5.1 Análise de Conteúdo da Imprensa em 2005
Finalmente, apresentamos um diagnóstico da imprensa ao abordar o tema saúde sob o ponto de vista da vigilância sanitária. Foram vários aspectos quantificados e qualificados, possibilitando uma leitura clínica do nosso objeto de pesquisa: a participação social nos textos jornalísticos relativos a temas de vigilância sanitária.
Os dados extraídos demonstraram que os jornais analisados contemplaram o cidadão no interior dos textos produzidos, mas as estruturas de comunicação atuaram essencialmente como empresas capitalistas. Essa leitura da realidade social feita pelas lentes do mercado provocou três distorções:
- a ausência do termo “cidadão” na linguagem jornalística;
- a participação da sociedade civil organizada nos temas abordados é limitada à não oposição aos interesses econômicos dos jornais;
- e a valorização de atores econômicos frente à vigilância sanitária e ao cidadão.
A identificação das distorções acima levou à constatação de que a estrutura analisada não estaria se aproximando da implementação de um espaço público, como levantamos anteriormente. O dinamismo do processo analítico nos orientou para uma imagem distante de um debate aberto e equilibrado, mas sim para abordagens agressivas em relação a: “Anvisa”, e favorecedoras aos “empresários”. Outros atores foram eleitos pelos jornais para expressar seus pontos de vista: “Poder Executivo”, “Profissionais de saúde” e, por fim, o “cidadão”.
Apresentamos a ‘análise de conteúdo’ da amostra de pesquisa, definida no Capítulo anterior. Sua aplicação foi dividida em dados quantitativos e qualitativos - Quarta e Quinta Etapas respectivamente. Para começar a análise, fizemos a contabilidade dos indicadores aplicados e a seguir levantamos qualitativamente os significados aparentes e implícitos de acordo com dois elementos: engajamento da imprensa e participação social.
5.2 Quarta Etapa: Análise quantitativa
Nesta Quarta Etapa, chamamos a atenção para os dados relativos às associações dos títulos e dos enfoques como indicadores do perfil dos jornais analisados. Em geral, os títulos
destacaram o aspecto trágico da saúde, contribuindo para associação com doenças e problemas que não foram evitados. Já o enfoque mais freqüente foi o de “valorização do interesse sanitário”. Outros como a “valorização do interesse econômico” e “demonização do Estado” mereceram nossa reflexão.
Além desses aspectos, há dados reveladores sobre a atuação dos atores que ampliaram a perspectiva de análise desta dissertação. A seguir, apresentamos as freqüências dos elementos considerados e os primeiros resultados do presente trabalho.
5.2.1 Análise dos ‘temas’ relacionados à Anvisa
Na análise do material, observou-se que a Anvisa é identificada pela imprensa principalmente como interlocutora de questões de risco e dano à saúde (como pode ser verificado no Gráfico 3). O “risco à saúde” ou Tema 1 foi o mais abordado em 70% dos textos analisados (em números brutos: 54, sendo 100% correspondente a 78 textos) pelos quatro jornais da amostra.
“Questões econômicas” ligadas à saúde (Tema 3), como preços de medicamentos e lucros das empresas do setor, foram tema de 22% do material estudado (ou 17 textos do total de 78 analisados). Em terceiro e quarto lugar, estiveram a “administração de recursos” e as “descobertas” do setor, respectivamente Temas 2 e 4.
Gráfico 3 – Tema 18 13 10 13 54 0 1 2 1 4 2 2 17 0 1 0 2 3 21 14 18 78 7 6 25 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 FSP ESP OG CB TOTAL Tema 1: Risco à Saúde Tema 2: A dm. Recurso s público s Tema 3: Eco no mia / saúde Tema 4: Desco bertas TOTA L
Legenda - Tema 1: Risco à saúde; Tema 2: Administração de recursos públicos; Tema 3: Questões econômicas
ligadas à saúde e Tema 4: Descobertas ou lançamentos.
Ao examinar os objetos relacionados pelos jornais à atuação da Anvisa, no Gráfico 4, percebe-se que os “medicamentos”, ou o Sub-tema 2, são hegemônicos, estando presentes em 57,7% do material (em número brutos: 45 do total de 78). Fato que se torna ainda mais
expressivo quando se analisa a distribuição em sub-temas feita pelo jornal “O Estado de São Paulo”. Já a “Folha” faz uma classificação concentrada em “medicamentos” e “alimentos”, respectivamente Sub-temas 2 e 1.
Em termos gerais, os “alimentos” aparecem em segundo lugar como sub-tema em incidência, depois: “produtos de interesse à saúde” e “doenças e problemas de saúde”. Em penúltimo lugar estão os “serviços de saúde”. Os dados obtidos podem indicar que os jornais têm uma visão limitada das competências da Agência, deixando de ouvi-la ou cobrá-la quando abordam produtos, como cosméticos, saneantes; serviços, como creche, asilos, hospitais e outros tantos temas que passam por sua regulamentação.
