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5   HVA SIER EGENTLIG RETTSKILDENE?

5.3   Rettspraksis

Embora o homem moderno acredite na irreversibilidade dos fatos e não dê aos mitos a mesma valoração que o homem que vive nas sociedades arcaicas dá, é inegável a influência do mito e de toda a sacralidade que comporta, em sua vida. A humanidade não vive longe do plano transcendente e dos mistérios que carregam a vida e a morte, o homem anseia por revelar as verdades metafísicas nas quais se baseia o existir. Por isso os mitos continuam vivos, mesmo naquelas sociedades que se autointitulam as mais modernas. Diz Ana Maria Lisboa de Mello a esse respeito:

O espaço dos relatos míticos das sociedades primitivas é ocupado, na sociedade moderna, pela leitura da prosa narrativa, especialmente o romance, onde se encontram redivivos os grandes temas e personagens mitológicos da tradição cultural da humanidade. No Tratado de história das religiões, Eliade traça as hierofanias elementares do fenômeno religioso, cujas estruturas demonstram a constituição e o funcionamento do tempo mágico-religioso. Para o autor, as representações das hierofanias cósmicas (céu, águas, terra, pedras), biológicas (ritmos lunares, o sol, vegetação e agricultura, sexualidade) e tópicas (lugares sagrados, templos) são reatualizadas constantemente, na consciência moderna, através da literatura. (MELLO, 2002, p. 29)

Em seu livro O mito, K K Ruthven, autor australiano, diz, citando Schlegel que “a mitologia e a literatura formam uma unidade, e são inseparáveis.” (RUTHVEN, 1997, p.72). A afirmação é inegável no sentido de que toda a mitologia existente é transmitida de geração a geração sob a forma de narrativas, as quais têm início, meio e fim; constituindo um enredo, com clímax, peripécias e desfechos. Grande parte dessas narrações sobrevivem nas sociedades onde são contadas e recontadas, apenas através da oralidade, como maneira de manter o mito vivo entre elas através dos rituais; mas, as mitologias mais famosas e conhecidas da Terra e que influenciaram a vida de todos os que as ouviram, foram sistematizadas de forma escrita, mesmo que para isso tenham tido que passar por modificações e reinterpretações, como exemplo pode-se citar os mitos greco-romanos e as tradições mitológicas do Oriente Próximo.

Nenhum desses mitos ficou restrito apenas às sociedades em que foram criados, mas ultrapassaram as fronteiras de seus lugares de origem para serem conhecidos em qualquer época e lugar a partir de sua forma literária. A atemporalidade do mito é reiterada pela

literatura, que permite que ele seja conhecido e exerça influência sobre os homens, independentemente de tempo e espaço. Diz Ana Maria Lisboa de Mello a esse respeito:

A capacidade de participar do mistério do existir faz com que o mito seja a palavra que fascina. Desta aptidão de fascinar, resulta sua permanência na produção cultural humana, ao longo da história, desaparecendo e ressurgindo em diferentes manifestações das sociedades dessacralizadas. Para Eliade, os mitos sobrevivem na produção literária – lenda épica, balada, romance – ou, de forma atenuada, nas „superstições, hábitos, nostalgias‟, sem que com isso percam suas estruturas e valores. (MELLO, 2002, p. 32)

É importante estabelecer diferenciações entre o mito literário e o mito que foi literarizado, de acordo com a nomenclatura proposta por André Siganos (1993). O primeiro pode ser entendido como aquele personagem, ou acontecimento que foi criado por algum escritor em determinada época e que acaba sendo retomado por outros posteriormente, passando a ser conhecido como mito, inclusive fora da literatura. Fausto, Don Juan e Dom Quixote são exemplos de mitos literários. Já a ocorrência do mito literarizado acontece quando um texto não-literário, repassado através do tempo pela tradição popular, oral ou escrita (mito), é utilizado por um escritor como base para a produção literária. É o que faz DFS em seus poemas e tantos outros autores consagrados da literatura mundial.

