O índice TBA é uma medida do teor em malonaldeído que é um dos produtos da degradação dos hidroperoxidos lipídicos, formados durante o processo de oxidação dos ácidos gordos polinsaturados. A oxidação dos lípidos, constitui um problema considerável em relação ao desenvolvimento de sabores e odores desagradáveis, no músculo de
peixes que contém tipicamente, uma percentagem elevada dos ácidos gordos polinsaturados (Guillen e Ruiz, 2004), como é o caso da sardinha.
Na Fig. 12 está representada a evolução dos valores do índice TBA para os filetes de sardinha embalados em AR, EV e EAM, durante o período de armazenagem. No anexo VI encontra-se o quadro com os valores e o respectivo desvio padrão.
0 5 10 15 20 25 30 35 40 0 2 4 6 8 10 12 dias mg malonaldeído / kg amostra 0 AR 15 AR 30 AR 0 EV 15 EV 30 EV 0 EAM 15 EAM 30 EAM
Fig. 12. Evolução do índice de TBA dos filetes em AR, EV e EAM, durante o período de armazenagem.
No dia 0 os filetes de sardinha embalados em EAM apresentavam um valor do índice TBA (17,2 mg/kg), significativamente superior (p<0,05) aos valores do índice TBA apresentados pelos filetes embalados em ar (4,5 mg/kg) e em vácuo (7,5 mg/kg).
Os filetes de sardinha embalados em vácuo entre o inicio e o 2º dia de armazenagem não apresentaram um aumento significativo (p>0,05) deste parâmetro. Pelo contrário, as amostras embaladas em AR e EAM tiveram um aumento significativo (p<0,05) neste período e apresentaram um valor do índice TBA no 2º dia significativamente superior (p<0,05) ao valor apresentado pelas amostras embaladas em EV. Ao 2º dia de armazenagem as amostras embaladas em AR e em EAM não apresentaram diferenças significativas (p>0,05) no valor do índice TBA, no entanto o aumento relativamente ao dia 0 foi mais acentuado para as amostras embaladas em AR, cerca de 300%, do que para as amostras embaladas em EAM, cerca de 30%.
Ao fim de 5 dias de armazenagem, os filetes embalados a vácuo, apresentaram um aumento significativo (p<0,05) no valor do índice TBA, alcançando apenas neste dia
valores de TBA semelhantes aos registados para os filetes em AR e EAM. Neste dia, não se observaram diferenças significativas nos valores do índice TBA entre os filetes de sardinha de cada ensaio ou entre os três ensaios. A partir do 5º dia de armazenagem e até ao final do ensaio, não foi observado um aumento significativo (p>0,05) no valor do índice TBA para os filetes embalados em AR e EV.
No último dia de armazenagem, os filetes embalados em AR, EV e EAM apresentaram diferenças significativas (p<0,05) entre si, no que se refere a este parâmetro, registando-se nos filetes embalados em EV o valor mais baixo (entre 18 e 20 mg malonaldeído/kg) e nos filetes embalados em EAM o valor mais elevado (entre 30 e 35 mg malonaldeído/kg). Apesar dos valores elevados registados para os filetes embalados em EAM, estes apresentaram um aumento no índice de TBA entre 50 a 70% durante o período de armazenagem, e portanto inferior ao apresentado pelos filetes embalados em AR (cerca de 400%) e em EV (entre 200 a 300%). A razão para o sucedido, pode ser o facto dos filetes embalados em EAM exibirem inicialmente, um valor do índice TBA bastante superior, relativamente aos valores do índice TBA dos filetes dos outros lotes.
Foi sugerido por Nunes et al. (1992), que o limite máximo do valor de índice TBA, como indicador de uma boa qualidade do peixe inteiro congelado, refrigerado ou armazenado em gelo, é de 5 mg malonaldeído/kg. No entanto, neste trabalho apenas quando os filetes apresentaram valores de índice TBA acima de 20 mg malonaldeído/kg é que foram caracterizados como tendo um cheiro ligeiramente desagradável a ranço. Este valor é bastante superior aos 5 mg malonaldeído/kg, o que pode ser explicado pelo facto do índice TBA ter sido determinado a partir de filetes com pele, em que a pele e o músculo escuro contém mais gordura, susceptível de ser oxidada, e pelo facto de um filete ter uma maior superfície exposta ao ar que um peixe inteiro.
Em relação às alterações no valor do índice TBA, não existe na literatura informação sobre o efeito do tratamento SGS em filetes de sardinha embalados em AR, EV ou EAM. Erkan et al. (2006), observaram um aumento dos valores iniciais do índice TBA (1 mg malonaldeído/kg) tanto em sardinhas inteiras embaladas em ar como em amostras embaladas em EAM (5%O2:35%CO2:60%N2), atingindo ao fim de 5 dias de conservação
6,62 mg malonaldeído/kg e 7,42 mg de malonaldeído/kg respectivamente. Apesar dos valores registados no presente trabalho serem superiores, provavelmente devido às amostras serem filetes e não peixe inteiro, os resultados estão de acordo com o aumento do TBA observado no trabalho referenciado, ou seja, tanto as amostras embaladas em ar como as embaladas em EAM (5%O2:35%CO2:60%N2), sofreram oxidação lipídica,
IP, este aumento pode ser explicado pelo teor elevado de O2 (5%) na embalagem em
EAM, que possibilitou a oxidação da gordura.
Goulas e Kontominas (2006), estudaram o efeito da embalagem em EAM (EAM1 - 70%CO2:30%N2 e EAM2 - 50%CO2:30%O2:20%N2) e embalagem em vácuo (EV), no
período de vida de filetes de cavala (Scomber japonicus) armazenados em refrigeração. Estes autores observaram que as amostras EV e EAM1 apresentaram valores significativos de índice TBA, embora estas amostras não contivessem oxigénio. Esta observação sugere que a produção de malonaldeído não depende somente da quantidade de oxigénio na embalagem mas também de outros factores como: (i) o tipo de flora microbiologica presente, (Capillas e Moral, 2001) (ii) a inactivação provável de enzimas antioxidativas, por exemplo glutationa peroxidase, em consequência da produção de ácido carbónico no músculo dos peixes embalados com elevada concentração de CO2 e
(iii) o ácido carbónico formado poderá também induzir a desnaturação das proteínas do músculo, levando à libertação no tecido de Ferro-não heme, que sendo um potencial prooxidante poderá favorecer a autoxidação dos ácidos gordos polinsaturados (Masnyom et al., 2002). Os valores do índice TBA determinados nas amostras de filetes de sardinha em EV e EAM, sugerem a ocorrência de alguns dos factores referidos por estes autores. Portanto, o enriquecimento da atmosfera da embalagem com CO2,obtido pelo tratamento
SGS ou pela embalagem com atmosfera modificada, reduz eficazmente a deterioração causada pelos microorganismos, mas não evita a deterioração química, principalmente a oxidação lipídica. Assim sendo, para que seja possível uma maior extensão do período de vida útil, considerando os aspectos microbiológicos, químicos e sensoriais, poderão ser aplicados alguns antioxidantes, em combinação com o tratamento SGS ou EAM.