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175 RECONFIGURAÇÕES DA FIGURA DO AUTOR

Tendo em conta que, como referimos anteriormente, acreditamos assistir na literatura digital a uma reconfiguração da figura do autor começaremos por afirmar que essa reconfiguração, tal como a do leitor, parece ser originada por mudanças na materialidade da escrita que aparentam ter implicações para as entidades envolvidas no próprio processo literário.

Se, como sugere Foucault (1987, p. 133), as mudanças na materialidade dos enunciados interferem na ordem dos discursos vigentes propiciando “regras de transcrição, possibilidades de uso ou de reutilização” dos próprios discursos, então, estamos em condições de afirmar que a introdução de novos suportes implica novos usos e, consequentemente, conduz-nos a novas práticas discursivas que constituem condição para a reconfiguração da identidade do próprio autor.

A provar isso mesmo está o facto de a introdução de novos meios de comunicação nos proporcionar uma plataforma privilegiada para pensarmos como, ao longo do tempo e à luz da evolução dos média, os discursos têm vindo a ser reconfigurados, reconfigurando também os seus “atores”.

Como ilustra Jan-Dirk Müller (2004, p. 21), remetendo ao século XVI e a um momento de reconfiguração na ordem dos discursos:

(…) A invenção da imprensa e de livros com letras móveis teve consequências históricas e culturais muito amplas, que puderam ser avaliadas apenas de modo muito lento e que certamente são comparáveis apenas às consequências da revolução contemporânea dos meios eletrónicos de comunicação [tradução nossa].

Referindo-se ao aparecimento da imprensa e à consequente expansão e difusão do livro impresso, nota Jan-Dirk Müller, uma reconfiguração: a perda de autoridade das instituições eclesiásticas medievais – detentoras dos códices – em detrimento de uma maior difusão da palavra escrita por todas as esferas da sociedade.

Neste sentido, e reforçando a ideia de Foucault de que novos suportes implicam novos discursos e novos modos de olhar os intervenientes nesses discursos consideramos, pois, que a literatura digital interativa introduz, através das suas especificidades, a necessidade de pensar o autor, tal como a literatura, à luz de uma continuidade histórica que nos mostra, essencialmente, que todas as épocas, com as suas respetivas especificidades, nos propõem, à sua maneira, novos olhar sobre a mesma realidade.

176 Assim, sublinhamos, portanto, que, num movimento de continuidade que se estende do

auctor medieval, ao autor do Renascimento, passando pelo genius romântico, é hoje

pertinente, à luz do desenvolvimento dos novos media e da eclosão de novos suportes, pensar um autor digital que tem, à luz do seu tempo, determinadas características que, no nosso entender, nos permitem alargar a reflexão em torno do campo da literatura na era digital.

Do autor autoritário ao construtor de percursos

Assim, e para começar a analisar as reconfigurações sofridas pelo autor na narrativa digital, começaremos por centrar-nos numa das ideias que é usualmente apontada como marca distintiva dos textos digitais – a ideia de que este tipo de texto propicia um enfraquecimento do autor enquanto figura autoritária e munida de poder total sobre a obra, para nos apresentar, por seu turno, um autor reconfigurado que cede espaço ao leitor e ao seu processo de construção de sentidos para o texto.

Desta perspetiva, diríamos, então, que, em traços gerais, a literatura digital é usualmente apresentada como um tipo de literatura que promove um descentramento e uma perda de autoridade da figura do autor.

Assim sendo, interessa-nos, particularmente, avaliar criticamente esta ideia, mostrando que, de acordo com a nossa perspetiva, é possível refutá-la uma vez que, no nosso entender, o pretenso esbatimento da figura do autor não é mais que um esbatimento dissimulado, uma vez que acreditamos ser possível admitir que o poder desta figura se encontra atualmente intensificado sob as novas estruturas do digital.

Na verdade, se pensar o hipertexto enquanto estrutura aberta, intertextual e associativa facilmente nos poderia levar a acreditar que os desdobramentos e possibilidades por ele propiciadas escapariam ao controlo e ao poder criativo do autor, o que pretendemos aqui mostrar é que ocorre precisamente o contrário.

Na verdade, embora, de facto, o hipertexto apresente uma estrutura bastante diferente da estrutura do texto convencional, observamos que, em momento algum, deixa de ser o autor a desenhar o esquema funcional da obra, os seus desdobramentos e as suas possibilidades.

Desta perspetiva, defendemos, portanto, que a figura do autor parece manter, no digital, grande parte dos poderes que detinha no impresso, sendo-lhe ainda acrescentados um conjunto de valências que resultam das novas possibilidades criativas permitidas pelos suportes digitais.

