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O Evangelho de Tomé deve ao ambiente do seu tempo a revolução do pensamento a sua composição e a sua mensagem, isto porque antes de procurarmos relacioná-lo com o misticismo judaico, ou com o platonismo ou com o hermetismo devemos questionar quais são as linhas do seu pensamento que o interligam ao ambiente universal

helenístico.

A ênfase no ‘eu’ individual, é sem dúvida a grande marca que como iremos demonstrar iniciou uma série de mudanças no pensamento religioso.

Começaremos por apontar a transformação do pensamento religioso ligada ao fim do sacrifício animal73, a extensão do domínio romano sobre o Médio Oriente74, o fenómeno do misticismo visionário e a proeminência da exegese textual religiosa face ao rito, assim como a interiorização do apocaliptismo.

O espaço geográfico de Tomé situa-se no antigo Médio Oriente, pelo que iremos apenas mencionar alguns momentos chave da história da sua cultura e religião.

71Cf. Uro R. (2003), 29-30.

72 Idem, 30.

73Cf. Stroumsa G. Guy (2015). 74Cf. Millar Fergues (1993).

48 Em duzentos a.C. após a estabilização política e o desenvolvimento económico, os Selêucidas e os Ptolemeus assistiram a uma nova estrutura cultural no Médio Oriente, o Helenismo. Esta transformação cultural abraçou os níveis mais altos da sociedade, as elites adotaram a língua grega e começaram a imitar a literatura, artes e arquitetura da Grécia clássica.

Macedónios e gregos emigraram e estabeleceram-se nas várias cidades existentes, os nomes destas cidades eram mudados e era-lhes concedido o estatuto de polis; estas cidades tornaram-se centros da nova cultura e religião heterogénea helenista, com uma profunda transformação cultural que manteve a sua influência até ao sétimo século com a conquista islâmica75.

A economia da maioria das cidades permanecia inalterada e baseada na agricultura e no comércio, a diferença que encontramos não está na qualidade, mas na quantidade. As condições climáticas favoráveis fomentaram a expansão da agricultura sobre regiões extensas, incluindo franjas do deserto76.

Rotas comerciais foram estabelecidas para a Arábia e a China através da Pérsia e da Ásia Central. Apesar do surto de guerra intermitente entre os Selêucidas e os ptolomeus que só viria a terminar com a anexação do Médio Oriente pelo Império Romano, este período helénistíco foi um dos mais prósperos economicamente e a sua influência cultural persiste até hoje.

O fim do sacrifício ritual apontou uma nova crítica ao ritual tradicional enfatizando a nova importância central da ética na religião. Surgiram aqui as bases para a nova dimensão universal da religião. Com a quebra do sistema tradicional ritualístico surgiram as novas crenças e atitudes religiosas77.

Como acima referimos a possibilidade de difusão de ideias neste período histórico é óbvia, assim como as carruagens e os bens facilmente se movimentavam pelo mundo

helenistíco, as ideias e as crenças deslocavam-se no espaço e no tempo.

A mudança religiosa surgiu também pelas novas tecnologias, com a difusão dos sistemas de escrita78; o desenvolvimento da escrita está diretamente relacionado com o estabelecimento dos impérios e sociedades centralizadas79.

75 Idem, 206. 76 Millar Fergues (1993), 206. 77 Cf. Stroumsa G. Guy (2015), 25-27. 78Cf. Idem, 27. 79Idem.

49 Com o crescimento destas sociedades, a necessidade de elites escribas aumentou; educar e treinar novas gerações de escribas permitiu à sociedade gerar livros que posteriormente deram origem a livros sagrados. Estes livros eram tradições orais muitas vezes esotéricas e pouco divulgadas.

A religião torna-se uma realidade inscrita no livro, torna-se uma religião portátil, que viaja com o viajante.

De Jesus a Maomé assistimos a uma série de movimentos religiosos80 que brotam deste meio cultural com os seus próprios livros sagrados. Creio que mais do que uma revolução religiosa de novas possibilidades, estamos a falar de uma revolução textual. Estas tradições geraram os seus próprios textos sagrados, redigiram comentários e traduções a outros documentos. Toda esta tradição literária floresceu no espaço do Médio Oriente e Mediterrâneo Oriental. Sendo assim necessário compreendermos como é que o papel desempenhado pelo livro, rapidamente iria transformar todos os sistemas religiosos deste espaço geográfico.

