2. Bakgrunn
2.1 Moderne eiendomsutvikling
2.1.4 Risiko og kapitalinnsats i utviklingsfasene
A fenomenologia surgiu no início do século XX, com Edmund Husserl, como uma ciência para as experiências vividas. A palavra fenomenologia vem do grego “phainomenon” que significa discurso esclarecedor e do verbo “phanestai” como mostrar-se, desvelar-se. Fenomenologia é, então, o discurso esclarecedor do que se mostra e tem o sentido de “des- velar” o que está oculto (MARTINS et al., 1990; BOEMER, 1994; HOLANDA 1997).
Para Martins (1992), fenomenologia é um nome que se dá a um movimento cuja proposta precípua é a investigação direta e a descrição de fenômenos que são experienciados pela consciência, sem teorias sobre uma explicação causal e tão livre quanto possível de pressupostos e de “pré-conceito”. É o estudo das essências.
A fenomenologia permite a apreensão da subjetividade e é pertinente ao estudo de situações que envolvem dor, sofrimento, perdas, conflitos e relações empáticas. Permite, também, captar o valor da linguagem, da intersubjetividade e das relações dialógicas (BOEMER; ROCHA, 1996).
Husserl (1965) propôs que a fenomenologia se voltasse para o mundo-vida, para a experiência, possibilitando uma investigação daquilo que é possível de ser desvelado e que está virtualmente presente, mas nem sempre visto.
As idéias de Husserl despertaram o interesse de vários outros filósofos, entre eles Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês, nascido em 1908, na cidade de Rochefort-sur-Mer, e falecido em 1961, em Paris. Estudou filosofia e, em 1945, quando se doutorou, foi nomeado diretor de cursos e conferências da Universidade de Lyon, França. Foi professor catedrático de psicologia e pedagogia na Universidade Sorbonne, autor de várias obras e fundador, junto com Sartre, da revista Os tempos modernos (COELHO JÚNIOR; CARMO, 1991; SANTANA, 2000b; CARMO, 2000; SOUZA; ERDMAN, 2003).
Esse filósofo causou grande impacto na intelectualidade francesa por se preocupar mais com o homem em sua existência do que em sua essência, sendo este homem pensado em seu meio natural, cultural e histórico, isto é, como ser-no-mundo (CARMO, 2000).
Para Merleau-Ponty, a fenomenologia é o estudo das essências na existência, onde podemos compreender o homem e o mundo a partir de sua facticidade. Ela é a descrição direta de nossa experiência tal como ela é vivida (MERLEAU-PONTY, 1999).
A fenomenologia para Merleau-Ponty une a ciência rigorosa com o mundo que “está aí” antes da reflexão. É na experiência vivida, fundamentada no ato perceptivo, que se dá o entrelaçamento do corpo com o mundo e vice-versa. A tarefa da fenomenologia é voltar-se para as coisas mesmas, para o mundo anterior ao conhecimento (CARMO, 2000).
Enfatiza que a unidade da fenomenologia e seu verdadeiro sentido estão em nós mesmos, pois tudo o que sabemos do mundo é a partir de nossa visão ou experiência do mundo. A essência de um fenômeno está contida na existência, a essência da consciência é dar-se a um mundo ou mundos, ou seja, fazer dela mesma os seus próprios pensamentos enquanto coisas (MERLEAU-PONTY, 1999).
Merleau-Ponty é conhecido como o filósofo da existência, do corpo, fenomenólogo da percepção, que se preocupou em estudar as relações entre o homem e o mundo (COELHO JÚNIOR; CARMO, 1991).
A fenomenologia de Merleau-Ponty tem influência do cartesianismo, do hegelianismo, da fenomenologia de Husserl, da filosofia da existência de Heidegger e Sartre. É caracterizada por ambigüidades, pois busca unir o extremo objetivismo ao extremo subjetivismo, o mundo à realidade, o empirismo e o intelectualismo. Ambígua porque, para ele, todo conhecimento é fundamentado na percepção e, sob sua ótica, toda percepção é ambígua (COELHO JÚNIOR ; CARMO, 1991; SANTANA, 2000b).
