Os manguezais têm uma importância estratégica para a sobrevivência de espécies, inclusive o ser humano. São conhecidos pela sua relevância, no que tange à produção de biomassa, por favorecerem a transformação de nutrientes em matéria orgânica e por serem um dos ecossistemas mais produtivos no mundo, funcionando como berçário natural para várias espécies de moluscos, crustáceos e peixes de interesse econômico (CARVALHO at al., 2007). Ainda conforme o mesmo autor, os manguezais são ecossistemas característicos de regiões tropicais e subtropicais, e representam um ecossistema de grande importância ecológica, biológica, biogeográfica, geológica e humana, devendo ser abordado em várias perspectivas, mas sempre visando a sustentabilidade.
O ecossistema manguezal possui grande importância para a manutenção e o sustento do equilíbrio ecológico da cadeia alimentar das regiões costeiras (NASCIMENTO, 2007, p. 2). Constitui-se como um dos principais ecossistemas costeiros tropicais, importantes transformadores de matéria orgânica, resultando na ciclagem dos nutrientes. Para Lana (2004), o ecossistema manguezal apresenta condições propícias para a alimentação, proteção e reprodução de muitas espécies de animais aquáticos, tanto marinhos quanto estuarinos e até mesmo alguns dulcícolas, que necessitam dessas áreas para se reproduzir durante o seu ciclo biológico e desenvolver diferentes fases larvais das suas respectivas proles.
A população do planeta é totalmente dependente dos seus ecossistemas e dos serviços que eles oferecem, incluindo alimentos, água, gestão de doenças, regulação climática, satisfação espiritual e apreciação estética. Diante da multidimensionalidade de todos esses serviços, torna-se evidente que os manguezais são essenciais para a conservação de diversidade biológica, proporcionando habitats, zonas de desova, proteção, viveiros, nutrientes para diferentes animais, entre outros benefícios. Uma ampla diversidade de animais e outros organismos vivos dependem dos processos ecossistêmicos desses bosques costeiros, sendo a função dos manguezais na cadeia alimentar marinha vital para a sobrevivência de muitas populações. Nesse contexto, estima-se que 80% das capturas mundiais de peixes em zonas costeiras tropicais são dependentes dos manguezais e dos sistemas de arrecifes coralinos (FIELD, 1998; FAO, 2007; ELLISON, 2008; POLIDORO, 2010; apud QUEIROZ, 2012).
Para além dos serviços de regulação e de produção de habitats, os resultados de investigações recentes realizadas a partir da percepção humana dos manguezais apontam para serviços culturais e serviços psicológicos, definidos de modo a evidenciar as vinculações simbólicas e materiais entre os ecossistemas e as comunidades tradicionais e étnicas (Quadro
2). Entretanto, os manguezais são responsáveis pelo serviço cultural de “criação e manutenção das relações sociais”, estando relacionado à construção e à manutenção das relações interpessoais da própria comunidade ou das relações da comunidade com comunidades vizinhas ou visitantes (EME, 2011; GIRI et al., 2011; MEIRELES, 2015).
Quadro 2- Três tipos essenciais de Serviços Ecossistêmicos: de abastecimento, de regulação e culturais
Serviços de Abastecimento
São os benefícios diretos ao bem-estar humano
provenientes das estruturas físicas e bióticas dos ecossistemas
Alimentos procedentes da agricultura, pesca, apicultura, etc. Alimentos obtidos diretamente dos ecossistemas naturais. Água para consumo humano ou para usos agrícolas e industriais. Matérias-primas (madeira, celulose, sal marinho ou continental, etc). Energia (biomasa, hidroelétrica, eólica).
Informação genética usada na biotecnologia.
Medicinas naturais, como as obtidas a partir das plantas silvestres.
Serviços de Regulação
São os benefícios indiretos ao bem-estar humano
provenientes do funcionamento dos ecossistemas
Regulação climática.
Regulação da qualidade do ar.
Regulação hídrica e depuração da água. Controle da erosão e fertilidade do solo.
Regulação de perturbações naturais, como o controle de inundações. Controle biológico, como o controle de pragas.
Polinização de cultivos agrícolas e plantas aromáticas ou medicinais.
Serviços Culturais
São os benefícios intangíveis que a sociedade obtém através de sua experiência direta com os ecossistemas e sua biodiversidade
Ciência e Educação ambiental. Atividades recreativas. Turismo.
Desfrute estético da paisagem. Inspiração para cultura e arte. Sentimento espiritual e religioso.
Criação e manutenção das relações sociais.
Manutenção do conhecimento ecológico tradicional. Identidade cultural e sentido de pertencimento. Relaxamento físico e mental.
Satisfação pessoal.
Fonte: EME, (2011) e MEIRELES et al., (2015)
De acordo com o Quadro 2, verificamos que os manguezais foram sempre responsáveis por serviços de bem-estar, provedores de felicidade. O bem-estar é uma das categorias identificadas pelas comunidades locais. Segundo Meireles (2015), esse serviço foi definido por estar relacionado, por exemplo, aos sentimentos de satisfação pessoal pela possibilidade de acesso aos recursos gerados pela natureza (riqueza), de exercício da atividade
pesqueira no manguezal, de liberdade no exercício do trabalho, sem imposição de regras. Desde o tempo colonial, o ecossistema manguezal foi sempre definido como importante para a realização de atividades físicas e de lazer, e para prática do relaxamento, atuando como um ambiente terapêutico, isto é, um lugar para pensar e também para escutar o vento.
2.5 Procedimentos técnicos e metodológicos
O campo do pensamento metodológico da pesquisa, como já foi dito, recorreu a discussões e estudos teóricos da análise geossistêmica desenvolvidos por Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2004, 2013); Rodriguez et al., (2013), apresentando o enfoque da Geoecologia das Paisagens, configurando um estudo complexo, baseado na abordagem sistêmica e interdisciplinar. A execução da proposta metodológica baseou-se nas seguintes fases: inventário, análise, diagnóstico e prognóstico.
A fase de organização e inventário compreende as etapas iniciais do trabalho, desde a delimitação da área de estudo, a justificativa de sua adequação e a execução das atividades. O inventário permite entender a organização espacial e funcional de cada sistema. Essa fase consiste na definição das unidades geoambientais, desde a classificação até a aquisição dos produtos cartográficos.
A fase de análise consiste no tratamento dos dados obtidos na etapa do inventário, pela integração dos componentes naturais e socioeconômicos, que permitem a diferenciação das unidades geoambientais que possibilitam a idenficação dos setores de riscos, conflitos e impactos ambientais existentes na planície fluviomarinha do rio Pungué.
A fase do diagnóstico apresenta a síntese dos resultados da pesquisa, permitindo a identificação dos principais problemas e potencialidades socioambientais existentes. É nessa fase que é feito também o prognóstico ambiental e socioecnômico, possibilitando a execução de propostas de zoneamento.
Os procedimentos técnico-metodológicos adotados consistem, no primeiro momento, na revisão bibliográfica sobre Geoecologia da Paisagem, ecossistema maguezal e percepção ambiental, para sistematizar a análise teórico-conceitual da pesquisa. O segundo momento corresponde à coleta das informações referentes à documentação cartográfica, à interpretação de imagens de satélites, como fonte para a elaboração do mapa das unidades ambientais e do zoneamento funcional da planície fluviomarinha do rio Pungué, entre outros documentos bibliográficos, incluindo as visitas de campo.
ferramentas a serem utilizadas para alcançar resultados satisfatórios em relação ao objeto proposto.