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Reversing a catastrophic path

Assim como uma praça, a própria cidade tem uma organização que atende e já atendeu a muitos interesses. Neste sentido, o espaço urba- no, ao mesmo tempo, apresenta diferentes usos e formas, é elemento de separação, mas estabelece ligações. Tal organização pode ser facil- mente constatada em diferentes bairros residenciais, comerciais e in- dustriais, que estão interligados, articulados entre si e em diversos ní- veis, por rodovias e ferrovias que possibilitam a livre circulação de pessoas, produtos e serviços. Assim, as várias partes (que se diferen- ciam pelos usos e características locais) encontram-se interligadas. Dia- riamente as pessoas deslocam-se de um bairro a outro para trabalhar, fazer compras, conseguir atendimento médico, etc. O espaço urbano é produto de uma sociedade que consome tal espaço, mas a atuação dos diferentes agentes sociais é feita e sentida em diferentes níveis.

A população de baixa renda e a miséria podem gerar espaços ur- banos. Por não terem condições de adquirir um lote para construir sua moradia e não tendo a oferta desta pelo Estado, para sobreviver, ocu- pam áreas impróprias e constróem suas moradias. Morar pressupõe ocupar um espaço.

Você sabe como surgiram as favelas do Rio de Janeiro? Elas podem estar distantes de nós, mas as conhecemos através da TV. No Paraná também existem favelas, aliás, hoje estas estão se espalhando por qua- se todas as cidades. Mas, por que estudar as favelas da cidade do Rio de Janeiro? Porque elas apresentam um aspecto curioso na lógica da pro- dução do espaço geográfico que demonstra interesses diversos, além de conhecermos um pouco sobre a origem das favelas brasileiras.

Até meados do século XIX, devido aos meios de transporte da época era necessário morar perto dos locais onde poderia conseguir um traba- lho. As pessoas lutavam diariamente para consegui-lo, pois trabalho fixo era muito difícil e não existiam leis trabalhistas que garantissem um sa- lário mínimo ou o descanso semanal. Grande parcela da população vi- via de pequenos serviços. Muitos viviam do comércio ambulante de pro-

dutos e serviços (doces, quitutes, engraxando sapatos, ...) no centro da cidade ou puxando mercadorias do centro para o cais do porto, isto é, vendendo sua força de trabalho. Era no centro da cidade, onde a circu- lação de pessoas era maior, que as possibilidades de manutenção da vi- da podia ser garantida.

A planície, ou a porção mais suave do relevo da cidade do Rio de Janeiro, estava ocupada simultaneamente por pobres e ricos, estes úl- timos foram gradativamente deixando o centro. Como possuíam seus próprios meios de transporte, afastaram-se deste local, indo para locais mais distantes, com bons ares. Seus antigos casarões viraram cortiços, ou seja, uma habitação coletiva, da qual cada família alugava um cô- modo da casa para viver, as demais dependências (cozinha, banheiro), eram usadas em conjunto por todos os moradores.

Outros, tentando lucrar, construíam grandes habitações coletivas (cortiços) para alugar cômodos. A região central do Rio de Janeiro esta- va tomada por cortiços no final do século XIX e início do século XX.

Que tal realizar a leitura de um clássico da literatura brasileira? O Cortiço (1890), de Aluísio de Azevedo (1857 – 1913), nos mostra como era a vida nos cortiços do Rio de Janeiro naquela época.

A leitura pode ser muito esclarecedora, pois mostra a construção e organização do espaço. Além de au- xiliar na compreensão de questões sócio-culturais e econômicas amplas, é um romance social envolvente, cheio de sonho, sensualidade, exploração, traição, ambição, ciúme...

ATIVIDADE

Mesmo com o início do funcionamento dos carros que se moviam sobre trilhos (puxados a burro), a partir de 1868, e com o início do trá- fego suburbano na Estrada de Ferro D. Pedro II, em 1870, a população pobre não se transferiu para a periferia, pois não tinha dinheiro para pa- gar o transporte periferia-centro-periferia. Fato que se repete até hoje.

Foto 3 - Estação Central da anti- ga Estrada de Ferro Dom Pedro II (Rio de Janeiro, 1899).

Foto 4 - Aqueduto transfor- mado em viaduto para bondes (Rio de Janeiro, 1896).

Você já ouviu falar da Revolta da Vacina? Ela existiu e foi aqui no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, nesse mesmo período estudado. Que tal realizar uma pesquisa sobre esse acontecimento?

PESQUISA

Com o fim do sistema escravista, a situação habitacional ficou ain- da pior, porque os ex-escravos viam na cidade grande a chance de so- breviver e conseguir algo melhor. Os cortiços proliferavam rapidamen- te e eram vistos, pela saúde pública, como causadores das epidemias que freqüentemente assolavam a cidade (febre amarela, peste bubô- nica, varíola, tuberculose, dentre outras), pois eram locais sujos, sem condições para circulação de ar e iluminação solar adequada, e não havia saneamento básico.