A criatividade destes documentos, e aqui sublinha-se a própria criatividade do

Evangelho de Tomé que apresenta uma textualidade que reconfigura em novos traços

velhas crenças e suposições.

O conceito de livro revelado contribui para grandes transformações na religião, os primeiros séculos do Império Romano testemunharam a revolução mais radical na história do livro até Gutenberg.

Esta revolução levou à passagem do rolo para o códex, no caso do cristianismo o códex foi adotado instantaneamente. O desenvolvimento da leitura silenciosa permitiu uma nova atitude perante o livro e os seus conteúdos introduzindo uma nova dignidade reflexiva única para o seu leitor. Situação bastante privilegiada pelo Evangelho de

Tomé. Estas transformações apontam para a privatização da leitura, a relação entre o

texto e o seu leitor tornou-se mais pessoal e menos pública81.

Esta privatização permitiu um espetro quase ilimitado de possibilidades hermenêuticas. Por um lado, isto explica o ambiente criativo que gerou os vários textos religiosos deste período. Quando pensamos na ênfase atribuída a um certo corpo literário tido como divinamente revelado podemos começar a ver todo o tipo de implicações dramáticas nesta revelação cultural da religião.

80 Por exemplo os cristãos, os judeus rabínicos, os gnósticos, os maniqueístas e os mandeus.

50 O outro fator que moldou claramente o mundo das religiões e a sua cultura foi a destruição do Templo de Jerusalém no ano setenta d.C.

A primeira consequência foi o nascimento de duas religiões que permanecem até aos dias de hoje, o cristianismo e o judaísmo rabínico.

Este novo advento do judaísmo transformou a religião de Israel, tornou-se uma religião sem sacrifícios, cujos sacerdotes perderam o seu papel. Os especialistas da religião foram substituídos por uma elite intelectual de escribas.

O cristianismo assumiu-se como uma religião centrada no ritual do sacrifício celebrado por sacerdotes, representada numa continuidade da religião de Israel. Este ritual era chamado anamnesis a reactualização do sacrifício de Jesus.

Apesar de ser uma religião sem templos o cristianismo primitivo oferecia este sacrifício de forma organizada por uma hierarquia, o vocabulário sacrificial de Israel foi mantido pela igreja dos primeiros séculos.

Com a queda do Templo os rituais foram transformados: os sacrifícios diários foram substituídos por orações. Como mais à frente iremos explorar, esta substituição e esta dissolução do Templo no pensamento religioso judaico, levou a religião a cultivar uma atitude mística e interior da busca do divino.

Sublinha-se o facto das ditas experiências visionárias e místicas estarem interligadas e presentes em vários textos de tradições diferentes, os textos gnósticos, textos místicos rabínicos, textos místicos cristãos e outras tradições pagãs.

O elo comum é o sentido de presença do divino, que pensando na questão da individualidade e da experiência íntima da leitura, poderá ser uma consequência dessa exegese interior.

A religião tornou-se mais internalizada e a participação religiosa passou a ser intelectual, feita através da leitura82. No âmbito geral do Império Romano as formas de ritual religioso estavam a focar-se nas escrituras, que eram lidas e interpretadas, oferecendo as bases para o chamamento ao arrependimento do pecado pessoal.

Em Roma a religião significara por muito tempo, quase exclusivamente, a observância do ritual. A questão da verdade não estava presente na esfera religiosa. A internalização e a individualização da religião transportaram o sagrado para a esfera privada.

51 Ao compararmos os evangelhos canónicos com Tomé, notamos algumas diferenças significativas como as ausências da narrativa da paixão e morte de Jesus. Também não encontramos os discursos apocalípticos e a retórica anti-judaica.

Porque é que estes elementos estão ausentes de Tomé? E porque é que estes elementos estão presentes nos evangelhos canónicos?

Será Tomé apenas um ponto focal dentro da diversidade das tradições primitivas evangélicas ou um ponto de viragema partir do qual podemos ganhar uma nova perspetiva sobre as tradições?

