KAPITTEL 3. HOVEDANALYSE
3.1. Revolusjon, borgerkrig og krigskommunisme
Dizem que só por si este famoso Rio vale todo o Brasil...Não duvido que assim seja; porém não conheço outra cidade do país menos nacional do que esta. É sem dúvida a primeira na riqueza nacional, nos interesses de momento, nos prazeres fáceis, nos arranjos políticos. Não é a primeira no amor e nas tradições da pátria51.
Temos, aqui, um olhar provinciano, ao mesmo tempo irado e escandalizado. O olhar de alguém que chega de longe, que consegue perceber a distância entre os modismos culturais e a realidade da qual é proveniente, e que se irrita com isto.
Segundo Abdala Júnior, Sílvio Romero pode ser situado no quadro geral das classes
médias citadinas que não aceitam as oligarquias regionais, estas sim descentralizadoras e com vocação separatista52. A análise é correta, mas pode ser completada. Filho de uma família empobrecida do meio rural sergipano, Romero, como Euclides, pertenceu a uma elite de letrados que viu, no conhecimento científico, o único instrumento capaz de abrir caminho na sociedade de seu tempo; daí, entre outros fatores, a absoluta convicção com a qual ele abraçou o que acreditou serem as verdades irrefutáveis de seu tempo. Foram as suas verdades contra os preconceitos de uma sociedade pouco afeita a quem buscava abrir caminho a partir de baixo.
Mas uma sociedade, porém, que o consagrou como escritor. De fato, intelectual ____________________________________________________________________
51- ROMERO, Sílvio História da literatura brasileira. Rio de Janeiro, José Olympio, 1943, v. III, p.104 52- ABDALA JÚNIOR, Benjamin. Sílvio Romero. História da literatura brasileira. In: MOTA, Lourenço Dantas ( Org. ). Introdução ao Brasil: um Banquete nos trópicos. Vol. II. São Paulo Editora SENAC, 2002, p.208
reconhecido a partir de seus méritos, membro da Academia Brasileira de Letras, professor de uma consagrada instituição de ensino, agraciado com a comenda de São Tiago pelo rei de Portugal em 1904, Romero esteve longe de ser um outsider, sem nunca integrar-se de fato, contudo, à sociedade de seu tempo, e permanecendo um crítico irredutível da mesma; e crítica que, iria, por fim, consolidar-se em franco pessimismo. E uma consagração, enfim, que não impediu que seus últimos anos fossem particularmente difíceis, a seguirmos a descrição de um autor que o visita em sua casa em 1910:
Falou-me logo da sua extrema pobreza, que não lhe permitia procurar alívio para
seus males físicos sem agravação da moral, privando-o da companhia dos seus...Despedi-me de Sílvio muito contra a sua vontade, e saí verdadeiramente apreensivo, pois, pelo que observara, me pareceram de octogenário as condições daquele organismo que ainda não tinha 59 anos53.
A dificuldade de Romero em enquadrar-se nas elites dominantes refletiu-se, também, em sua errática e mal sucedida trajetória política. Romero foi eleito deputado federal por Sergipe em 1900 e apresentou, logo de saída, três projetos, todos tachados de inconstitucionais e não aceitos pelo plenário. Não conseguiu reeleger-se dois anos depois ( os mandatos, então, eram de dois anos ), tentou nova candidatura no ano seguinte e fracassou, encerrando precocemente sua carreira política.
Crítico irretratável e pouco avesso a conciliações no panorama cultural, Romero recuou e _____________________________________________________________
53- OLIVEIRA, Samuel de. Sílvio Romero e a alma brasileira. In: Revista do Brasil, Num.2. São Paulo, 1916, p.322.3
tegiversou, contudo, quando tratou-se de levar adiante sua afinal fracassada carreira política, não hesitando em apoiar um sacerdote que- antigo inimigo político- ele chamara, anos antes, dentro de sua postura habitual, de “sacerdote do embuste e da mentira” e de “hiena dos altares”54. Afirmou ainda: E falam que tu és padre...mas de que religião?
Exerces o pontificado da calúnia; não purificas as almas; sabes apenas cobri-las de lepra.
