Nesta seção, trato do ambiente em que se deu a pesquisa, e o motivo pelo qual ela foi desenvolvida em outra cidade satélite que não Santa Maria, lugar onde inicialmente a mesma estava sendo realizada.
Esta pesquisa realizava-se, inicialmente, na cidade-satélite de Santa Maria, em uma escola pública que atendia aos alunos participantes do ProJovem, porém o núcleo em que eu trabalhava foi fechado, no mês de janeiro de 2007, em decorrência da evasão de um número significativo de alunos.
Nessa escola, eu já havia: (i) determinado qual turma participaria da pesquisa, visto que eu não poderia desenvolvê-la com as minhas cinco turmas; (ii) aplicado um questionário inicial, com vistas a traçar um primeiro perfil dos alunos.
Com o fechamento do meu núcleo, fiquei durante trinta dias, apenas, cumprindo horário, enquanto surgia uma nova escola para eu ir trabalhar. Depois desse um mês de espera e de muita angústia, fui transferida para a cidade-satélite de Brazlândia. Lá tive que recomeçar do zero, inclusive, a conquista e a confiança dos alunos. Somente no mês de março, pude recomeçar o trabalho de modo efetivo.
A escolha por desenvolver esta investigação com alunos do ProJovem foi motivada por ser esse um programa que visa à reinserção, na sociedade letrada, de jovens de 18 a 24 anos que por diferentes causas deixaram a escola regular ainda no ensino fundamental.
O programa já acontece em algumas cidades brasileiras e, em agosto de 2006, foi implantado em Brasília, com uma duração de doze meses. Nesses doze meses, os alunos assistem às aulas de 2ª a 6ª feira, das 19 às 22 horas. Nas aulas, os alunos têm acesso a conhecimentos específicos que permeiam as seguintes áreas do conhecimento: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, Geografia, História e Inglês. Os educandos adquirem conhecimentos com vistas à qualificação profissional, que oferece quatro arcos de formação básica: saúde, vestuário, turismo e telemática. Além da formação profissional inicial, eles desenvolvem projetos, entre estes, o mais importante é o de Ação Comunitária, que tem como objetivo central desenvolver atitudes que ajudem tanto aos alunos que participam do projeto quanto ao próximo de maneira solidária e consciente.
2.9 Procedimentos e instrumentos de pesquisa
Esse trabalho fundamentou-se em metodologia qualitativa de pesquisa de cunho etnográfico e incorporou conceitos que abarcam a concepção do professor pesquisador- reflexivo.
Na tentativa de conhecer mais de perto e com uma maior profundidade o ambiente em estudo, foram utilizados instrumentos diversos durante o trabalho, tais como: observações participantes, entrevistas (semi-estruturadas), análise documental (textos orais e escritos), questionários, gravações em áudio e vídeo e um diário de campo, onde eu registrava acontecimentos que pudessem ser úteis à pesquisa.
Alves Mazzotti e Gewandsznajder (2004, p.167) enfatizam que a observação participante é uma das características da etnografia, porque valoriza a participação dos sujeitos da pesquisa e reforçam essa idéia quando pontuam (a partir de MILLES e HUBERMAN, 1984; DANDAY, 1984; YIN, 1985) que são muitas as habilidades esperadas de um observador participante. Dentre as mais importantes, estão:
1. ser capaz de estabelecer uma relação de confiança com os sujeitos; 2. ter sensibilidade para com as pessoas;
4. formular boas perguntas;
5. ter familiaridade com as questões investigadas;
6. ter flexibilidade para se adaptar a situações inesperadas;
7. não ter pressa de identificar padrões ou atribuir significados aos fenômenos observados.
Desde o início da pesquisa, quando decidi realizá-la em minha própria sala de aula, já tinha consciência de que as observações se dariam dentro de um contexto bastante complexo, no qual eu observava os meus alunos, me auto-observava e era, ao mesmo tempo, observada por eles.
Este foi um trabalho muito difícil, pois ao mesmo tempo em que eu tinha que estar atenta a tudo que se relacionava aos alunos, com ênfase na aprendizagem deles, era indispensável, também, me monitorar, me observar e perceber de que maneira meu trabalho estava atingindo aos objetivos traçados.