Gráfico 4 - Sub-Tema 9 0 0 0 0 0 0 8 0 4 0 0 0 0 13 45 5 2 2 1 11 1 2 2 16 2 1 1 2 2 12 3 1 2 7 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 ST 1.: Alimentos ST .2: M edicamentos ST 3.: Doenças e problemas de saúde
ST 4.: Produtos ST 5.: Serviços ST 6.: Concursos ST 7.: Disputa Polít ica FSP ESP OG CB TOTAL
Legenda – ST 1: Alimentos; ST 2: Medicamentos; ST 3: Doenças e problemas de saúde; ST 4: Produtos de
interesse à saúde; ST 5: Serviços de saúde; ST 6: Concursos Públicos e ST 7: Disputa Política.
5.2.2 Análise das associações temáticas dos ‘títulos’ dos textos
Durante a leitura do material, levantamos associações temáticas extraídas dos títulos ou manchetes. Com base nos resultados obtidos, afirmamos que a associação temática mais comum dos títulos foi a sinalização de danos à saúde, vide Gráfico 5. Em sua maioria, as manchetes fizeram um “alerta do perigo”, ou Título 2, informando o leitor sobre problemas já ocorridos. Selecionamos um exemplo de cada um dos cinco títulos classificados. Alguns estão acompanhados de sub-títulos ou de títulos internos, como se observa na Tabela 6.
Pode-se verificar ainda que a imprensa destacou nos títulos o aspecto trágico dos danos à saúde, contribuindo para reforçar a associação de saúde com doenças. Apesar disto, os jornais valorizaram em 21% (ou 17 textos de 78) as chamadas de texto com alguma “medida cidadã”, seja o fracionamento de medicamentos, a venda de genéricos ou projetos de notificação de efeitos adversos de medicamentos e outros.
Se, por um lado, os jornais analisados abrem espaço para a divulgação de ações com potencial de melhorar a qualidade de vida do leitor, por outro, aproveitam para “favorecer o setor regulado” (Título 6, vide Tabela 6), com reportagens que até mesmo fazem propagandas indiretas de produtos e laboratórios, por exemplo. Outro dado interessante foi a freqüência de sete títulos criticando o Poder Executivo e apenas um criticando as empresas.
Pelo Gráfico 5, é possível perceber o perfil dos jornais. A “Folha de São Paulo” pode ser caracterizada em seus títulos pelo favorecimento aos empresários da saúde. O “Correio Braziliense” por emitir alerta à população, juntamente com “O Globo”. Já “O Estado de São Paulo” deu maior ênfase nos títulos a fatores de perigo ou risco e a medidas que beneficiassem o cidadão. Gráfico 5 - Título46 4 5 3 5 1 4 2 0 1 6 1 4 0 1 1 2 4 1 0 9 31 7 17 11 1 8 0 3 3 8 0 5 10 15 20 25 30 35 Tít ulo 1: Evidencia risco Tít ulo 2: Alert a do Perigo Tí tulo 3: Crít ica ao Poder Executivo Tít ulo 5: M edida cidadã Tít ulo 6: Favorece o Setor Regulado Tít ulo 7: Crít ica ao Setor Regulado FSP ESP OG CB TOTAL
Legenda – Título 1: Evidencia o Risco;Título 2: Alerta do Perigo; Título 3: Crítica ao Poder Executivo; Título 4:
Setor Regulado em ação social; Título 5: Medida cidadã; Título 6: Favorece o Setor Regulado e Título 7: Crítica ao Setor Regulado.
Tabela 6 – Exemplos de Títulos
CLASSIFICAÇÃO DE TÍTULO DESCRIÇÃO
Título 1:
“Evidencia o Risco”
- “Leite em pó pode dar infecção” (CB, 02/01/2005);
- “Foram achados pêlos de rato. Teste reprova cinco marcas de ketchup” (FSP, 06/12/2005);
-“Anabolizante afeta capacidade. Estudos provam que substância prejudica o desempenho físico, apesar de aumentar a força dos músculos” (ESP, 11/01/2005);
Título 2:
“Alerta do Perigo”
- “Contaminação interdita lote de leite em pó” (FSP, 26/01/2005);
- “Empresa de anestésico funciona sem licença. Anvisa
suspende remédio suspeito de causar três mortes; produto é usado para a realização de exames de endoscopia” (FSP,15/08/2005);
- “Anvisa proíbe anestésico” (CB, 15/08/2005);
- “Remédios Perigosos. Retirada do Mercado de Algumas drogas e falhas no processo de aprovação de outras abrem crise sem precedentes sobre segurança de medicamentos” (OG, 09/01/2005);
- “Dois casos de HIV por transfusão. Um deles foi confirmado ontem, em Campinas, e o outro está sendo investigado. Suspeita é sobre a chamada janela imunológica” (ESP, 06/08/2005).