A obra de Merleau-Ponty é complexa e densa, onde a cada momento um pensamento se mostra e simultaneamente outro já se oculta, impossibilitando uma transparência que aponte um caminho sem dúvidas e hesitações. É um pensamento vivo, em constante transformação, incansável na interrogação dos fenômenos (COELHO JÚNIOR; CARMO, 1991).
A unidade da fenomenologia e seu verdadeiro sentido estão em nós mesmos, pois tudo o que sabemos do mundo é a partir de nossa visão ou experiência do mundo. Compreender é retomar a intenção total da coisa percebida, sua maneira única de existir (MERLEAU- PONTY, 1999).
A ciência é construída sobre o mundo vivido e esta não tem nenhum sentido sobre mundo percebido por ser uma determinação ou explicação dele (MERLEAU-PONTY, 1999).
Assim, após nos apropriarmos de algumas idéias de Merleau-Ponty, é que reafirmamos nosso interesse em compreender como os pacientes diabéticos percebem e vivenciam a retinopatia diabética, e compreendermos como isto afeta sua existência com a finalidade de despertar nos profissionais de saúde alguns aspectos para além da dimensão biológica no cuidado humano.
A fenomenologia existencial de Merleau-Ponty é um caminho a subsidiar a compreensão de fenômenos na saúde, os quais estão presentes em nossa prática profissional cotidiana. Isto se torna muito importante, pois para Merleau-Ponty, é na intersubjetividade, ou seja, na intersecção das experiências entre os indivíduos, que o mundo fenomenológico encontra sentido (MERLEAU-PONTY, 1999).
O presente estudo tem como objetivo compreender a percepção visual de pacientes diabéticos, acometidos pela retinopatia diabética.
5.1 Caracterização do estudo
Este é um estudo de natureza qualitativa, tipo estudo de campo, fenomenológico hermenêutico, que busca compreender a experiência do paciente diabético, ao vivenciar alterações na visão causada pela retinopatia diabética.
De acordo com Polit e Hungler (1995), a pesquisa qualitativa se fundamenta nos conhecimentos sobre os indivíduos e, isto é possível através da descrição da experiência humana, como ela é vivida e definida por seus próprios atores. Nessa direção, a pesquisa de campo busca a descrição e a exploração de fenômenos, em cenários naturais, ou seja, em locais de convívio social. Os estudos qualitativos têm como objetivo examinar, profundamente, as práticas, comportamentos, crenças e atitudes das pessoas ou grupos, em ação, na vida real.
Minayo et al. (1994) ressalta que a pesquisa qualitativa responde a questões particulares, preocupando-se com a realidade que não pode ser quantificada, ou seja, trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
Valle (1997) ressalta que a fenomenologia permite ao pesquisador compreender as manifestações do homem, tidas como fenômenos originais, simbólicos que comportam várias interpretações e que se beneficiam do seu conflito. A pesquisa fenomenológica é uma possibilidade de transformar a experiência humana em conhecimento.
5.2 Cenário do estudo
O estudo foi realizado em um Centro de Pesquisa e Extensão Universitária do interior paulista. Nesse local, funciona o Grupo de Educação em Diabetes- GED, no qual, atualmente, estão cadastrados 55 pacientes diabéticos do tipo 1 e do tipo 2. Esses pacientes são atendidos por uma equipe multiprofissional constituída por duas docentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; um docente da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; uma enfermeira de apoio ao Centro; duas nutricionistas clínicas; dois profissionais da área de educação física; doutorandos; mestrandos e alunos de graduação em enfermagem e psicologia.
Nesse Centro, os pacientes diabéticos são subdivididos em quatro grupos. Essa subdivisão em pequenos grupos visa a facilitar a comunicação entre os pacientes e a equipe de trabalho, bem como a identificação das necessidades dos pacientes. A cada terça-feira, os quatro grupos de pacientes são atendidos, em esquema de rodízio, pelas especialidades: enfermagem, nutrição, psicologia e educação física. Desse modo, quatro grupos são atendidos simultaneamente.
5.3 Período do estudo
O estudo foi realizado no período de agosto de 2006 a fevereiro de 2008.
5.4 População do estudo
A população do estudo foi constituída de 54 pacientes diabéticos do tipo 1 e do tipo 2 que participaram do Atendimento Sistematizado utilizando o Protocolo Staged Diabetic
Management (MIYAR OTERO, 2005), com idade entre 29 e 78 anos, e mediana de 60 anos. Encontrou-se um predomínio do sexo feminino, 74,1% com mediana de 61 anos. Os pacientes do sexo masculino foram 25,9%, com mediana de 60 anos.
