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Importante destacar que, como são escassas pesquisas sobre o amor, este estudo considerou a crença que os indivíduos tem de acreditar que é amado está fortemente ligado ao conceito de suporte social, como descreve Cobb (1976).

Neste estudo, a fé1 se mostrou o fator preditivo mais preponderante com relação

ao sentimento de sentir-se amado por amigos e familiares. Mediante os achados deste trabalho, leva-se a crer que pessoas que se sentem amadas, seguras e apoiadas emocional- mente por cônjuges, parentes próximos e amigos íntimos acreditam mais em si, tem maior autoestima e tem maior probabilidade de enfrentar e adaptar-se a mudanças, como pro- blemas de saúde e situações de perda e luto, que naturalmente aumentam com o avançar da idade.

No mesmo sentido, nesta investigação a variável ‘morar com cônjuge e/ou família’ permaneceu estatisticamente significativa ao amor após controle dos fatores de confusão. Isto representa que a as conexões familiares positivas aparecem como importante contri- buição para a identidade social, senso de pertencimento e sentido de vida de adultos e idosos. Inclusive, em pesquisa realizada em município do Rio Grande do Sul, a família se mostrou como principal suporte social entre idosos (MORAES; SOUZA, 2005). Estes resultados são semelhantes aos identificados por Wu e Pollard (1998), que concluíram que idosos não-casados e sem filhos não obtêm o suporte emocional necessário para garantir um envelhecimento bem-sucedido e ativo.

Assim, a partir dos dados desta e de outras pesquisas (CHRISTAKIS; FOWLER, 2008), aventa-se a hipótese que a proximidade física de parentes é relevante para o flores-

1Importante pontuar que a fé foi considerada como a crença em si mesmo, nos outros ou em Deus e

foi avaliada a partir das questões: ’Até que ponto a fé: contribuiu para seu bem-estar?; lhe dá conforto no dia-a-dia?; lhe dá forças no dia-a-dia?; ajuda a aproveitar a vida?’ (PANZINI et al., 2007)

cimento de emoções positivas – como o amor –, já que quando as pessoas moram juntas se vêem mais frequentemente, podendo reduzir o sentimento de solidão e isolamento e favorecer o compartilhamento de sentimentos e experiências.

Porém, há de se ponderar que nem sempre o apoio social repercute positivamente na vida de idosos. Um efeito negativo está vinculado à baixa autoestima, que é decorrente da percepção do idoso em aceitar a dependência/incapacidade e perda da autonomia. Outra questão é que o idoso pode se considerar um peso para a pessoa amada, o que gera angústia e sofrimento psíquico (RAMOS, 2002).

Atualmente diversas pesquisas tem apontado que o pertencimento a vários grupos sociais, como os de terapia comunitária (VIEIRA A. G.; MORAIS, 2008), trazem benefícios para a saúde física e mental. Ao diversificar as redes sociais, tem-se a oportunidade de desempenhar vários papéis, podendo estabelecer trocas mais ricas e significativas. Além disso, também pode amenizar a frustração e angústia quando um desses laços afetivos é rompido, já que não é a única fonte de expectativa da pessoa.

Este estudo, tal como o realizado por Krause (2007), evidenciou a importância do sentimento de amor e do relacionamento interpessoal saudável com familiares e amigos para encontrar um sentido para a vida (OR= 2,16 [IC95%=1,18-3,91]). Como ressaltou

Frankl (1991), para se atribuir um significado à vida é necessário encontrá-lo e descobri-lo, e não criá-lo, pois o bem-estar mais amplo viria como consequência de se viver uma vida cujo sentido é existente, claro e transcendente, ou seja, que está além da própria pessoa (FRANKL, 1991).

Quanto aos fatores demográficos, nesta tese foi identificada uma relação nega- tiva entre amor e renda familiar baixa. Considerando que o sentimento de amar e ser amado está intimamente relacionado ao apoio social (COBB, 1976), pesquisas tem mos- trado ligação entre nível socioeconômico e suporte social: rendas baixas estão associadas com restrito acesso ao suporte social, com reflexos no aumento das taxas de mortalidade e morbidade em idosos. As pessoas de classes sociais mais baixas são mais isoladas e aparentam receber menos assistência do que os indivíduos de classes econômicas mais elevadas (KRAUSE; BORAWISK-CLARCK, 1995 apud RAMOS, 2002).

Com relação ao perfil de morbidades, no presente estudo os entrevistados que afirmaram não ter dor crônica tem quase duas vezes mais chance de se sentirem queridos e amados por pessoas próximas comparativamente ao grupo que afirmou ser portador de dor persistente (OR=1,74 [IC95%=1,01-3,00]). Apesar de não terem sido encontrados artigos

autores que analisaram o apoio social e presença de dor persistente obtiveram achados parecidos a essa tese (JAMISON; VIRTS, 1990).

Nos Estados Unidos, Carson et al. (2005) realizaram um interessante estudo clí- nico prospectivo randomizado, cujo objetivo foi verificar a efetividade terapêutica da meditação focada em pensamentos de amor e bondade – conhecida na tradição budista como meditação da bondade amorosa – na redução da dor lombar crônica. Após oito semanas de seguimento, o grupo de intervenção que praticou a meditação obteve melho- res resultados no alívio da dor crônica comparativamente ao grupo controle, que utilizou outras estratégias de tratamento.

Outras condições de saúde, além da dor, têm sido associadas ao suporte social. Ertel, Glymour e Berkman (2008) identificaram que a perda de memória foi duas vezes maior entre os indivíduos com menor interação social comparados aos mais sociáveis. Da mesma forma, Cohen e colaboradores demonstraram que pessoas retraídas e com poucos amigos são duas vezes mais susceptíveis a contrair resfriados (COHEN et al., 2003a), mesmo estando menos expostas à contaminação. Esta informação chama a atenção já que resfriados são transmitidos pelo contato direto ou indireto com outras pessoas, levando a pensar que, neste caso, a rede social foi um fator de proteção e não de risco. Desta forma, é possível que estes achados se repliquem com outras doenças transmissíveis, entre outras populações ou entre indivíduos de níveis socioeconômicos diferentes? Só será possível responder a estes questionamentos com futuras investigações na área.

Entretanto, considerando evidências científicas internacionais, Broadhead et al. relatam que diversas pesquisas demonstraram que o isolamento social constitui fator de risco à saúde comparável a outros que são comprovadamente nocivos, tais como tabagismo, hipertensão arterial, obesidade e sendentarismo, os quais acarretam grande impacto para saúde pública (BROADHEAD et al., 1983).