A detalhada série de casos atendidos por Winnicott, na modalidade das consultas terapêuticas, é uma demonstração inequívoca de como é possível uma comunicação com
crianças, no seu sentido mais pleno. A comunicação do sofrimento dos pacientes, mostrou-se preponderantemente de forma silenciosa, verbal ou expressa graficamente. Os desenhos e traçados têm valor experiencial, muito mais que informativos de estados mentais encapsulados.
126 D. Winnicott (1961) “Notas sobre o fator tempo no tratamento.” In: Pensando sobre Crianças. J. Johns, H.T. Robinson e R. Shepherd (org.) Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, p. 202.
Extremamente valoroso nesse contexto é o recurso do "Jogo do Rabisco" (Squiggle
Game), um rico instrumento pelo qual o trauma pode ser comunicado na plasticidade dos traçados.127 Winnicott propunha que ambos, terapeuta e paciente fizessem garatujas livremente no papel, e que cada um se ocupasse do traço do outro, tentando transformá-lo livremente no que lhe conviesse. No desenho espontâneo, sem preocupação prévia de significar ou constituir algo, o paciente se surpreende com a presentificação de lembranças e sentimentos que se mantinham em estado enquistado e esvaziado pela dissociação. Essas áreas emergem mais facilmente via figurabilidade, daí a importância dos desenhos que os pacientes realizam. Ao desenhar, a criança cria imagens sensoriais que promovem seu ser, e, colocam em processo aspectos seus essenciais.:ela o faz sem estar determinada para tal, portanto pode expressar mais do que ‘sabe’ e se dispõe a revelar conscientemente. A emergência desse nível de material pode, tanto produzir surpresa e encantamento, quanto assustar a criança, quanto ao teor do que foi comunicado. Nesses momentos ‘sagrados’, nos quais ela se dispõe a aprofundar sua interação com o analista, o paciente experiencia algo essencial de si pela primeira vez, ocorrência que, apesar de inaugural, remete-se ao início da infância.
Haver alcançado a condição de comunicar graficamente seu padecimento importa muito para a criança, que tem esperança de que alguém a alcance no lugar de onde se expressa e está aprisionada. Ao analista cabe muitas vezes testemunhar a emergência desse mais significativo, recorrendo, para tanto, mais à sua presença sensória e somática do que ao discurso.
O desenho tomado como um produto, sonhado e lembrado na consulta terapêutica, ganha em criatividade, expressividade e nitidez, à medida que aumenta a confiabilidade na relação. A criança progressivamente mais engajada, deixa-se conduzir até as áreas do trauma, à modalidade de ocorrência da deprivação. Ela deve encontrar no analista um parceiro imprescindível, que se deixa usar sem resistir ou se impor, por encontrar-se em estado de sintonia com as necessidades do seu paciente. Ele irá apresentar os rabiscos e elaborar seus desenhos de maneira tal que convenham à emergência do que a criança necessita.128
Moacir que era considerado um menino terrivelmente agressivo, pelos que com ele conviviam, sempre desenhava cães com enormes presas e com o corpo todo riscado, à maneira de um tigre. Um dia ele pediu à analista que lhe desenhasse um cachorro, ‘do jeito dela’, que se
127 Clare Winnicott revelou que a enorme capacidade de brincar evidenciada por Winnicott, levava-o a jogar o Jogo de Rabiscos consigo mesmo, após o que ele enviava a ela e aos amigos alguns dos desenhos, denotando a necessidade de endereçar suas produções subjetivas, ao olhar de um outro que as apreciasse O apreço de Winnicott por essa modalidade comunicacional, levava-o a experimentá-lo solitariamente inúmeras vezes, modo pela qual ele também se curava de suas dores existenciais. Ler “D.W.W.: Uma reflexão. Introdução”. In: Explorações...op. cit.
mostrou diferente da série de cães ferozes que ele apresentava. Depois ele investiu sobre o desenho acrescentando-lhe as garras e os dentes ferinos; muitos pêlos despontavam no corpo do animal num jorro criativo de impulsividade, convertendo-o numa fera. Interrogado sobre o que ocorrera, ele contou que aquele era ‘[...]um cãozinho calminho, mas bateram, bateram, bateram
tanto nele, que ele ficou muito malvado e mordia todo mundo. Ninguém nunca mais conseguia pôr uma coleira nele.’
