Refletir sobre aspectos contraditórios dos processos de implementação de empreendimentos cooperativos, propor ação articulada entre concorrência e cooperação para os padrões tradicionais de compreensão desses conceitos pode
64 Derrida se propôs à desconstrução de oposições binárias caras à tradição do pensamento
filosófico ocidental como teoria/prática, sujeito/objeto, natureza/cultura. A identidade, para ele, definida pela oposição não é fixa, mas flutuante, cambiante.
151 parecer heresia. A convergência entre eles pode levar a orientar um objetivo comum em ambientes que encerrem forças de cooperação e conflito, sem dúvida ingredientes estimulantes á eficiência e à incessante inovação.
Na teoria de cooperação do dilema dos prisioneiros, criado em 1950, por Meril Flood e Melcin Dresher, formalizado, posteriormente, por Tucker, seria uma alternativa para discutir a situação em que a perseguição do interesse individual é o pior resultado para todos. A cooperação, nesse caso, consiste em equacionar como podemos viver num mundo cuja premissa não é seja a cooperação. Em outros termos, poderia perguntar-se: a cooperação pode existir quando as possibilidades de vantagens são reais para todos? Embora essa teoria seja despida da discussão de valores, sugere que posturas com valores como
confiabilidade, honestidade e solidariedade65 podem ser cultivadas. A cooperação, por sua vez, existe entre indivíduos que decidem auxiliar-se
mutuamente em prol de propósitos compartilhados. Isso depende da decisão de duas ou mais pessoas. As razões para tal são de diferentes naturezas, pois simplesmente ajudar, auxiliar, apoiar ou socorrer nenhuma dessas ações objetivam cooperação, necessariamente, não buscando objetivos comuns. Assim, coopera-se com alguém para alcançar o que não é possível obter sozinho e para conquistar algo que interessa igualmente a todos. O conceito traz, implícita, a ideia de que no grupo cooperado todos ganham embora possa haver competição com outros grupos, mesmo internamente. Portanto, a cooperação, em si, não depende de relações de amizade ou companheirismo, embora essas relações possam existir o que não elimina a competição em outros âmbitos. A cooperação é um ato social, motivada por interesse ou necessidade e, a contribuição pode ocorrer ao mesmo tempo, em termos individual, originada espontaneamente, ou por imposição.
A doutrina cooperativista prescrita mundialmente corresponderia ao que, na realidade escolar, se denomina currículo formal. Nesse sentido, que trata dos conteúdos veiculados pelos cursos de formação dos cooperados e sua
65 A referida estrutura do Dilema dos Prisioneiros está apresentada em AXELROD, Robert (1986)
[1984]. La Evolución de la Cooperación: el Dilema Del Prisionero y la Teoria de Juegos. Madrid: Alianza.
152 composição. Já a prática do dia a dia da cooperativa corresponderia ao currículo implícito, ou oculto, aquele que se percebe no cotidiano das relações entre os sujeitos (DALBEN, 1985). É a faceta reveladora das normas e regras subjacentes à rotina estruturada por essas relações. Tal qual a autora com relação ao contexto escolar, na vida da cooperativa também é mais fácil discutir, alterar ou manter seu ideário do que modificar “as relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos no processo” (DALBEN, 1985, p. 31). Os princípios e valores do cooperativismo mantêm-se praticamente inalterados por centenas de anos enquanto que a prática, o cotidiano das cooperativas, tudo isso fica, na maior parte das vezes, esquecido, tornando-se desconhecido.
Afinal, o que define a forma de relação dos sujeitos com seu objeto de trabalho no caso de uma cooperativa popular? Seguindo o raciocínio de Dalben (1985), alguns fatores podem ser determinantes nesse caso: organização do trabalho, condições objetivas presentes no processo de produção, a tensão específica do cotidiano pela sobrevivência.
Como anunciado anteriormente, é difícil modificar práticas neste caso semelhantes ou idênticas às do sistema capitalista. Assim, na COEMBRA e na sua relação com a ITCP/UFPR, essa dificuldade é permeada por comportamentos de resistência ao controle, numa combinação tensa, sem perspectiva de superação, revelada na falta de consenso sobre o regimento interno e a proposta de transformação da cooperativa, em empresa tradicional. Sem dúvida, existem muitas cooperativas com sucesso evidente. Não há como precisar, com ou sem as estatísticas disponíveis hoje, a proporção delas, ou mesmo a fórmula que garantiria tal resultado, ou, ainda, o que as diferenciaria das que fracassariam. Da mesma forma, não se pretende generalizar as razões do fracasso de algumas cooperativas, nem o que lhes gerou insucesso, apesar das condições favoráveis de apoio e implementação integral do processo de incubagem. Considera-se, pois, que a peculiaridade de cada experiência é que distingue uma das demais visto o grande conjunto de variáveis combinadas entre si, em tempos e espaços determinados.
153 Do mesmo modo, não é o caso de buscar culpados ou redentores dos problemas apresentados. As questões são ligadas a inúmeras outras, mais amplas. Portanto, o que importa é compreender a orientação que recebem as ações e suas contradições entranhadas nos detalhes da prática social cotidiana e legitimadas nas relações, conforme explica Dalben.