No que se refere à cor da pele, a maioria, 59,3% dos pacientes, é branca. Quanto ao estado civil, 68,5% são casados. Em relação à ocupação, 42,6% são aposentados. Em relação à escolaridade, 59,3% possuíam o ensino fundamental incompleto. Quanto à renda familiar, 29,6% referiam o valor percebido entre um e dois salários mínimos (Tabela 2).
Tabela 2 - Distribuição numérica e percentual dos pacientes diabéticos atendidos no GED, segundo variáveis sociodemográficas. Ribeirão Preto, São Paulo, 2004- 2005 Variáveis Sociodemográficas no % Branco 32 59,3 Mulato ou pardo 14 25,9 Cor da pele Negro 8 14,8 Total 54 100 Casado 37 68,5 Viúvo 10 18,5 Estado civil Solteiro 7 13,0 Total 54 100 Aposentado 23 42,6 Do lar 18 33,3 Ocupação Trabalha 13 24,1 Total 54 100 Analfabeto 1 1,9
Sem escolaridade e alfabetizado 2 3,7
Ensino Fundamental incompleto 32 59,3
Ensino Fundamental completo 3 5,6
Ensino Médio completo 9 16,7
Ensino Superior incompleto 3 5,6
Escolaridade
Ensino Superior completo 4 7,4
Total 54 100
Até 1 salário mínimo 3 5,6
> 1 a 2 salários mínimos 16 29,6 > 2 a 3 salários mínimos 12 22,2 Renda familiar (salários mínimos *) > 3 a 4 salários mínimos 9 16,7 > 4 salários mínimos 14 25,9 Total 54 100 * Um salário = 260,0 reais.
Quanto ao tipo de diabetes, 53,7% dos pacientes referiram o diabetes do tipo 2 e 14,8%, do tipo 1. Chama-nos a atenção que 31,5% não souberam referir o tipo de diabetes. No que se refere ao tempo de diagnóstico, 34,5% referiram de 1 a 5 anos e de 6 a 10 anos respectivamente. Dos 31,5% pacientes que não souberam referir o seu tipo de diabetes, encontrou-se que 52,9% referiram conhecer o diagnóstico da doença de 1 a 5 anos (Tabela 3).
Tabela 3 - Distribuição numérica e percentual dos pacientes diabéticos atendidos no GED, segundo tempo de diagnóstico e tipo de diabetes referido pelo paciente. Ribeirão Preto, São Paulo, 2004-2005
Tipo de diabetes referido pelo paciente
Tipo 1 Tipo 2 Não soube Total
Tempo de diagnóstico no % no % no % no % 1 – 5 anos 2 25,0 10 34,5 9 52,9 21 38,9 6 – 10 anos 3 37,5 10 34,5 6 35,3 19 35,2 11-15 anos - - 2 6,8 1 5,9 3 5,5 16 - 20 anos 3 37,5 2 6,8 1 5,9 6 11,1 > 20 - - 5 17,4 - - 5 9,3 Total 8 100 29 100 17 100 54 100
No que se refere à classificação segundo o IMC, constatou-se que 40,7% dos pacientes diabéticos do tipo 1 e do tipo 2 encontravam-se com obesidade classe I, 16,7%, com obesidade classe II, e 7,4%, com obesidade classe III.
As co-morbidades mais referidas foram em 61,1% a hipertensão arterial, 35,2%, a obesidade, 31,5%, a dislipidemia e 24,1%, a doença vascular periférica.
A respeito dos hábitos de vida, encontrou-se que, 57,4% dos pacientes realizavam algum tipo de atividade física; nenhum paciente fumava; 35,2% eram ex-fumantes e 50,0% ingeriam bebidas alcoólicas, sendo que, a maioria, 88,8%, referiu beber socialmente.
Em relação aos antecedentes familiares de doença, a maior freqüência correspondeu ao diabetes mellitus com 79,6% dos pacientes, seguida da hipertensão arterial com 72,2% dos pacientes. A obesidade, a dislipidemia e a hiperuricemia foram referidas com menor freqüência.
