Nos estabelecimentos auditados em detalhe, o consumo anual de eletricidade varia significativamente, ilustrando a diversidade de atividades incluídas. A aplicação de medidas com rentabilidade alta leva a uma redução no consumo de 9% a 55%. O baixo custo associado a estas medidas indica que os obstáculos financeiros não devem ser os predominantes.
No pequeno comércio e serviços, a principal motivação para investir em eficiência é a necessidade de reduzir custos operacionais, sendo que o nível de sensibilização face ao tema é variável. Por outro lado, as principais barreiras encontradas foram a baixa prioridade atribuída à energia e a falta de conhecimento.
A importância da barreira da divergência de incentivos é confirmada pelo elevado número de espaços arrendados, que representam 85% dos visitados. A baixa taxa de emissão de certificados energéticos revela a ineficácia atual deste mecanismo. Dada a elevada taxa de rotação das entidades, o processo de certificação poderia levar a poupanças significativas. A categoria comércio geral apresenta os menores valores de consumo específico, sendo a climatização o uso final maioritário. O seu potencial de poupança técnico é de 63% do consumo atual. As medidas com períodos de retorno inferiores a três anos permitem reduzir o consumo em 25%, com um investimento de apenas 82 € por estabelecimento.
121 O comércio de produtos refrigerados apresenta os espaços mais intensivos, em termos energéticos, onde a refrigeração consome mais de 80% da eletricidade. Nesta categoria, o potencial de poupança técnico é de 27% do consumo. As medidas com rentabilidade alta permitem poupar em, média, 23% do consumo atual, com um investimento de 2 023 € por estabelecimento.
A restauração é a segunda categoria mais intensiva entre as analisadas, sendo a refrigeração o uso final maioritário. O potencial de poupança técnico é de 37% do consumo atual. As intervenções com períodos de retorno inferiores a três anos podem levar a uma redução média de 22% no consumo atual, com custos iniciais de 526 € por estabelecimento.
Na categoria saúde e beleza os usos finais maioritários são a climatização e o aquecimento de águas sanitárias. O potencial de poupança técnico é de 60% do consumo atual. As intervenções com período de retorno inferior a três anos podem poupar 23% da energia consumida atualmente, com custos iniciais médios de apenas 109 € por estabelecimento. O pequeno estabelecimento de comércio e serviços médio de Telheiras consome anualmente 7,3 MWh, correspondendo a 138 kWh/m2/ano e a 4,6 MWh/trabalhador/ano. A comparação
com valores encontrados na literatura indica que os pequenos estabelecimentos são menos intensivos que os grandes edifícios do mesmo setor, mas mais intensivos que as residências. A desagregação por uso final no estabelecimento médio revela que o uso final maioritário é a climatização, seguindo-se a iluminação e a refrigeração. De forma geral, os usos finais mais relevantes parecem ser semelhantes aos dos grandes edifícios do mesmo setor.
No setor do pequeno comércio e serviços de Telheiras, o potencial de poupança técnico é de 54% do consumo atual. O potencial de poupança económico é de 39% do consumo atual, sendo o investimento médio por estabelecimento de 1 123 €. O potencial com rentabilidade alta é de 27% do consumo atual, sendo o investimento médio associado de 317 € por estabelecimento. Em média, as intervenções puramente comportamentais permitem reduzir o consumo de um pequeno estabelecimento em 6%.
Para o potencial económico, o custo unitário por kWh evitado é de 0,033 €/kWh evitado, sendo inferior ao diferencial de custo entre a produção renovável e convencional. No caso do potencial com rentabilidade alta, o valor médio deste indicador é 0,013 €/kWh evitado, encontrando-se na gama dos referentes às medidas do PPEC. Adicionalmente, é bastante inferior ao custo de produção de um kWh, seja qual for a origem da eletricidade. Estes resultados apoiam a perspetiva de que a prioridade na política energética deve ser eficiência. A iluminação é o uso final com maiores poupanças económicas disponíveis, sendo possível reduzir o seu consumo atual entre 64% e 80%. Na refrigeração, o potencial varia entre 0% e 23% do consumo atual, quando o período de retorno é fixado em três anos. Os equipamentos de escritório, audiovisual e comunicação são um uso final tranversal no pequeno comércio e serviços, sendo rentável reduzir entre 36% e 46% o seu consumo atual. A instalação de
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sistemas solares térmicos parece ser economicamente rentável em alguns estabelecimentos. Na climatização, a implementação do conjunto completo de medidas permite reduzir o consumo atual em 58%, sendo que os elevados custos de grande parte das ações reduzem o potencial com rentabilidade alta para 17%. Nestes usos finais, as tecnologias e práticas eficientes devem ser promovidas no setor do pequeno comércio e serviços.
À escala do bairro de Telheiras, estimou-se que os 107 estabelecimentos analisados consomem cerca de 936 MWh por ano. A aplicação de medidas de eficiência leva a poupanças anuais entre 362 MWh, no caso do potencial técnico, e 218 MWh, no caso do com rentabilidade alta. No período de vida útil das medidas, estes valores ascendem a 5 GWh e a 3 GWh, respetivamente. A exploração de oportunidades com período de retorno inferior a três anos leva a uma poupança de 500 mil euros, na vida útil das medidas. Os benefícios acumulados a longo prazo são 13 vezes superiores aos custos iniciais, na perspetiva das entidades. O potencial encontrado ao nível do bairro pode ser explorado através da implementação de projetos comunitários de energia.
Em Portugal, as atividades abrangidas pelo âmbito da dissertação consomem entre 4% e 8% da eletricidade. A extrapolação do potencial de poupança com rentabilidade alta, apesar da sua natureza simbólica, sugere que a melhoria da eficiência pode provocar uma redução de 1% a 2% na procura de eletricidade nacional. Neste contexto, a avaliação da eficiência energética do pequeno comércio e serviços, com vista à sua melhoria, surge como uma área de trabalho relevante.
Em Portugal, a execução de uma nova caraterização energética dos serviços poderia contribuir para aumentar o conhecimento relativo ao setor. De seguida, a criação de uma base de dados permitiria aos responsáveis compararem o seu desempenho. Tal criaria a motivação para melhorar a eficiência energética, que deveria ser apoiada por outros incentivos.
Neste seguimento, a reintrodução das deduções ambientais poderia contribuir para promover o investimento em eficiência. De forma complementar, a fiscalização do cumprimento da certificação e rotulagem é necessária para aumentar eficácia destes instrumentos.
O potencial identificado pode ser explorado através de um programa que forneça auditorias e aconselhamento às pequenas empresas. De forma complementar, devem ser criados os meios financeiros que possibilitem a implementação das medidas, podendo ser enquadrados no âmbito do PNAEE ou do PPEC.