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Retorikken i jussen og jussen som retorikk

7. Drøfting

7.5 Retorikken i jussen og jussen som retorikk

Enquanto as atividades do labor atendem à manutenção da vida e resultam em produtos efêmeros, a fabricação organiza e constrói a morada do homem sobre a Terra, gerando, assim, a artificialidade que nos envolve e que aqui chamamos de mundo. Assim, “A condição humana do trabalho12

é a mundanidade” (ARENDT, 2005a, p. 15), e tudo aquilo que construímos a partir dessa atividade nos serve de abrigo e instrumento, configurando um ambiente humano. É a condição de durabilidade dos artefatos fabricados pelo homem que permite a constituição do mundo. Embora essa permanência não seja absoluta, afinal tais objetos são construídos por mãos mortais, seu tempo de duração pode ser maior do que a vida de um único homem, fazendo com que sirvam de elo entre as diferentes gerações.

Enquanto consumimos aquilo que o labor produz, usamos aquilo que resulta da fabricação. Apesar de duráveis, tais resultados evidentemente se desgastam, e, mesmo se esses objetos se mantiverem sem uso, o próprio tempo fará com que pereçam e retornem ao ciclo da vida, incorporando-se à natureza novamente. Porém, a destruição dos bens gerados pela fabricação são acidentais, diferentemente do caso do desaparecimento quase imediato dos produtos do labor. Assim, “[…] se abandonada a si mesma ou descartada do mundo humano a cadeira voltará a ser lenha, e a lenha perecerá e retornará ao solo de onde surgiu a árvore que foi cortada para transformar-se no material sobre o qual se trabalhou e sobre o qual se construiu” (ARENDT, 2005a, p. 150).

É com o ir e vir das gerações que os objetos resultantes da fabricação se vão do mundo humano: porém, enquanto permanecem, nos conferem identidade – materialidade que nos condiciona. Seu tempo de permanência oferece estabilidade à vida humana e, assim, as condições da existência dos homens, sujeitas ao constante movimento que a vida biológica impõe, se alteram: o ritmo acelerado e natural da destruição e do labor advindo da natureza se transforma pela artificialidade que criamos com os objetos da fabricação.

12 Sempre que as citações de A Condição Humana se referirem à atividade do trabalho, este termo significará o mesmo que fabricação.

Em outras palavras, contra a subjetividade dos homens ergue-se a objetividade do mundo feito pelo homem, e não a sublime indiferença de uma natureza intacta, cuja devastadora força elementar os forçaria a percorrer inexoravelmente o círculo do seu próprio movimento biológico, em harmonia com o movimento cíclico maior do reino da natureza. [...] Sem um mundo interposto entre os homens e a natureza, haveria eterno movimento, mas não objetividade (ARENDT, 2005a, p. 150).

A fabricação, então, se traduz em toda atividade voltada para a construção de um mundo de objetos tangíveis e, portanto, a reificação é parte constituinte desse processo por culminar num produto concreto e objetivo. A atividade de fabricar geralmente se caracteriza também pela multiplicação: a partir de um modelo – que pode ser uma imagem mental ou observada –, o primeiro de muitos objetos é fabricado, para depois ser repetido. Construir objetos concretos é tarefa do homo faber, e a fabricação, sua atividade mais marcante.

Arendt (2005a) qualifica alguns objetos como sendo mais ou menos mundanos que outros a partir de seu maior ou menor tempo de permanência no mundo13

. Os que ela considera mais mundanos são os de maior durabilidade e que constituem o mundo de forma mais permanente. Consequentemente, os menos mundanos são aqueles que apresentam menor duração e que estão mais sujeitos à degradação e à destruição. Assim, as obras de arte são entendidas por Arendt como sendo os objetos mais mundanos dentre todos. O valor compartilhado e reconhecido que assumem de geração a geração revela seu significado para o mundo e para a identidade de diferentes comunidades, mesmo não sendo objetos regidos pela utilidade.

