• No results found

3. TEORETISK RAMMEVERK – SOSIALFAGLIG FORSTÅELSESRAMME

3.2 Resiliens – Forholdet mellom risiko- og beskyttelsesfaktorer

3.2.1 Risikofaktorer

Como portadores de notícias, inicialmente os folhetos serviam de ‘jornais do sertão’. Os cantadores, que viajavam muito em apresentações, levavam aos lugares as histórias que circulavam nas demais localidades por onde passavam. A notícia era veiculada pela voz dos poetas. Com o acesso dos poetas às maquinas impressoras, aos poucos essas notícias iam chegando em forma impressa, mas ainda em poesia. Notícias, por exemplo, do que acontecia nas romarias em Juazeiro do Norte eram muito comuns. Tanto que Padre Cícero, figura marcante da região, está entre os personagens que mais aparecem nos folhetos, ao lado de Getúlio Vargas, Lampião, Frei Damião e Lula.

As figuras dos dois presidentes aparecem com destaque, principalmente porque muitos poetas aparecem comemorando e exaltando os feitos de ambos, enquanto gestores. Getúlio Vargas e Lula são apresentados como heróis, com algumas exceções. Mas de modo geral, os dois presidentes são mencionados nos folhetos como aqueles que trabalharam pelo povo, o que mostra que a história contada nos cordéis é feita da forma como o povo a recebe, e não como a historiografia oficial apresenta. Os atos políticos, as resoluções, o próprio processo eleitoral é abordado de acordo com as referências que se têm dentro da comunidade em que o poeta está inserido. Se ele foi beneficiário do Programa Bolsa Família do governo Lula, por exemplo, ele vai poetizar o programa social como algo positivo.

Lula implementou um audacioso programa de assistência mínima ao carente cidadão que historicamente sempre viveu o drama do abandono, do descaso, total exclusão O Bolsa Família, programa social, humano é claro que não resolve a vida da população mas alivia em parte o caos que os tucanos provocaram aos mais carentes dessa nação

(Jetro Fagundes, 2012)

A preocupação do poeta é mostrar a própria realidade, o seu cotidiano, não necessariamente seguir padrões do exercício jornalístico de apuração, como a prática básica de dar voz a todos os lados de um fato. O poeta conta os fatos de acordo com a própria

opinião e de acordo com as interferências que aquele fato tem em sua vida ou em sua comunidade. É a ótica do poeta que vemos apresentada.

A partir de histórias particulares, os poetas fazem referências aos fatos de que têm interferência global. Assim, aproximam-se do gênero jornalístico-literário das crônicas. Os folhetos fazem um diálogo com os textos apresentados na mídia de massa, algumas vezes dando difusão ao seu conteúdo, outras vezes criticando-os. Afinal, enquanto receptores, os poetas estão sujeitos às mediações sociais, possuem uma formação cultural que faz com que cada um tenha uma interpretação diferenciada das notícias às quais tem acesso.

Os folhetos, assim, atuam também como registro de uma memória, pois relatam fatos de relevância pública. O cotidiano fica registrado em poesia, na forma de uma tradição, une o relato das situações particulares, das “coisas miúdas”, como fazem as crônicas, à história, apresentando-a como causa ou consequência, divulgando, assim, os fatos que os grupos sociais consideram relevantes. Afinal, o interesse do público é que controla o conteúdo que circula nos folhetos, pois este público será também consumidor dos folhetos. É a compra das poesias escritas que sustenta muitos poetas.

A literatura de cordel reflete a sensibilidade coletiva, “a repercussão de atos ou gestos, benéficos ou maus, traduzindo o como e também o porquê as populações o acolhem, e não raro os conservam” (DIEGUES JR., 1986, p. 131). Os relatos representam valores e traduzem as manifestações dos sentimentos dessas sociedades. Os fatos acontecidos que aparecem nos folhetos foram, normalmente, conhecidos por outras mídias.