A tradição apresentada nos evangelhos canónicos é tomada como garantida, original, natural e normativa. A história canónica do cristianismo apresenta-se como a história original com Jesus sendo o messias que veio ao mundo, que foi rejeitado e crucificado, ressuscitando ao terceiro dia. Esta é a narrativa histórica do Evangelho de Marcos, a narrativa histórica dos sinópticos e também a narrativa do Evangelho de João.

O ponto de partida para investigarmos o papel do Evangelho de Tomé na constituição da história do cristianismo primitivo é percebermos aquilo que existe de comum entre os

evangelhos canónicos e o de Tomé.

O elo de ligação comum entre todos estes documentos é o facto de todos estes documentos serem um reservatório de memórias cultivadas acerca da perceção que as comunidades tinham da figura de Jesus.

Será que a memória canónica de Jesus foi a original, a história natural? Quando recorremos às cartas de Paulo, também este enfatiza o nobre martírio e formula o seu kerigma em função dessa memória.

Esta história foi interpretada num esforço para tornar significativa a memória de Jesus num contexto cultural particular e à luz de uma experiência particular: a experiência de ser dissidente no Império Romano83. Jesus foi executado como um dissidente do império e esta memória era um facto com que os seguidores dissidentes se podiam relacionar. As suas histórias focaram-se assim no martírio de Jesus: na sua vida, morte e ressurreição.

Mas será que esta foi a única forma como Jesus terá sido relembrado?

Neste capítulo a questão será respondida a partir de várias observações feitas ao

Evangelho de Tomé e a sua localização geográfica em Edessa, a região a leste do rio

Eufrates.

52 A memória de Jesus que foi cultivada neste evangelho é bastante diferente, e cremos que isso deve-se ao facto do contexto cultural em que esta tradição surgiu ser completamente diferente do contexto cultural dos evangelhos canónicos84.

Edessa não era uma cidade romana, era uma cidade de estado independente, um espaço comercial importante para as rotas de caravanas, onde pessoas de todo o levante se encontravam. Estas diferenças refletem-se no texto e no contexto. O Evangelho de Tomé parece vir a ser bastante adequado ao seu ambiente e aos desafios que o acompanham.

Vivências e Mentalidades na outra Margem do Eufrates

Edessa era a capital do principado de Orsoena a leste do Eufrates, situando-se na grande estrada que atravessava o deserto siríaco a sul e as montanhas da Arménia a norte. Os seus habitantes falavam aramaico, sendo a cidade um centro de cultura literária antes do advento do cristianismo85.

Ao longo da sua história até ao terceiro século Edessa passou por várias mudanças políticas. O estabelecimento do governo selêucida na região sucedeu à dominação da Pártia e à instauração de uma monarquia; depois seguiram-se a invasão de Trajano e a subsequente rebelião, a invasão de Lúcio Vero, a rebelião de Abgar VIII e a sua submissão a Septímio Severo. E finalmente a incorporação da cidade no Império Romano como um município sobre o domínio de Caracalla em duzentos e doze e.c.86. A resistência de Edessa ao domínio romano, durante o segundo século, pode ser pensada em termos da sua afinidade com o “Oriente” – o reino Parta do qual foi aliado durante dois séculos. A afinidade com Pártia desenvolveu-se durante o período em que Edessa foi governada por uma série de reis com nomes árabes e falantes de língua semita. A ligação a Pártia exerceu uma grande influência sobre a cultura de Edessa87. A cultura de Edessa absorveu ainda assim traços da cultura helenista de outras cidades siríacas. Em termos de fontes históricas, o registo literário começa com o trabalho de Bardesanes de Edessa por volta dos inícios do terceiro século, quanto aos registos físicos encontramos vários artefactos da Edessa pré-cristã, religião, arte arquitetura e a organização da cidade. Estes elementos ajudam-nos a desenhar as linhas gerais da sociedade de Edessa e a sua cultura. No entanto não foi descoberto nada que dê uma

84Cf. Idem, 11.

85Cf. L. W Barnard (1968), 161-162. 86Cf. Ross. K S. (2011), 83.

