Somada ao objeto e às questões da pesquisa – a saber: quais os impactos na prática docente do educador infantil de uma formação ludoestética em contexto? - há a demanda de uma inserção ativa e interativa no lócus através de uma aproximação com uma metodologia colaborativa, portanto, a alternativa metodológica que nos possibilita atingir tais objetivos é a pesquisa-ação , que se caracteriza por uma abordagem qualitativa de pesquisa participativa.
Esse tipo de pesquisa, segundo Barbier (2002), representa pesquisas com intencionalidades de favorecer mudanças objetivadas pelo pesquisador, que intervém de forma militante no processo, contudo, tais mudanças não são impostas pelos pesquisadores, mas resultam de uma atividade em que os atores primeiramente se debruçam sobre si mesmos. , As consequências dessa ação permitem aos pesquisadores explorá-la com fins acadêmicos. É minha escolha ético-estética como pesquisador que demanda tal metodologia, pois tal linha metodológica, segundo Paulon e Romagnoli (2010, p.92):
concebe a subjetividade humana à luz de um paradigma ético-estético , que se proponha a observar os efeitos dos processos de subjetivação de forma a singularizar as experiências humanas e não a generalizar as experiências humanas , que tenha compromisso social e político com o que a realidade com a qual trabalha e demanda de seu trabalho científico.
Esse tipo de pesquisa está categorizado na linha interpretativista, sendo, pois, possuidora de uma natureza argumentativa em que as interpretações da realidade observada e as ações transformadas são objetos de deliberação. Entendemos que as questões ligadas a esse estudo poderão ser melhor elucidadas com esse tipo de pesquisa.
Segundo Thiollent, (1998, p.14):
Pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada com estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
Para esse autor, essa abordagem de pesquisa é uma forma de experimentação em situação real, na qual os pesquisadores intervêm conscientemente. Assim como nas outras pesquisas da linha interpretativista, o que cada pesquisador observa e interpreta nunca é
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independente da sua formação, de suas experiências anteriores e do próprio “mergulho” na situação investigada.
Há mais de 40 anos, a pesquisa-ação surgiu na Europa com o objetivo de entender os processos sociais e promover a colaboração entre professores e especialistas, considerando que a elaboração teórica e prática curricular se desenvolve interativamente no contexto escolar.
Segundo Barbier (2002, p.96):
Na reflexão em ação, os conhecimentos são produzidos durante os processos de ensino-aprendizagem. A pesquisa-ação sintoniza na pesquisa dos saberes conquistados(...) a qual significa considerá-los (os sujeitos) como parceiros ativos na formulação de conhecimentos em diversas práticas curriculares , inserindo-os nos projetos de formação contínua.
A pesquisa-ação pressupõe a inserção do pesquisador em um determinado ambiente que se pretende investigar. Nesse sentido, ela tem um cunho participativo e há, como o próprio nome aponta, uma ação por parte do pesquisador, ação esta, problemática, que mereça investigação para ser elaborada e conduzida. Além disso, a pesquisa-ação pode ser considerada uma ferramenta de ensino, geradora de ambientes significativos de aprendizagem, possibilitando, no nosso caso, a construção de novas possibilidades para a escola se organizar e entender a estética nas práticas lúdicas, atendendo, assim, aos objetivos dessa pesquisa.
A pesquisa-ação é de cunho colaborativo, o que significa que a produção de conhecimento na pesquisa é aqui encarada como um processo formativo e de construção coletiva, que ultrapassa a dimensão tradicional cognitiva e extremamente teórica. A pesquisa- ação busca parcerias, compreende os desafios da instituição que foram assumidos pelos participantes no aceite da pesquisa.
A pesquisa-ação no âmbito da educação é um processo coletivo de participação e reflexão de pesquisador e educadores envolvidos, em corresponsabilidade de papéis e funções na investigação e no processo formativo. As principais características dessa colaboração devem ser a atividade de produção de conhecimento e a formação profissional, além da aproximação da pesquisa científica com as práticas sociais, em processos que busquem soluções coletivas para a transformação da prática docente em uma pesquisa com os educadores e não sobre eles.
