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5. Results

5.1 Quantitative results

5.1.2 Revisiting overall credibility and its elements

A demarcação dentre o urbano e o rural, tantos séculos depois dos primeiros grupos de homens em situação de sedentarismo terem se formado, é questão das mais importantes, pois pontua diferenças cruciais nas formas de relação entre grupos que compõem a tessitura social e a produção agrícola em seus múltiplos desdobramentos com o mercado. Ao entrelaçar o conceito de ruralidade ao das representações sociais, é possível pensar o urbano e o rural para alem dos espaços geográficos, assinalando-os como espaços psicossociais.

O conceito de urbano e rural tem sofrido transformações a partir de novas formas de organização do trabalho, no tocante a tarefas preliminarmente marcadas por ritmos e formas bastante diferenciadas, bem como, crenças, valores e estilos de vida significativamente díspares. As distâncias foram sendo atenuadas e as trocas intensificadas pela modernização dos transportes, pela mecanização do trabalho agrícola e pela reorganização das vilas e pequenas cidades que gravitam em torno do espaço de trabalho no campo, conforme descreve Carneiro:

“O ritmo das mudanças nas relações sociais e de trabalho no campo transforma as noções de ‘urbano’ e ‘rural’ em categorias simbólicas construídas a partir de representações sociais que, em algumas regiões não correspondem mais a realidades distintas cultural e socialmente. Torna- se cada vez mais difícil delimitar fronteiras claras entre as cidades e os pequenos vilarejos ou arraiais a partir de uma classificação sustentada em atividades econômicas ou mesmo hábitos culturais. (CARNEIRO, 1998, p. 53)

Carneiro (1998), ressalta os resultados de pesquisas recentes no Brasil que mencionam dois conjuntos de fenômenos que remetem a reflexão da questão da ruralidade na atualidade. Um primeiro aspecto a ser mencionado, refere-se à adoção da pluriatividade como estratégia de sustentação da atividade rural, passando as práticas agrícolas a conviverem com outras atividades, mais particularmente com o comércio e com o turismo, trazendo um reordenamento das atividades produtivas e constituindo-se em alternativas ao êxodo rural, ao desemprego urbano e ao padrão de desenvolvimento agrícola dominante.

Uma outra forma de expressão destas transformações ocorre no sentido contrário, isto é, da busca pelos moradores da cena urbana de espaços de lazer e/ou moradia no campo atraídos por uma perspectiva de uma vida mais simples, ao lado da natureza, em uma busca de qualidade de vida e saúde. Conectados à rede, mas próximos da natureza, transformando o “campo” em um bem a ser consumido. Consolidam-se então, intensas trocas entre a sociedade urbano-industrial e as pequenas vilas rurais.

Como realidades que se interpenetram, não cabe mais a análise a partir de uma visão dicotômica. Como realidades que guardam significativas diferenças a partir de representações sociais peculiares, a visão de “continuum” não contempla nem a amplitude, nem a especificidade do fenômeno. Porém, segundo Carneiro (1998), vários autores vem sustentando:

“....a necessidade de proceder a análises mais específicas do rural, centradas nas relações sociais que se desenvolvem a partir de processos de integração das aldeias à economia global. Nesta visão, esse processo ao invés de diluir as diferenças, pode propiciar o reforço de identidades apoiadas no pertencimento a uma localidade” (CARNEIRO, 1998, p. 58) Ao procedermos análises mais específicas do mundo rural, as transformações vão ocorrendo a partir de mudanças nas representações sociais que ancoram a existência da população em questão, reforçando na maioria das vezes, apesar das mudanças de concepção, o sentimento de pertencerem àquele grupo.

Rambaud, citado por Carneiro, (1998) enfatiza a heterogeneidade social, cultural e econômica de um sistema complexo perpassado por relações sociais que se definem a partir dos interesses dos atores sociais com possibilidades de negociação distintas, ocorrendo uma adaptação às necessidades econômicas, a partir da domesticação das técnicas que dispõem sem, contudo colocar em cheque a sua lógica de existência e sistema de valores.

O foco passa a ser os indivíduos e suas relações em vez dos espaços geográficos, passando a ter, os jogos de interesse e as relações de poder entre os indivíduos, enorme importância na compreensão do universo simbólico que orienta a vida e as decisões de cada um e da coletividade seja ela vinculada à urbanidade ou a ruralidade.