177 Assim, se observarmos, a grande diferença parece estar, de facto, no modo como o novo suporte digital, a nova materialidade desta literatura, oferece, através das suas potencialidades e das suas propriedades materiais e interativas, a ilusória sensação de atribuir maior relevância ao leitor e, consequentemente, de contribuir para um desempoderamento da figura do autor.

Nesta perspetiva, diríamos, brevemente, que, ao focar-nos na materialidade do digital, e avaliando a abertura participativa que os novos suportes oferecem ao leitor, seria fácil acreditar que, de facto, o autor se vê, nesta era, desinvestido dos seus poderes.

No entanto, defendemos aqui que esta ideia, para além de ser, no nosso entender, errada parece ser potenciada pelas possibilidades dos novos suportes que, apresentando-se, na sua essência, como objetos interativos, manipuláveis e maleáveis, propiciam, a partir da sua materialidade, a ilusória sensação de que o leitor pode, através da interação, dominá-los a seu bel-prazer.

Ora, assim sendo, na nossa opinião, é importante desmistificar a ideia de que, com a introdução do digital, “o leitor tudo pode”. Na verdade, embora o leitor seja hoje brindado, através das propriedades dos novos suportes, com a possibilidade de navegar por estruturas abertas que apelam, diretamente, à sua intervenção, este não tem, na realidade, plenos poderes sobre o texto literário.

Assim, o pretenso enfraquecimento do autor é, no nosso entender, não mais que uma ilusão uma vez que, na verdade, a liberdade do leitor na construção de sentidos para o texto está, afinal, condicionada pelas opções que lhe são oferecidas pelo autor.

Como sustenta Vouillamoz: “(…) el autor debe decidir qué elementos constituyen nodos independientes y cómo estos nodos se interrelacionan, dibujando así el esquema básico sobre el que se sustentará el desarrollo posterior de la obra” (Vouillamoz, 2000, p. 181).

Desta forma, através da construção do percurso hipertextual da narrativa – das escolhas e dos caminhos por ela facilitados – consideramos poder observar que o autor reafirma a sua preponderância e a sua importância na medida em que esta nova estrutura lhe oferece agora, adicionalmente, a possibilidade de, encarando o texto enquanto entidade aberta, decidir e determinar, junto do leitor, requerendo a sua participação, qual o conjunto de caminhos que podem ser percorridos.

O autor assume-se, portanto, neste sentido, e a nosso ver, como um construtor de percursos, uma vez que é dele a responsabilidade, diante de um sistema aberto e

178 hipertextual, de prever um conjunto de escolhas pré-determinadas que serão apresentadas ao leitor no processo de leitura.

Ora, desta perspetiva, defendemos, assim, que o autor parece, no digital, e especificamente, a partir das suas propriedades interativas, dirigir um “teatro de marionetas” a partir do qual, programando o dispositivo, pode exercer, de modo subtil e discreto (por detrás das potencialidades da máquina), um controlo que é, afinal, não muito diferente daquele que exercia no meio impresso.

Note-se, assim, que o fator diferencial é que, programando um dispositivo que dispõe, à partida, de características participativas e interativas, o autor parece ter a possibilidade de “disfarçar” o seu controlo, de dissimular as suas intenções por detrás da máquina que, enquanto suporte, media a sua relação comunicativa com o leitor.

Assim sendo, note-se, portanto, que a noção do autor como construtor de percursos parece oferecer-nos um importante argumento que nos permite refutar a ideia de perda de revelância do autor.

Assim, e no que diz respeito ao binómio “autoridade-perda de autoridade” consideramos falacioso, à luz do novo suporte e das possibilidades estruturais por ele possibilitadas, pensar em termos de desaparecimento ou apagamento do autor na medida em que, como tivemos oportunidade de defender, o autor continua a estar presente no processo de construção da obra e é possível identificar, como refere Vouillamoz, “(…) la presencia de una voluntad que ha diseñado una estructura en nodos y ha determinado de qué manera es posible interrelacionarlos” (Vouillamoz, 2000, p. 185). Ora, assim sendo, sublinhamos a impossibilidade de falar em “morte do autor” no texto digital, contrariando, assim, a ideia de uma pretensa “erosão” (Landow, 2009, p.167) da sua figura para defender, pelo contrário, a ideia de que, diante de novas ferramentas narratológicas, de uma nova autoria coletiva, e inclusive, do potencial das novas linguagens, o autor se encontra, atualmente, ainda mais fortalecido do que se encontrava no meio impresso.

Desta perspetiva, consideramos, portanto, que o autor, coberto, no digital, pela capa dos dispositivos, pela materialidade dos suportes, parece, de certo modo, “camuflar”, por detrás das propriedades materiais e interativas do livro digital, a sua própria autoridade. Assim sendo, note-se, a este respeito, que o suporte digital, apresentando-se como um suporte manipulável, oferece ao leitor a sensação ilusória de poder ter pleno controlo quando, na verdade, tal como no meio impresso, este se encontra, inevitavelmente, sujeito ao conjunto de opções determinadas pelo leitor no momento de criação da obra.

