidas pela legislação local (ou seja, de acordo com as posições geográficas Norte, Sul, Leste e Oeste da área urbana); em seguida, selecionaram-se as áreas conforme as características específicas e particularidades entre as parcelas (áreas mais antigas, áreas de ocupação recente, áreas de degradação ambiental acentuada, áreas de intensa ocupação, entre outras), tendo como ênfase regiões de ocupação predominantemente habitacional (Ver Capítulo 6.3.1).
meio de uma abordagem de sistemas interagentes (Figura 01). Assim sendo, a abordagem sistêmica foi a principal ferramenta metodológica, pois ela decorre de uma visão holística dos fenômenos quando determina que não basta descrever as diversas partes que o compõe, mas que também é necessário investigar as interações entre essas partes e as interações entre o fenômeno e o universo que o rodeia, configurando a prefiguração de um sistema complexo vigente. Portanto, a abordagem sistêmica é condicionada pela totalidade e interação.
Um sistema é um conjunto de objetos, entendido como uma totalidade de eventos, pessoas ou idéias que interagem uns com os outros. Estão incluídos nessa definição os conceitos de “conjunto” e de “interação” e subjacente está a noção de “processo”, uma vez que a interação pressupõe sucessão de diferentes estados do sistema no tempo.
(...) Nos estudos urbanos é comum hoje o interesse pelos chamados sistemas complexos, isto é, aqueles com um grande número de componentes, mantendo intensas interações entre si e com o exterior, como é o caso de uma grande cidade. Está claro que o sistema é o objeto da pesquisa, mas sua caracterização depende muito dos objetivos dela.
Figura 01 A abordagem sistêmica possibilitou a análise dos sistemas e subsistemas interativos, aplicada para pesquisas cuja complexidade exige retroalimentação das atividades
sempre que a avaliação do processo não for satisfatória à proposição da tese científica (objetivos, avaliação e conclusões).
Fonte: Autor (2011) adaptado de (SERRA, 2006: 84)
A compreensão da interatividade do sistema urbano pôde ser mensurada ao longo da pesquisa decorrente de estudos realizados de caráter teórico e conceitual, como também sob análises quantitativas e qualitativas. Na aplicação do estudo de caso, essa metodologia também é retomada para a avaliação dos processos urbanos aplicados em Cuiabá (como se pode verificar no Capítulo 6), identificando por meio de mapeamentos a expansão urbana da
cidade entre 2000 a 2010, e analisando separadamente as parcelas de 25 ha selecionadas dentre 12 bairros característicos, na procura de se compreender o fenômeno de dispersão em suas partes, como também interpretar a forma de ocupação e suas especificidades em cada bairro entre 2002 e 2010. Nestas 12 parcelas urbanas foram analisadas a taxa de ocupação, os vazios urbanos, a superfície arbórea, a superfície de água e quantificação de pavimentação.
Amparadas por conceitos acerca da compreensão da cidade por meio das escalas urbanas (ROMERO, 2003; 2009), associou-se à ideia de sistemas urbanos complexos (RUEDA, 1999), sua interatividade com o entorno e demais sistemas e subsistemas que envolvem a cidade e seu processo de urbanização. Desta forma, propôs-se nesta pesquisa o entendimento dos sistemas urbanos em três níveis9: macrossistemas (contexto Internacional e nacional), mesossistemas (contexto estadual e regional) e microssistemas (contexto urbano e local). (Ver Cap. 2.5, p. 46 e 47)
As escalas urbanas trabalhadas por Romero (2003; 2009) engloba o âmbito do mesossistemas (escala das grandes estruturas ou da cidade) e microssistemas (escala intermediária do setor, escala específica do lugar, e escala específica do edifício). Todavia, a abordagem sistêmica exige a compreensão ampliada das interações urbanas, por isso se optou em criar novas definições e nomenclaturas como complementação às teorias existentes e necessárias adequações a esta pesquisa específica.
Portanto, esta pesquisa apresenta seu viés investigativo (qualitativo e quantitativo) bem como propositivo (dedutivo e indutivo), quando demonstra a ocorrência de problemas urbanos e aponta possíveis alternativas, buscando ainda inovar em alguns aspectos da análise urbana.
9 Esta definição foi proposta nesta tese, todavia, já fora publicada no periódico
Arquitextos (São Paulo), v. 129-08, p. 01-25, 2011 sob o título “O urbanismo sustentável no Brasil: a revisão de conceitos urbanos para o século XXI (parte 02)”, disponível em: < http://vitruvius.es/revistas/read/arquitextos/11.129/3499>.
Por fim, decorrente dessas pesquisas teóricas e aplicações técnicas se chegou ao objetivo deste trabalho, concatenando para a comprovação da hipótese levantada inicialmente, a partir da qual se diagnosticou a configuração de um território urbano disperso e insustentável na capital mato-grossense, prefigurando cenários futuros preocupantes caso os eventos e interações identificados se confirmem.
VIII. PREÂMBULO
A pesquisa intitulada de “Cidades Sustentáveis: uma nova condição urbana” foi desenvolvida por meio do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, vinculado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. A linha de pesquisa é “Paisagem, Ambiente e Sustentabilidade” e foi desenvolvida junto ao “Laboratório de Sustentabilidade Aplicada à Arquitetura e Urbanismo – LaSUS” e ao Grupo de Pesquisa “A Sustentabilidade em Arquitetura e Urbanismo”, ambos coordenados pela Profª. Drª. Marta Romero, líder do grupo de pesquisa citado e orientadora deste trabalho.
O trabalho se organiza em seis capítulos, dos quais o primeiro apresenta os “Paradigmas do Urbanismo Sustentável no Brasil: A Revisão de Conceitos Para o Século XXI”, como parte introdutória da sustentabilidade urbana no contexto brasileiro e internacional. O segundo capítulo trata da “Ascensão do Urbanismo Insustentável”, que traz exemplos de métodos de percepção e interpretação da imagem urbana, suas escalas e sistemas. No terceiro capítulo, o título