Quando uma notícia veiculada na mídia de massa é incorporada pela sociedade, moldando o cotidiano, inserindo assuntos e temáticas nas relações sociais, quando os temas passam a fazer parte das rodas de conversa e influenciar, além de novas matérias, comportamentos e decisões. Quando a mídia pauta o interesse do público, os cordelistas usam este assunto/tema para comporem seus versos, por perceberem que seu público também terá interesse em conhecer os mesmos fatos a partir da subjetividade e estética da poesia. Isto acontece por meio de um agendamento. “Esta habilidade de influenciar a saliência dos tópicos na agenda pública veio a ser chamada da função agendamento dos veículos noticiosos” (MCCOMBS, 2009, p. 18). O agendamento é considerado o estágio inicial da formação da opinião pública e, portanto, da construção social da realidade a partir da mídia.

O cotidiano é impresso nos folhetos em forma de poesia. Temos então, por parte do poeta, uma escolha dos fatos considerados relevantes – o poeta age como um gatekeeper – ou interessantes para despertar o interesse do público leitor/ouvinte para a compra. “O ‘agendamento’ adotado pelo poeta é significativo de sua visão de mundo e do seu conceito de

notícia interessante para vender folhetos” (CARVALHO, 2011, p. 19). Este público receptor dos folhetos é também receptor da mídia de massa, normalmente, já teve acesso às informações pela televisão, pelo rádio, pelos jornais ou pela Internet. Assim, o cordel deve oferecer elementos a mais.

Os leitores/ouvintes dos folhetos estabelecem com esta mídia uma relação afetiva que atribui credibilidade ao poeta, considerando válidas as suas escolhas temáticas e opiniões. “Os jornais, apesar do sensacionalismo, não conseguiam atingir, como ainda hoje, as camadas de poder aquisitivo mais baixo e de menor letramento, pela falta de uma relação cúmplice entre os veículos e os leitores” (CARVALHO, 2011, p. 36). Mesmo os folhetos de ficção recebem uma importância e uma aura de verdade. Inclusive, porque quando os poetas contam suas histórias ‘inventadas’, como dizia Patativa do Assaré, a base das histórias está nos causos do Nordeste, ambientados nas tradições em que estes poetas vivem. Mesmo quando ficção, temos nos versos elementos que marcam o cotidiano.

Por exemplo, o folheto da “Quenga que matou o delegado”. A história propõe-se a uma ficção. Permeado de críticas sociais a partir da ótica do poeta, conta da relação de uma prostituta que desperta o interesse de um delegado, que pratica abuso de poder para conseguir contratar os serviços da mulher. Percebemos no texto uma série de estereótipos que fazem parte do imaginário coletivo sobre os dois tipos: tanto o delegado quanto a prostituta. A ambientação e os comportamentos de ambos estão baseados, normalmente, em histórias que circulam pelas conversações cotidianas, tanto nas cidades, como no interior do Nordeste. Mesmo nas histórias de ficção, o que temos ali representada é a realidade dos diversos sujeitos sociais que compõem o todo nordestino.

Madalena, uma mulher De beleza escultural Encantava todo homem

Com seu jeito sensual Era muito disputada Por toda a rapaziada Que frequentava o Curral.

(Klevisson Viana, p. 1)

A expressão “ouvi dizer que...” pode ser um bom mote para as histórias. Não há necessidade de comprovações, dados exatos. Basta que a história, mesmo “inventada”, seja portadora de informações que fazem parte da realidade. Trataremos deste assunto no capítulo seguinte. Aqui, o que pretendemos é apontar essa característica do cordel de veículo de transmissão de informação, tradição e conhecimento. Não apenas literatura de ficção. Pois mesmo os textos de proposta apenas literárias inserem elementos de realidade.

Outro exemplo de crônica poética é o texto “A triste partida”, de Patativa do Assaré. Patativa conta a saga da migração dos nordestinos para o Sudeste do País, fugindo da seca e da situação de miséria que ela causa, em busca de uma possível mudança de vida. O problema social é tratado a partir de uma história particular, a de uma família “inventada”, cuja história se assemelha às tantas reais que existiram e tiveram o mesmo destino, cumprindo exatamente o mesmo percurso.

Nós vamo a São Paulo, que a coisa tá feia; Por terras aleia

Nós vamo vagá.

