5.5 Results of the proposed DCCAE method
5.5.2 Results
O trabalho da Periplo, Compañia Teatral, conforme tem-se afirmado neste estudo, encontra um lugar de interesse nas reflexões acerca da pesquisa de linguagem continuada e na legitimação de uma técnica pessoal do ator, haja visto tratar-se de uma grupalidade que se debruça, ao longo dos anos, em um programa de trabalho que estabelece em seus limites uma linguagem própria e uma produção que destaca seus princípios de trabalho. Cabe, ainda assim, ampliar o horizonte de discussões neste entorno a fim de entender como se dá a singularidade se pensada na perspectiva deste grupo.
Em termos de discurso, a singularidade não é um conceito central para a Periplo senão pelo fato de se referirem a ele de uma forma muito corriqueira. Curioso, então, que tenhamos nos aportado desta terminologia para entender a prática deste grupo sob tal pressuposto. Desta forma, parece fundamental fazer uma espécie de sobrevoo sobre este tema que agita – nem sempre tão discretamente, como diriam Deleuze & Guattari – nossos pensamentos à meia-noite52.
Nos parece importante relatar que a singularidade é uma denominação surgida neste estudo inicialmente com o intuito de destacar a maneira como enxergávamos o trabalho da Periplo em sua forma mais geral e ampla53. Singular soava, pois, como um termo adequado para, mais que intitular o todo ou parte de um estudo, dar-lhe dimensões outras; dimensões essas que atendem às discussões já apontadas anteriormente (que seguirão mais adiante) e que permeiam todo processo artístico: trabalho sobre si mesmo, treinamento, técnica pessoal.
Isto posto, apresentamos a seguir uma ideação que provém da busca por entender o que significa a singularidade se pensada nos meandros do trabalho do ator, tendo como parâmetro a linguagem, a poética e os procedimentos característicos da
Periplo, Compañia Teatral. No que toca, portanto, ao discurso e às práticas
empreendidas pelo grupo supracitado, singularidade não destaca-se como algo que denomina sua trajetória, tampouco como um termo que valida ou qualifica seus
52 Fazemos uma ligeira referência à introdução de “O que é a Filosofia?” onde os autores discutem a ideia de “questão” e “conceito”. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? 3ª Edição. Tradução: Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2010.
53 Claro que levamos em conta que a experiência de cada um se constrói a partir das relações com o outro e, neste caso especificamente, tenta-se delimitar toda discussão na experiência construída ao longo dos anos nos quais o autor desta pesquisa esteve envolvido com o grupo em questão.
processos criativos. Entretanto, no uso cotidiano e algo corriqueiro que ousamos dar a alguns termos mais densos, vimos a possibilidade de adjetivar desta forma o trabalho de um grupo que se dedica, ao longo dos anos, a pesquisar e entender o trabalho do ator sobre si mesmo na construção de uma poética pessoal, que toma como princípio os procedimentos próprios do ator como indivíduo e constrói sua linguagem nesta dimensão pessoal de elaboração artística.
Então é certo que precisamos dar alguns contornos, por borrados ou transitórios que sejam, daquilo que entendemos por singularidade54.
f (x) = 1/x
x = 0
± ∞
Figura 2: Singularidade Matemática. Na fórmula acima, a função de X é igual a 1 dividido por X, onde o
valor de X é igual a 0 (zero) sendo que o valor de zero é mais ou menos o infinito.
Para os matemáticos, singularidade é um conceito que orienta alguns problemas de difícil resolução quando o valor de zero é indefinido. Assim, para diversas fórmulas onde o zero não tem um valor absoluto55 – exato ou preciso, pois – dá-se o nome de
singularidade. Para os físicos o buraco negro é uma singularidade, por exemplo, pois
atrai para si toda e qualquer partícula que a ele se conecta. Para onde vai a matéria captada pelo buraco negro ninguém sabe ao certo e, então, especula-se que vá para outro universo. Então a singularidade dá nome a este fenômeno que permite à matéria transitar nestes universos desconhecidos. Há ainda outra aplicação, também proveniente da física, que defende o avanço tecnológico como um fenômeno colossal onde a humanidade atravessará um período de incrível transformação em curto espaço de tempo. Seguindo tal lógica, a tecnologia criará uma curva evolutiva tal que é impossível mensurar, em termos precisos, qual será seu ápice56.