Durante a atividade de construir o mundo, o homem assume o lugar de amo e senhor da natureza: emprega sua força retirando dela seus recursos e utilizando-os como materiais a serem modificados até que a tarefa da fabricação esteja concluída. Assim, a fabricação apresenta um caráter de violência do ponto de vista da natureza. Portanto, tanto a atividade da fabricação quanto a atividade do labor contêm em si um elemento de destruição. No entanto, é importante distinguirmos como essa condição se dá em cada uma dessas atividades:

É verdade que este aspecto destrutivo e devorador da atividade do labor só é visível do ponto de vista do mundo e em oposição ao trabalho, que não prepara a matéria para incorporá-la, mas transforma-a em material a ser trabalhado e utilizado como

produto final. Do ponto de vista da natureza, o trabalho, e não o labor, é destrutivo uma vez que o processo de trabalhar subtrai material da natureza sem o devolver no curso rápido do metabolismo natural do organismo vivo (ARENDT, 2005a, p. 112).

Sendo assim, o labor é destrutivo do ponto de vista do mundo (já que o que se destrói através dele rapidamente retorna ao curso da vida), enquanto a fabricação é destrutiva do

ponto de vista da natureza (como interromper a vida de uma árvore para utilizar-se de sua

madeira para a confecção de uma mesa). Quando os homens interrompem o ciclo da natureza para a confecção de um objeto de uso, não estão sujeitos à necessidade, mas agem como senhores desse processo e colocam-se acima da natureza, sentindo-se capazes de controlá-la. Assim, a violência da fabricação sobre a natureza se traduz na interrupção do ciclo natural, estabelecendo um processo com um começo e um fim previsível e delimitado.

Para Arendt, essa atitude frente à natureza deve ter limites para que não pensemos que tudo podemos destruir e instrumentalizar. Embora a fabricação seja uma atividade própria do homem, tem-se mostrado indesejável que estabeleçamos uma relação com a natureza como se todos os seus recursos estivessem à nossa disposição e fossem meios para os inúmeros fins que possamos estabelecer. Se assim for, entenderemos que tudo o que existe pode ser considerado meramente um objeto de uso destinado apenas a nos servir: será como se passássemos a ser a medida de todas as coisas existentes, como se nada devesse existir sem o propósito de nos atender.

Na fabricação o fim ordena os meios. Porém, do ponto de vista do mundo, os objetos da fabricação não são fins em si mesmos, pois, enquanto são usados, tornam-se meio para algo, apresentando-se como fins de curta duração e retornando sempre à posição de meios. Portanto, somos capazes de distinguir claramente quando um objeto assume lugar de fim ou quando ele está disposto como meio, na mesma medida em que somos capazes de distinguir o processo da fabricação de seu produto. Assim, numa fábrica de tesouras ela é considerada produto e, portanto, o fim alcançado pelo processo. Entretanto, nas mãos de uma costureira, ela se tornará apenas um meio para outros fins. Da mesma maneira, as roupas que para ela são fins se tornarão meios ao serem vestidas.

Arendt desenvolve uma análise crítica sobre a situação da sociedade de consumo no capitalismo, o que discutiremos mais tarde neste trabalho. Na medida em que consumimos os objetos da fabricação descartando-os e retirando deles sua condição de durabilidade e, por

consequência, de elemento estabilizador da existência humana no mundo, a fabricação passa a ordenar-se pelas regras e condições que regem o labor. A fabricação, assim, se descaracteriza e, junto com ela, a condição dos homens se transforma, pois o próprio mundo fica ameaçado. Com isso, o ciclo da vida, que se move por automatismos que conduzem necessariamente à destruição, se impõe. Assim, nós homens perdemos a capacidade de, através da fabricação, transcender as necessidades da vida; e essa atividade deixa de cumprir com sua finalidade de construção do mundo que nos condiciona, nos oferece segurança e identidade.