179 Ora, assim sendo, observamos, num primeiro momento, que, de facto, o autor parece agora dispor, a partir da materialidade do meio, de um novo modo (discreto e subtil) para manifestar a sua autoridade, exercendo a sua função de modo cada vez mais efetivo.

Deste ponto de vista, consideramos, portanto, que a materialidade do digital, se aliada à reconfiguração da figura do autor por esta proporcionada, nos permite observar, não um fenómeno de esbatimento ou enfraquecimento do autor, mas, pelo contrário, um fenómeno de empoderamento da sua figura que, embora se manifeste de modo cada vez mais discreto, assume, no nosso entender, uma cada vez maior relevância na cena literária digital.

Para justificar a nossa perspetiva sugerimos, então, observar o modo como a materialidade específica do suporte nos permite pensar, em função dela, uma reconfiguração da figura do autor que, potenciado pelo meio, nos autoriza hoje a pensar em questões como a da autoria coletiva ou do desenvolvimento de novas competências. Assim sendo, e para finalizar esta reflexão inicial em torno da pretensa perda de autoridade do autor no texto digital, rematamos com a afirmação de Kirchof (2009, p. 54) que “o autor não desaparece nas malhas do hipertexto” mas adquire, antes, um papel ainda mais relevante que na narrativa em suportes analógicos, uma vez que é dele a responsabilidade de oferecer ao leitor um conjunto de percursos possíveis para que este, na sua tarefa de interação, se torne, simultaneamente um coautor, que pluraliza o texto a cada leitura, e que contribui, finalmente, para a determinação dos sentidos da obra. Neste contexto, e de acordo com o disposto, negamos, então, um enfraquecimento da figura do autor e defendemos, em seu lugar, que, a existir reconfiguração em termos de autoridade, esta está no modo como autor e leitor assumem hoje, no texto digital, uma partilha de responsabilidade no processo de fixação de sentidos.

180 UM NOVO CONCEITO DE AUTORIA – A AUTORIA COLETIVA NO TEXTO DIGITAL

Se, como acima referimos, nos parece ser possível sugerir a ideia de que a materialidade do digital nos permite pensar novas funções e novas valências para as figuras do autor e do leitor, entendemos ser igualmente importante refletir em torno de algumas das reconfigurações provocadas. Nesse sentido, e por forma a introduzir o tópico que em seguida discutiremos, lançamos algumas questões: poderá a materialidade da literatura interativa estar a oferecer-nos, a partir das suas especificidades, novas formas de autoria? Autorizar-nos-á o hibridismo de que se reveste o meio digital a avaliar a possibilidade de substituição de uma autoria individual, associada à escrita em suportes impressos, por uma autoria coletiva, característica da escrita em meios digitais? Falaremos ainda de um só autor ou de muitos autores que, em conjunto, constroem a obra digital interativa?

De modo a refletir em torno de algumas destas interrogações focar-nos-emos, em seguida, no conceito de autoria em obras digitais interativas sugerindo a hipótese de que a utilização de meios e suportes digitais na literatura propicia o surgimento de um novo conceito de autoria: o de autoria partilhada ou coletiva.

Para explorar o conceito de autoria partilhada partiremos, essencialmente, de dois pressupostos: o primeiro – que vê o processo de colaboração entre autor e leitor (por via da interação) como um processo de construção de sentidos, e, portanto, um processo de criação mútua de significados; e o segundo – que vê o processo de criação literária digital como um trabalho de equipa no qual o autor não se assume como o único interveniente, nem tão pouco como o único responsável pela produção do texto digital. Assim sendo, e no que diz respeito ao primeiro pressuposto, consideramos ser possível admitir a existência de uma autoria partilhada em obras digitais interativas na medida em que autor e leitor parecem hoje desenvolver, no processo de construção significativo da obra (seja ao nível da criação de percursos, seja ao nível da eleição ou fruição destes), um “processo de colaboração” (Vouillamoz, 2000, p. 185) que permite que a obra literária possa ser lida e executada. Trata-se, no nosso entender, de um processo colaborativo a partir do qual o autor (deixando um conjunto de caminhos em aberto – um conjunto de possibilidades narrativas) e o leitor (contribuindo, através da interação, para a escolha de um desses caminhos) se envolvem, física e criativamente, na tarefa de construir um sentido para o texto.

181 Desta forma, se ao autor lhe cabe a tarefa de desenhar um conjunto de possibilidades, ao leitor, por sua vez, cabe-lhe, através da participação ativa, a tarefa de, por via da interação, se tornar um cocriador da obra. Repare-se que, como sublinha Landow (2009, p. 180), “(…) el lector activo colabora necesariamente con el autor para producir un texto a través de las opciones que escoge.”