53 evidência direta da situação antes do fim do segundo século88. Em termos religiosos Edessa possuía vários deuses gregos e semitas; a vida religiosa da Edessa pré-cristã teve raízes profundas e as suas crenças e práticas não desapareceram com a chegada do cristianismo. Os governantes de Edessa reverenciavam um panteão de divindades semelhante àquelas que eram adoradas na Mesopotâmia e Síria, sendo possível estabelecermos ainda ligações com a religião árabe e nabateia89. Os deuses babilónicos importantes, Bel e Nebo, ocupavam um lugar de destaque no panteão de Edessa. Edessa tinha uma comunidade judaica de pensamento helenista. Os judeus em Edessa eram recetivos ao cristianismo, isso refletiu-se na reminiscência histórica do cristianismo de Edessa no seu desenvolvimento tardio. A localização de Edessa no tráfego comercial das rotas norte/sul e este/oeste tornou a cidade num local multicultural no final do primeiro século, onde elementos do oriente e do ocidente, norte e sul se encontraram e se misturaram90.

Esta junção de judeus falantes do grego, que emigraram pelas rotas comerciais da Síria – Palestina, foi para se estabelecerem em cidades como Edessa e Nísibis, onde nos primeiros dois séculos floresceram e desempenharam um papel ativo na sua cultura intelectual e religiosa. O Evangelho de Tomé representa o desenvolvimento da tradição de Jesus que teria sido no seu contexto, relevante no seu ambiente social. O texto oferece uma perspetiva acerca da vida mundana de uma cidade comercial, as fortunas feitas e perdidas, a tentação do ser humano a emergir por completo na vida superficial do comércio e dos seus vários prazeres efémeros.

“[Disse Jesus]: Se tendes dinheiro, não o empresteis a juros, mas dai-o […] àqu[ele] de quem não recebereis91; Se não jejuais do mundo não encontrareis o Reino92; Felizes os pobres porque vosso é o Reino dos céus93; Jesus disse: estai de passagem94

Podemos assim observar como Tomé fala do seu contexto cultural como um entendimento alternativo de como a vida deve ser vivida. A sabedoria contra cultural da tradição de Jesus, revestida da filosofia platónica de renúncia ao mundo, é oferecida 88Cf. Idem, 84. 89Cf. Idem, 101. 90Cf. Patterson. J S. (2013), 21. 91Ev de Tm lg 95. 92Ev de Tm lg 27. 93Ev de Tm lg 54. 94Ev de Tm lg 42.

54 como a verdadeira sabedoria de Jesus o Vivente. Como já foi referido Edessa conseguiu manter a sua independência face a Roma até duzentos e catorze e.c.; durante o tempo da sua autonomia a cidade era um local relativamente pacífico onde judeus e cristãos poderiam integrar-se na vida urbana, livres de conflitos com as autoridades cívicas. Esta experiência foi de facto bastante diferente daquele que os seguidores de Jesus viveram no ocidente, no outro lado do Eufrates.

Ao analisarmos o contexto de Edessa com Tomé encontramos um ponto de convergência entre a sua textualidade e as vivências e mentalidades dos seus leitores. Alguns elementos tomados por garantidos nos evangelhos sinóticos como a morte e a ressurreição, o cenário apocalíptico, o situar a comunidade cristã no final dos tempos e as polémicas com outros grupos judaicos (fariseus, saduceus e escribas) não estão presentes em Tomé.

Estas coisas não estão presentes no Evangelho de Tomé porque não foram relevantes para a realidade que o compôs. Aqueles que usaram este evangelho na Síria oriental a leste do Eufrates não enfrentaram a morte nem a perseguição opressiva romana, por isso não refletiram sobre a morte de Jesus. Eles não enfrentaram uma guerra cataclísmica então não se voltaram para cenários apocalípticos que poderiam colocar este tipo de violência num contexto teológico95. Parece-nos também que estes seguidores de Jesus se integraram na comunidade judaica de Edessa de uma forma relativamente harmoniosa, sendo assim desnecessária a polémica anti-judaica nos seus textos.

O contexto fez a diferença, em Edessa a cidade comercial, um tipo diferente de cristianismo cresceu encontrando uma ressonância nas vidas de homens e mulheres que desejavam seguir a sabedoria de Jesus, de forma a escaparem da superficialidade da vida mundana do comércio e chegarem ao auto-conhecimento que conferia dignidade e valor a cada ser humano como “filho do Pai Vivente”.