O mito está ainda ligado à literatura porque, como ela, é fruto da imaginação humana. Embora sejam anônimos e coletivos os mitos carregam em si metáforas, símbolos e arquétipos, elementos comuns ao texto literário e ambos trazem consigo o poder do encantamento e da sedução. Estruturalmente o mito é construído sob a forma de narrativa, tendo nisso semelhanças com o gênero épico. Já semanticamente ele é visto como portador de revelações, dado o seu inegável caráter hierofânico e, nesse aspecto, aproxima-se do gênero lírico. Diz Max Billen a esse respeito em capítulo intitulado “Comportamento mítico- poético”, escrito para o Dicionário de mitos literários de Pierre Brunel:

O notável, nesse confronto do literário com o mítico, é que o mito associa-se quase sempre à palavra „narração‟. Se considerarmos, no entanto, que a narrativa mítica não é uma ficção mas exige a crença na verdade do que é contado, poderíamos acrescentar à „narrativa‟ a palavra „comportamento‟, que enfatiza o aspecto subjetivo do mito. (...) É este comportamento que dá ao autor de uma obra de arte o sentimento de revelar o inefável, o secreto, o oculto; de transcender a condição humana; de voltar a uma palavra original. Linguagem onde a ordem das palavras, dos sons, das cores aparece como criadora de uma ordem ao mesmo tempo fechada e aberta, singular e universal, antiga e fora do tempo, breve „poética‟ mas também „mítica‟: lugar de reunião, espaço da comunicação intersubjetiva, ponto de encontro de seres singulares e contingentes. (Billen, 2000, p. 186, 187)

Dentro das sociedades primitivas o mito vem sempre acompanhado do rito, geralmente repete-se a história das criações de todas as coisas para que a partir da rememoração de tais momentos o que foi criado não deixe de existir. É assim que, por exemplo, no momento da colheita de algum alimento canta-se sempre a sua origem e

como tal alimento passou a existir, acreditando-se que esse seja o motivo de sua perenidade. Os ritos são periódicos e neles canta-se o mito de criação, ali o pensamento mítico expressa-se através de imagens que demonstram como os cantos rituais têm efeito emocional e imaginativo e vão além do pensamento racional, voltando-se para o que é sagrado e misteroso. Essas características aproximam intimamente mito e poesia e salientam as afinidades existentes entre ambos, como disse Cassirer, “a lírica não somente se arraiga, desde seus começos, em determinados motivos mítico-mágicos, como mantém sua conexão com o mito, até em suas produções mais altas e puras.” (CASSIRER, 1972, p. 115).

O poema lírico sempre privilegia as formas simbólicas e metafóricas, rompendo com a linguagem racional cotidiana, e assim aproxima-se do sagrado, característica essencial do mito. Além disso, tanto o mito quanto a poesia traduzem o desejo do homem pelo que é infinito e intemporal, características que se contrastam com suas inevitáveis finitude e temporalidade. O homem anseia por alcançar uma condição liberta das determinações espaço-temporais e criou a linguagem do mito e da poesia para através dela chegar a esse estado. Tanto pelas narrativas míticas cosmogônicas quanto pelos poemas, o homem é capaz de viver experiências singulares e sagradas, opostas àquelas vividas por ele em seu cotidiano racional. Tanto a poesia quanto o mito são revelação e trazem ao homem experiências essenciais que não poderiam ser vividas em outro plano senão o do imaginário. Como diz Ana Maria Mello, “se a palavra mítica revela ao homem o sentido de seu estar-no-mundo, os mistérios que envolvem o existir, tendo na divindade o sustentáculo do enunciado, a palavra poética provém do interior do homem e nele tem ressonância, funcionando como recurso de auto-revelação.” (MELLO, 2002, p. 53).

O mito, seja qual for e proveniente de onde quer que seja, carrega valores, situações e questionamentos universais e atemporais, busca sempre responder a questões que acompanham o homem desde os primórdios, suas histórias relatam temas e acontecimentos que de tempos em tempos se repetem na vida do homem de diferentes sociedades, “por essa vocação, a mitologia continua e continuará a ser fonte inesgotável de motivos para a criação literária.” (MELLO, 2003, p. 12). Seja de forma patente ou latente inúmeros poetas ao longo do tempo recontam as histórias míticas através de seus escritos. Suas mãos, que já carregam o poder do mistério poético, são capazes de aproximar ainda mais mito e poesia, recontando as histórias dos tempos primordiais e dando a elas novos matizes e interpretações, trazendo-as a seu tempo e contextualizando- as de acordo com o que se passa contemporaneamente.