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V Mechanisms and additional exploratory analysis

B) Results from the round 10 lottery

Pode-se entender, a partir da visão dos profissionais de saúde, a maneira como os indivíduos estão inseridos no contexto de trabalho da hemodiálise e como ocorrem suas relações, sendo possível compreender ações e situações da realidade de forma decisiva e dinâmica. Percebeu-se que os atores identificam a importância do trabalho em equipe, seja a partir de uma ótica positiva do mesmo, ou a partir de uma ótica reflexiva para mudança.

O trabalho em equipe pode ser considerado como uma modalidade de trabalho coletivo no qual ocorre a reciprocidade entre as intervenções técnicas e interação dos agentes (13).

Pode ser denominado genericamente para definir o conjunto de trabalhadores que trabalham no mesmo ambiente com opções de trabalho cooperativo e integrado, sendo as ações e saberes articulados em busca de um objetivo em comum (92).

Observa-se que a construção da equipe de saúde nos serviços em hemodiálise está pautada em uma resolução que estabelece o regulamento técnico para o funcionamento dos serviços de diálise, definindo as exigências mínimas para o funcionamento destes serviços com qualidade (93).

A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 154, de 15 de junho de 2004, estabelece critérios para o funcionamento e avaliação dos serviços de diálise,

minimizando assim os riscos expostos aos usuários. Com relação à necessidade da equipe de saúde, estabelece minimamente: necessidade de responsável técnico pela área médica e de enfermagem, dispondo de dois médicos nefrologistas, dois enfermeiros, assistente social, psicólogo, nutricionista, técnico em enfermagem. Este dimensionamento deve ocorrer com a seguinte recomendação: para cada turno de sessão de hemodiálise há necessidade de um médico nefrologista e um enfermeiro para cada 35 pacientes e um técnico de enfermagem para cada quatro pacientes (93).

Este é o dimensionamento mínimo recomendável, entretanto observa-se que as Instituições de Saúde adotam este mesmo dimensionamento para o atendimento. Cabe fazer uma reflexão se o mínimo estabelecido contempla o atendimento das necessidades de saúde e demandas de usuários e familiares do serviço, sob o aspecto da integralidade do cuidado.

Observou-se ao longo das discussões deste estudo que os profissionais de saúde referem que não conseguem atender e acolher a família como gostariam e em muitas de suas justificativas abordam que sua rotina não permite pelo alto fluxo de pacientes.

É impossível dar conta de todos os familiares com um profissional só de psicologia. Então à família infelizmente não é dada à importância que ela tem neste processo, pela psicologia, por falta de profissional e tempo (EQ 4).

A inserção de profissionais de psicologia, nutrição e serviço social no cenário estudado não acontece de forma exclusiva, pois estes profissionais têm responsabilidade de assumirem e atuarem em outras unidades dentro do complexo hospitalar, acumulando diversas atividades diferentes, o que acaba interferindo na qualidade deste atendimento.

Isto é percebido pelos próprios profissionais que admitem esta dificuldade, dada à complexidade e grande demanda dos doentes renais que não são atendidas em tempo integral, devido a esta logística e também pelos outros membros da equipe de saúde das demais áreas que sentem a necessidade de um contato contínuo. Este fato foi semelhante em outro estudo sobre as necessidades de doentes renais, onde os profissionais destas categorias trabalham através de consultoria, avaliando as necessidades solicitadas por profissionais da área médica ou de enfermagem, porém sem um programa de

exclusividade por atenderem simultaneamente a demanda de outros setores do complexo institucional (91).

Cabe ressaltar que as demandas nutricionais e psicossociais têm uma grande representatividade dentro das necessidades dos doentes renais crônicos e seus familiares e necessita assumir o mesmo dimensionamento das demais categorias para construção de uma ação terapêutica efetiva.

Acredito que não falta comprometimento das pessoas, o que falta é tempo. Por exemplo, a assistente social, ela não fica só aqui na hemodiálise. A psicóloga e a nutricionista não ficam só aqui na hemodiálise. Eu acho que precisa de profissionais voltados só pra cá (EQ11).

Uma equipe que se estruture a fim de atender às necessidades de saúde de indivíduos e família deve apresentar uma atuação interdisciplinar e multiprofissional para mudança de paradigmas e visões que contemplem a integralidade do cuidado (94).

Os profissionais afirmam que existe uma atuação multiprofissional e que este tipo de atuação é imprescindível para identificar as demandas dos usuários, uma vez que se trabalharem isoladamente não conseguirão este resultado. Consideram, inclusive, que a ação da equipe é importante para a inclusão da família no processo de cuidar.

Qualquer conduta se for individual eu não tenho sucesso [...] Existe sim a atuação multi, lógico que tem cuidado multi desde o curativo até a verificação se o paciente está tomando as medicações. Se não tivessem os demais profissionais, a gente não teria pernas, são 32 pacientes por turno [...] o paciente fica descoberto, fica descuidado se a equipe toda não ajudar (EQ2).

