A fragmentação da consciência que a impede de distinguir cla- ramente as ideias adequadas, os afetos (por meio da alienação dos sentimentos), e consequentemente a ação – pois não se pode agir conscientemente sem afetividade – leva à alienação social. Quanto a isso, Lane (1989) comenta que tanto as representações como as ações praticadas pelo indivíduo devem ser analisadas a partir do contexto social em que ele é produzido, levando em consideração os conteúdos ideológicos e as contradições entre o discurso e a práti- ca que nos possibilitam detectar se a consciência do sujeito é uma consciência fragmentada ou se ele compreende de forma clara as
condições históricas e sociais em que vive. Desse modo, tal como reforça Botarelli (2002), verifica-se com nitidez que a emoção tem caráter social e ideológico, ao mesmo tempo em que porta um con- teúdo psicológico.
Tal pressuposto leva a retomar a questão do pensamento social caracterizado como uma forma simbólica (ideológica), constituída a partir da relação que se estabelece com o mundo e com os outros (ACCORSSI; SCARPARO; GUARESCHI, 2012). O pensamento social se encontra impregnado na cultura que em meio ao um aporte neolibe- ral, pode reproduzir a alienação afetando a forma de como o sujeito se implica (mínima ou intensamente) afetivamente na sua realidade. Nisto a família desempenha um papel importante, pois se configura como lócus da estruturação da vida psíquica e, por consequência, lugar de reprodução ideológica, porque “a família organiza a vida emocional de seus membros que lhe permite transformar a ideologia dominante em uma visão de mundo [...] assumidos mais tarde pelos indivíduos” (REIS, 1989, p. 104). A ideologia neoliberal predomina no pensamento social das famílias pobres no que diz respeito ao acú- mulo de riqueza, ao consumo e à aquisição de bens materiais:
Pesquisadora: Como é que vocês gostariam de estar daqui a 10 anos?
Caio: eu só queria tá só com umas cédulas mesmo. Com dinhei- ro e pronto [...] pra quê melhor do que dinheiro?
Pesquisadora: e tem alguma coisa que vocês gostariam de mu- dar na vida de vocês?
Caio: Na minha vida não, mas na casa se eu queria mudar, era tudo. Minha casa é feia [...] Não acha legal não o cara tá morando na casa toda na cerâmica e tal? Toda arrumadinha e tal (E2)
Era meu sonho ter minha maquinazinha [de lavar roupa], so- nhei dia e noite e hoje eu tenho. Foi um sonho muito grande [...] Eu tenho um sonho de botar uma ceramicazinha na minha casa [...] Me- lhorar de vida, né?(ROBERTA, E3)
Tentar possuir mais as coisas, né? [...] Deus quiser aí, quem sabe né man? Ter o meu transportizinho [...] tirar pelo meno uma motinha, pra não ficar andando a pé (JOSÉ, E3).
Embasados em uma ideologia dominante neoliberal incutida na cultura familiar, os sonhos das famílias pobres envolvem melhorar esteticamente a moradia, adquirir bens materiais como máquina de la- var roupa e moto, assim como também acumular dinheiro, afinal “pra
que melhor do que dinheiro?”. Fica claro que esses bens de consumo é
o que eles mais apetecem, entretanto, Gomes e Silva Júnior (2013, p. 44) alertam quanto ao cuidado que deve tomar em não se deixar levar pela subordinação dos afetos à estrutura econômica contemporânea, uma vez que na atual
conjuntura de apropriação da afetividade pelos imperativos do mercado é preciso estar atento e não se deixar levar pelas estratégias sedutoras do mercado que visam a todo instante capturar o consumidor através da manipulação de seus afetos com falsas promessas de felicidade que não condizem propriamente com o fortalecimento de seu conatus.