Os desenhos realizados pelas crianças atendidas na instituição, no decorrer da pesquisa, apresentaram particularidades que me chamaram a atenção, e que passo a comentar genericamente, na impossibilidade de incluir toda a produção gráfica que este trabalho motivou. Constatei o quanto as figuras representantes dos adultos, em especial dos pais violentadores, foram apresentadas com expressões sádicas, do tipo aproveitador/gozador, comportando um riso irônico; detêm braços longos que saltam do perímetro do tronco e cujas mãos, costumeiramente grandes e por vezes substituídas por garras, se ocultam no bolso da calça. Os agressores são desenhados em meio a armas e objetos pontiagudos de toda espécie, e assinalam movimentos de investida sobre a criança. As vítimas, enquanto expressam suas queixas frente ao progenitor, também projetam a existência e busca de um pai protetor, forte e provedor em figuras masculinas idealizadas, que consideram que outros filhos afortunados tenham.
As figuras femininas, quando não as agentes da agressão, foram caracterizadas como ínfimas, impotentes, com um olhar que não se voltava para a criança. Esta é a maneira de os filhos revelarem as mães descrentes e muitas vezes cúmplices, em sua omissão. Mães hesitantes foram retratadas desprovidas de braços, de olhos ou de boca ou desenhadas de costas. Os braços, quando presentes, caíam ao longo do corpo, indisponíveis para a devida sustentação. As mães violentas comportavam expressão atormentada de zanga, tristeza ou desdém, e foram designadas em porte maior, com longos braços, bocas escancaradas, descabeladas e com aspecto ameaçador.
As próprias crianças foram representadas numa atitude impotente, com olhos estarrecidos e boca arregalada, assim como os irmãos apareciam configurados como diminutos e resignados. Os braços inertes e com múltiplos traços finos, descontínuos e inconclusos, ou apagados, denotavam desamparo e insustentabilidade, dando mostras do esmorecimento do “eu’. Inseguros quanto ao valor de sua produção, os pacientes relutavam em desenhar, e, quando o faziam, despojavam de valor o trabalho, qualificando-o como irreparável, ao afirmarem: ‘ É feio e sem
conserto’.
Os sentimentos de indefensabilidade foram comunicados pelos pacientes em desenhos nos quais a criança era representada em contextos aterrorizantes: ela se encontrava em barcos à deriva no mar bravio, ou pedindo socorro numa descida alucinante, denotando queda em
abismos, um despencar que termina no nada. As ameaças, os sustos e o terror da perseguição surgiram também em temas tais como os de tubarões engolindo os filhotes e peixinhos do mar que nadam contra a correnteza tentando sobreviver. A força devastadora que se impõe contra as vítimas foi expressa por meio de explosões ou de vendavais, em rios que arrastam casas frágeis e impotentes, tratores gigantescos que passam atropelando tudo, fantasmas que irrompem bruscamente nos quartos, ondas gigantes e temporais.
A expressão do sentido de isolamento e de incomunicabilidade foi verificada nos desenhos de pessoas perdidas em desertos, em ilhas, no alto de montanha pontiaguda ou ainda acuados em cavernas sombrias. As casas com portas arrombadas, circundadas por muros, cercas e portões desenhados abertos, denotavam transbordamentos e ausência de contenção do meio; as crianças buscavam refrear o impulsivo através de comoventes solicitações para que desenhássemos cadeados nas portas, para impedir ou conter as invasões de ladrões, monstros e fantasmas que deveriam ser enterrados ou expulsos. As vítimas denunciavam mais espontaneamente no grafismo, os dramas vividos, escolhendo os temas ligados ao terror, ao sobrenatural, a mortes e extermínios em massa, assim como nas dissimulações para encobrir atos ilícitos, fazendo referências às transgressões à legalidade.