Poucos anos depois, porém, padre Olimpio receberia nova carta de seu desafeto: Por meio
desta venho pedir gasalhado nas fileiras do seu partido. É sempre preferível seguir, de longe que seja, um adversário leal a acompanhar amigos desleais55.
E também suas polêmicas foram fruto de seu permanente medo de ser recusado em um meio no qual ele foi sempre o provinciano desconfiado. Sua crítica e as polêmicas levadas adiante por ele- caminhando, habitualmente, juntas- tornaram-se cada vez mais pessoais, em um processo descrito por Cândido:
No tocante à crítica, revigora o sistema de reinvidicações pessoais e glorificação
do grupo de Recife- num crescendo que não cessará mais, com ou sem propósito, com ou sem razão, esquecendo quase sempre a justa medida, e se perdendo em questões de sensibilidade ferida, de vaidade não satisfeita, absolutamente indignas de seu grande talento56.
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54- MOTA, Maria Aparecida Resende. Sílvio Romero: dilemas e combates no Brasil da virada do século XX. Rio de Janeiro, Editora FGV, 2000, p.44
55- Apud RABELLO, Sylvio. Itinerário de Sílvio Romero. Rio de Janeiro, José Olympio, 1944, p.141.3 56- CÂNDIDO, Antônio. O método crítico de Sílvio Romero. Boletim Num. 266. Teoria Literária e Literatura Comparada Num. 1. São Paulo, USP, 1962, p.87
As polêmicas de Romero sempre desenvolveram-se tanto a nível das idéias quanto a nível pessoal, a ponto de tornar-se, na maioria das vezes, impossível definir quando começa um e termina outro, da mesma forma que suas preferências literárias sempre misturaram razões pessoais e estéticas. Desta forma, Machado de Assis mereceu um livro inteiro visando negar qualquer valor literário à sua obra por ter ousado criticar o Romero iniciante, além de ser chamado, em outra obra, de capacho de todos os governos57.
Em outra situação, Teófilo Braga encarregara-se de cuidar da edição portuguesa das coletâneas de cantos e contos folclóricos de Sílvio Romero e, em 1883, foi publicada a obra com o material publicado em uma nova ordem, definida por Braga. Temos, no caso, um escritor já consagrado dispondo-se a dar crédito à obra de um autor iniciante que- longe de demonstrar gratidão- encheu-se de fúria e pôs-se a denunciar o que considerou uma burla e uma apropriação indébita.
O gosto de Romero pela polêmica- além de ser um traço de sua personalidade e reflexo de sua postura de provinciano desconfiado e temeroso de ver bifado seu lugar na cultura brasileira- reflete, ainda, uma característica de seu pensamento, que é o apego a esquemas evolucionistas nos quais o conflito e a exclusão dos menos aptos assumem papel crucial. Daí, conclui Ventura, a grande importância dada por ele à questão das prioridades e procedências, bem como a ênfase dada por ele mesmo a seu pioneirismo ao introduzir na cultura brasileira a questão da miscigenação, quando Varnhagen e Martius- como lembra José Veríssimo, desafeto do autor- já haviam trabalhado a questão. Romero sistematizou a discussão e colocou-a no centro de sua obra, mas isto não bastou para ele pois, como
acentua Ventura, o valor de sua obra, ou de qualquer outra, para ele, depende da inserção ____________________________________________________________________
na evolução cultural e da representatividade nacionalística e etnográfica. Daí as inúmeras discussões sobre quem precedeu a quem, e no quê58.
E ele busca estabelecer sua prioridade. Escrevendo, assim, sobre Euclides, Romero define o período que vai de 1868 a 1878 como decisivo para a renovação da vida nacional; como o momento no qual o romantismo, o espiritualismo e o catolicismo reinantes tiveram, enfim, sua autoridade contestada junto com o próprio manto principesco que a protegia, e conclui com a fórmula que se tornou clássica: Um bando de idéias novas esvoaçou sobre nós de
todos os pontos do horizonte59. Estas são, desnecessário dizer, as idéias defendidas pelo autor e, afirmando tal transformação- de resto, inegável-, Romero está acentuando seu papel neste processo, de resto, também, fundamental.