Então a gente acaba tendo um atendimento multiprofissional, a gente vai chamar conforme a necessidade (EQ9).

Na equipe multidisciplinar cada um faz uma parte. Mas a intenção é essa: integrar o familiar no tratamento e trazê-lo como um aliado pra ajudar no controle, na adesão. O todo do paciente (EQ15).

Aqui não tem como trabalhar sozinha. A gente trabalha realmente com toda equipe(EQ20). Entretanto, há outra visão da atuação da equipe, fragmentada e isolada, na qual cada profissional define sua conduta e no dia a dia acaba trocando algumas informações, de forma não sistematizada. Não há uma comunicação com objetivo em comum, visando à melhora da qualidade de atendimento ao doente e família e melhor funcionamento da própria equipe.

[...] em relação à equipe multi estou tendo uma relação de troca de informações, algumas coisas que eu não sei, ou muda alguma coisa ou alteração no exame converso com médico ou enfermeiro. O multi ele acaba sendo no dia a dia [...] De ir todos juntos discutir um caso fazer uma avaliação em conjunto, ainda não tem isso muito bem. Eu acabo indo fazer o pontual (EQ3).

Por mais que a gente o atenda multi, por mais que a gente discute caso, a gente nunca sabe [...] eu nunca sei a sua parte. O que você fala para o paciente eu não sei, porque você não me disse. E você também não sabe o que eu faço. É multidisciplinar. Não é interdisciplinar É. O ideal é que fosse inter. Que você soubesse o que eu faço como eu faço (EQ6).

[...] acho que a equipe multi fica mais no solicitar, a gente solicita o serviço social, psicóloga, nutri, vendo as dificuldades que eu enxergo para os pacientes do meu turno, só que eu não tenho assim um retorno do que foi feito [...] mas é atendido, é solicitado, eu solicito (EQ8).

[...] eu acho que falta um pouco ainda da equipe multi em relação a todo mundo participar. Numa reunião nem todo mundo participa. A gente discute alguns casos [...] Eu acho que ainda falta um pouco a equipe se conscientizar da necessidade desse acompanhamento multi pra melhorar tanto a rotina do paciente quanto da própria equipe (EQ12).

Na equipe multi não tenho praticamente nenhuma atuação perante a família [...] quando é um problema psicológico, a psicóloga já conversa com ele. Quando é social, a assistente social que conversa [...] fica meio restrito cada um na sua área (EQ18).

[...] uma ação em conjunto com todos os profissionais acaba não tendo é mais por solicitação (EQ19).

Quando existe uma afirmação que a equipe trabalha de forma multiprofissional e não interdisciplinar, o profissional está se referindo à questão de organização do trabalho segundo sua experiência de inserção na equipe.

Cabe ressaltar que o trabalho em equipe, sob a perspectiva multiprofissional, abrange a realização do trabalho a partir do conjunto de profissionais de diferentes categorias e formações, envolvidos em um mesmo propósito. O desenvolvimento deste trabalho ocorre de maneira independente e isolada. Realiza-se a mesma ação, sem apresentar relações entre os profissionais envolvidos, acarretando em justaposição dos diferentes saberes e verticalização do cuidado (95-96).

Olhando sob o conceito de interdisciplinar a atuação dos diferentes profissionais, estes são coordenados e interdependentes na assistência, com relações que possibilitem o crescimento mútuo; há planejamento da assistência com a participação de todos os profissionais da equipe, a partir de diferentes experiências e saberes. Importante ressaltar que a diferença está na maneira como os profissionais se relacionam, conhecendo e interagindo com o trabalho do outro (95-96). Estas ações tendem à horizontalização das relações de poderes que compreendem o objetivo da transdisciplinaridade (96).

Diante do exposto, é necessário analisar como ocorrem as relações na equipe multiprofissional e como estas podem ser denominadas para se compreender os diferentes modos de produzir cuidado.

As equipes se saúde podem ser consideradas como equipe agrupamento ou equipe integração. Na equipe agrupamento, observa-se um agrupamento de pessoas que desempenham esforços de maneira individual para o planejamento e decisão dos objetivos que auxiliem cada membro no desenvolvimento de sua atividade específica de forma isolada, a partir da autonomia de trabalho de cada um. Não se percebe a articulação, mas sim a justaposição das ações dos agentes agrupados. Observa-se que os projetos de cada área são independentes do todo, sendo cada qual complementado pelos demais de maneira independente (13).

Já no contexto da equipe integração, todos os membros se envolvem no processo de trabalho de forma a determinar e compartilhar objetivos e metas em comum, resultando em projetos independentes, mas complementares, com articulação das ações e interação dos profissionais (13).

