2. ANALYSIS
2.2 A RIA AND A RIA DA C APO E F INE
Na Espanha dos séculos XVI e XVII, os romà aparecem na literatura de forma explicitamente estigmatizada. Cervantes, nas primeiras linhas de La gitanilla, apresenta os romà com a marca mais negativa que se tem registro, a de ladrão. Com esta obra, configura-se o marco de consolidação dos estereótipos:
Parece que os ciganos e ciganas somente nasceram no mundo para ser ladrões. Nascem de pais ladrões, são criados com ladrões, estudam para ser ladrões e, finalmente, saem como ladrões normais e correntes, de todo tipo. E o desejo de
263 Cuentos orientales (1938), p. 67. “llevaba en brazos a un niño, cuyos ojos enfermos desaparecían bajo un
vendaje de harapos [...] Hace unos meses que viene colocando en los ojos de su hijo unos asquerosos emplastes que le inflaman la vista y provocan la compasión de los transeúntes […]”.
furtar, e o furtar, são neles como acidentes inseparáveis que não se curam senão com a morte265.
A imagem dos romà difundida na obra continuou reverberando com o passar dos séculos. No prefácio à edição de 1969, lê-se que a visão de Cervantes sobre os “ciganos” não era equivocada, ao contrário, demonstrava grande conhecimento da etnia266. Embora apresente outras imagens também negativas, ele insiste com o estereótipo de ladrão como definidor do grupo, quase um acidente genético, em várias de suas obras. Não importa que os romà tentem ganhar a vida com outros ofícios, sempre existirá algo oculto entre esses “irrecuperáveis”. Em El coloquio de los perros (1613), por exemplo, Cervantes persiste em que os romà por “dar cor a sua ociosidade, em forjar coisas de ferro, fazem instrumentos com os quais facilitam seus furtos” 267. Os diversos costumes são apresentados sempre em relação
ao “oficio de roubar” e ao hábito da ociosidade, como se observa nesse mesmo texto: “casam- se sempre entre eles, para que seus maus costumes não sejam conhecidos por outros [...]” 268.
Na verdade, os personagens romà criados por Cervantes parecem obcecados pelo roubo e pelos embustes que possam favorecê-los e, na maioria das vezes, os roubos são de cavalos, burros e galinhas.
Em “Las gallinas de Cervantes” (1969) de Ramón José Sender, o escritor evoca a figura do autor espanhol por meio da personagem Don Miguel que, entre outras características, era obstinado pelo receio a ser roubado pelos “ciganos”. Em um trecho o narrador assinala:
[...] vendo que havia ciganos nas redondezas foi trancar a porta do curral, caso fosse necessário. Depois se deu conta de que aquela precaução estava envilecendo a sua vontade, sua consciência e, sobretudo, sua imaginação269.
Mesmo percebendo que não eram justificadas suas prevenções, a personagem volta a insistir em seu temor porque “havia um acampamento de ciganos nos arredores” da cidade270.
De forma irônica, Sender confirma os preconceitos da época e o estereótipo recorrente em Cervantes de “ciganos” ladrões de galinhas e cavalos. Em Don Quijote de la Mancha (1605),
265 P.1. “Parece que los gitanos y gitanas solamente nacieron en el mundo para ser ladrones. Nacen de padres
ladrones, críanse con ladrones, estudian para ladrones y, finalmente, salen con ser ladrones corrientes y molientes, a todo ruedo. Y la gana del hurtar, y el hurtar, son en ellos como accidentes inseparables, que no se quitan sino con la muerte”.
266 ISOLDA DE CODA, Lina. “Prefacio” em La gitanilla: novelas ejemplares I, p.27.
267 P.104. “dar color a su ociosidad, en labrar cosas de hierro, haciendo instrumentos con que facilitan sus
hurtos”.
268 El Coloquio de los perros, p.105. “cásanse siempre entre ellos, porque no salgan sus malas costumbres a ser
conocidas de otros [...]”.
269 Em Novelas del otro jueves, p.66. “[...] viendo que había gitanos en las inmediaciones fue a trancar la puerta
del corral, por si acaso. Después se dio cuenta de que aquella precaución estaba envileciendo su voluntad, su conciencia y, sobre todo, su imaginación”.