Em relação ao seguimento dos pacientes diabéticos, no período de 12 meses anteriores ao SDM, encontrou-se que 57,4% referiram o seguimento em consulta médica a cada 3 ou 4 meses. Constatou-se que 83,3% referiram ter recebido algum tipo de educação em diabetes, 18,5% acerca da atividade física, 13,0% referiram ter recebido educação nutricional e 1,9% dos pacientes realizou acompanhamento psicológico. Durante esse período, 29,6% dos pacientes realizaram o exame dos pés, 24,1%, o fundo de olho e somente 11,1%, o exame de microalbuminúria.
Em particular, aos problemas oftalmológicos, nos 54 (100%) pacientes investigados, obteve-se que em 11/108 (10,2%) olhos observou-se Retinopatia Diabética não Proliferativa Leve – RDNPL, sendo que em 2/54 (3,7%) pacientes, no olho direito; em 3/54 (5,5%), no
olho esquerdo; e em 3/54 (5,5%), em ambos os olhos. Em relação à retinopatia não proliferativa moderada, observou-se em 1/54 (1,9%) paciente, no olho direito, e 1/54 (1,9%), em ambos os olhos. Encontrou-se, também, que 4/54 (7,4%) pacientes apresentaram retinopatia diabética não proliferativa grave, 2/54 (3,7%), no olho esquerdo, e 2/54 (3,7%), em ambos os olhos. Detectou-se a retinopatia diabética proliferativa em 1/54 (1,9%) paciente, no olho esquerdo, e retinopatia diabética proliferativa de alto risco em 1/54 (1,9%) paciente, no olho direito (Tabela 4).
Tabela 4 - Distribuição numérica dos pacientes diabéticos atendidos no GED, segundo presença e classificação da retinopatia diabética. Ribeirão Preto, São Paulo, 2004-2005
Olhos
OD OE AO
Classificação da retinopatia diabética –RD
No No No
RD Não Proliferativa Leve 2 3 3
RD Não Proliferativa Moderada 1 - 1
RD Não Proliferativa Grave - 2 2
RD Proliferativa - 1 -
RD Proliferativa de Alto Risco 1 - -
RD Proliferativa Avançada - - -
No que se refere à pressão intra-ocular obteve-se que 4/54 (7,4%) pacientes apresentavam, em ambos os olhos, pressão intra-ocular > que 22 mm/Hg. Em 3/108 (2,8%) dos olhos, encontrou-se edema macular clinicamente significativo - EMCS, sendo que em 1/54 (1,9%) paciente foi observado, em ambos os olhos. Quanto à presença de catarata, encontrou-se que 1/54 (1,9%) paciente apresentou catarata, no olho direito, 5/54 (9,3%), no olho esquerdo, e 19/54 (35,25), em ambos os olhos (Tabela 5).
Ainda, encontraram-se 7/108 (6,5%) dos olhos com alterações no nervo óptico; 2/108 (1,9%) olhos com sinais de retinopatia hipertensiva-RH; 4/108 (3,7%) olhos com sinais de laser em retina, com padrão de panfoto leve e 1/108 (0,93%) olho com membrana neovascular sub-retiniana- MNVSR em estágio cicatricial.
Tabela 5 - Distribuição numérica dos pacientes diabéticos atendidos no GED, para cada um dos outros problemas oftalmológicos detectados. Ribeirão Preto, São Paulo, 2004-2005
Olhos
OD OE AO
Outros Problemas Oftalmológicos Detectados
No No No
Pressão Intra-ocular elevada > 22 mm/hg - - 4
Edema Macular Clinicamente Significativo - 1 1
Catarata 1 5 19
Considerando que os aspectos relacionados à esfera biológica já foram explorados em estudo anterior (MIYAR OTERO, 2005), interessa-nos nesta investigação, em particular, compreender a vivência dos pacientes acometidos por retinopatia diabética. Dos 13 pacientes com diagnóstico médico de RD, detectados em 2005 (MIYAR OTERO, 2005), um foi a óbito em 2006 e um se recusou a participar do estudo.
5.5 Sujeitos do estudo
Os sujeitos do estudo foram constituídos por 11 sujeitos com RD, em seguimento no Grupo de Educação em Diabetes, de um Centro de Pesquisa e Extensão Universitária no interior do Estado de São Paulo.