Para a efetivação do trabalho em equipe, além da integração e articulação, há a necessidade de reconhecimento das práticas realizadas pelos demais profissionais. Assim se reconhece que o conhecimento e a ação realizada pelo outro é útil e indispensável para atender às demandas dos usuários e família, a partir da compreensão do processo saúde doença em suas várias dimensões (97).

Existe pouco espaço para o diálogo entre os membros da equipe na avaliação de suas necessidades em termos de saúde. Cada profissional as avalia e define individualmente, o que pode contribuir, de forma significativa para as limitações do seu diagnóstico. Ao contrário de uma visão ampla do processo de cuidar dos usuários, o que ocorre é o domínio exclusivo dos profissionais em suas áreas específicas sem uma conexão com os demais membros da equipe a partir de uma proposta de atenção integral (98).

A partir da comunicação e interação entre os profissionais, é que se torna possível a realização do trabalho em equipe, através da articulação dos trabalhos especializados com a interação dos agentes da equipe. Necessário destacar que o trabalho em equipe só existe quando há interação (97).

É preciso manter fluxos comunicantes entre todos os atores envolvidos na produção do cuidado, usuários e profissionais com objetivo comum, resignificando saberes, atitudes, modos de se relacionar e práticas de cuidado (99).

Há necessidade de gestão em redes, ou seja, realizar a interlocução com outros profissionais dos serviços de apoio para a continuidade do cuidado, com integração dos serviços por meio de redes assistenciais, compreendendo que nenhum serviço oferece todas as tecnologias necessárias para a resolução dos problemas em saúde. O objetivo é de que a comunicação seja efetiva e as necessidades do sujeito sejam atendidas e desta forma não haverá fragmentação do cuidado (1).

O cuidado integral às pessoas em condições crônicas implica atuação intersetorial, interdisciplinar, intraprofissional e entre os profissionais e população, com objetivo de realizar ações articuladas em grupos específicos, assumindo uma ação interativa ao inserir o envolvimento e o relacionamento entre usuários e equipe de saúde, constituindo um espaço para acolhimento, escuta e respeito (10).

Há evidências na alteração de vários parâmetros relativos à qualidade de vida, em um estudo que trabalhou com dois grupos: um que recebeu acompanhamento interdisciplinar, comparado ao grupo-controle, que não recebeu este tipo de acompanhamento. Após um ano, pacientes que receberam esse tipo de intervenção tiveram melhora significativa em cinco dos oito parâmetros avaliados, demonstrando tendência à elevação da qualidade de vida pela ação interdisciplinar. Percebe-se a necessidade de assistência interdisciplinar ao paciente desde o ambulatório, visando, além da qualidade de vida, ao retardo do inicio da terapia substitutiva (100).

A visão da equipe quanto à realização do seu trabalho parece um tanto heterogênea, já que os profissionais apresentam opiniões bastante diferentes. Se por um lado alguns percebem o seu trabalho como sendo multidisciplinar, por outro, este mesmo processo é percebido de forma fragmentada. Destaca-se que há a necessidade de se promover dentro desta equipe a reflexão sobre suas ações, perante seus colegas, paciente e família, com o intuito de estabelecer metas que possam contribuir para melhorar a qualidade deste trabalho em equipe, visando não só ao atendimento propriamente dito de sua clientela, mas também a forma de se trabalhar.

Ao final dos resultados desta pesquisa, foi possível compreender como é a vivência de familiares cuidadores e da equipe de saúde diante do cuidado de um paciente portador de doença renal crônica, influenciada por inúmeros aspectos relacionados ao seu tratamento e enfrentamento.

De um lado, tem-se a família deste indivíduo, cercada de dificuldades de ordem emocional, social, inclusive sendo afetada na sua organização enquanto núcleo familiar, tendo que eleger, de forma consciente ou não, um de seus membros para assumir o papel de cuidador. E este se encontra despreparado para tal, seja por dificuldades de compreensão e aceitação do processo de adoecimento ou por falta de informação e conhecimento a respeito dos eventos que estão ocorrendo ou, até mesmo, pela sua própria dificuldade em aceitar este papel.

Do outro, tem-se a equipe de saúde, composta por diversas categorias profissionais, cada uma buscando executar seu trabalho de acordo com sua capacidade técnica, percebendo as limitações quanto ao trabalho em equipe propriamente dito. Entretanto, se nota que esta equipe está sensibilizada em relação à família e reconhece a importância desta para o processo de cuidar. Porém, com limitações, pois tem dificuldades para promover a inclusão do familiar cuidador, já que este não deve ser visto apenas como aquele que ajuda com o tratamento do doente, como ponte entre ele e a equipe, uma fonte de apoio para ambos, mas sim ver esta família além desta tarefa, pois também precisa de cuidados.