Sancho explica como conseguiu ir e voltar tão rápido do povoado de Toboso e explica que o conseguiu devido “a boa fe que andava Rocinante como se fosse asno de cigano com azougue nos ouvidos”271 . Se em El coloquio de los perros, conta-se como um “cigano” engana um
lavrador vendendo-lhe um mesmo asno adulterado duas vezes no mesmo dia. Em La ilustre
fregona (1613), a personagem adverte-lhe que “[...] se procura animal [...] lhe aconselho que não compre animal de ciganos, porque, embora pareçam saudáveis e bons, todos são falsos”
272. Levando em conta as repetidas menções encontradas nos textos de Cervantes, pode-se
dizer que o recorrente estereótipo literário de que os romà adulteram cavalos para que pareçam melhores ou saudáveis começa em Cervantes.
O estereótipo de ladrão foi generalizado a todos os indivíduos da etnia e seguiu um fluxo de propagação ininterrupto e progressivo, que contou com a contribuição de importantes escritores do Século de Ouro espanhol, como Lope de Vega, Antonio de Solís, Lope de Rueda e Mateo Alemán, entre outros273. Por exemplo, em Alonso: mozo de muchos amos (1624), de
Gerónimo de Alcalá, o protagonista é feito cativo pelos romà, ocasião que aproveitam para roubá-lo de forma descrita pelo narrador, como um tanto “amistosa”:
[...] fez-me despir até a camisa, me deixando como quando saí do ventre da minha mãe. A minha roupa foi repartida entre os rapazes nus, e o pouco dinheiro entre todos […] Eu, pois, [...] dei toda a minha roupa até ficar em carnes [...] 274
Após permanecer um tempo entre os “ciganos”, “contagiou-se” de forma determinista, com os costumes “hereditários” deles, como já preconizava Cervantes em La gitanilla. O protagonista se transforma em “outro”, introjetando “algo das suas agudezas e embustes” 275.
Bastante parecida é a versão do roubo cometido pelos personagens no romance picaresco La
vida y hechos de Estebanillo González (1646):
receberam-me com os maiores agrados que se pode oferecer, e compadecidas, as astutas ciganas, de ver a sorte em que me encontrava […], começaram a depenar-me como a uma gralha a título de enxugar, em sua grande perspicácia, minha muito molhada roupa […]; e embora quis evitar dá-las , por fazer seu roubo por disfarce
271 El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, p.268. “ la buena fe que andaba Rocinante como si fuera
asno de gitano com azogue em los oídos”
272 CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Em Novelas ejemplares. p.306. “[...] si busca bestia [...] aconséjole
que no compre bestia de gitanos, porque, aunque parezcan sanas y buenas, todas son falsas”.
273 SAN ROMÁN. Entre la marginación y el racismo: reflexiones sobre la vida de los gitanos p. 53.
274 El donado hablador Alonso, mozo de muchos amos, pp. 524-9. “me hizo desnudar hasta la camisa, dejándome
como cuando salí del vientre de mi madre. Repartiose mi ropa entre los muchachos desnudos, y los pocos dineros entre todos […] Yo, pues, […] di toda mi ropa hasta quedar en carnes [...]”.
275 CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Em Novelas ejemplares pp. 547-548. “algo de sus agudezas y
de me ter compaixão, me deixaram nu, dando-me para cobrir as minhas nuas carnes uma capa velha de um cigano moço276.
Durante esses séculos, a etnia foi obrigada a viver à margem e apartada das populações majoritárias. E aos romà se juntaram degredados de toda espécie: era usual a aceitação de desterrados, na intenção de aumentar o número de indivíduos no grupo, o que significaria maior força de defesa frente às perseguições. Alguns romà, pela necessidade de sobrevivência, cometiam delitos menores se comparados aos delinquentes não-romà, porém a imagem de ladrão somente era generalizada em relação à etnia, como ocorre atualmente nos hiperguetos destinados à população romà na Europa. Era recorrente na literatura dessa época, a presença do pícaro devido a sua existência real na sociedade, fruto do período de miséria e fome que atravessava a Espanha. Esse anti-herói criticou o conceito de honra, importante para a sociedade espanhola da época e com frequência, os pícaros eram representados junto a um grupo de “ciganos” que delinquiam. Embora não fossem somente os romà os que cometiam delitos, podemos falar que essas imagens eram discriminatórias, pois, enquanto mostravam que o pícaro rouba e engana pela necessidade de sobrevivência, aos “ciganos” eram atribuídas razões inatas à cultura.