5.6 Aspectos éticos
O projeto foi encaminhado à Comissão de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo e, aprovado em 21 de fevereiro de 2006, conforme protocolo nº 0608/2005 (Anexo 1). Mediante o aval de aprovação, foi iniciada a aproximação com o campo de pesquisa.
Dessa forma, esta investigação está em consonância com a atual legislação atendendo à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa e ética em seres humanos e, fundamentalmente, com a ótica da fenomenologia sobre os humanos envolvidos em uma pesquisa.
5.7 Aproximação com o campo de investigação
A interação, na pesquisa qualitativa, entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados é essencial (MINAYO, 1993). Nesse sentido, habitar o ambiente onde a pesquisa se realizará é de extrema importância para criar condições para as entrevistas, permitindo também ao pesquisador uma abertura ao outro (CORRÊA, 2000).
Para Minayo et al. (1994), o pesquisador deve buscar uma aproximação com as pessoas da área selecionada para o estudo e, esta aproximação deve ser de forma gradual, pois é de fundamental importância consolidar uma relação de respeito efetivo pelas pessoas e pelas suas manifestações no interior da comunidade pesquisada.
Assim, no mês de maio de 2006, a iniciamos nosso contato com o campo de investigação, procurando nos aproximar dos sujeitos da pesquisa e dos profissionais atuantes no local, bem como conhecer a dinâmica do trabalho, realizar a observação e estabelecer relações informais do pesquisador com o campo.
Primeiramente, observamos como os membros da equipe multidisciplinar realizavam o seguimento dos pacientes nas atividades no Centro, com palestras acerca da doença e do tratamento instituído, bem como o controle da pressão arterial, peso e glicemia capilar pós- prandial. Posteriormente, as nossas atividades constituíram em realizar o próprio seguimento aos pacientes ali cadastrados.
Essa aproximação proporcionou conhecer os pacientes, quanto as suas rotinas, crenças, valores e, também, fazer-nos conhecidas por eles. O diálogo estabelecido através de assuntos informais do dia-a-dia e o cuidado prestado possibilitou o vínculo recíproco entre o sujeito- pesquisador e os sujeitos- pesquisados.
A inserção no campo da pesquisa proporcionou-nos reconhecer o esforço da equipe no processo de educação dos pacientes, os quais demonstravam conhecimentos acerca das formas de tratamento, a necessidade de controle, a importância da alimentação planejada e a realização de atividades físicas. Também percebemos que o acolhimento da equipe multiprofissional favorece a relação com os pacientes e entre os próprios profissionais.
Por outro lado, constatamos a apreensão dos pacientes diante dos valores da glicemia capilar, demonstrando conhecimento acerca da necessidade de melhorar o controle da doença, revendo o planejamento alimentar, o uso dos medicamentos e cuidados com o corpo de modo geral.
A partir de agosto de 2006, a nossa inserção se deu de forma efetiva integrando a equipe no desenvolvimento de temas nas palestras e abordando temas de interesse dos pacientes frente às dificuldades enfrentadas no dia-a-dia para atingir um bom controle metabólico.
A observação permitiu perceber a realidade sob o ponto de vista dos pacientes diabéticos e foi fundamental para estabelecer o vínculo com os pacientes, além de possibilitar conviver com as dificuldades no seu cotidiano para o controle do diabetes.
5.8 Recursos utilizados para a coleta de dados
Primeiramente, antes de iniciar a entrevista, verificamos a glicemia capilar pós- prandial e o teste de acuidade visual nos pacientes diabéticos. Esses procedimentos possibilitaram conhecer antes da realização da entrevista o grau de controle glicêmico e a capacidade dos sujeitos em reconhecer detalhes de um objeto no espaço. Cabe ressaltar que os 11 sujeitos participantes do estudo apresentaram RD, confirmada por exames oftalmológicos realizados em 2005, no HCFMRP-USP (MIYAR OTERO, 2005).