São antagonismos que se vão entranhando tanto nas relações familiares como no trabalho e aos quais vamos nos acostumando, trazendo-os cada vez mais presentes nos processos dicotômicos de concepção x execução; transmissão x assimilação; produção x consumo; trabalho intelectual x manual; e outros que fazem parte do nosso dia a dia e que, em ultima instância, localizam-se na relação dominação x submissão. (DALBEN, 1992, p.32)
As cooperativas, à semelhança das escolas, têm perdido a função socializadora desse saber, mesmo sem perder a sua dimensão de historicidade. Isso se explica, talvez, por ser também um instrumento da dominação, conforme afirmação de Santos (1985). Decorre dessa afirmação que a política está em todas as dimensões do social, principalmente nos métodos de ensino que podem ser utilizados como forma de dominação. Trata-se da dimensão política do ato pedagógico. Para o autor, a teoria não guia a ação. Ao contrário! A forma de produção e reprodução do saber deve ser um processo de busca e de produção do conhecimento por meio do trabalho e da prática social. As mudanças sociais ocorrem no cotidiano criado e recriado por seus atores. Ressalta Santos:
O processo de ensino não deve exaurir-se em si próprio: ele é socialmente condicionado, e seu verdadeiro significado está no seu sentido teleológico. Em decorrência disso, a centralização do processo de ensino não ficará apenas no interior da escola, mas se volta para a prática social. (SANTOS, 1985, p. 22)
Ultrapassando, então, os muros da cooperativa, verifica-se que a situação existencial dos cooperados, embora heterogênea, apresenta alguns pontos comuns, a saber: instabilidade no trabalho (emprego formal ou informal); renda insuficiente para via digna; precária moradia; condições de saúde e educação precárias. Portanto, o interesse, nessas circunstâncias, e os problemas colocados
154 na prática social dos cooperados, estão relacionados à classe social a que pertencem.
Retratada a realidade desses sujeitos, seguindo a orientação de Santos (1985), passa-se a problematização na busca de solução para, em seguida, discutir as ferramentas culturais necessárias que os possibilitem libertar-se da exploração e voltar a outro nível, ao novo ponto de partida do processo. Trata-se de pontos de partida e de chegada, de captação de saberes relegados na escola, como proposto no método freiriano. Surpreendentemente, um método muito citado e pouco adotado no processo de incubagem. Aliás, ouvem-se pouco os cooperados! Na maior parte das vezes, os conhecimentos que consideramos que lhes são transmitidos são definidos segundo critérios de superiores e não deles, e pior, eles não só aceitam-no como também desprezam o seu saber.
Com efeito, a doutrina cooperativista, amplamente discutida e referendada ao longo da sua existência, paradoxalmente, não foi capaz de traduzir-se no cotidiano da maioria dos cooperados e, muito menos, apresentou-se como algum tipo de ameaça ao sistema capitalista. Ao contrário, a atuação de várias cooperativas aproxima-se, perigosamente, da prática empresarial quando elas não atuam de forma ainda mais predatória que as empresas capitalistas. Por isso, as cooperativas populares surgem distinguindo-se, insistentemente, desse conjunto por buscarem maior autenticidade no seu exercício. Todo esse esforço, entretanto, é pouco compreendido quando elas são igualadas a outros empreendimentos em geral, também considerados solidários ou, muitas vezes, fraudadores. Às vezes, também, são taxadas igualmente de favorecedoras do capital, reduzidas simplesmente a uma política compensatória, longe de promover mudanças. Entretanto, quando as cooperativas populares criam-se protegidas por ações compensatórias, com certeza, têm por objetivo superá-las qualitativamente, quanto ao aspecto econômico e social e, por definição, quanto a autossuficiência e autonomia.
De fato, a economia solidária ainda é um processo em construção que já cresceu muito com relação ao aspecto político, à educação, à formação, à organização, à produção e comercialização, mas há, ainda, muitas descobertas a
155 serem feitas e longos caminhos a serem percorridos. Mas, importa destacar, aqui, o entendimento de solidariedade à luz dos ensinamentos de Paulo Freire. Para ele, a realidade, ao fazer-se opressora,
implica a existência dos que oprimem e dos que não são oprimidos. Estes a quem cabe realmente lutar por sua libertação juntamente com os que com eles em verdade se solidarizam, precisam ganhar a consciência crítica da opressão, na práxis desta busca. (FREIRE, 1987)
Essa reflexão traz a ideia de liberdade e de transformação, uma vez que
a realidade opressora, ao constituir-se como um quase-mecanismo de absorção dos que nela se encontram, funciona como uma força de imersão das consciências. ... Neste sentido, em si mesma, esta realidade é funcionalmente domesticadora. Libertar-se de sua força exige, indiscutivelmente, a emersão dela, a volta sobre ela. É por isso que só através da práxis autêntica que, não sendo ¨blablablᨠnem ativismo, mas ação e reflexão, é possível fazê-lo. ... Este fazer ¨a opressão real ainda mais opressora, acrescentando-lhe consciência da opressão¨ a que Marx se refere, corresponde à relação dialética subjetividade-objetividade. Somente na sua solidariedade, em que o subjetivo constitui com o objetivo uma unidade dialética, é possível a práxis autêntica. ... A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor- oprimidos. (FREIRE, 1987, p. 37-38)
Resta dizer que a escolha da COEMBRA para o presente estudo objetivou, entre outras razões, evitar a tendência natural da prática discursiva dos sujeitos, que envolvidos com a experiência de incubagem, limitam-se a exaltar somente os pontos positivos. Por ser uma cooperativa que enfrentou e enfrenta enormes dificuldades, seus problemas são mais perceptíveis quando implícitos e, certamente, podem ser minimizados. Do ponto de vista da identificação dos obstáculos e limites da experiência, acredita-se que eles não seriam apresentados em condições tão claras se se considerasse um caso inverso: uma cooperativa de sucesso.
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