Após a publicação de La gitanilla, as representações literárias sobre os romà adquiriram outras imagens negativas. O historiador Francês Bernad Leblon divide cronologicamente a literatura sobre os romá na Espanha, em antes e depois dessa obra, ressaltando “as sequelas” deste texto nas outras literaturas europeias. Dentro do vasto leque levantado pelo autor, observa-se que em sua maioria, as obras que foram escritas antes da história da “cigana” Preciosa, têm uma forte presença de temas sobre o nomadismo e do medo que esse costume gera nos sedentários. Também da suposta ociosidade do povo, das bruxarias e feitiçarias imputadas às “ciganas”. O estigma de ladrão, mentiroso e astuto, bem como, a noção de que esses predicados eram transmitidos geneticamente – o que pode ser interpretado pelo viés do racismo – surgem no Ocidente em sua grande maioria, depois de La gitanilla277.
O estudioso espanhol Luis Astrana Marin se pergunta sobre o que será que os “ciganos” fizeram a Miguel de Cervantes, para que os tenha humilhado de forma tão cruel?278 Atrevo-
276 La vida y hechos de Estebanillo González, hombre de buen humor, compuesta por él mismo, p.191. Há ate
hoje polémica sobre a autoria. “recibiéronme con el mayor agrado que se puede significar, y compadecidas las taimadas gitanas de verme de la suerte que estaba […], me empezaron a desplumar como a corneja a título de enjugar en su gran lumbre mi muy mojada ropa […]; y aunque me quise excusar de dársela, por hacer su robo con rebozo de tenerme compasión me dejaron en pelota, dándome para cubrir mis desnudas carnes una capa vieja de un gitano mozo”.
277 Cf: LEBLON, Bernard. Les gitans dans la littérature espagnole, passim.
me a responder que, possivelmente, Cervantes os representou dessa forma, porque foi refém das armadilhas dos estereótipos – que já circulavam nesses séculos, como visto – as quais não se interessou em perscrutar. Na Espanha houve uma crítica mordaz em relação à marginalização imposta aos impuros de sangue, porém essa não se aplicou aos “ciganos”. A personagem Preciosa, de La gitanilla, pela revelação de que não é uma “cigana” autêntica, confirma a “limpeza de sangue” e demonstra que suas qualidades positivas inerentes, diferenciam-na dos “ciganos” que a criaram. Alguma consideração sobre os verdadeiros motivos que levam os romà a delinquir é feita por Gerónimo de Alcalá, em El donado
hablador: “arbítrios para viver, ditados pela pobreza” 279, ou seja, a miséria e não o sangue
étnico era o responsável pelos roubos cometidos por alguns romà.
Em Portugal, de onde migrou a maior parte dos romà brasileiros, a situação do grupo não é diferente: os primeiros registros da presença da etnia em terras portuguesas são literários e correspondem ao seguinte poema, datado de 1510:
Queixa-se Luys Teyxeira tem ja mil concrusões postas, que lhe tiraram das costas estas peles do toupeyra. Nam sabe per que maneira Lhe fizeram tal engano, Diz c’ou ele foy Çiguano. Ou muy fina feiticeira 280.
Aqui já estão presentes a imagem do cigano que engana e a da cigana feiticeira. O segundo registro se dá com Gil Vicente, em Auto das ciganas (1521) e Auto da festa (1528), obras em que a figura do romà como mendigo demonstra ser um estereótipo amplamente utilizado, mas não sobrepuja a imagem da “doença cigana” de roubar:
[…] temos algo que furtar […] Graciana: De furtar não curaremos? Lucinda: Não irmã não não não
Vai tú junto aos homens [...] e como são cortesãos eles te darão mil dons
Eu irei às mulheres com palavras de mesura para lhes dizer a ventura
e me darão seus pertences 281.
O povo português, a exemplo do que aconteceu na Espanha, começa a mostrar sinais de intolerância aos romà – que entram no país a partir de 1526 – ao baixarem uma série de
279 El donado hablador Alonso, mozo de muchos amos, p.527. “arbítrios para vivir, dictados por la pobreza”. 280 SILVEIRA, Luís. “As Martas de D. Jerônimo” em REZENDE, Garcia de, Cancioneiro geral, tomo III, pp.