A desesperança apresentava -se nos desenhos por meio dos corações partidos e feridos, em caminhos estrangulados e tortuosos, repletos de bifurcações sem saída, especialmente quando as crianças experimentavam um período de dúvida quanto a se submeter ou a buscar proteção.
Nos casos de violentação física, a presença de marcas, borrões e cicatrizes apontavam para as áreas do corpo violadas. Outras comunicações foram mais explícitas, ao demonstrarem os objetos lançados sobre a cabeça, pernas, ou o rosto da criança, partes corpóreas maltratadas das quais jorravam sangue e lágrimas. Em circunstâncias de incesto e de violência sexual, a área genital aparecia freqüentemente rasurada e realçada em relação às outras partes do corpo, e era suprimida do desenho. Algumas vezes os pacientes imprimiam as marcas de dedos e das mãos pelas folhas, paredes do consultório, ou que tentavam usar o corpo do analista para marcá-lo com as próprias impressões digitais, comunicando assim a intrusão corpórea.
Nos desenhos que retratavam crianças, elas surgiam misturadas com gigantescos animais selvagens pré-históricos, munidos de garras, dentes, espinhos e chifres. As referências às ferroadas de abelhas e às picadas de cobras, escondidas no mato e prestes a darem o bote, também eram freqüentes.
Os pedidos de ajuda também se explicitavam na presença de bonecos qualificados como doentes e na referência aos ferimentos, aos acidentados, e às demandas por curativos e cuidados médico-hospitalares. Foi comum que, nas brincadeiras, se evidenciasse uma procura por carros
de bombeiros, ambulâncias e camburões de polícia. A título de exemplificação, cito uma passagem da consulta com Pedro129, que tinha 5 anos e que era abusado sexualmente pelo pai, juntamente com o irmão de 3 anos. Na consulta, enquanto brincava com um trator enorme que invadia brusca e repetidamente uma casinha por ele montada, destroçando-a, ele suplicou à analista que chamasse a polícia ou então que esvaziasse os pneus do carro do intruso, único meio de o ‘homem mau nunca mais voltar’. Assim como explicitava os pedidos de socorro pela violentação do corpo, e pela vivência de arrombamento de seu self impotente e assustado, ele buscava ser o dominador que abusava na situação lúdica. Por vezes ele se lançava sobre a analista ordenando que se deitasse, para abrir-lhe o zíper da calça, ou puxava-lhe a saia de surpresa. Sob efeito de modalidades de identificação maciça com o agressor, a criança sofria de paralisia da capacidade de pensar, e, tanto mais quanto os contornos entre ‘eu’ e o objeto se turvavam, mais as próprias ligações entre os objetos se mostravam destroçadas, e os espaços internos, abolidos.
A temática dos rabiscos e dos desenhos, leva-nos diretamente à consideração pelo informe e desconexo, no modo como se apresenta, seja na folha do papel ou seja na ‘tela dos sonhos’. Sonhos são comumente referidos pelos pacientes em determinado estágio da consulta, e devemos estar atentos quanto ao que revelam dos processos dissociativos operantes na pessoa do sonhador. Em muitos relatos, os sonhos mostravam que a criança configurava para si, um sentido de proteção inexistente no real.
Essa constatação reporta-me ao interesse de Winnicott pela atividade dos sonhos de seus pacientes.130 Os sonhos seriam a “via régia” não apenas de acesso ao inconsciente, como nos desvelou Freud (1900), mas podem assumir uma função ainda mais primordial que a realização de desejos, ou seja a revelação, articulação e expansão do si-mesmo nas diversas realidades e em seus aspectos mais íntimos e profundos. Faz-se necessária a instauração da área na qual os processos oníricos, com as peculiaridades que o fundador da disciplina nos revelou tais como condensação, deslocamento e figurabilidade, possam ocorrer. A instauração do espaço onírico,
129 Os nomes atribuídos aos pacientes que descrevo nesta pesquisa são fictícios, visando obviamente preservar a identidade dos pesquisados e seus familiares. Alguns dados sobre a composição familiar serão omitidos ou alterados, tendo em vista impedir o reconhecimento das pessoas implicadas.
