Chapter 3: How did Russian Revolution influence the media
3.2 Revolutionary impact on the media
O prefácio da obra Traité de Mécanique Élémentaire, de Francoeur traz informações sobre os autores mais conceituados para a época que foram utilizados no ensino francês e que da mesma forma foram adotados como parte do currículo da Academia Real Militar.
Des auteurs distingués se sont même particulièrement occupés des théories mathematiques les plus élémentaires, et n‟ont pas dédaigné d‟ecrire pour l‟instruction des personnes les moins instruites. Lagrange et Laplace à l‟Ecole normale, Monge dans la Statique, Legendre dans sa Geometrie, Lacroix dans ses Elémens, ont perfectionné l'instruction, et ont appris à asseoir les premiers principes des mathematiques sur des bases solides. (FRANCOEUR, 1801).
Além destes nomes serem citados como de pessoas renomadas dentro do grupo de matemáticos escritores, Francoeur comenta sobre as obras e autores importantes, que serviram para que este montasse seu próprio tratado, e que fizeram com que estes tomassem lugar de destaque por intermédio de suas publicações: “Enfin Laplace vient d’atteindre l'immortalite, et la Mécanique Celeste assigne à son auteur un rang distingué aupres de Descartes, Newton, Euler, etc.” (FRANCOEUR, 1801).
O frontispício da obra Traité de Mécanique Élémentaire apresenta a indicação: “Rédigé d’aprés les Méthodes de R. Prony, l’un des Instituteurs de cette École et
Destiné a Servir d’introduction a sa Mècanique Philosofique; par L. B. Francoeur.” Isso
mostra o tipo de material produzido que não se trata de material de autoria exclusiva, mas que o autor compartilha de outras obras para a escrita da edição apresentada.
O conceito de “agência do sujeito” é notado neste processo de construção destes tratados, pois o autor assume uma identidade autônoma na elaboração da obra, não se limita apenas a reproduzir materiais já existentes, mas modifica a obra, com acréscimo
de explicações, ilustrações, demonstrações ou qualquer outra coisa que sirva para melhorar a obra em algum aspecto que objetiva. Isso mostra que o autor não faz uma simples repetição da obra que foi seguida:
Comme je l‟ai déja dit, d‟après PRONY, dans ses leçons, et dans sa Mécanique Philosophique : j‟ai marché sur les Mêmes traces, ici et dans beaucoup d‟autres circonstances ; et cependant l‟ouvrage que je publié contient plusieurs choses que me sont propres, telles que la demonstration du parallelograme des forces, les theorême des momens, la composition des forces parallèles, les équations de mouvement, la pression sur une surface courbe, la force centrifuge, etc. (FRANCOEUR, 1801).
E o autor indica mais obras que também foram utilizadas na escrita da obra em francês, tais como:
J‟ai souvent puisé dans les ouvrages des auteurs les plus célèbres teles sont la Mecanique et Les Functions Analytiques de Lagrange, la Mecanique Céleste de Laplace. L‟Architecture Hydraulique de Prony ; les Memoires de Legendre ; et enfin l‟hydraudynamique de Bossut. (FRANCOEUR, 1801).
Figura 3: Capa da obra: Traité Élémentaire de Mécanique, de L. B. Francoeur6
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Outra informação que o os paratextos trazem é a respeito do público a que era destinado à obra, que conforme indicado na capa do livro, como “A l’Usage des Élèves
de l’Ecole Polytechnique” e que também apresenta a indicação do curso de artilharia,
no decorrer do prefácio:
Une circonstance me contraignit de mettre quelqu‟ordre dans ces notes, et de repasser avec un nouveau plaisir les belles théories qui y sont exposées : je fus chargé par le Conseil de l‟Ecole polytechnique de faire un cours de mécanique élémentaire, à des élèves qui se destinoient au corps de l‟artillerie alors, ils n‟avoient d‟autre guide que des rédactions rapidement écrites, que je leur donnais aprés chaque leçon. (FRANCOEUR, 1801).
