Sem a intenção de conceituar ou categorizar o lugar, Renato Ortiz (1994, p. 30) enfatiza que para o processo de mundialização “existir ele deve se localizar, enraizar-se nas práticas cotidianas dos homens, sem o que seria uma expressão abstrata das relações sociais.”
Assim Santos (2008) assevera que no lugar realiza-se o cotidiano partilhado entre as mais diversas pessoas, empresas, organizações e instituições políticas de ordens diversas; existe a cooperação e o conflito. Esses elementos são a base da vida em comum e do compartilhamento da vida social, sobrevindo igualmente a individualização, a identidade.
O lugar é o quadro de uma referência pragmática do mundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade. (SANTOS, 2008a, p. 322)
O sentido de lugar, para o autor condiciona-se a partir das referências do mundo, mas ele é também onde ocorrem as singularidades, onde se totaliza a vida, e não há como discorrer sobre globalização sem pensar nos acontecimentos e fatos que concretizam as práticas sociais, econômicas e políticas. Santos (2008b, p. 112) dialetiza a relação entre mundo e lugar:
[...] os lugares que realizam e revelam o mundo, tornando-o historicizado e geografizado, isto é, empericizado. Os lugares são, pois, o mundo, que eles reproduzem de modos específicos e individuais, diversos. Eles são singulares, mas são também globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual são formas particulares.
Ainda no pensamento dialético, uma referência importante para entender os lugares, segundo Santos (2008a, 2008b) é a verticalidade e a horizontalidade em situação de dinâmicas. A horizontalidade refere-se à contiguidade, corresponde às relações sociais do grupo, à existência comum em território comum. A verticalidade relaciona-se à integração funcional, envolve o processo produtivo, em suas relações de acumulação e produção de capital; ela se faz presente por meio de empresas representantes do poder hegemônico. As verticalidades também podem “ser definidas em um território, como um conjunto de pontos formando um espaço de fluxos” (SANTOS, 2008b, p. 105), pontos que estão articulados aos interesses globais e correspondem às tarefas produtivas hegemônicas. De maneira geral, a verticalidade vai condicionar para maior ou menor qualidade, conforme assevera o autor:
As verticalidades são vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático dos setores hegemônicos, criando um cotidiano obediente e disciplinado. As horizontalidades são tanto o lugar da finalidade imposta de fora, de longe, e de cima, quanto da contrafinalidade, localmente gerada. (SANTOS, 2008a, p. 286)
Trata-se do espaço concreto de possibilidades das manifestações individuais, mesmo que passiva, mas em função ou em derivação das dinâmicas que se perfazem nos interesses do capitalismo.
Com outra perspectiva de análise, porém com o mesmo escopo da lógica capitalista, o geógrafo Richard Peet (2000) destaca que no capitalismo a produção é direcionada às oportunidades de lucro e não às necessidades sociais. O lucro é realizado quando o bem é vendido; logo as mudanças ocorrem rapidamente, e a moda e a obsolescência fazem parte da vida capitalista. O mercado é considerado uma instituição anônima e obscurece a origem do produto que pode ser proveniente de um modo devastador da natureza ou explorador do trabalhador. O teórico afirma que “A enorme diferença entre a realidade econômica e a potencialidade de um consumo aparentemente ilimitado é uma fonte riquíssima de problemas sociais como consumo de drogas e a prática de crimes brutais.” (PEET, 2000, p. 59).
Peet busca no materialismo histórico, por meio da dialética, a compreensão do todo às partes, não suprimindo o momento das diferenças, pois é nessas diferenças que se realiza a dinâmica dos efeitos do capital, cujas consequências, provenientes dos ritmos globais que permeiam as sociedades e o vivido nos lugares, estão no escopo da vertente que toma nossa pesquisa. Consoante o discorrido, resgatamos uma das inquietações iniciais desta pesquisa, referente à narrativa do jovem que acentuou o paradoxo da insignificância do ensino e a supressão imediata das necessidades básicas, visto que a urgência do ganho rápido de dinheiro condicionava que ele se dirigisse ao comércio ilícito de drogas. Essa também é uma das consequências do contexto atual, experimentada pela carência e a escassez, em uma parcela considerável da sociedade que não tem acesso a recursos, bens e serviços em geral. Condição que dá visibilidade às desigualdades sociais incidentes nos lugares.
Vale ressaltar que os lugares subordinam-se aos interesses econômicos, configurando- se segundo uma seletividade de empreendimentos e direcionamentos de capitais ou de recursos que, mesmo sendo do Estado, estão vinculados aos interesses dos capitalistas. Podemos ressaltar que, caso o lugar não seja privilegiado por essa materialidade empreendedora, mesmo assim ele se subordina ao critério de análise: estar ou não inserido na globalização, o que também irá gerar desigualdades entre os lugares e no seu interior.
Outro aspecto importante, segundo Carlos (1996, p. 26), é entender o lugar a partir do sentido e significado daquele espaço em que o sujeito se “permite pensar o viver, o habitar, o trabalho, o lazer enquanto situações vividas, revelando, no nível do cotidiano, os conflitos do
mundo moderno.” Nessas relações, o processo da globalização manifesta-se pela contradição do mundial e as especificidades concretas do local:
O lugar é produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido, o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade, posto que é aí que o homem se reconhece porque é o lugar da vida. O sujeito pertence ao lugar como este a ele, pois a produção do lugar liga-se indissociavelmente à produção de vida. (CARLOS, 1996, p. 29)
Para a autora, o lugar tem um sentido bem mais amplo, não devendo ser compreendido apenas como o espaço onde se realizam as práticas diárias, mas também como aquele no qual se situam as transformações e a reprodução das relações sociais de longo prazo, do mesmo modo como se perfaz a construção física e material da vida em sociedade. Nele, realiza-se o cotidiano, o momento, o fugaz; e também a história.
Para nós, o lugar materializa toda uma ordem de grandeza, seja nas repercussões sociais, políticas, culturais e econômicas ou simplesmente nas ações individualizadas que respondem ou recriam novos momentos de possibilidades. É a expressão da globalização, contém materialidade, tem a aparência de práticas diárias, mas na essência manifesta as relações sociais de produção, bem como a construção física e material da vida em sociedade, dando visibilidade às desigualdades sociais.
Consideramos que os lugares no mundo submetem-se ao aparato dos interesses macroeconômicos, pois as empresas globais tiram proveito do uso dos espaços segundo seus empenhos econômicos – alguns deles serão merecedores de maior, menor ou nenhum investimento, criando assim formas socioespaciais de acordo com o usufruto da globalização ali materializada.
A análise da globalização como um processo como esse que propusemos não tem indicativo de um local específico, ou de uma região – é um movimento que se irradia e é irradiado em suas múltiplas formas e conteúdos, em uma interação dialética, como discutimos. Logo estabelecer um tamanho ou grandeza para as consequências nessa espacialidade pode gerar enganos, já que estamos em uma dinâmica.