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O modelo epistemológico responsável por uma mudança significativa na historiografia

– uma verdadeira “Revolução Francesa” nesse campo do conhecimento, segundo Burke216

surgiu na década de 1920, na França. Nesse período, os historiadores Marc Bloch (1886- 1944) e Lucien Febvre (1878-1956) lançaram-se em “combates”217 contra o “Ancien

210

SCHMITT, Jean-Claude. A história dos marginais. In: LE GOFF, Jacques (org.). A história nova. 5. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 351-390.

211

Ibid., p. 351.

212 KERN, Maria Lúcia Bastos. Imagem, historiografia, memória e tempo. ArtCultura. Uberlândia, v. 12, n. 21,

2010, p. 10-21.

213 Ibid., p. 15. 214 Ibid., loc. cit. 215 Ibid., loc. cit.

216 BURKE, Peter. A escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo:

Editora da Unesp, 1997.

217

Régime”218 da historiografia “metódica” e de influência positivista desenvolvida durante o

século XIX. Responsáveis pela publicação da “Revue des Annales d'Histoire Économique et

Sociale” – que, mais tarde, serviria para denominar o grupo da “escola dos Annales”219 –,

Bloch e Febvre condenavam, principalmente, a ideia de neutralidade defendida pelos

“metódicos” em relação à crítica das fontes históricas, procurando afirmar, pelo contrário, a

presença manifesta do pesquisador na escrita historiográfica e no tratamento de seu material empírico.

Para o grupo dos “Annales”, o historiador escreve sobre o passado a partir de uma

determinada realidade social presente, estando o seu projeto, portanto, vinculado às

indagações de seu tempo. Tendo isso em vista, o historiador, sujeito cognoscente, “intervém ativamente no processo de conhecimento”220

e passa a não simplesmente descrever os acontecimentos passados, como forma de demonstrar o progresso moral e material de uma sociedade – modelo de narrativa então muito comum à historiografia “metódica” –, mas passa a compreender as sociedades históricas a partir de problemas e questões contemporâneas. Para Cardoso221, essa nova postura epistemológica é denominada de “construcionista”, pois enfatiza a participação ativa do historiador na geração do conhecimento histórico.222

A mudança de paradigma científico expressa pelo grupo dos “Annales”, na década de

1920, veio acompanhada de uma transformação na noção de fonte histórica, que, a partir de então, passa a ser abrangente. Para ficarmos apenas nas palavras de Bloch223, este afirma em

suas reflexões sobre o ofício de historiador que: “a diversidade dos testemunhos históricos é

quase infinita. Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e

deve informar sobre ele”224

. Devido a essa nova concepção, mais ampla, de testemunhos

históricos válidos, o grupo vinculado à “escola dos Annales” procurou estudar antigos temas a

partir de novos enfoques, contemplando esferas não só políticas, mas, também, econômicas, sociais e culturais para o entendimento das sociedades passadas.

218

Para utilizar a expressão de BURKE, 1997.

219 Conforme Cardoso (CARDOSO, 2012, p. 5) essa classificação é “inexata”, possui um caráter didático. Por

isso optamos, novamente, por colocar entre aspas.

220 CARDOSO, 2012, p. 5. 221 Ibid., loc. cit.

222

O autor (Ibid., p. 5) ainda lembra que a historiografia marxista, a de inspiração weberiana, e o grupo chamado

de “novos historiadores norte-americanos” também se encaixam entre os “construcionistas”.

223 BLOCH, Marc. Apologia da história, ou, o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 224

O novo manancial de fontes possíveis para a escrita da história tornou necessário o contato dos pesquisadores com outras áreas do conhecimento, na tentativa de aprimorarem tanto a crítica dos documentos como a sua interpretação através de novas noções e conceitos: referências teóricas passaram a ser buscadas em outras disciplinas das ciências sociais, como na economia, na geografia, na linguística, na psicologia e na antropologia. Principalmente, esses contatos interdisciplinares tiveram sua maior expressão a partir do final da década de

1970, através dos historiadores da “terceira geração da escola dos Annales”225– ou a chamada

“Nova História”.

É com o surgimento da “Nova História” que as imagens visuais, incluindo a

fotografia, passaram a ser incorporadas, efetivamente, como material empírico para a escrita historiográfica, tendo sido abandonada a sua velha posição de simples ilustração dos testemunhos escritos. Como assinala Le Goff226, um dos principais nomes da “Nova

História”, a terceira geração dos “Annales” deu prosseguimento à revolução documental

iniciada pelos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre, reafirmando a abrangência dos testemunhos históricos úteis ao historiador:

uma estatística, uma curva de preços, uma fotografia, um filme, ou, para um passado mais distante, um pólen fóssil, uma ferramenta, um ex-voto são, para a história nova, documentos de primeira ordem.227

Além de se debruçarem sobre novos objetos (como a alimentação, o corpo, os gestos, os mitos, o sexo, a imagem) – atitude oportunizada pelo contato com diferentes fontes históricas –, os historiadores da “Nova História” enveredaram por novos domínios.228 Especificamente quanto às imagens, a história do imaginário foi a que recorreu com maior frequência a esse tipo de material. Como afirma Platagean229, em artigo no qual define esse campo de pesquisa que surge como um dos novos domínios da história: “a iconografia

aparece de fato como a testemunha mais evidente do imaginário das sociedades passadas.”

Sobretudo, o campo da história cultural, no qual a noção de imaginário foi desenvolvida, foi o

225 A expressão é de BURKE, 1997. 226

LE GOFF, Jacques. A história nova. In: _____ (org.). A história nova. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 31-84.

227 Ibid, 37. 228

Ibid., p. 61.

229 PLATAGEAN, Evelyne. A história do imaginário. In: LE GOFF, Jacques. (org.). A história nova. 5. ed. São

que mais absorveu a problemática da imagem visual, recorrendo seguidamente ao conceito de representação.230

Sem nos esquecermos do campo da História da Arte, transformações importantes nessa disciplina também se verificaram durante as primeiras décadas do século XX. Nesse período, fruto de reações contra o historicismo que pautava os trabalhos na área, surgem os precursores estudos do historiador da arte alemão Aby Warburg (1866-1929), o qual desenvolveu o método iconológico para a análise de representações e condições sociais de produção das obras confeccionadas por artistas florentinos, tema de seus estudos.231 Segundo Kern232, para tal fim, “esse estudioso lança mão de documentos até então desprezados pelos historiadores da arte, como cartas de mercadores, cartas amorosas, testamentos, mitos, crenças

etc.”, o que o permitia ampliar a compreensão de intenções e redes sociais dos artistas em

questão.

O método iconológico de Warbug influenciou uma geração de historiadores da arte, como Fritz Saxl, Ernst Gombrich, Edgar Wind e, certamente o mais conhecido entre os historiadores, Erwin Panofsky.233 Panofsky foi responsável por lapidar o conceito de iconologia de Warburg, e seu método, conforme Meneses234, acabou tornando-se, “de longe, a abordagem mais corrente entre historiadores para a análise de imagens visuais”. Ainda segundo Meneses235, a repercussão do método de análise visual proposto por Panofsky foi

“considerável e rápida não só no campo da história da arte, mas também em diversas outras disciplinas interessadas na visualidade”.236