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Nosso propósito foi abordar fatores que levaram ao abrigamento e o que mudou a partir de sua chegada à instituição, positiva ou negativamente para a sua construção de sua identidade, uma vez que estamos tratando de crianças em período de aprendizagem. Buscou-se através destas entrevistas identificar elementos da religião que contribuíram para seu processo de apren- dizagem e socialização. Foi adotada uma linguagem simples e livre para que as crianças e os adolescentes não fossem constrangidos. Em cada entrevista, com duração média de 45 minutos, foram coletados dados como idade, escola- ridade e procedência. Abaixo, aspectos da trajetória familiar e de vida, do abri- gamento, do contato com a religião e do processo educacional de socialização aplicado no Vale da Bênção serão apresentados.

1) O que o levou ao abrigamento?

A desestruturação familiar é um dos motivos do abrigamento de crian- ças e adolescentes no Vale da Bênção. Porém, os fatores que levaram a essa situação familiar têm aspectos variados, mas comum ao cotidiano vivido nas cidades brasileiras. Drogas e alcoolismo fazem parte da história de vida desses atores como uma condição e uma consequência. Bebida, drogas, abuso sexu- al, agressões e abandono de incapaz são as causas naturais que levam ao abrigamento.

Meu pai é foragido e alcoólatra, tenho duas irmãs débeis men- tais, um irmão traficante e outro de boa (trabalha e cuida da minha vó), somos sete irmãos, o mais velho tem 22 anos. Meu pai foi acusado de estupro de uma criança e bebia muito. [sic] (Sujeito 1).

Outro relato demonstra a falência familiar e a desestruturação do Esta- do para com o atendimento de crianças em situação de risco social. Para esse sujeito, a convivência da família com álcool e outras drogas levou sua mãe a presenciar uma chacina, onde se fez necessária a proteção da Organização dos Direitos Humanos, que os encaminhou ao abrigo.

Minha mãe foi testemunha de uma chacina, então, ficamos so- bre proteção dos Direitos Humanos. Minha mãe bebia, usava drogas, fomos para o abrigo com minha mãe, mas não adian- tou, ela fugiu, então, tivemos que vir para cá. Desde os nove anos meu avo dava pinga para minha mãe, meu pai esta em Pernambuco, mas, não o conheci e minha vó mora em área de risco, então temos que ficar aqui é melhor [sic] (Sujeito 2). Outro fator para o abrigamento é a incapacidade financeira dos pais. Em alguns casos, a falta de condições financeiras associadas a agressões e alcoolismo provoca uma ruptura dos vínculos familiares desde cedo, como no caso abaixo, em que a família do sujeito é numerosa e fragmentada.

Cheguei aos três anos ao Vale da Bênção, tenho seis irmãos, sou do meio, uma mora aqui, dois com minha mãe, um eu não sei, um com meu pai. Só conheço a mãe, vejo uma vez a cada dois meses, [...] ela tem 42 anos, separaram porque meu pai bebia e batia nos filhos. Estamos no abrigo por falta de condi- ção financeira [sic] (Sujeito 3).

O próximo relato faz parte de uma canção composta por um sujeito que conta a sua história. Durante a entrevista, foi percebida a dificuldade de se falar sobre o assunto, mas a surpresa apareceu quando o rap a seguir foi cantado.

Aquela mãe quando soube que estava grávida/ queria abortar seu bebê/ sabendo que seria difícil criá-la./ Pois as dificuldades eram muito grandes/ às vezes a casa se enchia de sangue com a briga de seus pais,/ era faca, pau, tudo que você imagina [sic] (Sujeito 6).

2) Como era a sua vida familiar?

Os relatos revelam um sentimento de amor, união e profunda valoriza- ção familiar, independentemente de fatos ou condições que levaram ao abri- gamento, porém apresentam lembranças subjetivas da infância.

[...] meu pai vem uma vez por mês, minha mãe uma vez a cada dois meses, é difícil ficar sem família, é sofrido [...] eu brincava com meus irmãos, era bom. [...] gostaria de estar com minha família [sic] (Sujeito 5).

[...] às vezes não tinha comida em casa [...] pequenina, cinco anos, fui para um abrigo [...] eu e meus irmãos íamos ao farol pedir moedinha para comprar um pão. Eu não me lembro disso não, minha mãe que me contou [sic] (Sujeito 6).

De uma forma geral, são vários aspectos que levam a Justiça ou o Conselho Tutelar a retirar a criança da guarda dos pais em prol de seu bem- estar.

Para este sujeito, o fato gerador não foi somente o fato do abandono pela mãe mas também os distúrbios psicológicos do pai.

Eu morava com meu pai porque minha mãe foi embora. Mora- va com ele até os oito anos, mas ele toma remédio controlado, então eu e minha irmã estamos aqui e mais dois em Sorocaba [sic] (Sujeito 5).

Em outros casos, a retirada dos filhos dos braços da mãe é acompa- nhada de força policial.

Entrei na briga da minha mãe com meu padrasto, aí fui ao mé- dico. O médico me viu machucada e chamou a polícia, eu disse que tinha sido meu padrasto que tinha agredido violentado. Mas não era verdade, então minha mãe pediu para desmentir. Fui à delegacia e contei a verdade, mas aí meu padrasto dei- xou minha mãe. Então eu estava no colégio quando a diretora me chamou e perguntou se tinha feito algo. Eu disse que não, então chegou minha mãe com meus irmãos, então aquelas pessoas do conselho arrancaram meus irmãos e eu e nos leva- ram para o abrigo, aí eu fugi, então me mandaram pra cá [sic] (Sujeito 4).

[...] minha família foi retirada a força [...] tenho raiva do juiz, porque tirou minha família e não deixa ver meu irmão [sic] (Su- jeito 3).