Para a obtenção dos dados deste estudo foram utilizados os seguintes materiais:
1. Glicosímetro, fitas reagentes, algodão, álcool, luvas e lancetas. Para a verificação
dos valores da glicemia pós-prandial, utilizamos o monitor de glicemia ACCU- CHEK Advantage dos laboratórios Roche. Para a avaliação dos resultados da glicemia capilar pós-prandial dos pacientes diabéticos, utilizamos os valores preconizados pela
American Diabetes Association (2004) que foram considerados bons, quando os valores foram menores que 100mg/dl, de 100-140mg/dl, aceitáveis e maiores que 160mg/dl, ruins.
2. Tabela de Snellen. Para a realização do teste da acuidade visual (AV), utilizamos a
Tabela de Snellen impressa com optotipos a 5 metros para medida monocular da AV, com e sem correção óptica dos óculos atuais. A acuidade visual (AV) é uma função do aparelho dióptico do olho, da retina, das vias nervosas e do sistema nervoso central. É a medição da resolução óptica do olho, ou seja, é a medida da capacidade do indivíduo reconhecer detalhes de um objeto no espaço. É um procedimento psicofísico amplamente realizado no mundo, porém não está completamente padronizado
(ALVES JUNIOR, 1995; CRUZ; RIOS, 2001; BICAS, 2002; JARVIS, 2002; CINOTO et al., 2006). A acuidade visual normal é de 20/20 ou, no sistema decimal 1 e, quanto menor o valor, maior o déficit visual (ELDER, 1984; JARVIS 2002).
3. Roteiro de entrevista. A condução das entrevistas foi realizada segundo a abordagem
de investigação fenomenológica (CARVALHO, 1987), mencionada em capítulo anterior. Inicialmente, para obtenção dos dados, elaboramos um roteiro de entrevista contendo a questão norteadora “Como o(a) Sr.(a) tem percebido e vivenciado a perda da visão?”. Realizamos duas entrevistas-piloto, no mês de agosto de 2006, para averiguar a adequação da pergunta à compreensão dos sujeitos do estudo. Contudo, percebemos que seria necessário reformular a questão uma vez que essa estava sugerindo aos sujeitos que eles deveriam ter alguma alteração na visão. Apenas o depoimento do paciente CAA foi mantido devido à riqueza da fala. Essa experiência redirecionou nosso olhar e, assim, a questão norteadora foi reformulada para “Como o
senhor(a) tem percebido sua visão?, permitindo o acesso ao depoimento originário
de cada sujeito. Quando necessário, novas questões foram acrescidas para obter esclarecimentos sobre as informações obtidas. Em cada entrevista procuramos apreender a riqueza da linguagem não-verbal, a expressividade dos gestos, a tonalidade da voz e o silêncio.
5.9 A obtenção dos dados empíricos
Após a aproximação com o campo, realizamos um telefonema para cada um dos sujeitos, solicitando o seu comparecimento ao Centro, no período da tarde, em horário preeestabelecido por ele.
Nesse encontro individual com cada participante, foram explicados a natureza e os objetivos da investigação com base na Resolução 196/96 e, para aqueles que concordaram em participar do estudo foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 1).
Após esse procedimento, foi verificada a glicemia capilar pós-prandial de cada paciente e, em seguida, foram conduzidos à sala 6 da EERP para realização do teste de acuidade visual.
Os testes de AV para longe foram realizados por uma técnica em Laboratório Ótico do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública (MISP) da EERP e pela pesquisadora. O teste da AV a curta distância não foi realizado devido às alterações do envelhecimento que dificultam a visão de objetos próximos (JARVIS, 2002). A sala 6 da EERP foi utilizada para a realização dos testes de AV, pois possui os fatores físicos de iluminação e distância necessários.
Os pacientes foram conduzidos a esta sala e esclarecidos quanto à realização do teste, sendo respeitados os fatores de orientação e cognição dos pacientes. Esse teste é amplamente utilizado por oftalmologistas e é de simples compreensão. Foi avaliada a medida monocular com e sem o auxílio dos óculos em uso.
Durante o teste, os sujeitos mostraram-se tranqüilos, entretanto, pude observar que alguns sujeitos mostraram-se apreensivos, quando não conseguiam visualizar os optotipos. Esse sentimento era aliviado em alguns pacientes no momento em que utilizavam seus óculos. Os valores da AV foram registrados em números decimais, conforme a tabela utilizada e, posteriormente, anotados pela pesquisadora em um formulário para registro da glicemia pós-prandial e da AV (Apêndice 2).