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4.2 Performance of the Government

4.2.3 Return

As Ongs associadas à Abong são organizações formalmente constituídas como associações (97,7%) ou fundações (2,3%), na sua maioria durante as décadas de 1970 e 1980 (56,4%). Ou seja, organizações com mais de 15 anos de existência, sendo 16 por cento delas com mais de 25 anos de existência.

As origens das organizações associadas são múltiplas e diversas, contudo podemos verificar uma grande influência de grupos ligados a universidades, movimentos sociais, organismos das igrejas (especialmente da Igreja Católica) e grupos autônomos de profissionais liberais e cidadãos.

Algumas organizações originaram-se de projetos iniciados dentro de universidades, outras foram criadas por grupos de professores universitários, alguns dos quais afastados da universidade pela ditadura militar. Aliás, a resistência de grupos civis contra a ditadura, pela defesa dos direitos humanos e restauração da democracia no país, foi a gênese de diversas organizações associadas.Algumas surgiram, após a anistia política em 1979, pela iniciativa de ex-exilados políticos.

Muitas organizações foram constituídas por integrantes de movimentos sociais urbanos e rurais, militantes feministas, grupos de mulheres, ativistas do movimento negro. Alguns movimentos de bairro e grupos de moradores também constituíram organizações não- governamentais. Outras associadas se originaram de demandas concretas de movimentos populares. Uma associada, respondendo sobre sua origem declarou que

22 Os resultados dessas pesquisas encontram-se publicados em:

Abong. Ongs no Brasil 2002: perfil e catálogo das associadas à Abong. São Paulo: Abong, 2002. Abong. Ongs: um perfil – cadastro das associadas à Abong. São Paulo: Abong e Etapas, 1998.

Landim, Leilah; Cotrim, Lecticia Ligneul. Ongs: um perfil – cadastro das filiadas à Associação Brasileira de

Um grupo de profissionais atuava voluntariamente junto a grupos organizados, instituições sociais e entidades comunitárias do movimento popular da área rural e urbana do estado do Ceará, e destes recebeu a legítima demanda por uma intervenção que contribuísse para a consolidação desses atores sociais como protagonistas do desenvolvimento local, tendo como eixo o Trabalho.

Um outro grupo de entidades deve sua origem à iniciativa coletiva de profissionais liberais (grupos de advogados/as, economistas, profissionais da saúde, educadores/as populares). Algumas surgiram por meio da iniciativa ou da inspiração de alguma liderança. A partir da década de 1980, contudo, podemos observar a constituição de organizações a partir de outros grupos de cidadãos, ativistas e intelectuais organizados em torno de tradicionais e novas demandas sociais urgentes e mobilizadoras que começaram a se presentificar ou a ganhar contornos mais explícitos na realidade brasileira. Podemos mencionar o caso da epidemia da Aids, da situação de risco de crianças e adolescentes nas grandes cidades brasileiras, ou em razão de desequilíbrios ambientais, por exemplo. Uma associada declara que “surgiu como uma resposta comunitária às ausências de informações e políticas públicas sobre Aids à época de sua fundação”; outra associada, constituída em 1997, surgiu “a partir da confluência de estudos e pesquisas de seus fundadores e da percepção da falta de ações e reflexões específicas sobre o tema das masculinidades e suas interconexões. Originalmente, o tema central de trabalho era a paternidade na adolescência...”. As ações que deram origem à criação de uma associada ambientalista em 1991 foram “o movimento em torno da criação do Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, a luta pela não construção da Usina de Manso e contra a hidrovia Paraguai-Paraná”.

Cabe ressaltar que, muitas vezes, a criação de uma organização é resultado de uma decisão estratégica de um coletivo de atores sociais. Uma associada, por exemplo,

foi fundada em julho de 1988 por diversos sindicatos de trabalhadores rurais, movimentos populares do campo, associações de produtores, pastorais ligadas às igrejas e entidades de assessoria dos três estados da região Sul do Brasil ... A organização nasceu, portanto, a partir de uma demanda das diferentes organizações sociais do campo. (Grifo nosso)

Contudo, uma das maiores influências na formação do campo de organizações associadas à Abong foi a Igreja Católica, por meio da ação de suas Pastorais Sociais, CEBs e

Dioceses. Esse dado interessante reafirma a enorme influência que as igrejas, em especial a Igreja Católica, tiveram e ainda têm na constituição do campo associativista no Brasil. Podemos verificar que a Igreja Católica impulsionou tanto a formação de campos associativos mais antigos – ligados à educação, à saúde e à assistência social – a partir da concepção cristã de caridade, filantropia e ajuda aos necessitados, como a constituição de um campo de entidades de defesa de direitos, que tem como perspectiva de ação a construção de sujeitos políticos emancipados e autônomos.

Uma associada da Abong afirma que sua origem foi resultado dos “trabalhos organizados pelas CEBs – Comunidades Eclesiais de Base, junto com os movimentos sociais”, uma outra diz que “nosso trabalho surgiu junto às comunidades eclesiais de base, sendo o principal foco a luta pela terra”. Embora possamos dizer que esse impulso político e organizativo aconteceu principalmente durante as décadas de 1970 e 1980, como conseqüência do trabalho de diversos agentes e organismos sociais da Igreja junto a grupos populares e movimentos sociais, ele ainda segue presente na formação de entidades durante os anos 90 e no início do novo século, com o protagonismo de novos atores. Uma associada foi criada em 1999

por jovens oriundos das pastorais populares, que decidiram entre si ter um instrumento de ação direta junto à juventude. Começou com desejo de ter autonomia, necessidade do reconhecimento do poder de mobilização da juventude; este desafio fazia parte de nossas conversas nos bancos das praças, em frente às igrejas depois das reuniões, nos centros culturais e nas mesas dos barzinhos...

A influência da Igreja Católica na origem de um número significativo de organizações associadas foi importante e ainda se faz presente por meio das pastorais sociais e de algumas dioceses, e através de organizações civis ligadas à Igreja, como a Cáritas. Contudo, nos últimos anos, lutas fundamentais das organizações que compõem hoje o campo político da Abong – como a descriminalização e legalização do aborto e o combate à homofobia e a qualquer forma de discriminação em razão da opção sexual –, encontram na Igreja Católica um de seus principais oponentes.