2. Teori
2.8 Risikofaktorer for aterosklerotisk hjerte-/karsykdom
A história ocorreu em 199842, o narrador, Cacá, 42 anos, 3 filhos, casamento
em ruínas, dizia-se um “quase virgem” nos chats.. Em uma madrugada, também atra- vés de um chat, conheceu uma mulher: 34 anos, 2 filhos, separada.
Os dois conversaram por mais de três horas, ela deu atenção a algo que nin- guém notava, seu hobby: o mergulho. Ele, morador de São Paulo, e ela, de Florianó- polis. Continuaram a se encontrar em uma sala de chat por “encontros marcados”. Voltaram a conversar muitas vezes, criando uma rotina, e em dez dias ele se sentia a- paixonado.
Quanta coisa havíamos discutido logo no primeiro contato, quanta confiança tínhamos sentido um no outro para nos abrirmos dessa maneira, comentando assuntos que dificilmente comentaríamos com amigos de muitos anos... Ela foi a primeira pessoa virtual com quem me abri escancaradamente, sem rodeios, sem limites, sem reservas. É verdade que a Internet permite que nos façamos passar por aquilo que não somos. Mas não me fiz de herói nem de gostoso e nem de protótipo de homem. Simplesmente me abri com ela, me mostrei como realmente sou. O anonimato me permitiu que eu tivesse coragem de me soltar com uma desconhecida. [...] De uma maneira incrível, esses momentos passaram a ser os únicos, em todos o dia, em que eu me sentia feliz. Tendo ao meu lado, fisicamente, minha mulher e filhos, eu me sentia só. Ao lado de Tetê, virtual, invisível, eu me sentia acompanhado. Uma companheira perfeita, compreensiva, carinhosa, que me ouvia e entendia. (p.273-274)
Ao contar para Tetê o que estava sentindo, ela desapareceu sem se despedir ou dar explicações. Como diz o narrador: “meu mundo caiu, como cantava a Maysa”. Ele procurou por ela em todas as salas mas sem sucesso. Na última noite em que con- versaram, marcaram um encontro no chat, mas ela nunca mais apareceu. Ele se sepa- rou meses depois e a experiência com Tetê foi fundamental para essa decisão. Ele se lembra dela com certa nostalgia, mesmo sentindo que ela o magoou profundamente, mas reconhece que os conselhos, as conversas e os pontos discutidos o fortaleceram para a separação.
Separado, Cacá começou a utilizar sites de encontro e procurar mulheres por email, que, para ele, parecia ser “mais objetivo”. A diferença estaria que nos chats “vo-
cê acaba participando de conversas com todo tipo de maluco e é uma coisa imediata, sem tempo de pensar, quase que puro reflexo. E sai cada coisa.... Já, no email, o papo é mais sensato, refletido: você pode escolher a maneira como vai dizer o que pensa. E, se não gostar da conversa, pode simplesmente deletar a mensagem ou até bloquear o endereço” (p.275).
Ele chegou a se relacionar com uma moça de Ribeirão Preto, mudou-se para lá para viver o relacionamento, mas ele não durou mais do que um ano.
A pensata “Casado infeliz precisa se apaixonar”, feita por Eduardo Ferreira- Santos, psiquiatra e psicoterapeuta, centrou-se no fato de o narrador ser casado e ter tomado a decisão de sair de um casamento falido após a experiência na Internet. O interesse por Tetê, conforme Ferreira-Santos, teria ocorrido porque ela é totalmente virtual e seria apenas uma figura à qual Cacá se vincularia para poder sair do casa- mento. O processo de identificação teria se avolumado pela necessidade da fantasia: a paixão dá o poder da revolução.
Mas o psiquiatra levanta ainda outra possibilidade, a da modalidade “serial kil- ler afetivo”, uma personalidade psicopática, que diz tudo o que o outro queria escutar, cria um mundo de fantasia e depois desaparece. Ele sugere que Tetê possa ter sido uma invenção completa de uma personalidade como esta.
A internet abriu um caminho ideal para isso que já acontece de fato nas relações interpessoais. Sem contar que nas relações da vida real, há um componente da comunicação que é ‘paraverbal’, isto é, tudo aquilo que não é verbal: a postura do corpo, o tom de voz, a expressão facial. Mesmo assim muitas pessoas se recusam a enxergar uma mensagem paraverbal que nitidamente afasta – como quando um homem, em um bar, depois de uma boa flertada, para de olhar para uma mulher. Não adianta insistir depois que ele já desistiu – e talvez tenha desistido até porque ela demorou demais a olhar para ele. O que dizer da Internet, então, onde há apenas linguagem verbal? (p.280)
Ele se utilizou daquilo que se formou entre ele e ela como um espaço em que foi possível ter experiências, dentre elas a possibilidade de se abrir para alguém. Ela não foi idealizada, porque de fato existiu enquanto interação. A separação aconteceu não por ele tentar ficar livre para a Tetê, mas para ficar livre para experiências como aquela, em que ele pôde ser livre para si mesmo. E isso é tanto verdadeiro, que as ati-
vidades foram de fato colocadas em prática em sua vida, ele separou-se, experimentou outras relações.
Na pensata, não foi levada em conta a questão comunicacional, em como as pessoas podem se alterar, se modificar com relações variadas, desde que estas estejam abertas a experiência da alteridade.
A ilusão vivida por Cacá está no campo do lúdico, pois sua experiência foi tan- to subjetiva quanto objetiva, ambas as instâncias se mesclaram e deram origem a uma outra realidade. Algo se transformou nele, algo efetivamente comunicou. A ilusão winnicotiana não é um obstáculo para experimentar a realidade, mas é um meio de acesso a ela. Não há verdadeiro ou falso, porque tudo se baseia na realidade comparti- lhada, o que faz com que essa concepção se forme fora do conceito de princípio de re- alidade.
Foi no jogo dentro de uma espécie de espaço transicional, que Cacá pôde se re- conhecer e avaliar o que pertencia à realidade externa (realidade compartilhada) e o que pertencia à interna. Ele conseguiu fortalecer, ou revitalizar, com a interação com Tetê, sua vida imaginativa, e isso em grau suficiente para que ele, no “desilusionamen- to” com o sumiço dela, não deixasse de olhar para sua vida. Assim como um bichinho de pelúcia, Tetê funcionou como um objeto transicional, e como tal foi sendo desin- vestida gradualmente, à medida que se desenvolvem os interesses culturais, mesmo que isso ainda pertença a esta área intermediária de experimentação.