54 Talvez em uma pesquisa futura possamos aprofundar as noções aqui apresentadas acerca do tema. 55 Nesse caso, entendendo valor absoluto como um número inteiro, sem frações.
56
Disponível em: http://tecnociencia.etikweb.com/Article-33-A+Singularidade.html Acessado em: 16/03/2010.
Assim, o termo singularidade
designa fenômenos tão extremos que as equações não são mais capazes de descrevê-los. [...] Ou seja, a singularidade é um nome bonito que exprime tudo o que está além da nossa capacidade de cognição e previsibilidade. O conceito virou a palavra do momento entre os futurologistas porque muitos acreditam que nosso progresso científico também pode atingir esse grau extraordinário.57
Figuras 3: Singularidade Tecnológica
Figura 4: Buraco Negro
Nosso propósito não é fazer um estudo etimológico acerca de singularidade, embora busquemos uma aplicação correta para o termo – correta não no sentido do “certo” ou “errado” mas, antes, no que se refere a um uso mais adequado, por assim dizer – de modo a esclarecer que sua aplicação, nesta pesquisa, atravessa a maioria das ideias expostas nos exemplos nela circunscritos.
A singularidade é metáfora.
É uma ideia às vezes vaga de uma percepção efêmera.
Em muito, é o que denomina uma indefinição. Quando não encontramos palavras para descrever determinado fenômeno. Quando o zero acompanha uma milimétrica fração ou quando a transitoriedade de um momento se confunde no tempo- espaço da criação.
57
Disponível em: http://super.abril.com.br/superarquivo/2003/conteudo_123907.shtml. Acessado em: 16/03/2010.
É interessante, por exemplo, descobrir como determinados termos que usamos tão costumeiramente podem ser aplicados com significados além daqueles que podemos supor. Em um primeiro momento, é possível encontrarmos o termo aplicado nos mais diversos meios. Sua aplicação se dá desde a filosofia até a psicologia, da elaboração de uma ideia até a descrição de um fenômeno. Falamos em singularidade ao nos referirmos a uma determinada pessoa ou ao expressarmos determinada opinião. É um termo comum e universal, por assim dizer. Basta rememorar nossos tempos nas primeiras séries escolares para lembrar que singular é usado para designar unidade. Unidade, neste caso, aplicada à ideia de uno, único.58 Gramaticalmente, também se aplica nos tempos verbais como, por exemplo, a primeira pessoa do singular. E eis que já podemos, de pronto, pensar em algumas analogias com o ofício do ator.
A partir destes exemplos, o que podemos extrair como uma noção útil para este estudo é a dificuldade de definição que é nomeada como singularidade. Em outras palavras, a não-definição de determinado fenômeno que acontece em um dado espaço, difícil de localizar é uma singularidade: reconhecemos a ocorrência embora não saibamos com precisão onde ela se deu, pois marca uma dinâmica de mobilidade, de não-fixidez. A singularidade não só marca um trânsito entre dois pontos – entre o possível e o imponderável, por exemplo – como extrapola estes limites. É um trânsito entre mundos, entre valores, entre instantes. É algo que se manifesta neste lugar de percepção viável em termos de linguagem mas sempre indefinido.
Seguindo neste raciocínio é possível, portanto, pensarmos na singularidade como um conceito que abarca inúmeras reflexões acerca do trabalho do ator e suas idiossincrasias. Claro que – para validar o conceito de singularidade aplicado ao trabalho do ator pelo viés de definições físicas ou matemáticas – é necessário entender que usamos tal expediente apenas para dar alguns contornos capazes de, na dimensão dinâmica e processual que buscamos ao longo desta pesquisa, criar espaços de reflexão onde seja possível pensar no aspecto relacional que envolve o ator em seu trabalho pessoal, a poética por ele desenvolvida e as conexões estabelecidas em grupo.
Por esta razão, a aproximação das noções de singularidade, provenientes da física ou da matemática, nos possibilita uma espécie de emparelhamento que corrobora
58 Cabe observar que unidade pode se aplicar para definir medidas (metros, quilos, litros) e também partes de um todo. Apesar de serem igualmente passíveis de analogias com o trabalho do ator, interessa aqui pensarmos não enquanto cisão, mas enquanto trânsito naquilo que pode ser particular, peculiar ou específico ao tratarmos de conceitos como individualidade e subjetividade.
a compreensão de que os processos experienciados pelo ator compõem sua singularidade a partir das relações por ele estabelecidas.