De acordo com Carneiro (1998), as concepções de “urbano” e “rural” são representações sociais constituídas a partir de visões de mundo, crenças e valores ancorados no universo simbólico ao qual estão referenciados e conseqüentemente

“sujeitas a reelaborações e a apropriações diversas” (p. 60). Para entender os

meandros da concepção de ruralidade na atualidade se faz pertinente melhor caracterizar o conceito de representações sociais.

Tendo como ponto de partida a Sociologia do Conhecimento, Serge Moscovici, no início dos anos 60 do século XX, inaugurou um novo campo de conhecimento: a Psicossociologia do Conhecimento. A gênese foi o conceito de Durkheim, de representações coletivas. As representações coletivas segundo este último seriam o produto de uma imensa cooperação que se manifestaria tanto no espaço quanto no tempo, a partir de uma multidão de indivíduos diversos que associaram, misturaram, combinaram suas idéias e sentimentos em várias gerações que acumularam sua experiência e saber.

Partindo desta concepção, os indivíduos que compõe uma dada sociedade portariam e seriam os usuários das representações coletivas, porém, estas não poderiam ser reduzidas apenas ao conjunto de representações individuais, diferindo destas na sua essência. Durkheim teve como referência empírica as religiões de povos primitivos. Moscovici, porém, trilhou um outro caminho na busca de fenômenos de maior complexidade:

“As representações em que estou interessado não são as de sociedades primitivas, nem as reminiscências, no subsolo de nossa cultura, de épocas remotas. São aquelas da nossa sociedade presente, do nosso solo político, científico e humano, que nem sempre tiveram tempo suficiente para permitir a sedimentação que as tornassem tradições imutáveis. E sua importância continua a crescer, em proporção direta a heterogeneidade e flutuação dos sistemas unificadores - ciências oficiais, religiões, ideologias – e às mudanças pelas quais eles devem passar a fim de penetrar na vida cotidiana e se tornar parte da realidade comum.” (MOSCOVICI, 1978, p. 18)

O termo Representações Sociais resultou em uma construção teórico conceitual de um espaço psicossociológico demarcado, sendo as mesmas uma forma específica de conhecimento, mobilizado pelas pessoas em geral, cujo caráter de funcionalidade remete a elaboração de balizadores do comportamento e o estabelecimento de parâmetros de comunicação informal entre os indivíduos na vida

cotidiana. Verdadeiras teorias do senso comum, através das quais se procede a interpretação e a construção das realidades sociais.

Os indivíduos não são vistos apenas como “processadores da informação” ou “portadores de ideologias ou crenças coletivas”, mas fundamentalmente como “pensadores ativos” que a partir dos incontáveis episódios de interação social cotidianamente vividos, produzem e comunicam continuamente suas próprias representações e soluções para as questões que se colocam individual e coletivamente.

Moscovici (1978), considera que da mesma forma que a sociedade é tratada como um sistema econômico e político, cabe considerá-la como um sistema de pensamento. Faz ainda a distinção entre dois tipos de saberes oriundos de duas classes distintas de universos de pensamento: os “universos consensuais” e os “universos reificados”, sendo as representações sociais fruto dos saberes produzidos nos primeiros, subordinados a uma lógica própria, a partir de mecanismos de verificação diversos e menos vinculados aos requisitos de objetividade:

“Nos universos consensuais, a sociedade se vê como um grupo feito de indivíduos que são de igual valor e irredutíveis. Nessa perspectiva, cada indivíduo é livre para se comportar como um ‘amador’ e um ‘observador curioso’, que manifesta suas opiniões, apresenta suas teorias e tem uma resposta para todos os problemas. A arte da conversação cria gradualmente núcleos de estabilidade e maneiras habituais de fazer coisas, uma comunidade de significados entre aqueles que participam dela.” (MOSCOVICI, 1978, p. 186).

Jodelet, (1984, p. 36) define Representações Sociais como: “uma forma de

conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”.Complementarmente se coloca, a tarefa inerente às representações sociais de

transformar algo não familiar, em familiar.

Nas sociedades modernas o conhecimento reificado é mais rapidamente incorporado ao universo consensual, através do maior acesso dos indivíduos aos meios de comunicação de massa, sendo estas informações reelaboradas e incorporadas constituindo o conteúdo que compõe as representações sociais.