130 Encontrei, na obra de Tales Ab´Sáber, uma sólida e esclarecedora argumentação, a respeito de como o interesse pela atividade de sonhar estava presente nas elaborações clínicas de Winnicott, desde muito cedo. Em sua pesquisa, Tales demonstrou inclusive como as formulações winnicottianas sobre o Squiggle Game, se enraizavam na compreensão acerca dos processos oníricos e do brincar, e incluíam as condições de ambientação que tornam possível o sonhar. Estas considerações auxiliaram-me a pensar na atmosfera envolvente e regressiva que se instaura em alguns momentos potenciais das consultas, com os pacientes e analistas que têm essa condição ao seu alcance. A zona do brincar nas garatujas, é experimentada como no trabalho do sonho, em meio a temores, sustos, torpor, surpresa, excitação e euforia. Ler à propósito T. Ab´Sáber, “O sonhar restaurado. Formas do sonhar em Bion,
seria essencial para a integração, personalização, e o processamento das pulsões e dos relacionamentos objetais. Se, porventura, dissociações dilacerantes não permitirem a instauração dos sonhos, os conflitos internos inconscientes estarão propensos à realização direta, sendo tão somente atuados no espaço social.
As pesquisas empreendidas por Winnicott, nas esferas do sonho, levaram-no a identificar manifestações de “sonhos curativos”131, constituídos por experiências oníricas intensas, condicionadas às capacidades do ego, que seriam possibilitadoras de amadurecimento e indicadoras de passagem de um estágio do desenvolvimento emocional para outro mais evoluído.
De sonhos curativos também nos fala Fédida, que propõe ao analista que escute o sofrimento do amor doente e aprisionado nos sonhos de seus pacientes: “[...]o sonho faz falar Eros doente, os sonhos, graças ao terapeuta, têm o ofício de serem terapeutas. São os sonhos que são os terapeutas de Eros doente.”132
A capacidade para sonhar o "sonho bom", expressão cunhada por Khan (1972) é uma conquista do processo maturacional. Ele considerou que a gravidade de certas modalidades traumáticas, poderia interferir na elaboração imaginativa da pulsão e no pleno uso dos sonhos como realização de desejos. Esses indivíduos não acessariam a realidade experiencial dos seus sonhos, sendo exígua a satisfação obtida com eles, pelo fato de as capacidades do ego terem sido lesadas. Isso ocorreria porque, essa atividade psíquica, atendendo a uma função defensiva frente a angústias intoleráveis, tornar-se-ia limitante e empobrecedora. Os sonhos seriam apresentados como relatos factuais, descritivos, bem pouco imaginativos e insignificantes para o paciente, esvaziados que estariam de sua função simbólica. O sonhar nesses casos, não decorreria de uma conflitiva, cujo curso de deslocamentos e condensações atestaria o veio imaginativo e os desdobramentos sintomáticos, mas adviria da dissociação esterelizante.
Não é preciso ir mais longe para fazer equivaler essa noção de espaço-sonho de Khan, que permite à criança, à formulação de espaço transicional e sua riqueza potencial, como zona do brincar, tal como Winnicott propôs. Esses analistas, advogaram outras práticas clínicas ao distinguirem uma área fértil do sonho, do brincar, da criatividade, em oposição ao funcionamento aprisionante do devanear. Eles lançaram mão, como se torna necessário na clínica de crianças vitimizadas, das intensidades do campo transferencial e seu manejo, para se fazerem continentes do que nelas ficou alijado.
131 D. Winnicott (1947a) “O ódio na contratransferência”, in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
RELATOS CLÍNICOS: