Para encerrarmos esta parte, contamos com os argumentos preciosos de Jean-Luc Nancy, em seu The sublime offering, sobre a estética kantiana do belo e do sublime. Trata-se de uma leitura que busca uma visão mais contemporânea da doutrina do filósofo alemão, cujas ideias daí extraídas ajudam a conferir suas implicações na arte.
Como acabamos de ver, Kant tanto privilegiou a função desta faculdade da imaginação como lugar comum no qual nasce o sentimento do belo e do sublime. Especificamente neste último, falava do interdito que a imaginação sofria, a ponto de descrever seu fracasso como entrada num regime de “sacrifício”, de “privação”.140 O foco do exame de Nancy que queremos abordar aqui gira em torno especialmente desta indicação.
O autor não deixa de sublinhar o caráter desigual dos dois juízos estéticos, nem mesmo que haja uma contrariedade entre eles, mas preferirá entender o belo e o sublime como formação que se dá de um “ao longo da margem do outro, e talvez (...) um através o outro.”141 Enquanto o belo está para o sentimento originado na apreensão da unidade das formas representada, sugerindo aí o êxito de um esquematismo adequado, já o sublime, como Nancy ressalta, põe em movimento esse esquematismo; isto é, o sublime sugere um movimento contínuo, indefinido, infindável, ao qual a imaginação está fadada a perpetuar. Nas suas palavras, a “imaginação é portanto destinada para além da imagem.”142
Tal afirmação ainda precisa ser ampliada. Não é que este “além” deva ser procurado como um lugar outro de acessibilidade, como nos explica o autor. Antes, o sublime procede
139 Toda a análise de Kant durante sua Crítica privilegiou os objetos da natureza que indicam essa propriedade,
sejam por suas de dimensões incomensuráveis em relação ao tamanho ou ao poder devastador de sua manifestação.
140 KANT, I.. Critica da faculdade do juízo (1790). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p.115.
141 NANCY, J.-L. The sublime offering. In: COURTINE, Jean-François et al. Of the sublime: Presence in
question. New York: State of University New York Press, Albans; 1993, p.38.
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ao que a própria imagem provoca o exercício de compor a si mesma. Ou, melhor dizendo, o sublime estaria relacionado ao que a imagem do objeto impõe ao sujeito que a atividade imaginativa de intuí-la seja prolongada em seu esforço de apreensão. Razão pela qual Nancy prefere se referir a essa atividade como uma “pulsação incessante”143 rumo à constituição da unidade bem composta. Mas, o que o sublime atesta é que ela, a unidade, não se atinge numa totalidade. Em outros termos, o que se impõe é um esforço constante à imaginação em ser levado a seu extremo, ao seu limite.
É dessa maneira que Nancy se apropria da noção de grandeza incomparável, de incomensurabilidade, da qual Kant insistia em atribuir aos objetos que privilegiadamente suscitam o sentimento sublime. O autor ainda parte de uma perspectiva de compreensão que permite comparar a manifestação do sublime como um jogo intercambiável entre as dimensões de figura e fundo, mas entendendo que tanto uma quanto a outra dessas dimensões como não sendo o que possui uma delimitação que as figure como contraste. Ao contrário, uma parece ameaçar a constituição da outra, suspender ou arrebatá-la. Assim, a proposta de Nancy é pensar na introdução da sublimidade a partir de uma imagem cuja impressão é de inconformidade a si mesma. Logo, diferentemente da beleza pura e simples, aquela que sugeria nossa possibilidade de intuí-la “sem restos”, “bem sucedida”144, o sublime supõe uma instabilidade que se presentifica como tal. Quer dizer, o sublime seria originado neste esforço e ruptura, e, portanto, a imaginação oscilando entre “extrema tensão e distensão”145, nos tocando, nos comovendo, no “limite das imagens e palavras”.146
Com essa perspectiva, Nancy considera mais correto afirmar que o sublime não é aquilo que está para além do belo, mas sim defini-lo como “transbordamento do belo”.147 Partindo dessa ideia, o autor comenta que ela nos leva a um momento decisivo sobre a compreensão das artes desde o início da modernidade. O sublime instaura no pensamento sobre as artes algo que nos coloca em contato com a obra, mais do que com sua forma, sua regra. Enfim, no auge dessas formulações, podemos concluir com o autor: “O sublime é aquilo através do qual o belo nos comove e não aquilo através do qual nos apraz.”148
Estas considerações irão confluir para o que vínhamos introduzindo sobre a análise de Lacan quanto ao “brilho” e o “esplendor” do belo. Na verdade, Zupancic foi quem bem mais
143 Ibid., p.42. 144 Ibid., p.34. 145 Ibid., p.46. 146 Ibid., p.48. 147 Ibid., p.43. 148 Ibid., p.50.
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notou e desenvolveu comentários a respeito dessa conjunção entre os termos belo e sublime que o psicanalista faz no seu seminário da ética. Os seguintes dizeres de Zupancic sobre essa atitude inconfessada de Lacan parecem concordar, senão ressaltar, com o que procuramos descrever com Nancy:
Poder-se-ia defender que efetuando esta condensação Lacan avança em uma tese importante: na história da estética – ou bem na história do julgamento estético – o sublime tomou o lugar do belo, de modo que hoje se emprega a palavra “belo”, no sentido enfático do termo, precisamente para as coisas sublimes, ao passo que o outro sentido da palavra “belo” (uma forma harmoniosa) perdeu seu valor de julgamento estético, caindo na categoria do que Kant chama agradável. Nesse último caso, o belo se torna o equivalente do “gracioso”: agradável para ver, calmo para os olhos ou para o espírito, sem mais. A grande “descoberta” do sublime no curso da segunda metade do século XVIII não seria então simplesmente a descoberta de outra coisa além do belo, mas bem no índice de uma revolução que a própria noção de belo sofreu, tanto quanto a nossa sensibilidade “estética”.149
Sendo assim, encontramos elementos no próprio Seminário VII utilizados pelo próprio Lacan que possibilitam a aproximar a sublimação e o sublime. Dentre os mais importantes, a referência à imagem de Antígona e a anamorfose.