4) Como é viver no Vale da Bênção?

Durante as entrevistas, o dia a dia dos abrigados foi acompanhado. Apesar de oferecer uma estrutura de qualidade reconhecida pelas autoridades, é importante obter a opinião dos abrigados sobre o local.

[...] o abrigo é bom, mas não gosto das regras (Sujeito 4). [...] os pais sociais são legais, mas não podemos namorar, sair. Jogo bola, videogame, é bom [sic] (Sujeito 5).

[...] a lei do abrigo proíbe namoro, mas é bom aqui [...] queria morar com minha mãe, morar sozinho não penso, prefiro morar aqui [sic] (Sujeito 3).

[...] acho bom aqui, grande, não tem essas regalias em outros abrigos [sic] (Sujeito 1).

[...] aqui aprendo bastante coisa, lidar com as pessoas, relacio- nar, eu gosto daqui, é um lugar onde podia estar com minha família [...] faço curso em São Roque, vou de ônibus, temos ho-

rários de ida e volta, estudo, uso internet, jogo bola, vôlei, can- to, canto e danço na igreja [sic] (Sujeito 2).

5) Do que você sente falta?

Apesar de serem retirados do seio familiar (pai, mãe, irmãos) por falta de condições que garantissem seus direitos, todos os entrevistados manifesta- ram o desejo de voltar para sua família biológica.

[...] sinto falta de uma família de verdade, pai e mãe, gostaria de estar com todos [sic] (Sujeito 2).

[...] sinto falta da minha família, passeios, assistir novela [sic] (Sujeito 1).

[...] sinto falta da minha mãe e meus irmãos [sic] (Sujeito 4). [...] sinto falta da minha família, é difícil ficar sem família [sic] (Sujeito 5).

6) O que você acha dos funcionários?

Via de regra, os funcionários cumprem seu papel como pais e mães sociais, acolhendo e passando valores familiares abarcados por uma cosmovi- são cristã. Nesse contexto, as crianças veem neles as figuras paterna e mater- na que dão segurança, amor, zelo, mas não os distancia da falta de suas famí- lias biológicas.

Para mim, são meus pais, mas é diferente, estar com eles e [com o] pai e mãe de verdade [...] vejo os “tios” como proteto- res, são tudo que não tive [sic] (sujeito 2).

[...] para mim os pais sociais são meus pais [sic] (Sujeito 2). [...] a “tia” é legal, quando preciso converso com as psicólogas, gosto delas [sic] (Sujeito 4).

[...] os pais sociais são legais [sic] (Sujeito 5). 7) Qual é o papel da religião em sua vida?

Percebe-se que a religião tem sido o meio pelo qual as crianças têm conhecido a Deus, o transcendente, descobrindo valores morais e éticos que valorizam a família e a vida, trazendo paz e segurança.

[...] estar na igreja me ajuda no relacionamento, todos frequen tam [sic] (sujeito 2).

[...] quando não era evangélico fazia besteira, mas agora sou evangélico e consigo me controlar e comportar [...] fui para i- greja e senti um negócio no coração e decidi ser evangélico [sic] (sujeito 1)

[...] vou à igreja às vezes, me acalma [sic] (Sujeito 5). 8) O que mudou para você depois que chegou aqui?

Geralmente as crianças e adolescentes chegam traumatizadas pela forma abrupta com que foram retiradas de suas famílias, o que gera inseguran- ça, medo, solidão. Contudo, após chegarem, descobrem um ambiente livre de muros e pessoas dispostas a ouvi-los, e não somente a ditar regras. Cursos, brincadeiras, escola, passeios, o convívio familiar fazem com que elas encon- trem no Vale da Bênção o lugar ideal para viver com sua família.

[...] quando cheguei tinha medo, me sentia sozinha, queria ligar para alguém [...] aqui aprendo bastante coisa, a lidar com as pes- soas, a me relacionar [...] faço cursos, brinco [sic]. (Sujeito 2). [...] quando cheguei aqui aprendi a ler [...] vir para o abrigo foi melhor, não tenho raiva de ninguém [sic] (Sujeito 1).

[...] já fugi duas vezes, mas a “tia” tem sido legal, conversado, me ouvido, aí eu acalmei, vou sair logo [sic] (Sujeito 4).

[...] estou fazendo cursos, brinco, vou à escola, esta melhor aqui [sic] (Sujeito 5).

9) Qual é a sua expectativa quando sair daqui?

Percebe-se através dos relatos que o ideal de valorização da vida fami- liar e a construção de um cidadão consciente com identidade própria têm sido alcançados.

[...] sonho em ter uma família, fazer minhas faculdades, Direito e Psicologia, achei interessante para poder encontrar minha mãe e ajudar ela parar com vícios e ajudar minha vó [sic] (Su- jeito 2).

[...] quero juntar minha família para morarmos juntos [...] quero ser engenheiro civil [sic] (Sujeito 1).

[...] vou morar com minha mãe, ela esta montando uma lan- chonete para nos manter, vou trabalhar com ela e estudar [sic] (Sujeito 4).

[...] quero estar com minha família [sic] (Sujeito 5).

Em nossas entrevistas, nos chamou a atenção o sujeito 6, uma vez que percebemos sua dificuldade em contar sua história de vida e o sentimento de vergonha diante de um minigravador. Com o desenrolar da conversa, nos con- tou gostar de RAP12

12 Rap é um discurso rítmico com

e escrever letras de música. Questionamos se havia algo

rimas e poesias, que surgiu no final do século XX entre as comunidades negras dos Estados Unidos. Pode ser interpretada a capella bem como com

que gostaria de mostrar, nos respondeu que havia uma musica com sua histó- ria de vida, composta por ela e que faz parte dessa pesquisa disposta como anexo 6.