Título 3:
“Crítica ao Poder Executivo”
- “Após mortes, anestésico é interditado” (ESP, 15/08/2005); - “Sindicato diz que Anvisa sufoca farmácia de manipulação. Proposta que regulamenta setor, colocada em consulta pública, vai reduzir vendas em até 60%, afirma o Sinfarma” (FSP, 06/08/2005);
- “Órgão de publicitários faz críticas a pacote de medidas. Anvisa estuda proibir anúncio de refrigerante na TV antes das 21h” (FSP, 23/12/2005);
Título 4:
“Setor Regulado em ação social”
- “Farmácias vão vigiar qualidade” (CB, 22/01/2005);
- “Poucas e boas. Farmácias vão receber queixas sobre remédios” (FSP, 27/01/2005).
Título 5:
“Medida cidadã”
- “Teste ajuda detecção precoce de câncer de mama. Após análise, Fiocruz aprovou dispositivo descartável e sugere seu uso em áreas que não têm mamógrafos” (ESP, 31/01/2005); - “Remédios poderão ser vendidos na dose certa. Decreto prevê venda de remédio na dose certa”, (OG, 25/01/2005).
Título 6:
“Favorece o Setor Regulado”
- “Herbarium supera baque e volta a crescer. Laboratório de Curitiba teve produtos vetados pela Anvisa” (ESP, 04/12/2005).
Título 7:
“Crítica ao Setor Regulado”
“Diferença de preço de remédio no Rio chega a 52%. Preços sem remédio” (OG, 12/01/2005).
5.2.3 Análise dos textos por tipologia: importância dada
As editorias servem como indicadores de localização e da importância conferida ao assunto pelo jornal. Tendo essa idéia, constatamos que a maioria das matérias analisadas foram publicadas em editorias relacionadas à “Saúde”. Em seguida, ficaram as editorias que
tratam de assuntos “Nacionais” e de “Economia”. Houve apenas uma publicação que cita a Anvisa em cadernos especiais como revistas, como apresentado no Gráfico 6.
Se observarmos as editorias por jornal, descobrimos que o maior índice em “Saúde” foi alcançado devido à classificação do “O Estado de São Paulo”. A “Folha” considerou os textos que analisamos como de “Saúde” e de “Local”, seguidos por “Economia”. Já “O Globo” polarizou a classificação entre “Economia” e “Nacional” e, por fim, o “Correio Braziliense”, primeiro como “Nacional”, depois como “Economia”.
Avaliamos, no entanto, que algumas matérias publicadas na editoria de “Economia” deveriam ter sido classificadas pela imprensa como um texto da área de “Saúde”. Um dos jornais em que mais verificamos essa inversão foi no “O Globo”. Um exemplo é o caso da matéria intitulada por “A polêmica na colocação de prótese”, publica pelo jornal em 07 de agosto de 2005.
A reportagem abordava o conflito entre as seguradoras de saúde e os cidadãos na cobertura de próteses. O texto, no entanto, não ficou restrito a questões econômicas, e enfatizou principalmente o direito do cidadão de ter a cobertura do plano e os riscos para a saúde em relação aos materiais das próteses. Trouxe uma série de elementos positivos como informação sobre a legislação, as autoridades responsáveis e como acessá-las, além de estimular a busca de informação e uma postura ativa do cidadão em prol dos seus direitos. Esta e outras questões, foram detalhadas na análise qualitativa.
Gráfico 6 – Editoria 0 6 0 1 1 0 0 0 5 4 0 0 4 1 4 1 0 0 0 15 9 27 7 1 8 3 8 19 13 19 0 5 10 15 20 25 30
Edit oria 1: Nacional Edit oria 2: Economia Edit oria 3: Local Editoria 4: Saúde Editoria 5: Opinião Editoria 6: Cadernos Especiais FSP ESP OG CB TOTAL
Legenda – Editoria 1: Nacional; Editoria 2: Economia; Editoria 3: Local; Editoria 4: Saúde; Editoria 5: Opinião
e Editoria 6: Cadernos Especiais
O Gráfico 7 demonstra que a maioria dos 78 textos analisados era “reportagens”, as “notas” ficaram em segundo lugar com bastante diferença em relação a “reportagens com chamada de capa” e a “especial”. As “notas” tiveram 21 incidências e foram líderes no jornal
“Correio Braziliense”. Os textos classificados pelos jornais como notas anunciavam em geral decisões da Anvisa. Já as matérias “especiais” se destacaram em qualidade, mas não em quantidade representando apenas 4% do material (ou 3 em 78 textos). As “reportagens com chamada de capa”, graças a “O Globo”, também tiveram índice pouco acima: 6% (correspondem a 5 de 78 textos) . Podemos perceber que a “Folha” e o “O Estado de São Paulo” não deram destaque ao tema.
Gráfico 7 – Tipo 20 0 0 0 0 1 0 1 0 1 4 4 1 1 9 6 1 0 0 21 5 4 1 3 8 13 3 2 3 43 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
Tipo 1: Not a Tipo 2: Report agem Tipo 3: Report agem/ capa
Tipo 4: Especial Tipo 5: Art igo Tipo 6: Cart as
FSP ESP OG CB TOTAL
Legenda – Tipo 1: Nota; Tipo 2: Reportagem; Tipo 3: Reportagem com chamada de capa; Tipo 4: Especial;