Há uma intensa discussão acerca do objeto da pesquisa-ação ser construído coletivamente. Alguns teóricos consideram que não se deve pressionar docentes a assumir
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atividades de pesquisa para as quais não foram capacitados e que a escolha do objeto cabe ao pesquisador.
Todavia, foi um intenso processo e demorado para que o grupo de professores se configurasse como colaborativo e entendesse que eram também pesquisadores de sua própria prática e que, nesse ínterim, estavam dentro de uma sistematicidade de caráter investigativo.
A produção de saberes em pesquisa-ação concebe os sujeitos-colaboradores como dotadas de saberes, visões de mundo e histórias de vida para que o pesquisador não caia na armadilha de dominar e subjugar o outro, em uma hierarquização de saberes e colonialização cultural, subjugando as experiências que constituem suas identidades profissionais.
Assumi um grande risco com essa escolha metodológica, pois em alguns fóruns de discussão que realizei sobre o projeto de pesquisa, a metodologia era o elemento mais criticado, a qual tive que aprofundar teoricamente a pesquisa-ação ou pesquisa de intervenção para argumentar e defender o processo. Percebi, pelas críticas ao meu projeto, desde o processo de seleção do doutorado, passando pelas disciplinas de pesquisa educacional que participei como aluno, bem como nos grupos de pesquisa onde apresentei o trabalho, que é preciso distinguir o projeto de pesquisa de um projeto de intervenção e formação de professores. Nas palavras de Marli André (2001, p.57), pesquisadora experiente, percebo ainda mais esse risco:
Com experiência nesse tipo de pesquisa, percebo o quão difícil é conciliar os papéis de ator e de pesquisador, buscando o equilíbrio entre ação e a investigação, pois o risco de sucumbir ao fascínio da ação é sempre muito grande, deixando para o segundo plano a busca do rigor que qualquer tipo de pesquisa requer (...) a esses problemas eu acrescentaria outros que venho detectando numa revisão de estudos que abordam o tema da formação docente e usam a pesquisa-ação; uma certa confusão entre o que seja ação formadora e pesquisa-ação, entre o papel do pesquisador e o papel dos participantes, entre ensino e pesquisa ou entre investigação e ação.
Vale ressaltar também que a escolha metodológica é uma escolha ética e estética, e a pesquisa-ação se vincula e se imbrica com o objeto da pesquisa que é a formação contínua e os seus desdobramentos, haja vista que, segundo Formosinho (2013, p.57):
Nessa perspectiva, a formação contínua em serviço (em contexto) deve se centrar na instituição educacional, posto que se vincula diretamente ao seu projeto e não se faz descolada do desenvolvimento institucional [...] uma formação que faz do estabelecimento de ensino o lugar onde emergem as atividades de formação dos profissionais, com o fim de identificar problemas, construir soluções e definir projetos.
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Percebemos ainda a relação de tal metodologia científica com o objeto da pesquisa em questão. A autora acima ainda complementa que é necessário que a instituição se revele em seu potencial para a aprendizagem e que esteja aberta aos olhares críticos externos de parceiros de formação, pesquisa e intervenção.(p. 5).
Como procedimentos de produção do corpus e dos dados, realizei entrevistas e um conjunto de atividades de caráter exploratório, formativo e avaliativo com os sujeitos. Todas as etapas da pesquisa, da descrição dos participantes aos diálogos, ocorrências durante as propostas da investigação, descrição das atividades a serem desenvolvidas e o comportamento de todos os envolvidos, foram cuidadosamente registradas sob diversos instrumentos e recursos. A partir daí, foi construída uma base de dados com registro das entrevistas, documentos da escola, vídeos das formações, e diário de campo.
Segundo Romanelli (1998, p.166):
Além de conhecermos a variedade de paradigmas e perspectivas teóricas disponíveis que embasam as investigações qualitativas é necessário também saber as estratégias metodológicas e os delineamentos informados pelos mesmos. Trata-se, portanto, do lado prático das direções teóricas contidas nos paradigmas e suas perspectivas. Ainda assim, chama-se a atenção para o fato de que procedimentos práticos alienados de suas fundamentações podem se constituir apenas em encadeamento de técnicas.