O professor Jorge Albuquerque Vieira (2009), mostra como alguns conceitos matemáticos são assimilados em nosso comportamento cotidiano. Para isso, ele cita o
produto cartesiano a partir das noções de conjunto que vem a ser um eficiente
procedimento para compreender de que maneira determinados processos só são possíveis em uma dimensão relacional. Vieira explica que “o produto cartesiano consiste em, a partir de dois conjuntos, criar um terceiro” (VIEIRA, 2009, p.13), ou seja, é a seleção entre os elementos que compõem determinado contexto que nos permite criar as relações.
Figura 5: Produto Cartesiano
Já o professor e filósofo Peter Pál Pelbart (2010) pensa essa noção de conjunto e emparelhamento de modo mais rizomático, apreendido pela nossa capacidade subjetiva de atravessar os conjuntos relativizando o que neles contém, ou seja, o conteúdo de um conjunto é afetado pelo do outro: não há separação ou categorização, mas aberturas e fissuras. Claro que ainda permanece o aspecto relacional na ideia de que a partir de dois conjuntos pode-se formar um terceiro, mas esse terceiro conjunto é um todo. Entendemos, então, o todo como um contexto que “é, por natureza, mudança incessante, criação”. (PELBART, 2010, p. 5):
Um conjunto pode reunir elementos muito diversos: nem por isso ele é menos fechado ou artificialmente fechado. Digo “artificialmente” porque sempre há um fio, por mais fino que seja, que une o conjunto a um conjunto mais vasto, ao infinito. Mas o todo é de uma outra natureza, é da ordem do tempo: ele atravessa todos os conjuntos e é ele precisamente que os impede de realizarem até o fim sua própria tendência, isto é, de se fecharem completamente. (DELEUZE apud PELBART, 2010, pp. 5-6)
Na Filosofia, talvez seja Deleuze o pensador que mais aplica o conceito de
singularidade para refletir sobre alguns fenômenos cognitivos. Dada a transversalidade
deste tema, há a necessidade de utilizarmos alguns termos que serão recorrentes aqui mas podem, em uma análise mais pormenorizada, incidir em alguns ruídos de compreensão. Alguns são de ordem específica como: pessoal, individual e particular; outros são de ordem mais ampla: geral, universal e coletivo. Mas Deleuze diz que “a singularidade faz parte de uma outra dimensão. [...] A singularidade é essencialmente pré-individual, não-pessoal, aconceitual. Ela é completamente indiferente ao individual e ao coletivo, ao pessoal e ao impessoal, ao particular e ao geral – e às suas oposições. Ela é neutra” (DELEUZE, 2009, p. 55).
Quando os atores da Periplo, Compañia Teatral se referem a uma prática que permita ao ator “não se fechar em si mesmo”59, abrem um processo de busca onde a
relação surge como princípio elementar. Extrapola-se, assim, a busca solipsista em que
o ator investiga apenas as suas ações, reações e impulsos pois, na prática preconizada pelo grupo, o ator está sempre involucrando-se. Trabalha sozinho, mas em relação ao outro. Trabalha para si mas, paradoxalmente, não está sozinho. E mesmo quando está “trabalhando sobre si mesmo” a partir de determinados exercícios físicos – explorando corporeidades para romper com certa padronização de movimento “essencialmente individual e contingente” (BERNARD, 1990, p. 68) – sua busca deve se relacionar com o espaço, criar volumes, acessar outras camadas, penetrar uma dimensão onde a racionalidade lhe escapa e sua singularidade transpira.
Para alcançar estes níveis de percepção e propriocepção60, o ator necessita refletir sobre todas as dimensões possíveis que seu espaço particular de criação lhe oferece. Digamos que o exercício desenvolvido pelo ator seja um passe mágico61: ao se relacionar com determinado objeto (um óculos, por exemplo), o ator necessita definir o
59 PERIPLO, Trabalho do ator. Sentido e fundamentos. Seminário. Itajaí/SC, 1999. Notas de aula. 60
Alain Berthoz (2001) fala em propriocepção quando considera o sentido do movimento (além dos cinco sentidos conhecidos). Assim, este sentido do movimento seria um conjunto conformado por captadores sensoriais e musculares (ouvido interno, vestibulares, etc.). Aqui o termo é usado também para caracterizar a auto percepção.
