1 INNLEDNING
1.4 Rettskildebildet
Em A Pata da Gazela, uma das personagens, Horácio, encontra uma pequena botina e, extasiado diante do tamanho do calçado, deseja conhecer a moça que teria aquele primor de pezinho. Na busca, o jovem corteja Laura, mas pouco depois se compromete com Amélia por achar que ela seria a pessoa que ele tanto procurava.
No entanto, o moço acredita ver uma monstruosidade ao olhar o pé da noiva, de forma que não hesita em desmanchar o compromisso e tornar a frequentar a casa de Laura. Por fim, percebe o novo equívoco e tenta restabelecer os vínculos com Amélia.
Ao mesmo tempo em que temos estas confusões provocadas por Horácio, acompanhamos as investidas de outra personagem, Leopoldo, que também procura conquistar Amélia, mas demonstra sentir um amor verdadeiro, pois acredita que suas almas teriam nascido uma para a outra, de forma que a união seria inevitável.
Não há dúvida de que há, neste romance alencariano, uma forte presença do conto “Cinderela”. É o próprio autor quem faz alusão à obra: “Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pelica e seda, a concha mimosa de uma pérola, a faceira irmã do lindo chapim de ouro da borralheira” (PG, cap.II, p.89, grifo nosso).
Conhecido como “Cinderela”, “Borralheira”, ou ainda “A Gata Borralheira”, as variações do título são um indício das diferentes versões que o conto apresenta, dentre as quais uma das mais famosas atualmente é a do francês Charles Perrault.
No conto, o filho do Rei se encanta com a beleza e a graça de uma jovem desconhecida, que dizem ser uma grande princesa. O príncipe dança com Cinderela, que volta para casa, mas que ainda retorna para mais dois bailes. Na última noite, ela perde um dos sapatos.
Na versão de Perrault, a pressa de sair do local antes da meia-noite faz com que ela perca o calçado. Em “A Gatta Cenerentola”, publicada em Pentameron ou O conto dos
tentativas para impedir a fuga da jovem, o príncipe coloca piche onde ela passaria e um dos sapatos fica grudado.
Observa-se que, em todas as versões, o essencial é mantido: Cinderela e o príncipe se encontram, ela perde um sapato, o príncipe o pega e, admirado, decreta o casamento com a jovem cujo pé o calce com perfeição. Em A Pata da Gazela, Horácio também fica com apenas uma botina em suas mãos. No entanto, ele não se apaixona pela pessoa em si, como o filho do rei, que se encanta pela jovem antes de ver como era seu sapato ou seu pé; mas idealiza apenas uma parte do corpo que deseja ardentemente ver e ter. Seu amor não é por uma jovem, mas por um pé. O único sentimento que demonstra ao perceber seus enganos durante a busca é o de alívio por evitar um comprometimento sério com o “pé errado”.
No conto, para que o sapatinho sirva, moças encolhem o pé, cortam dedos e/ou calcanhar. Ressalta-se que essa antiga história tem origem oriental, cuja cultura considera o pé pequeno “um sinal de virtude extraordinária, de distinção e beleza” (BETTELHEIM, 1978, p.277). Em Alencar, Laura tem pés enormes e desde a infância aprende a disfarçá-los, conseguindo ocultá-los até do marido, que morre sem descobrir o aleijão. Contudo, os pés que ganham maior destaque são os de outra personagem: Amélia esconde seus pés porque eles eram pequenos como os de uma criança. Há, portanto, uma inversão no conflito.
O ápice dessa inversão ocorre quando Amélia procura uma forma de fazê-los parecer maiores e calça uma enorme botina para testar o amor do noivo. Ela podia simplesmente mostrar a Horácio que seus pés eram realmente os que ele desejava, a jovem tinha diante de si um dos homens mais cobiçados pelas mulheres e ele a pedia em casamento; porém ela prefere testar seu amor e mostrar o inverso da realidade, pois, sabendo do afeto de Leopoldo, “queria ser amada por Horácio da mesma forma, com aquela sublime abnegação” (PG, cap. XVIII, p.154).
Cinderela também procura uma forma de verificar se o amor do príncipe é verdadeiro. Ao fugir dos bailes, ela revela o desejo de ser amada independente de sua aparência, mas por quem ela é na realidade. No dia em que experimenta o sapato, ela está vestida com suas roupas habituais, mesmo assim, o príncipe insiste para que ela também faça o teste. “Só se seu pretendente a vir no seu estado desvalorizado e ainda a desejar, ela será dele” (BETTELHEIM, 1978, p.304). A partir de então, não há mais motivos para fuga.
Essa busca pela essência seria resultado do amor sublime. No sublime há uma aniquilação da forma e do traço, pois “[…] o sublime, surgido no momento certo, tudo dispersa como um raio” (LONGINO, 1996, p.44). Leopoldo consegue atingir a sublimação, sendo que em diversos momentos ele declara sua admiração pela alma pura, pelo sorriso,
enfim, pela beleza celeste de Amélia. “Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: vê-se a chama, o esplendor, e nem se repara no espectro que a flama envolve como uma roupagem. Ela é minha luz” (PG, cap. IV, p.95).
O amor sublime exprime o mais alto grau de elevação, “onde o espírito, a carne e o coração vêm se fundir num diamante inalterável” (PÉRET, 1985, p.17). Esboçado no amor- paixão stendhaliano, este amor adquire todo seu sentido com o Romantismo.
Stendhal, em De l’amour, de 1822, analisa o encontro de almas que se reconhecem,
pois já existe um modelo ideal. “Um dia ela [a alma] encontra alguém que se assemelha a tal modelo, a cristalização reconhece seu objeto pela perturbação que ele lhe inspira e consagra para sempre ao senhor do seu destino tudo aquilo que sonhava há tanto tempo” (STENDHAL apud PÉRET, 1985, p.20).
Leopoldo acredita nessa “atração irresistível, que impele duas almas entre si, e as chama fatalmente a se unirem e absorverem uma na outra” (PG, cap. IX, p.115). Mesmo depois de saber que Amélia fora pedida em casamento, continua tendo a certeza de que ela fora destinada a ele, portanto, a alma da jovem era dele, mesmo que tivesse de esperar a morte para poderem ficar juntas.
- Quando comecei a amá-la, D. Amélia, […] acreditei na felicidade, e esperei alcançá-la neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e cuidou atraí-la e embebê-la em seu seio. Mas essa ilusão se desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e compreendi que a senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma; essa, ninguém me pode
roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim (PG,cap.XI, p.127).
De fato, temos um conflito com desfecho previsível e temas comuns ao Romantismo, como o amor idealizado, o encontro de pessoas que acreditam ter nascido uma para outra e o final feliz no qual ocorre um matrimônio. Contudo, uma análise mais atenta da obra pode mostrar a dimensão do gênio de Alencar, que ultrapassa o simples entretenimento do leitor.