O Evangelho de Tomé demonstra-nos que existiram múltiplas possibilidades de interpretar a tradição de Jesus. A cruz e a ressurreição não eram o único foco possível da pregação cristã primitiva, a vinda do apocalipse não era a única forma de imaginar o futuro e a animosidade para com os judeus não era necessária para a definição da identidade cristã.

A realidade influencia a religião que está ausente na narrativa de Tomé encontrando-se claramente presente nos textos canónicos, narrando-se a história de Jesus como um

55 martírio, focando a fé nesse evento específico, fazendo parte de um drama cósmico no qual os “judeus” são inimigos, não são apenas elementos naturais da tradição de Jesus. Foram essencialmente elementos escolhidos pelo seu valor afirmativo do significado dos acontecimentos contemporâneos e a experiência dos seguidores de Jesus como dissidentes do Império Romano96. A teologia da cruz paulina pareceu a escolha certa para Paulo porque ele interpretou a sua experiência desofrimento e humilhação, uma experiência que ele acreditava em não ser possível evitar, se alguém quisesse abraçar verdadeiramente a vida de Jesus97.

No oriente a leste do Eufrates o cristianismo estava a tomar outra direção, outro mundo, um mundo em que os seguidores de Jesus não eram dissidentes, não eram perseguidos pelas autoridades, presos ou martirizados. As suas escolhas teológicas foram diferentes, eles viram Jesus como um mestre de sabedoria, um anunciador de palavras este era o Jesus destes cristãos, não era o messias crucificado, no qual Paulo encontrou a fé, este Jesus era o “Jesus Vivente” cujo conhecimento podia guiar os fiéis até à fonte da vida, o “Pai Vivente”. A fé de Jesus não se tornou apenas relevante para aqueles que se encontravam no papel de discípulos dissidentes do messias dissidente crucificado. A leste do Eufrates, para além das fronteiras do Império Romano a fé de Jesus tornou- se relevante de outra forma, as suas palavras tornaram-se a chave para uma forma sábia de viver a vida, e sinalizou a esperança de que o mundo da compra e venda, do abraçar da ambição e até a vida familiar não eram o fim de todas as coisas. Conhecer-se a si próprio como “filho do Pai Vivente” representava uma escolha teológica bastante diferente.

O cristianismo primitivo em Edessa a partir das fontes que temos disponíveis do segundo século era profundamente influenciado pelo judaísmo cristão e o seu pensamento foi influenciado acima de tudo pelas especulações antropológicas e cosmológicas do neoplatonismo. O debate intelectual da época cercava os temas da criação relatados no livro de Génesis. Sendo a exegese destes textos a base teológica da crença religiosa do Evangelho de Tomé a um nível antropológico. Os padrões de pensamento presentes no Evangelho de Tomé situam as suas ideias no judaísmo do período intertestamental, nomeadamente nalguns textos escritos nesse período, sem os quais a leitura de Tomé se torna difícil.

96Cf. Patterson. J S. (2013), 26. 97Cf. Idem, 30.

56 O tema de buscar e encontrar é muito frequente neste evangelho98; podemos afirmar que esta temática é a base da maior parte do texto sendo um dos seus temas mais unificadores99.

O Pensamento de Tomé e o Platonismo

A localização geográfica do Evangelho de Tomé influenciou a sua textualidade e o seu pensamento. Prova disso é a abordagem comum que partilha com os vários textos cristãos primitivos de Edessa, que tendem a ler a tradição de Jesus de uma forma platónica100.

Já apresentámos na secção 3.7 os elementos distintos da voz teológica de Tomé, notando o contraste entre a teologia centrada na cruz e no sacrifício vicário e a teologia centrada na interpretação e na iluminação dos ditos de Jesus. A distinção do espaço geográfico de Edessa em relação ao Império Romano clarifica as mentalidades e as vivências em ambos os contextos.

Os elementos fundamentais do pensamento de Tomé partem do seu núcleo primitivo, assente no primeiro lógion: “Aquele que encontrar a interpretação destes ditos não saboreará a morte”101. Tomé convida o seu leitor a uma certa hermenêutica de reflexão