Dentro das publicações realizadas no Rio de Janeiro pela Impressão Régia, encontrava-se o jornal O Patriota, cujo editor era o baiano Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, também lente da Academia Real Militar.
Na primeira edição deste periódico, encontra-se uma resenha elogiosa sobre a tradução de José Saturnino da Costa Pereira, referente à obra Traité de Mécanique
Élémentaire, de Francoeur, em que se comenta da forma adotada pelo tradutor, que
modificou a obra francesa acrescentando partes que não constam do original.
O merecimento da Mechanica de Francoeur he geralmente reconhecido, e huma Tradução desta obra he uma grande acquisição para nós. Porém o Tradutor a fez ainda mais recomendável, ajuntando à aquelles principios quanto julgou conveniente extrahir das obras de melhor nota, como as que aponta no titulo, e de outras, que não menciona, entre as quaes tem primeiro lugar a Mechanica celeste de Laplace. (PATRIOTA, 1813, p.121)
Esta adaptação que José Saturnino da Costa Pereira realizou foi segundo a determinação do próprio Estatuto de criação da Academia, que sugere, inclusive as obras a serem utilizadas pelo tradutor:
O lente do terceiro ano ensinará Mecânica, tanto na Estática, como na Dinâmica e os da Hidrodinâmica, tanto na Hidrostática, como na hidráulica e regulará seu compêndio pelos últimos tratados que maior celebridade merecerem, servindo-lhe de base aos princípios rigorosos das duas ciências a obra de Francoeur, unindo-lhes as aplicações
teóricas e práticas que puder tirar das excelentes obras de Prony, Abade Bossut, Fabre e da obra de Gregory, devendo extrair dessa última tudo o que toca às máquinas e suas aplicações. (BRASIL, 1810)
Uma constatação a ser feita é que no frontispício da obra em português, José Saturnino elenca dessa forma os autores em que se baseia: “aumentado de doutrinas, extraídas das obras de Prony, Bossut e Marie, etc.” Ou seja, ainda que Fabre e Gregory tenham sido utilizados e omitidos nesta citação, o nome de Marie não aparecia no Estatuto, o que mostra que Saturnino também teve escolhas próprias quanto ao material a ser baseado para a tradução.
Nessa modificação da obra podem-se verificar duas coisas: a primeira é que o objetivo dessa adaptação é de aperfeiçoar a obra, tornando-a melhor para o ensino na academia.
Ao examinar as várias edições em francês e a tradução em português, percebe- se a não equivalência entre palavras nos vários textos. Esse é um debate clássico das teorias de tradução, quanto à tradução e autoria, ou quanto à fidelidade ao texto, que Furlan (2003) cita desta forma:
Não traduzi como intérprete, mas como orador, com os mesmos pensamentos e suas formas bem como com suas figuras, com palavras adequadas ao nosso costume. Para tanto não tive necessidade de traduzir palavra por palavra, mas mantive o gênero das palavras e sua força. Não considerei, pois, ser mister enumerá-las ao leitor, mas como que pesá-las. (CÍCERO apud FURLAN, 2003)
Assim, mesmo se tratando de uma tradução, José Saturnino exerce uma autoria perante a obra pois seleciona materiais, recorta partes, substitui ideias, escolhe fórmulas até estabelecer o material que determinará o livro.
A segunda coisa no que se refere à modificação das obras vemos no periódico O
Patriota que afirma haver a relação entre o conteúdo da obra e a duração do ano letivo.
Isso significa que a adaptação levou em conta o andamento do conteúdo dos livros nas aulas, seja pelo ritmo de aprendizagem dos alunos ou pela quantidade de dias letivos. Podemos ver isso neste trecho: “Desta sorte preparou aos seus Discipulos hum Compendio rico de conhecimentos, e muito proporcionado á duração do anno lectivo, como já tem mostrado a experiencia”. (PATRIOTA, 1813, p.121-122)