Embora se perceba que seus discursos estejam permeados por essa ideologia muitas vezes alienadora, cuja possibilidade de felici- dade está estritamente vinculada à aquisição de bens materiais, não se pretende afirmar que essas famílias não são dignas de requerer melhorias nas condições de vida mesmo que seja por meio da aqui- sição de bens de consumo. Entretanto, o que não se pode deixar de mencionar é que não são encontrados em suas falas sonhos que não estejam ligados à perspectiva neoliberal de consumo, como ter saú- de, ter a família unida, ou ainda, uma comunidade pacífica. Ademais, isso se configura como um alerta sobre quais são as perspectivas de vida da família pobre e sobre aquilo que está posto na cultura que mais tem influenciado seu pensamento social acerca de suas neces- sidades.
De outro modo, afetada por paixões tristes que diminuem sua potência de agir e de perseverar em seu ser, Maria (E1) relata não haver muitas expectativas quanto ao seu futuro:
tenho dessa idade [60 anos] [...] eu, a gente não sabe se chega a 10 anos não. Quem tem problema de pressão é qualquer coisa você pode passar mal [...] eu não quero é imaginar.
Da mesma forma, Roberta também não nutre muitas esperan- ças quanto ao seu futuro, ao refletir: “Eita [...] daqui a dez anos.
Como a gente gostaria de chegar até lá, mas ninguém sabe, né? Que a violência do jeito que tá [...]” (E3).
A passividade demonstrada por Maria mediante a possibilida- de de agravamento de uma doença já instaurada e a desesperança de Roberta em viver mais alguns anos de vida mediante a deflagração da violência no contexto em que vive, resultam no impedimento de avistarem novas possibilidades para seus respectivos futuros, infe- rindo em prenúncios que fundamentam um modo de vida permeado pelo fatalismo.
Tal postura é influenciada por uma ideologia alienadora que afeta o psiquismo humano e o modo de reação do indivíduo frente a uma situação adversa, sendo fundamentado pela estrutura do seu
carácter, tal como o define Martín-Baró (1998). Para este teórico, o carácter é observado enquanto uma estrutura de disposições, im-
plicando posicionamentos que designam as possíveis formas viven- ciais do sujeito, envolvendo tanto a preparação do organismo no âmbito biológico, como também, os aspectos cognitivos e afetivos de onde se elabora um sentido para agir. Desse modo, a postura as- sumida frente a algo predispõe a ligação do sujeito ao mundo, cuja atitude depende de uma estrutura de significações pela qual um elemento do mundo adquire significado para o indivíduo. Ao longo de suas vidas, tanto Maria como Roberta construíram uma rede de significações em sua relação com o mundo de forma que já não há mais sentido idealizar ou visualizar um futuro, porque este acaba sendo incerto.
De algum modo, a alusão às paixões tristes reveladoras do so- frimento ético-político das famílias pobres ou a falta de perspectiva de futuro elucidada em alguns depoimentos, demonstra a necessi- dade de se promover cada vez mais encontros que favoreçam a po- tencialização do conatus e a expansão do ser desses indivíduos, cuja prática interventiva nas oficinas se apresenta como um espaço pro-
pício para isso. Acredita-se, portanto, que são nos bons encontros que, de maneira reflexiva e crítica, as pessoas em situação de pobre- za podem passar a compreender o modo pelo qual são afetados ne- gativamente pelo mundo e dessa forma, por meio do conhecimento dos afetos, agir ativamente contra o processo de estigmatização que balizam práticas como a vergonha e a humilhação, por exemplo, per- petuadas por uma cultura dominadora.
Ademais, os afetos alegres mencionados em outros trechos deste capítulo como o desejo de fazer o bem ao outro, o amor ao próximo e o sentimento de gratidão – compreendido como empenho de amor de se esforçar para fazer o bem à outra pessoa – se confi- guram como importantes armas de enfrentamento à dominação e à opressão à qual estão suscetíveis as famílias pobres, direcionando- -as, desse modo, para uma práxis libertadora.