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que passa, ou seja, registrar o momento em que houve alguma ocorrência potencial para suas ações. Isto não tem a ver, necessariamente, com uma justificativa de ordem racional (Estou fazendo esta ação, neste lugar). A ação, portanto, se coloca diante do indivíduo e é nesta dimensão quase evanescente que a Periplo incita a busca do ator: “não é fazer ‘por que sim’, mas porque há uma possibilidade de sentido para a ação, algo que estava ali, mas que não era visto, um impulso”, instrui Cazabat (D. C, 2011c).
Ademais, segundo a noção deleuziana, esta dimensão pré-individual, não- pessoal e neutra “[...] é constituída por termos que não existem a não ser pelas relações que mantém uns com os outros. A estas relações, ou antes, aos valores destas relações, correspondem acontecimentos muito particulares, isto é, singularidades” (DELEUZE, 2009, p. 53). A Periplo, Compañia Teatral preconiza a ideia de que “é preciso deixar que algo passe para ver como é possível se conectar com o outro, encontrando o lugar desta relação, buscar unir-se com o outro, encontrar a possibilidade de que algo se transforme”62 e é nesta dimensão que encontramos a singularidade.
Em se tratando de ocorrências criativas, potencialidades e impulsos criadores, podemos presumir que é na relação que encontra-se a possibilidade do ator se aproximar do acontecimento deleuziano:
O que é um acontecimento ideal? É uma singularidade. Ou melhor: é um conjunto de singularidades, de pontos singulares que caracterizam uma curva matemática, um estado de coisas físico, uma pessoa psicológica e moral. São pontos de retrocesso, de inflexão etc.; desfiladeiros, nós, núcleos, centros; pontos de fusão, de condensação, de ebulição etc.; pontos de choro e de alegria, de doença e de saúde, de esperança e de angústia, pontos sensíveis, como se diz. (DELEUZE, 2009, p. 55).
Embora saibamos que determinadas manifestações deveras abstratas e subjetivas não sejam concretas, podemos entendê-las fisicamente já que se efetuam no corpo como um acontecimento, se encarnam, são, afinal, palpáveis e visíveis. É esse tipo de percepção que concretiza a singularidade no trabalho do ator. Ademais, um acontecimento é tido como singularidade na medida em que o entendemos como uma ocorrência desencadeada por alguns fatores dos quais certamente não temos pleno domínio, pois disso depende que tenhamos clareza do entorno e das linhas que atravessam esse acontecimento. Em outras palavras, determinadas coisas só acontecem
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em vista de certos fatores que, conjugados, possibilitam uma relação, um acontecimento, uma singularidade que, fosse de outra ordem, não passaria.
Somos seres no mundo com os mesmos dois braços, as mesmas duas pernas e um cérebro para pensar. Somos seres cognoscíveis e cognoscentes que, face ao meio que nos circunda, estabelecemos as mais diversas relações. Temos percepções e entendimentos claramente distintos entre nós. Temos volições divergentes. Temos pulsações outras. Por mais que tenhamos um mesmo aparelho biológico, nosso circuito perceptivo é sempre distinto.
No fundo, há sempre uma problemática. Se entendemos a singularidade como algo próprio, que caracteriza um indivíduo tornando-o diferente dos demais, colocamos o conceito como propriedade do que é único, irrepetível. Assim, podemos dizer “eu sou calvo” como algo que singulariza um homem. Mas se dissermos “alguns homens são calvos”, apresentamos tal característica como algo particularmente masculino. Portanto, não podemos dizer que a singularidade é uma qualidade ao mesmo tempo singular e particular, individual e geral.
Retomando a afirmação de Deleuze (2009), a singularidade é neutra – no sentido de que não é nem individual nem coletiva, nem particular, nem geral, mas construída nesta relação entre estes opostos.
Veremos, então, de que modo podemos associar ou aproximar um certo número de termos àquele maior – a singularidade – em uma alternativa viável para entender tal conceito como uma ocorrência que legitima o ofício do ator em seu trabalho sobre si mesmo, deflagrando sua técnica pessoal.