O fato das representações sociais estarem ancoradas na tradição, na memória e no passado, não significa que novos elementos não estejam sendo agregados a estas, produzindo mudanças e continuidade na construção do mundo de idéias e imagens que compõem o universo consensual.

Estruturas afetivas com dimensões normativas e avaliativas que guiam e facilitam o processamento da informação social, através de múltiplas mediações que em última análise são veiculadas e expressadas por cada indivíduo na tessitura de suas histórias cotidianas em uma indissociação entre indivíduo, grupo e sociedade demonstrando a falácia que representa a dicotomia entre indivíduo e sociedade.

Representação Social se apresenta como um conceito extremamente importante por constituir-se o dado empírico a partir do qual se possibilita uma análise dialética. O caráter dinâmico, processual mantém vínculos tanto com as condições sociais como com as condições individuais de existência.

Pode-se dizer que Representação Social trata-se de um conceito globalizante através do qual o indivíduo é concebido como um todo em que a singularidade individual e a totalidade social são indissociáveis, sendo que o sujeito ao elaborar e comunicar suas representações recorre a significados socialmente constituídos, assim como, a sentidos pessoais decorrentes se suas experiências afetivas e cognitivas.

As Representações Sociais dão conta ainda da compreensão do universo das necessidades, entendendo não serem estas, pulsões de origem biológica e sim a expressão de um enlace entre traços singulares de uma biografia e complexas determinações oriundas da ideologia dominante.

A partir de parâmetros ideologicamente instituídos se estabelece no jogo social as regras de permissão e interdição, criam-se referências afetivas e necessidades são atribuídas a partir de um processo complexo e insidioso onde as mediações psicológicas e as mediações sociais se interpenetram.

“Unir uma ideologia e representações sociais é implodir ambas para resgatá-las sob um novo paradigma que supere as ontologias regionais em busca de uma ontologia total, capaz de fundir ciências naturais e ciências sociais sob a hégide das humanidades, para restabelecer o nexo biopsico, físico e social que foi cindido pelo pensamento científico e ver o homem na

totalidade do pensar, sentir e agir. Estrutura e ação se transvertem um no outro, tendo como eixo de análise o indivíduo enquanto questão ética, política e psicossocial...” (SAWAIA, 1993, p. 83).

Então, a ruralidade pensada a partir da ótica das representações sociais, remete às especificidades regionais, aos “saberes” tomando formas diferenciadas de acontecer enquanto expressão coletiva específica de um determinado grupo, demarcando o entrelaçar do mundo urbano com o mundo rural em dinâmicas da vida social peculiares a cada região, mesmo que guardando em sua essência similaridades na constituição e manifestação do fenômeno.

Trabalhar sobre o espaço de constituição simbólica, entendendo a ruralidade não apenas como uma realidade empiricamente observável, mas como um feixe de representações sociais que se cruzam, possibilita transcender os limites da visão parcial de objetividade e colocar em cena a subjetividade, que em última análise move as decisões de cada indivíduo e do todo que compõe a coletividade.

Estudar o campesinato na Amazônia a partir de suas representações sociais enquanto grupo, pode ser um caminho fecundo para o entendimento das decisões que movem suas estratégias de organização e produção, permitindo chegar às demandas mais íntimas de um grupo e de indivíduos que se movem em busca da vida que acreditam que merecem ter, a partir de legítimas necessidades de reprodução desta e da existência, semeando a realização dos sonhos que carregam para as gerações futuras. Entender o significado do trabalho, neste contexto, tem a maior importância por ser ele componente estruturante destes homens e mulheres amazônidas, da mesma forma que são argamassa de muitos dos sonhos que permeiam o presente e acalantam o futuro.

TRABALHO: MEIO DE VIDA / MEIO DE MORTE

É que a maldição da ciência é imitar a vida, e o trabalho vem sendo maltratado pela vida. Sobre o trabalho paira a inscrição de Dante: “Deixai aqui toda esperança, oh vós que entrais”. Inscrição que, para a ciência, se transmuta em: “Por que gastar os olhos por onde reina a desesperança?” Mesmo assim, quem raspar a superfície amarga que veste o trabalho haverá de reencontrar a vida, o jeito dos homens inventarem a identidade. Wanderley Codo