Por outra parte, e no que diz respeito ao segundo pressuposto, e porque, como nota o autor americano, a palavra colaboração deriva diretamente do latim, onde significa “trabalhar com” ou “trabalhar juntos”, consideramos pertinente observar que o surgimento de um novo suporte de escrita – o computador – parece abrir espaço a que possamos pensar um processo de criação literária que deixa de ser exclusivamente da responsabilidade do autor para passar, pela materialidade e pelas especificidades do digital, a requerer a presença de um conjunto de outros intervenientes que, em conjunto com este, constituirão a obra.

Note-se, neste sentido, que, de facto, produzir hoje uma obra literária em ambiente digital requer um conjunto de competências técnicas e multimédia às quais o autor do texto, sozinho, parece não conseguir dar resposta. Como nota Vouillamoz:

El escritor que hoy se proponga componer una obra en formato electrónico hipermedia (…) se verá obligado a resolver ciertas cuestiones técnicas (…) consideradas como ajenas a la producción propiamente literaria (…) Si el autor no consigue asumir las responsabilidades que el medio plantea, deberá recurrir a un equipo de profesionales procedentes de otras disciplinas que sean capaces de solventar ciertas cuestiones técnicas o gráficas: la elaboración del producto literario evoluciona hacia una concepción de trabajo colaborativo en el que un momento dado se puede inscribir no sólo el escritor, sino también un equipo de analistas y programadores informáticos y un grupo de profesionales de la imagen que se responsabilice del diseño gráfico. (Vouillamoz, 2000, p.180-182)

Sublinhe-se, ainda, neste sentido, que se a literatura impressa, pela própria materialidade do suporte, perpetua a ideia do texto como produto resultante do engenho de um único indivíduo – o autor – a literatura digital, por seu turno, parece sugerir a impossibilidade de se falar de um texto uno, hierárquico e centrado e, por esse motivo, a impossibilidade de uma autoria individual. Nesta perspetiva, ao ler um texto digital interativo, parecemos ser convidados a ingressar no interior de um texto múltiplo, descentrado e anti hierárquico que, ao invés de ser da responsabilidade de uma única entidade – o autor – é agora criado por um conjunto de intervenientes, de autores, de entre os quais se destacam: designers, informáticos, técnicos de som, diretores de

182 fotografia, animadores, etc., que colaboram no processo de escrita através da produção de pequenos fragmentos multimédia que incorporam o texto digital.

Assim, se na literatura impressa a ideia de autoria surge associada à noção do autor individual, que produz solitariamente o texto, na textualidade digital – devido à sua materialidade e às possibilidades de expansão do texto (colocando em jogo imagem, som, vídeo, interação, etc.) – parece ser possível falar de uma autoria coletiva onde cada autor contribui, individual e fragmentariamente (através da produção do som, do vídeo, da interação), para a totalidade da obra.

Na verdade, como explica Landow (2009, p. 184), a própria noção de autoria individual parece estar arreigada à materialidade do livro uma vez que a imprensa, pela manutenção dos ideais de fixidez, individualidade, unicidade e propriedade, parece ter contribuído para o fortalecimento da ideia de autoria individual.

Com o surgimento do digital que, através da sua materialidade, promove estruturas e suportes mais líquidos40, mutáveis e não lineares – parece-nos ser possível admitir que o próprio processo de autoria se afasta da inalterabilidade e autoritarismo associadas ao suporte impresso para se aproximar do pluralismo do meio digital.

Assim, a grande mudança parece ser precisamente a abertura do texto a novos contributos e a novas participações uma vez que o texto digital – como um todo – é hoje constituído por um conjunto de fragmentos que são, na sua generalidade, produzidos por uma panóplia de autores.

Por esta razão, acreditamos, portanto, estar em condições de afirmar o processo de construção de uma obra literária digital como um processo de autoria coletiva, que, como “(…) el cine, el vídeo o la ópera, implica trabajo en equipo” (Landow, 2009, p. 188).

Consideramos, assim, assistir a uma tendência de “coletivização” do ato de escrita uma vez que o autor parece necessitar, para construir a sua obra, de um conjunto de intervenientes que possam auxiliá-lo no processo. Desta forma, “o autor” – que no texto digital seria considerado o autor do texto verbal - parece transformar-se em apenas mais um dos autores na medida em que a criação do texto não depende já, unicamente, de si próprio.

40 Ao referir-nos a suportes líquidos pretendemos dar conta, à luz da teorização de Santaella (2007, p. 14-

24), do modo como os novos suportes albergam hoje, com o digital, linguagens híbridas que revelam uma incapacidade de manter as suas formas, deslizando umas para as outras, sobrepondo-se e contaminando-se entre elas.