Se o nosso destino não fô tão mesquinho, Pro mêrmo cantinho

Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo, Inté mêrmo o galo

Vendêro também, Pois logo aparece feliz fazendêro,

Por pôco dinhêro Lhe compra o que tem. Em riba do carro se junta a famia;

Chegou o triste dia, Já vai viajá.

A seca terrive, que tudo devora, Lhe bota pra fora

Da terra natá. (Patativa do Assaré)5

Os cordelistas possuem liberdade para falar sobre o assunto que bem entenderem e da forma que quiserem, sem precisar passar pela censura organizacional das grandes empresas. O aspecto jornalístico desses cordéis é percebido ao se escolher como tema uma notícia factual ou ainda um fato histórico. Sobre esses assuntos, os poetas tecem seus comentários. A escolha dos temas acontece, na maior parte das vezes, por conta de um agendamento em cima de uma notícia veiculada na mídia. Um fato que saiu na grande mídia e chamou atenção é reproduzido pelos cordelistas, que levam ao povo, além da descrição do fato, uma análise dele.

No ultimo dia de maio Em um domingo marcante

Partiu do Rio de Janeiro Um avião muito possante

Que tinha como destino Um país nobre e granfino

A frança, terra distante O vôo 447 Decolou todo normal

5

Mas no Oceano Atlântico Veio o desastre fatal O avião desapareceu Pois ninguém sobreviveu

No vôo internacional (Chico Salvino, 2009)

Temos, pois, cordéis factuais como os sobre o sequestro da adolescente Eloá Pimentel, que comoveu o País em outubro de 2008; o ataque terrorista aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001; a eleição do Presidente Lula em 2002 e 2006. Para Carvalho (2002), é a dose certa entre o tradicional e o contemporâneo.

A história que descrevo, De um menino carente, Nascido no Pernambuco,

Estado de clima quente Que passou fome na vida Mas, que hoje é presidente!!!

(Zé Pessoa)

Os versos dos folhetos trazem a crítica do poeta popular. São manifestações carregadas de opiniões que traduzem a opinião do povo, mesmo que repleta das ideias do senso comum. A crítica social vem travestida na arte cordelista e, ao comentar os acontecimentos, forma opinião. Mas, nos cordéis, a informação que surge tem estética diferenciada da de outros veículos noticiosos. O texto em poesia rimada e a liberdade da qual é dotado o poeta transformam as informações e opiniões publicadas no cordel em uma forma de entretenimento, de diversão popular, muito mais do que um veículo prioritariamente noticioso.

Estes folhetos classificados como “fatos de repercussão social” são os que apresentam fatos de grande interesse público. Desastres, acidentes, crimes, tragédias, assuntos políticos, dentre outros. É dada prioridade a fatos de relevância pública, novidades, notabilidade e tragédias. “Refletem tais fatos os acontecimentos do dia, o que desperta interesse através da acolhida que lhe dão jornais e revistas, rádio e televisão, na difusão dos aspectos principais do ocorrido” (DIEGUES JR., 1986, p. 98). É um registro do momento histórico vivido a partir da ótica do poeta, que insere subjetividade na escolha e na forma como relata os fatos.

Tais fatos tornam-se recorrentes no cotidiano dos poetas, agendados pela mídia, e eles o transformam em folhetos. Os cordéis transformam-se em veículos de informação, atuando junto com o jornal, a televisão e o rádio, começando a perder espaço com a chegada destes últimos. Os folhetos são, então, difusores de informação e de opinião.

Não queremos dizer aqui que poetas são jornalistas, porque compreendemos que a prática do jornalismo vai – ou deveria ir – além da reestruturação de uma notícia em formas distintas6. A notícia que se apresenta nos cordéis em forma de folhetos de acontecido é a versificação de informações adquiridas nos veículos de comunicação de massa, apuradas e difundidas por jornalistas. O cordel aproxima-se do jornalismo quando seu texto possui elementos como atualidade e a difusão coletiva. Os poetas apresentam e comentam os fatos, e distribuem os folhetos da forma que julgam interessar ao público. Mas eles fogem dos elementos periodicidade – a produção não se propõe a manter uma continuidade, nem de seguir os mesmos padrões das outras mídias que têm necessidade do “furo jornalístico” – e universalidade, pois sua linguagem se dirige a um público específico.