É interessante e sintomático em relação a esta preocupação, ainda, como Romero descreve sua aparição no cenário cultural brasileiro, em um momento no qual, segundo ele, tal cenário encontrava-se confuso e embaralhado: Estavam as coisas neste ponto quando
apareceu o autor destas linhas. Era em 1869-7060. Aqui ele surge, claramente, como o divisor de águas, como o autor que chega para trazer esclarecimentos indispensáveis e irrefutáveis: fiat lux.
Filiando-se à Escola do Recife, Romero sempre buscou defendê-la, demonstrando sua organicidade e homogeneidade. Criou-se, com isto, um problema em sua obra no que tange ________________________________________________________________
58- VENTURA, Roberto. Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p.111
59- ROMERO, Sílvio. Realidades e ilusões no Brasil: parlamentarismo e presidencialismo e outros ensaios. Petrópolis, Vozes, 1979, p.163
à esta, bem definido por Moraes Filho: O mal de Sílvio foi apelidar o movimento recifense
de escola, num sentido rigoroso e coerente, quase hermético61.
Com isto, qualquer crítica à Escola era tomada em sentido pessoal, e negar sua primazia
era negar primazia e valor a ele, Romero. Daí a obsessão em realçá-la, daí ele afirmar:
Pode a questão da maior ou menor influência das idéias fundamentais da Escola do Recife ser encarada de outra forma: qual foi jamais a escola, a doutrina, a corrente do pensamento, o sistema, ou como lhe queiram chamar, que houvesse alcançar maior prestígio no Brasil62 ?
Já seu relacionamento com autores contemporâneos que trataram de temas presentes em sua obra- que exploraram sua seara temática- oscilou, normalmente, entre a hostilidade e a indiferença deliberada. Seu relacionamento com Nina Rodrigues, por exemplo, entrou na segunda opção. Enquanto Rodrigues referiu-se constantemente à obra de Romero, às vezes concordando e, muitas vezes, discordando, como lembra Correia, a atitude de seu interlocutor foi outra:
Sílvio Romero por seu lado parecia fazer questão de desconhecer o trabalho de pesquisa de Nina Rodrigues, talvez porque não lhe agradassem as conclusões que o médico maranhense tirava de suas investigações empíricas sobre o presente da miscigenação, quando ele preferia por o acento numa futura população brasileira já
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61- MORAES FILHO, Evaristo de. Medo à utopia: o pensamento social de Tobias Barreto e Sílvio Romero. Rio de Janeiro/Brasília, Nova Fronteira/INL, 1985, p.45
62- ROMERO, Sílvio. Zeverissimações ineptas da crítica brasileira ( repulsas e desabafos ). Porto, Oficinas do Comércio do Porto, 1909, p.44
branqueada, talvez porque desde 1894 Nina Rodrigues se mostrasse em frontal desacordo com ele- e dava muita ênfase aos argumentos de seu arquiinimigo José Veríssimo63.
Já mencionando as críticas de Romero a Manuel Bonfim, e definindo-as como incompreensíveis e, muitas vezes, injustas, Wilson Martins busca, não obstante, entendê- las a partir da personalidade de quem as escreveu. Tais críticas derivariam do reflexo tão
romeriano de procurar destruir não apenas os adversários de idéias, mas todos os que pudessem, de uma forma ou de outra, assumir a posição de rivais dentro do mesmo campo64 .
Nunca bastou a Romero negar valor à obra de seu oponente, qualquer que ele tenha sido; era como ser humano que este precisava ser desqualificado. Já seu amigo e mestre Tobias Barreto teve sua obra ( inclusive sua hoje esquecida poesia ) louvada em intermináveis páginas.
E fazendo, mais uma vez, o elogio de Tobias Barreto, o próprio Romero buscou justificar suas permanentes polêmicas: Não tenho por hábito elogiar medíocres, nem é defeito meu
criticar quem tem mérito e muito mérito. E não é só isto; é também certo que não me deixo contestar sem luta. Minhas convicções, habituei-me a sustentá-las sem desfalecimentos à custa de meu próprio repouso e vantagens pessoais65.
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63- CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade: a Escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. Bragança Paulista, Editora da Universidade São Francisco, 2001, p.46
64- MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. Op. Cit., 1996, v. V, p.297 65- ROMERO, Sílvio. Machado de Assis. Campinas, Editora da UNICAMP, 1982, p.131