295-296.
281“Auto da festa” em Obras completas de Gil Vicente, p.444. (grifos meus). “[…] hemos algo de hurtar […] /
Graciana: De hurtar no curaremos? /Lucinda: No hermana, no no no/Vate tú a los varones [...] y como son cortezanos /ellos te darán mil dones./Yo iré a las mujeres con palabras de mesura/decirles he la ventura/y dame han sus haberes” 281.
medidas oficiais contra a etnia, incluindo a deportação282. Assim, expulsos de Portugal, os romà chegaram ao Brasil junto a degredados e delinquentes. Séculos mais tarde, alguns foram acusados de tráfico de escravos (que nunca foi provado), o que alimentou o estigma de desonestos, desleais e perigosos. Alguns registros mostram que ao contrário do que se declarava, a relação entre romà e negros era amigável. Na verdade, uma vez que todos os marginalizados viviam nas mesmas situações adversas, o contato entre eles era estreito. É possível que algum romà isoladamente tenha colaborado com o tráfico, mas imputá-lo a toda uma etnia é um equívoco, principalmente considerando as condições miseráveis dos “ciganos” que vieram ao Brasil, tão difícil como a dos negros e o tráfico era negócio de poderosos. Esta acusação foi, comprovadamente, fruto de uma representação artística: “de fato é um conto da carochinha e devemo-lo ao artista francês Debret [...] que por aqui esteve entre 1816-1831 a convite de dom João VI” 283. Jean-Baptiste Debret pintou os romà como
cruéis traficantes e a repercussão de suas pinturas cristalizou o estereótipo negativo, que foi tomado por verdadeiro pelos estudiosos.
As primeiras representações literárias sobre os romà no Brasil correspondem à peça teatral O cigano (1845), de Martins Pena e o citado, Memórias de um sargento de milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida. A imagem dos romà nessas obras segue a tradição europeia, ou seja, os estereótipos negativos, com a diferença que há um enfoque na esperteza com o comércio e na habilidade de tirar proveito nos negócios. Vejamos o texto de Martins Pena e como o protagonista Simão se apresenta:
[...] Chamam-me cigano, como se este nome fosse uma afronta [...] os tolos dar-me-ão que comer e talvez que enriquecer… Um cordãozinho de ouro falso vendido [...] enche-me às vezes a bolsa284.
Existe alguma aproximação à figura do malandro brasileiro, porém, com o diferencial de que aos “ciganos” se infere, uma vez mais, o determinismo hereditário dessa “velhacaria” e a generalização do “mal” para todo o grupo. Em O cigano, Simão, além de um comerciante embusteiro, é ladrão e contrabandista. A ênfase no contrabando é outra das características das representações nesse período no Brasil, possivelmente pelo fato de que surgiam de terras longínquas e pela influência de Debret, já que o cigano Simão é também contrabandista de escravos. Ele tem três filhas que são cortejadas por não-romà, que terminam por desistir de
282 COELHO, Adolfo. Os ciganos de Portugal, p. 198.
283PAIVA, Asséde. Brumas da Historia do Brasil: ciganos e escravos a verdade, p.15. Cf
www.ciganosbrasil.com/novo/brumas. Acessado em 16.4.2011.
qualquer relação com as “ciganas”, temendo que a desonestidade passasse de pai para filho. Tanto o teatro de Martins Pena quanto o romance Memórias de um sargento de milícias são bastante populares na época285. O imaginário que se desprende dessas obras influenciou as representações posteriores e formou o senso comum sobre a etnia, que recentemente se fixava no Rio de Janeiro.
Em Memórias de um sargento de milícias, o povo rom é apresentado a título de satisfazer a curiosidade do leitor a propósito de o tipo de gente com que estava andando o pequeno Leonardo Pataca:
veio também para o Brasil a praga dos “ciganos”. Gente ociosa e de poucos escrúpulos [...] A poesia de seus costumes e de suas crenças, de que muito se fala, deixaram-na da outra banda do oceano; para cá só trouxeram maus hábitos, esperteza e velhacaria286.