Quando fui transferida para Brazlândia, o primeiro mês de aula destinou-se a conhecer os alunos e criar ambiente interacional para convidá-los a participarem do meu trabalho.
Em março, comecei a recolher algumas informações das turmas e sobre a turmas do colégio onde estava lotada, mas optei por convidar a turma 2 do núcleo 2 em que eu era professora orientadora, e, para a minha surpresa, eles aceitaram. A partir desse momento, começaram as observações participantes, que tinham como objetivos conhecer os alunos e mostrar-lhes que a construção do conhecimento se daria a partir da troca e do diálogo, e que, além de sujeitos, eles eram participantes da pesquisa. Posso dizer que as observações destacadas por Alves Mazzotti e Gewandsznajder (2004, p.167), citadas acima, foram contempladas, pois eu, enquanto professora-pesquisadora, fui realmente um membro dessa pesquisa. Participei de todos os momentos com os alunos e procurei passar a eles, desde o princípio, toda confiança necessária para que pudessem participar das atividades propostas com segurança e conforto.
Essas observações continuaram durante os seis meses de trabalho em campo.
Além da observação participante, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, filmadas em uma filmadora do tipo PANASONIC- NV- ZZ 175- 700X- DIGITAL, gravadas em fitas de áudio em um gravador da marca PANASONIC (logo depois todas as atividades apresentadas nessa pesquisa foram transcritas) com os alunos, visando a conhecer como as atividades de produção de textos orais e escritos estavam acontecendo.
Segundo Alves-Mazzotti e Gewandsznajder (2004, p. 168), na entrevista semi- estruturada “o entrevistador introduz o tema de pesquisa, pedindo que o sujeito fale um pouco sobre ele, eventualmente inserindo alguns tópicos de interesse no fluxo da conversa”. E foi desse modo que as entrevistas realizadas aconteceram: eu procurava deixar os alunos-
participantes bem à vontade e, aos poucos, ia introduzindo as perguntas que seriam utilizadas no meu trabalho. O objetivo principal de cada entrevista realizada era tornar algumas informações mais claras.
Foram feitas análises de documentos que, no caso deste trabalho, tratava-se dos textos produzidos oralmente pelos alunos, que foram gravados/transcritos e, logo depois, comparados com produção escrita realizada por eles sobre o mesmo tema. A finalidade dessa atividade foi perceber quais eram as estratégias que eles usavam para produzir textos orais e escritos e observar se as estratégias orais também apareciam em seus textos escritos.
Juntamente com esses instrumentos de pesquisa, foram aplicados quatro questionários: (i) dois com os alunos e (ii) dois com os professores de Brazlândia. O primeiro questionário aplicado aos alunos objetivava conhecê-los um pouco melhor, e o segundo visava a perceber a utilidade da pesquisa, bem como das atividades feitas no decorrer da mesma para a construção do conhecimento por parte dos educandos. Já os questionários aplicados aos professores tiveram como finalidade verificar se as dificuldades que eu encontrava com meus alunos eram comuns às que eles percebiam nos alunos e o que eles faziam para que, caso elas existissem, fossem superadas.
Utilizaram-se o diário de campo e as gravações em vídeo com a finalidade de reunir o máximo de informações que contribuíssem para registrar as ações de sala de aula, além da história de vida dos alunos, para melhor compreender o significado da rotina de sala de aula.
Com o objetivo de atender às perspectivas da pesquisa qualitativa, foi realizada a triangulação das informações obtidas. Segundo Alves-Mazzotti e Gewandsznadjer (2004), a triangulação das informações é um critério de grande relevância para a pesquisa qualitativa. Os autores (op. cit.) destacam que ao buscar “diferentes maneiras para investigar um mesmo ponto, estamos usando uma forma de triangulação” (p. 173).
Diante dessa afirmativa, cabe esclarecer que a triangulação foi realizada neste trabalho a partir dos seguintes instrumentos de pesquisa: observações participantes, entrevistas, análise documental, questionários, gravações/filmagens em áudio e vídeo, além das anotações feitas no diário de campo. Por meio desses instrumentos, almejou-se atingir aos objetivos deste trabalho. Acredita-se também que, por meio da triangulação, pôde-se realizar uma análise mais detalhada dos dados recolhidos no decorrer da investigação.
Observações participantes
Figura 1: Instrumentos utilizados na pesquisa. Fonte: Elaboração própria.