Após a Proclamação da República, os governantes começaram a desejar dar novos “ares” à capital de nosso país, que na época era o Rio de Janeiro, na tentativa de melhorar sua imagem no exterior.

As ruas estreitas não condiziam com o novo tempo, com a moder- nização. Agora não estamos mais no tempo da charrete, do cavalo, mas dos bondes e automóveis. Era necessária uma grande reforma ur- bana, que já estava acontecendo no continente europeu.

O prefeito Francisco Pereira Passos, nomeado para o cargo duran- te a presidência de Rodrigues Alves (1902 - 1906), decidiu iniciar a re- forma da cidade em nome do progresso e da higiene. O governo local desapropriou e destruiu quarteirões próximos ao litoral, acabando com as moradias coletivas. Os cortiços eram desapropriados e demolidos com a presença policial para evitar reações da população desalojada. Os governantes pareciam não se importar com os seres humanos que iam sendo expulsos de suas moradias da noite para o dia. Entretanto, num “ato de bondade”, permitiam que estes se apropriassem dos res- tos da demolição (tábuas, telhas, etc).

Com o pouco material conseguido, estes excluídos do centro cons- truíram pequenas casas nos morros próximos – uma estratégia encon- trada para permanecer na região central. Não podendo viver na planí- cie, restaram-lhes os morros, surgindo, assim, as primeiras favelas do Rio de Janeiro. A ocupação destes já estava acontecendo desde 1897, quando militares vindos da Guerra de Canudos ocuparam, provisoria- mente, os morros da Providência e de Santo Antônio, localizados nos fundos de guarnições do Exército e da Polícia. Veja mais sobre este te- ma no Folhas “É Proibida a Entrada!”.

Neste processo de desapropriações e demolições, muitos conse- guiam emprego nas obras executadas pelo governo, na abertura de avenidas e construções residenciais, o que possibilitou renda para uma numerosa população desempregada. Também estava em construção o novo porto, que, por um lado, desempregou os carregadores que fa- ziam o transporte de mercadorias do centro ao porto, mas, por outro lado gerou empregos em sua construção.

Após a expulsão dos pobres das planícies litorâneas e a realização de obras de infra-estrutura, ocorreu uma grande valorização desta área, inviabilizando o retorno da população de baixa renda. Com isso, retornam para a região os ricos que tinham se afastado anteriormen- te, não tendo mais os excluídos ao lado, mas não po- dendo deixar de vê-los nos morros locais. Dessa for- ma, podemos entender alguns interesses existentes na produção do espaço geográfico.

E na sua cidade, há favelas? Elas são denominadas favelas ou recebem outros nomes? Como foi o pro- cesso de formação desses espaços? Se você não sabe, que tal perguntar para as pessoas mais velhas?

ATIVIDADE

Fonte: www.vivafavela.com.br – Tony Barros

Agora leia atenciosamente os textos poéticos 3 e 4:

Quadro 3

Saudosa maloca – 1955

Adoniran Barbosa 1910-1982

Se o senhor não tá lembrado, dá licença de contar Ali onde agora está este adifício arto

Era uma casa véia, um palacete assobradado Foi aqui seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca Construimo nossa maloca

Mais um dia, nóis nem pode se alembrá

Veio os home com as ferramenta e o dono mandô derrubá... [...]

Que tristeza que nóis sentia, cada táuba que caía Doía no coração...

[...]

Quadro 4

Ave Maria do morro - 1942

Herivelto Martins 1912-1992

Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura lá no morro barracão é bangalô

lá não existe felicidade de arranha-céu [...]

tem alvorada, tem passarada ao alvorecer [...]

e o morro inteiro, no fim do dia reza uma prece: ave maria

Uma característica de todas as línguas do mundo é que elas não são faladas da mesma maneira pelos seus usuários, ou seja, há uma gran- de variedade de formas de expressão oral. Isso já existia desde a anti- guidade. Havia, por exemplo, o latim vulgar (popular), o qual deu ori- gem à Língua Portuguesa, que diferia do latim culto.

As pessoas de diferentes locais, idades, profissões ou classes sociais possuem formas distintas de se expressar, e esta forma não é a mesma em todas as situações, pois algumas exigem formalidade e outras não. A nossa linguagem oral também difere da escrita. Pelo sotaque pode- mos identificar a origem de uma pessoa?

As línguas variam de grupo social para grupo social, de região para região e também de situação para situação. Por exemplo, é freqüente jovens serem orientados para, ao procurar um emprego, não se apre- sentarem para a entrevista falando gíria. Nessas ocasiões é comum o uso da norma culta.

Nos poemas é possível identificar a condição social do narrador-personagem. Enumere os objetos geográficos, presentes no texto, que possibilitam esta identificação.

Os dois poemas apresentam alguma relação com o que está sendo apresentado neste Folhas? Comente.

ATIVIDADE

Bem, você já deve ter percebido que existem diferentes espaços, como: condomínios fechados, bairros residenciais de classe média, bairros operários, favelas, shopping, praças, locais de diversão... A construção destes espaços obedece a interesses econômicos, sociais e culturais. Será que os usuários de tais espaços são os mesmos?