Dessa forma, o narrador continua dando detalhes sobre os “ciganinhos” que acompanhavam as travessuras do protagonista quando criança, assinalando que estavam “acostumados à vida vagabunda, conheciam toda a cidade e a percorriam sós, sem que isso causasse cuidado a seus pais” 287. Certo tom jornalístico do romance confere caráter de
realidade ao narrado, de forma que parece “informar” aos leitores sobre a vida e a periculosidade das figuras populares, entre elas, os “ciganos”:
ganharam eles [os romà] aqui reputação bem merecida dos mais refinados velhacos: ninguém que tivesse juízo se metia com eles em negócio, porque tinha certeza de levar carolo. [...] Viviam em quase completa ociosidade; não tinham noite sem festa. Moravam ordinariamente um pouco arredados das ruas populares, e viviam em plena liberdade288.
As mulheres são descritas com suas tradicionais vestimentas de “rendas, fitas e não dispensava um cordão de ouro no pescoço”. O espaço descrito pelo autor corresponde ao “Largo do Rossio, lugar que levava, até há algum tempo, o nome de Campo dos Ciganos”289.
Após o ingresso do cigano Simão, boa parte dos romà que é assunto da literatura no Brasil, é anônima, cujos membros são chamados simplesmente de “cigano” ou “cigana”. No entanto, da mesma forma que o precursor Simão, continuam exercendo seus tráficos e trambiques comerciais. Com o mesmo estilo jornalístico, interessado em dar a conhecer a realidade das
285 Martins Pena era um dos mais representados nos teatros. Memórias de um Sargento de Milícias foi
inicialmente apresentada em forma de folhetim no jornal Correio Mercantil do Rio de Janeiro entre os anos 1852 e 1853. Sua posterior publicação se deu em função do estrondoso sucesso dos folhetins.
286 Memórias de um sargento de milícias, p 34. 287 Ibid., p 34.
288 Memórias de um sargento de milícias, p. 34. 289 Ibid., p.34.
ruas do Brasil republicano, no conto “Pequenas profissões” (1908), de João do Rio, os romà voltam a ser representados vendendo ouro falso:
O cigano aproximou-se do catraieiro [...] de fraque e chapéu mole, já falara a dois carroceiros moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante. Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia que o catraieiro seria a vitima, a vítima definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um milhafre esfomeado. [...] Olhe, tenho aqui uns anéis... Não gosta de anéis?[...] O cigano desabotoara o fraque, cheio de súbito receio.
— É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas. Tudo dez mil réis, conta redonda!
O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima pelo braço, pela camisa [...] Eduardo, que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo ex-largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das barcas.
— Admiraste aquele negociante ambulante? — Admirei um refinado "vigarista" [...]290
O ar histórico, a minúcia de detalhes e o caráter de “informação da realidade” que se dava a essas representações, tornavam os estereótipos criveis e resistentes. Dessa maneira, também se consolida a caminhada dos romà pela literatura brasileira.
A “tradição cervantina” introduziu, igualmente, o estereótipo do “cigano ladrão de crianças” pela mesma obra, La gitanilla. O que virou um mito em relação aos romà foi mantido nas mesmas proporções no século XIX. O romance nessa época era considerado possuidor de visão realista e torna-se referência cognitiva para a sociedade, fazendo com que as representações estereotipadas fossem perpetuadas como retratos da realidade. No mencionado romance Nossa senhora de Paris, os romà são apresentados como indivíduos que incitam os piores instintos nas pessoas, mentirosos, astutos e “incapazes de amar a alguém291”. Durante o desenrolar da trama do romance é comum que as mulheres chamem seus filhos aos gritos sempre que surgem os “ciganos”: “A cigana! [...], Deus me guarde de tal coisa! Roubaria meu filho!” 292.
A protagonista do romance de Vitor Hugo, a cigana Esmeralda e a Preciosa de Cervantes possuem várias características em comum: são lindas, bondosas, talentosas, puras, honestas e educadas e, principalmente, não são “ciganas” verdadeiras – foram roubadas por malvadas “ciganas”. A impossibilidade de que Preciosa e Esmeralda pertençam ao povo rom reforça a ordem social, a qual mantêm cada diferente no lugar demarcado pelos grupos dominantes. As personagens, ainda que tenham convivido com “ciganos”, não praticavam as